Opérations internes du modèle CoDesc
3.6 Gestion de l’évolution des objets
A filosofia da história com pretensões de conferir à história cientificidade e, conseqüentemente, determinar a verdade dos fatos históricos ocorridos durante a aventura humana em determinado período, é por excelência filha da modernidade, nascida no bojo das propostas iluministas, da crença na razão humana e de seus poderes absolutos no homem como sujeito e dono do seu próprio destino, na possibilidade da continuidade ininterrupta do progresso moral e material da humanidade, o que, conseqüentemente, a levaria a estágios cada vez mais complexos, a um Estado ideal, o que exigiu e continua a exigir do homem moderno sacrifícios civilizatórios significativos.
A partir desta perspectiva histórica, as energias do modelo civilizatório ocidental moderno estiveram em grande parte voltadas para a construção da ordem e, conseqüentemente, na superação do caos. A imprevisibilidade, o não mensurável, o indefinido, o diferente, os instintos, a vida, compõem este imenso espaço cósmico, onde a multiplicidade de forças encontra-se em combate contínuo participando do devir da existência. Este caos por excelência tinha que ser interpretado, historicizado e, por fim, controlado pela racionalidade em afirmação.
Surgida na aurora dos tempos modernos com o tema da perfectibilidade indefinida do homem, apoiada nas conquistas e nos avanços da ciência, a idéia de progresso desemboca, no século XIX em filosofia da História. [...]. Astúcia hegeliana da razão, luta marxista de classes, lei darwinista da evolução: em todos esses casos, o mal é bom e a violência útil porque eles servem a fins superiores e aproximam a humanidade de sua meta. (FINKELKRAUT, 1998, p. 67).
A crítica que Nietzsche dirige em sua segunda “Consideração Extemporânea – Da Utilidade e Desvantagem da História Para a Vida” - , pode ser interpretada como uma crítica ao senso histórico disseminado pela cosmovisão do modelo civilizatório ocidental moderno. Porém, esta crítica não se detém somente nos aspectos relacionados às formas de interpretação histórica, mas vai além, na medida em que se apresenta como uma crítica à própria filosofia da história construída na modernidade como a grande razão, a partir da qual a
existência humana se constitui, pautada na lógica do desenvolvimento histórico. Para Nietzsche, a filosofia da história, que se afirma na modernidade, manifesta-se como niilismo reativo em relação à existência humana, aprisionando a vida, submetendo-a aos ditames metafísicos da razão, o que o faz pronunciar-se enfaticamente por uma história que tenha como foco central a promoção da vida.
[...]. Ya el título de la segunda “Consideración” de Nietzsche indica una diferencia fundamental en el punto de partida teórico: “vida” se convierte en criterio de un juicio normativo de la história, de sus ventajas y de sus inconvenientes: “Sólo en la medida en que la história sirva a la vida hemos de servirle”.(NN,209). “Vida” designa el principio
normativo situado por encima de la história [...]. (SCHNÄDELBACH, [20-], p. 84.).
Nietzsche pode ser considerado o marco da ruptura com a filosofia da história moderna, gestada e nascida no bojo do movimento iluminista, reafirmada no historicismo hegeliano. Com Hegel, a história é alçada à condição de grande razão, determinando o modo de compreensão do indivíduo (este passa, na perspectiva moderna, à condição de sujeito, categoria existencial coletiva, impessoal), da realidade, do mundo e de seu vir-a-ser. Enfim, o sujeito histórico nascido da tradição hegeliana coloca-se diante da vida contraditoriamente, numa atitude de “passividade-ativa”, na medida em que a mesma é conduzida por uma lógica dialética pautada na consciência histórica, tornando-a, de certa forma, um tanto previsível em seu movimento dialético na busca do progresso, da civilização, da paz, da autonomia, da democracia, da igualdade, da liberdade etc. Uma consciência histórica que confere sentido e finalidade à existência no desenrolar dialético da mesma. A história assume em Hegel, uma perspectiva intemporal, transcendente, demiurgo ordenador da realidade, da vida, da condição humana e do mundo em sua diversidade de manifestações vitais.
O modo de compreensão do sujeito é assim necessariamente histórica. Hegel [...]. Cada consciência é sempre consciência de seu tempo, mas ao compreender sua situação histórica, ao situar-se historicamente, compreende seu lugar na história, o momento em que se situa e, dessa forma, compreende-se como resultado desse processo histórico. Ao compreender o processo histórico, não compreende apenas o seu momento, mas a própria lógica interna do processo histórico, sua direção, seu sentido, sua lei, e assim compreende o desenvolvimento desse processo, podendo transcender o seu momento determinado.(MARCONDES, 1997, p. 220).
