Encadré B.3 Absorption, Gain et évolutions des intensités pompe et laser :
B- V.3 Améliorations pour le pompage à 930 nm :
Há uma célebre frase de ezra Pound (1989), muitas vezes repeti- da e que funciona como motivo-chave dessa obra, mas talvez ainda não profundamente avaliada, que diz: “os artistas são as antenas da raça”. Pois bem, poderíamos continuar a dialogar com Pound di- zendo que os críticos são antenas das antenas artísticas, portanto, com uma captação ainda mais aguçada, cuja sensibilidade inclui a reflexão e a criação como seus instrumentos operatórios.
e os professores, como situá-los na frase poundiana? ora, como sujeitos críticos que são, cabe-lhes também o papel de afinar-se com o meio em que vivem para que possam refletir sobre os apelos e ges- tos presentes à sua volta. Parece simples dizer isso, mas essa afirma- ção comporta tamanha complexidade que as nossas cabeças acabam por ficar pequenas demais para o peso das antenas que carregam...
apesar da brincadeira, sua mensagem aponta para o que de mais sério devemos enfrentar no mundo contemporâneo: nosso engaja- mento, queiramos ou não, em um mundo tecnológico e midiático que nos cobra respostas diárias, imediatas. talvez nunca como hoje, pelo menos com essa intensidade, o presente se tornou uma realida- de tão escoante, um material tão descartável, pois cada vez que ten- tamos acompanhá-lo, ele nos foge do controle. Carlos Drummond de andrade disse uma vez, não me lembro exatamente onde, que
é preciso ser um homem do seu tempo, com o que concordo em absoluto, mas conseguir essa sintonia parece-nos um jogo de cabra- -cega; mal aprendemos a lidar com a novidade, ela já deixou de o ser. ou, como também diz o nosso poeta, rimar com o mundo só parece possível como solução estética (o seu “raimundo”, persona- gem poética, mas não real, que o diga).
isso tudo vem a propósito do ensino de literatura, que, como se pode depreender desses comentários iniciais, tem estreita relação com o nosso tempo, a exigir de nós considerações a respeito de me- todologias, posicionamentos teóricos, visões de mundo, enfim, uma série de variáveis implicadas na dinâmica entre os sujeitos. sujeitos, a bem da verdade, todos aprendizes de uma nova maneira de mo- delar e partilhar o conhecimento, seja da literatura, seja de outro campo do saber.
Penso que uma das vias de encaminhamento desse debate passe pela consideração de que é impossível abordar a linguagem literária sem colocá-la em interface com outras linguagens, verbais ou não, e com a realidade da qual ela emerge como produto cultural. não se trata de concessão a modismos, mas de uma conscientização quan- to ao sentido histórico em que estamos imersos, caracterizado por uma interpenetração vital das esferas do concreto e do abstrato para a produção dos valores artísticos. Para não falar dos estéticos, outra questão a ser discutida.
Como conciliar a concretude massificada dos meios de produção com a abstração do pensamento crítico-analítico sobre o literário, duas realidades não facilmente conjugáveis? Eis aí o grande desafio, mas que pode ser enfrentado desde que se proponham estratégias viáveis e ao nosso alcance.
o diálogo entre literatura e sociedade, tema clássico dos estu- dos literários desde os tempos áureos de antonio Candido, e hoje integrado aos discursos sobre pós-modernidade e às correntes crí- ticas mais recentes, tem deixado uma evidência, por mais distintas que sejam as posturas: a linguagem, entendida como prática dis- cursiva ou sígnica, continua sendo a mediadora das relações entre texto e contexto histórico, ou seja, a tela (ou ecrã) por meio do qual
o diálogo entre esses universos se torna visível. a questão fulcral é perceber como se dá esse diálogo, o que absolutamente não significa a exclusão de um em favor do outro, muito menos o determinismo como hipótese interpretativa.
Voltando um pouco à brincadeira séria, parece que estamos, às vezes, diante de situações em que é preciso saber quem veio primei- ro, o texto ou a realidade histórica, o que retoma a ingênua questão: o ovo ou a galinha? Melo e Castro, poeta e crítico português, em seu famoso texto “Da invenção da literatura à literatura de in- venção” (1984) recoloca esse impasse, mas não com ingenuidade, claro, chamando-nos atenção para o segundo segmento, de acordo com ele, característico da natureza produtiva e criativa da litera- tura. Para esse autor, a “literatura de invenção” é a que possibilita o estilhaçamento do espelho da mímese para reforçar seu processo imagético por meio do qual os sentidos se produzem e a dialética com o real se refaz.
