Identification d’objets complexes
4.4 Identification d’objets complexes, l’approche IKBS
A interpretação genealógica que Nietzsche faz da ciência revela-se ambivalente. Num primeiro olhar perspectivo, constata em aspectos característicos da ciência moderna, a fiel herdeira e depositária dos esforços onto-metafísicos desenvolvidos pela filosofia socrático-platônica e, concomitantemente, pelo cristianismo, o alcance dos fundamentos, das essências, da unidade, da substância, da causalidade, que alicerçariam a existência. A ciência, herdeira desta vontade de verdade, a procura do estabelecimento das leis universais a partir das quais seria possível estabelecer a previsibilidade, a uniformidade, a regularidade do ser, da existência. Sob esta ótica, a ciência seria a forma mais jovem e nobre dentro do modelo civilizatório ocidental moderno do ideal ascético, na construção das certezas e seguranças do homem, que procura através dos ideais ascéticos disfarçar a condição humana e seu caráter trágico.
[...]. Ambos, ciência e ideal ascético, acham-se no mesmo terreno [...] na mesma superestimação da verdade (mais exatamente : na mesma crença na inestimabilidade,
incriticabilidade da verdade), e com isso são necessariamente aliados – de modo que, a
serem combatidos, só podemos combatê-los e questioná-los em conjunto. Uma avaliação do ideal ascético conduz inevitavelmente a uma avaliação da ciência: mantenham-se os olhos e os ouvidos abertos para esse fato! [...]. Também do ponto de vista fisiológico a ciência pisa no mesmo chão que o ideal ascético: um certo empobrecimento da vida é o pressuposto, em um caso como no outro – as emoções tonadas frias, o ritmo tornado lento, a dialética no lugar do instinto, a seriedade impressa nos rostos e nos gestos [...]. (NIETZSHCE, 1998/B, p. 141).
O niilismo reativo, levado adiante pela ciência no modelo civilizatório ocidental moderno, coloca-se na perspectiva científica da absolutização de suas verdades. Estas passam a ser possíveis e portanto divinizadas, assumidas como valor superior da ciência, o que necessariamente a sobrepõe à dinâmica do trágico que participa do próprio mundo. Assim, a ciência afirma-se (apesar de questionadora dos conhecimentos da fé) como depositária dos ideais ascéticos, partindo de pressupostos herdados da filosofia e da teologia, que estabelecem um entendimento do homem como “natureza humana” distinta do mundo, dos instintos, do próprio corpo, um “ser para o conhecimento”, para as essências, movido pela “vontade de verdade”, de determinar os pressupostos fundamentais da existência, daquilo que existe no mundo material e para além dele. “[...]. O orgulho antropomórfico nasce desta imagem metafísica: o homem não é um animal como os outros, nem a terra uma estrela como as outras. Ele é o animal divino, e a terra um estrela escolhida por uma causalidade superior”.(BRUN, 1986, p. 23).
Nietzsche trabalha com a idéia de que as impressões sensoriais são completamente sem sentido quando tomada em si mesmas, de tal modo que a experiência de um mundo de objetos definidos resulta de uma subjugação dessas impressões a uma linguagem ou codificação que as ordena e configura: “graças ao mundo inventado dos conceitos rígidos e de números, o homem alcança um meio de dominar uma quantidade colossal de fatos, como
se fossem signos, e de os inscrever na sua memória. Neste aparato de signos reside precisamente a sua superioridade, o qual lhe permite afastar-se o mais possível dos fatos singulares.(TÜRCKE , 1994, p. 34).
O conhecimento científico (postulado por uma ciência herdeira dos ideais ascéticos) que se coloca a caminho do entendimento do mundo como “coisa-em-si”, manifestando-se aos homens através de fenômenos, somente se torna possível através de um “[...]moroso processo de disciplinação e autodisciplinação sem o qual jamais teria havido pensamento racional, sistemático [...] sem um grão de sadismo e masoquismo a alma humana, de modo algum, se concentraria para a síntese espiritual [...]”..(TÜRCKE , 1993, p. 108). Esta dose de crueldade, (própria dos valores morais que se estabelecem contra a vida trágica) que o homem volta contra si na busca do conhecimento “essencial” do mundo se constitui, a partir da linguagem, instrumento que o animal homem desenvolveu ao longo de seu processo evolutivo como necessidade diante dos desafios da sobrevivência, seja diante das ameaças das forças da natureza, seja diante do desafio de estabelecer relações gregárias. Neste sentido, a linguagem que nomeia arbitrariamente o mundo, possibilita o surgimento dos conceitos e abstrações que fornecem ao homem as bases para a construção antropomórfica do mundo. “[...]. A ciência, antropomorfismo sofisticado e aperfeiçoado, é uma extensão das categorias/linguagem/conceitos em seu papel de construtora e humanizadora de um mundo onde possamos viver”.(BRUN, 1986, p. 13).