A conseqüência prática desta filosofia da história, desta cosmovisão moderna, é o surgimento do “sujeito histórico”. Talvez o homem que melhor traduz a manifestação do niilismo reativo em relação à vida, negando a existência em seu caráter contingente, finito, parcial e presencial. O sujeito histórico conduz a própria vida num esforço dialético angustiante de atenção ao passado, agarrando-se ao peso das tradições enquanto imposição heterônoma, na esperança de encontrar no meio do antiquário dos fatos e acontecimentos históricos, respostas e propostas para uma sociedade do futuro, um esforço fictício,
imaginativo de negar a existência no presente, sonhando com promessas de progresso, de paz, de justiça... projetadas no futuro. O futuro como a quimera que lhe possibilita suprimir os instintos, a vida trágica no presente à procura da felicidade, do sentido da existência. Talvez, esta seja uma das formas mais sutis de manter o animal de rebanho confinado na proposta civilizatória. Afinal, no futuro, todas as contradições próprias da existência humana serão superadas.
[...] homens históricos; o olhar ao passado os impele ao futuro, inflama seu ânimo e ainda por mais tempo concorrer com a vida, acende a esperança de que a justiça ainda vem, de que a felicidade está atrás da montanha em cuja direção eles caminham. Esses homens históricos acreditam que o sentido da existência no decorrer de seu processo, virá cada vez mais à luz; eles só olham para trás para, na consideração do processo até agora, entenderem o presente e aprenderem a desejar com mais veemência o futuro.(NIETZSCHE, 1978, p. 274).
Na medida em que se estabelece o sujeito histórico, portador de uma consciência histórica, ancorada na grande razão histórica, que hegelianamente se configura como um ponto de apoio para fora do próprio tempo, possibilitando julgar a vida, o mundo a partir de pressupostos ancorados nos princípios da objetividade, da neutralidade, tem-se como conseqüência inevitável a “crença” num sentido histórico do mundo, da existência, da vida e dos fatos. Nesta necessidade, habita o niilismo reativo na forma perversa de repressão aos instintos, impondo o sentido histórico ancorado em pretensa seriedade, objetividade e neutralidade, exigindo a mortificação do corpo, negando o caráter interpretativo antropomórfico que se faz do mundo. O sentido histórico alicerçado nestes pressupostos, manifesta toda sua intensidade de “vontade de verdade” que se estabelece em habilidosas arquiteturas metafísicas de explicação e atribuição de sentido aos fatos e acontecimentos participantes do devir, do caos.
[...]. Assim o sentido histórico torna seus servidores passivos e retrospectivos; e quase que somente por esquecimento momentâneo, precisamente na intermitência desse sentido, o doente de febre histórica se torna ativo, para, tão logo a ação tenha passado, dissecar seu ato, impedir por meio da consideração analítica a continuação de seu efeito e, finalmente, ressequi-lo em “história”. Nesse sentido vivemos ainda na Idade Média, a história é sempre uma teologia embuçada: como, do mesmo modo, o terror sagrado com que o leigo não- científico trata a casta científica é um terror sagrado herdado do clero. .(NIETZSCHE, 1978, p. 283).
Este historicismo inaugurado por Hegel e levado adiante no modelo civilizatório ocidental moderno até suas conseqüências extremas no século XX e neste início de século XXI é, na perspectiva de Nietzsche, manifestação do niilismo reativo, ressentimento contra a manifestação ilógica imanente, presente como condição intrínseca de qualquer manifestação vital. Para Nietzsche, a história elevada à condição de grande razão, ordenadora dialética da vida, ou mesmo, a história numa perspectiva positivista, elevada à condição de ciência,
participa ativamente do esforço metafísico, teleológico e escatológico de disfarçar a dinâmica trágica da vida, conferindo-lhe finalidade, sentido, lógica, revelando o preconceito e a repressão do modelo civilizatório ocidental moderno e tudo o que foge a sua lógica de interpretação e ordenação.
A história pensada como ciência pura e tornada soberana seria uma espécie de encerramento e balanço da vida para a humanidade. A cultura histórica, pelo contrário, só é algo salutar e que promete futuro em decorrência de um poderoso e novo fluxo de vida, por exemplo, de uma civilização vinda a ser, portanto, somente quando é dominada e conduzida por uma força superior e não é ela mesma que domina e conduz.