O fato é que ficar plugado ou antenado ao mundo presente não significa desconsiderar a natureza específica nem da realidade ex- terior, nem da realidade criada pela linguagem literária. Significa, isso sim, estar atento às tensões, quer de oposições, quer de com- plementaridade, entre as duas telas diante das quais nos colocamos. e quando digo tensões, estou pensando, sobretudo, em procedi- mentos, mecanismos, enfim, uma performance posta em cena pelo discurso que (re)constrói o real.
Agora, caberia exemplificar, para sermos... mais didáticos. Gos- taria de propor, para isso, um conhecido poema de Carlos Drum- mond de andrade, contido em A rosa do povo, que tem como título “Áporo”. Convém relermos o texto:
Áporo
Um inseto cava cava sem alarme perfurando a terra sem achar escape. Que fazer, exausto,
em país bloqueado enlace de noite raiz e minério?
eis que o labirinto (oh razão, mistério) presto se desata:
em verde, sozinha, antieuclidiana
uma orquídea forma-se. (1976b, p.138-9)
esse poema drummondiano, apesar de estarmos há mais de 60 anos de sua primeira publicação, pode ser lido de modo a nos exer- citarmos nesse jogo cultural de que falávamos há pouco. De 1945 para cá, é claro que o cenário histórico se transformou, mas a li- teratura, quando bem realizada e consciente de seu papel junto aos leitores, continua a nos desafiar, solicitando antenas ligadas à pro- posta de sua linguagem.
Não é preciso definir o termo que figura no título, já comentado por vários estudiosos. ressalte-se, apenas, que a ideia de não solu- ção ou saída difícil em relação a um problema é central para a com- preensão do poema, o que é sugerido pelo signo “áporo”, que, por extensão filosófica, nos leva a aporia: dificuldade de raciocínio por seu conteúdo absurdo ou constituído de verdades simultaneamente contraditórias e concludentes.
o poema está a falar de um inseto cavador, aquele que procura passagem em um meio hostil ou sem saída, a penetrar em um es- paço que parece vedado a qualquer escape. atitude solitária, apa- rentemente absurda, porque alimentada por um desejo (in)fundado na própria desrazão. Destaque-se, porém, que tal gesto se faz “sem alarme” (segundo verso), modalização importante porque gera cer- to paradoxo: se há o cavar em um espaço fechado, perfurando uma terra sem aberturas, por que a menção ao alarme? natural seria, nessa condição, que não houvesse com quê se preocupar, pois sua
ação estaria confinada a um subterrâneo ou submundo de onde não poderia ser percebida. Mas o paradoxo planta uma via de sentido, e é aí que o poema vai construindo seus enigmas e solicitando nossa atenção ao que nele se configura/trama sagazmente: tal cavar não é tão solitário ou inocente quanto parece, pois está se fortalecen- do como gesto, armazenando potencialidades que irão explodir ou aflorar posteriormente. Não fazer alarme, portanto, é uma forma de mostrar resistência a um exterior que não deve perceber esse ato que se faz em surdina, na clandestinidade.
É hora de ponderarmos: esse inseto não pode ser senão metá- fora do poeta em seu trabalho ardiloso, profundo e difícil, em um tempo que não oferece muita liberdade ou abertura para as ações criadoras, obstinadas, como é a da lírica no mundo contemporâneo. Um contemporâneo, entendamos, do final da primeira metade do século XX, tempos ásperos de uma política que parecia não nos dei- xar saída ou escape de suas garras. Por isso o jeito é apartar-se do espaço e condições reais para refugiar-se em um mundo que pode ser escavado (revolvido?) à vontade e com as armas que o sujeito puder utilizar.
note-se que nossa leitura, apesar de seguir os passos do poema (ou do inseto-poeta em seu gesto metafórico), está buscando criar elos entre essa realidade de linguagem fabricada pela poesia e outra realidade (histórica) contra a qual o texto se recorta, o qual constrói uma aporia para falar sobre a condição poética no mundo. e daqui pode surgir um grande ensinamento (mas também problema): sem a atenção ou o empenho paciente do inseto cavador não há possibili- dade de saída, assim como sem o acompanhamento atento do leitor ao que o poema vai lhe mostrando, não é possível compreender seus sentidos. essa é uma das mais interessantes “lições” que o poema de Drummond parece nos oferecer: o mergulho nas virtualidades cavadas pelo fazer consciente, teimoso, é capaz de nos mostrar uma saída para ultrapassarmos a aporia.