A importância da linguagem para o desenvolvimento da cultura está em que nela o homem estabeleceu um mundo próprio ao lado do outro, um lugar que ele considerou firme o bastante para, a partir dele, tirar dos eixos o mundo restante e se tornar o seu senhor. Na medida em que por muito tempo acreditou nos conceitos e nomes de coisas como em
aeternae veritates (verdades eternas), o homem adquiriu esse orgulho com que se ergueu
acima do animal: pensou ter na linguagem o conhecimento do mundo. [...] a linguagem é a primeira etapa no esforço da ciência. Da crença na verdade encontrada fluíram, aqui também, as mais poderosas fontes de energia. (NIETZSCHE, 2000/E, p. 21).
A afirmação da verdade como valor superior da ciência é que lhe confere, na perspectiva de Nietzsche, um caráter niilista, de cansaço, de fuga, de ressentimento contra a vida, os sentidos, os instintos, a tragédia, na medida em que, em nome da objetividade, da utilidade e finalidade do conhecimento do mundo, não o reconhece como exercício e esforço puramente antropomórfico de interpretação de sua condição existencial. Sendo assim, não há uma “natureza humana” metafísica e teológica para o conhecimento, senão como possibilidade de sua sobrevivência em consonância com a dinâmica que rege a vontade de potência como força desencadeadora do combate vital que se trava em meio ao caos do microcosmo (corpo e seus instintos) e do macrocosmo (universo), onde a vida se renova a todo instante.
Portanto, para Nietzsche, a ciência como portadora de verdades essenciais, cumpre sua função de desvalorização e rebaixamento da vida, na medida em que oferece ao homem certeza, segurança diante do caos. Mesmo que, para a afirmação deste conhecimento científico, o homem seja obrigado a fazer intensos esforços reflexivos, num exercício de voltar-se contra si, na mais refinada crueldade em relação a sua condição humana. “[...], na vida cotidiana, os homens normalmente dizem a verdade? – Não porque um deus tenha proibido a mentira, certamente. Mas [...] porque é mais cômodo; pois a mentira exige invenção, dissimulação e memória”.(NIETZSCHE, 2000/E, p. 56).
È importante ter presente que Nietzsche não abomina a ciência, o conhecimento científico. Eles terão participação significativa na constituição e afirmação de espíritos livres, na medida em que a verdade não for mais imposta como a adequação do intelecto à realidade, posto que o conhecimento científico poderá ser entendido como esforço antropomórfico na relação do homem com o mundo que se transforma constantemente. Na proporção em que, ao invés de cristalizar teologicamente suas verdades assumindo perspectivas moralizantes, a ciência poderá se colocar como o exercício do questionamento, da investigação ininterrupta de suas convicções.
[...]. Como essa ciência postula que nossa concepção de mundo é produto de erros petrificados na linguagem, ela não ambicionará conhecer uma verdade que seja oposta do erro (WS/AS, §16, §333), mas terá como objetivo principal o questionamento das convicções, (MAI/HHI, §483, §633)ou seja, das concepções recebidas passivamente da tradição.(ITAPARICA, 2002, p. 35)
Para Nietzsche a ciência tem participação efetiva na perspectiva de afirmação do niilismo ativo, da vida em seu vir-a-ser, integrante da tragédia. Uma ciência que busca a verdade como convenção diante de seus exercícios antropomórficos e de suas necessidade de tornar possível a vida social, ou seja, uma ficção cognitiva necessária do homem na relação com os outros homens, no desenrolar ativo da existência em seu caráter contingente, passageiro e portanto finito, afinal “[...] a vida não é excogitação da moral: ela quer ilusão, vive da ilusão... (NIETZSCHE, 2000/E, p. 08).
[...]. O conhecimento científico, como vemos, não será uma mera substituição dos sentimentos que engendram a religião e a arte, pois ele colocará o homem diante de outra compreensão de si, sendo vedado a ele o sentido da felicidade prometido pela metafísica e pela moral. [...] é necessário que surja uma nova espécie de sábio, o espírito livre, que tenha a força de suportar as conseqüências de tal conhecimento, ou seja, o fim do conforto psicológico que as hipóteses metafísicas, morais, religiosas e artísticas forneciam.” (ITAPARICA, 2002, p.40).