A história, na medida em que está a serviço da vida, está a serviço de uma potência a- histórica e por isso nunca, nessa subordinação, poderá e deverá tornar-se ciência pura, como, digamos, a matemática. .(NIETZSCHE, 1978, p. 275).
É a partir desta centralidade ordenadora conferida à história como categoria intemporal pelo modelo civilizatório ocidental moderno que Nietzsche percebe e denuncia a sutileza do niilismo reativo em seus esforços metafísicos de estabelecimento do além-mundo, cujo alcance abre possibilidades de estabelecimento de critérios a partir dos quais seria possível enquadrar o homem numa proposta civilizatória, julgar seus atos, sua conduta, controlar seus instintos. Nietzsche, a partir destes pressupostos, considera o historiador um asceta, legítimo herdeiro dos ideais ascéticos presentes no filósofo, no sacerdote e no cientista. Este historicismo somente pode ser levado adiante pelo homem enquanto comediante do universo resignado com sua própria condição. “[...] pois o atrevimento do pequeno verme humano é o que há de mais jocoso e de mais hilariante sobre o palco terrestre;[....]”.(NIETZSCHE, 1978, p. 286).
Apesar de sua crítica contundente crítica à história em sua concepção moderna, Nietzsche entende que a história tem a contribuir numa perspectiva niilista ativa, na medida em que, ao invés de ser categoria intemporal de julgamento das manifestações vitais, conferindo-lhe sentido, pode colocar-se numa perspectiva imanente, servindo à condição humana em sua “vontade de potência”, em sua estrutura de interesses, a partir do qual a vida se faz e se renova a cada instante.
[...].A história genealogicamente dirigida, não tem por fim reencontrar as raízes de nossa identidade, mas ao contrário, se obstinar em dissipá-la; ela não pretende demarcar o território único de onde nós viemos, essa primeira pátria à qual os metafísicos prometem que nós retornaremos; ela pretende fazer aparecer todas as descontinuidades que nos atravessam. [...]. se a genealogia coloca, por sua vez, a questão do solo que nos viu nascer, da língua que falamos ou das leis que nos regem, é para clarificar os sistemas heterogêneos que, sob a máscara de nosso eu, nos proíbem toda identidade. (FOUCAULT, 1979, p. 35).
Nesta busca genealógica apontada por Nietzsche a história pode contribuir no restabelecimento da perspectiva trágica da existência, na medida em que permite ao homem dar-se conta de que não existe um sentido, uma finalidade pré-existente que fundamente o
cosmo, que o mundo conhecido e do qual fazemos parte num breve espaço de tempo é obra de nossos desejos, necessidades e vontades, enfim, da “vontade de poder” que está presente na vida como um todo.
[...], según Nietzsche, toda ocupación com la histoira está determinada por una estructura de interesses dependiente de situaciones vitales que constituyen las condiciones de aquéllo que em cada caso aparece como história. Nietzsche sostiene com esto um perspectivismo permanente: “Cuando el hombre que desea crear algo grande necesita del pasado, se sirve de él a través de la história monumentalista; quien, por el contrario, desea persistir en lo acostumbrado y en lo venerable, cultiva el pasado como historiador de anticuario; y solo aquél a quien lo oprime el pecho la penuria presente y quiere liberarse a toda costa de este peso, tiene necesidad de una historia crítica [...] formas de su apoderamiento acivo a través
de los seres vivientes, para sus fines actuales. (SCHNÄDELBACH,[20-], p. 90)
A vida assumida a partir do niilismo ativo, em sua dimensão trágica desfaz-se necessariamente do sentido histórico alicerçado na visão metafísica que impõe à existência sua acomodação numa totalidade absoluta e, conseqüentemente, redutora das manifestações vitais, dos instintos e do corpo, para ser transformar em sentido histórico genealógico de busca das origens em sua constituição caracterizada pela multiplicidade, pela diversidade da “vontade de potência”.
[...], o sentido histórico escapará da metafísica para tornar-se um instrumento privilegiado de genealogia se ele não se apoia sobre nenhum absoluto. Ele deve ter apenas a acuidade de um olhar que distingue, reparte, dispersa, deixa operar as separações e as margens – uma espécie de olhar que dissocia e é capaz ele mesmo de se dissociar e apagar a unidade deste ser
humano que supostamenteo dirige soberanamente para o passado. (FOUCAULT, 1979, p.