Eis o ponto em que o poema parece gerar um conflito com a pragmaticidade do mundo atual, portanto, agora outra contempo- raneidade, a do século XXi. Como? explico.
Fazer leitura dinâmica, passar voando pelos objetos ou ficar na- vegando pelos infinitos atalhos da rede informatizada é muito mais atraente do que deter um olhar perscrutador em textos literários (ainda mais poesias!). Que se dane o inseto com o seu gesto vertical e solitário a afundar terra adentro! É melhor ficar na superfície dos fatos, horizontalmente seguindo trilhas mais fáceis...
talvez seja assim que muitos pensam quando se veem diante de poesias. Parece que elas têm pouco ou nada a ver com a realidade existente. Mas aí está o poema a nos mostrar o contrário, há uma si- tuação concreta a nos alertar para esse dilema metaforizado pela lin- guagem poética, cujo lirismo não tem nada de alienado ou de distante da sociedade. aqui caberiam bem as lúcidas colocações de adorno em sua conferência sobre lírica e sociedade.1 ao contrário do que se
pensa, a linguagem lírica não se desvincula da realidade social, mas, na verdade, cria estratégias de resistência no seio da construção po- ética, para fazer frente ao real tecnológico e reificador, nunca o ex- cluindo ou ignorando, mas devolvendo-o como outro. lembremos as palavras do teórico alemão: “as formações líricas não são usadas abusivamente como objetos de demonstração para teses sociológicas, mas quando sua relação com o social desvela nelas próprias algo de essencial” (Adorno, 1976). Essa essencialidade não pode se dar a não ser quando a relação histórica do sujeito com o real objetivo encontra “sua expressão visível no meio do espírito subjetivo retornando sobre si” (p.205). retorno que o trabalho do inseto metaforiza à perfeição no poema de Drummond.
assim, contra um “país bloqueado”,2 é preciso agenciar armas
simbólicas, porém poderosas para perfurar esse bloqueio, jamais vencido pela linguagem direta ou revolucionária de superfície, mas
1 o original em alemão, “rede Ueber lyrik und Gesellschaft”, contido em No- ten zur Literatur – I, é de 1965 (Frankfurt am Main, suhrkamp Verlag). 2 a data de publicação do livro A rosa do povo (1945), de onde foi extraído o poema
“Áporo”, nos reporta a um contexto político conhecido dos brasileiros: a ditadu- ra Vargas e o movimento da Coluna Prestes com todas as implicações que sabe- mos dela decorrentes. Há quem veja no verso “presto se desata” (terceira estrofe) uma alusão muito sutil ao líder político de esquerda, permitindo entendermos o porquê do desatar do labirinto no país bloqueado. Mas tais relações não podem ser determinadas, seria forçar muito a leitura; apenas fica a sugestão.
por um dizer que saiba fazer da “noite/, raiz e minério” (segunda estrofe), materiais sutis e profundos de transformação do real, como faz o poeta-cavador. enraizamento necessário porque se nutre de consciência ou do tempo de amadurecimento que permitirá trans- formar o indigesto ou o insuportável em algo novo, desafiador: o minério se metamorfoseia em orquídea, a fossilização do inseto em vegetal, mas fazendo despontar o mistério contido na linguagem poé tica. É nesta, afinal, e no final do poema, que floresce o pertur- bador signo desequilibrando espaço e tempo conhecidos – o adjeti- vo “antieuclidiana” –, bem como a inusitada colocação pronominal enclítica no último verso, funcionando como ícone do corpo des- garrado e imprevisto: “uma orquídea forma-se” (último verso) e não “se forma”, como seria de esperar pela sonoridade e métrica.
Como se pode ver, ficar plugado em um poema não é, em abso- luto, um gesto alienante ou aborrecido, já que o real histórico ou so- cial está nele embutido como camadas a serem penetradas e revolvi- das pelas antenas da leitura, tal como o inseto/poeta cavador criado por Drummond. e mais ainda: essa parada (atenta, paciente) para o enfrentamento com a poesia, em especial com a lírica, não é perda de tempo nem desgaste da subjetividade, porque o resultado desse mergulho nos mostra um mundo – o da linguagem – subvertido, que nos surpreende graças às artimanhas criativas postas em jogo. e ainda que fossem apenas caraminholas do imaginário, já não valeria a pena só por isso?
talvez se encarássemos o poema como uma tela que fôssemos manipulando com nossos comandos e links, seguindo os passos de sua configuração à medida que estivéssemos montando esse jogo, descobrindo formas e sentidos com nossa percepção, pode ser que essa navegação poética nos conquistasse. teríamos de tentar.