26).
Para Nietzsche a história somente pode ter utilidade se estiver a serviço da vida, e se a dinâmica que rege a vida não se explicar pela lógica matemática, histórico-dialética, metafísica, construída num tremendo esforço do modelo civilizatório ocidental moderno, mas a partir de outra perspectiva participar do jogo de dados do acaso que rege o próprio universo em sua monstruosidade de forças em combate, o que se revela na “vontade de potência”, presente em toda manifestação vital. Significa dizer que o mundo também não pode ser historicizado a partir de uma pretensa constância de leis universais que o regem, afinal o mundo é devir, é mudança, é a própria descontinuidade incessante do ser.
[...]. Este mundo: uma monstruosidade de força, sem início, sem fim, uma firme, brônzea grandeza de força, que não se torna maior, nem menor, que não se consome, mas apenas se transmuda, inalteravelmente grande em seu todo, uma economia sem despesas e perdas, mas também sem acréscimo, ou rendimentos, cerca de “nada” como de seu limite, nada evanescente, de desperdiçado, nada de infinitamente extenso, mas como força determinada posta em um determinado espaço, e não em um espaço que em alguma parte estivesse “vazio”, mas antes como força por toda parte, como jogo de forças e ondas de força, ao mesmo tempo um e múltiplo, aqui acumulando-se e ao mesmo tempo ali minguando, um mar de forças tempestuando e ondulando em si próprias, eternamente mudando, eternamente recorrentes, com descomunais anos de retorno, com uma vazante e enchente de suas
configurações, partindo das mais simples às mais múltiplas, do mais quieto, mais rígido, mais frio, ao mais ardente, mais selvagem, mais contraditório consigo mesmo, e depois outra vez voltando da plenitude ao simples, do jogo de contradições de volta ao prazer da consonância, afirmando ainda a si próprio, nessa igualdade de suas trilhas e anos, abençoando a si próprio como Aquilo que eternamente tem de retornar, como um vir-a-ser que não conhece nenhuma saciedade, nenhum fastio, nenhum cansaço [...]. (NIETZSCHE, 1978, p. 397).
Portanto, a história, na concepção de Nietzsche, assume papel central na possibilidade do homem superar o próprio o homem, realizando a transição de um niilismo reativo apegado ao passado e ávido pela realização, no futuro, de um além-mundo, na construção da paz, da justiça, da felicidade eterna, do fim das contradições, da fragilidade e contingência humana, para um niilismo ativo, em que se é convidado a assumir a própria existência no tempo presente, em meio à tragédia, na diversidade de disfarces necessários à manutenção da própria vida, na perspectiva de viver momentos de paz, de alegria, de felicidade etc, nos intervalos das batalhas desencadeadas pela “vontade de potência”, nos instantes em que for possível assim viver, de estabelecer critérios de avaliação a partir da vida em seu vir-a-ser.
[...]. A história tem mais a fazer do que ser serva da filosofia e do que narrar o nascimento necessário da verdade e do valor; ela tem que ser o conhecimento diferencial das energias e desfalecimentos, das alturas e desmoronamentos, dos venenos e contravenenos. Ela tem que ser a ciência dos remédios. [...]. o sentido histórico, tal como Nietzsche o entende, sabe que é perspectivo, e não recusa o sistema de sua própria injustiça. Ele olha de um determinado ângulo, com o propósito deliberado de apreciar, de dizer sim ou não, de seguir todos os traços do veneno, de encontrar o melhor antídoto.(FOUCAULT, 1979, p. 30).
A perspectiva histórica apontada por Nietzsche impulsiona o homem pela superação do homem civilizado e suas construções metafísicas, a participar do jogo de forças que renovam constantemente a vida, a defrontar-se com a tragédia como algo inerente à dinâmica lúdica da vida, a fazer a experiência existencial de assumir a vida a partir do niilismo ativo. Neste sentido, viver é um desafio carregado de prazeres e dores, felicidades e infelicidades, é colocar-se diante do tempo enquanto presente existencial único, intransferível. “Em vez de esperar que um poder transcendente justifique o mundo, o homem tem de dar sentido à própria vida. Em vez de aguardar que venham redimi-lo, deve amar cada instante como ele é.[...]”. (NOVAES, 1992, p. 219). É diante deste desafio descomunal de assumir a vida com suas própria forças na eternidade do presente que Nietzsche concebe a idéia do “eterno retorno”.
Revestindo caráter supra-histórico, a doutrina do eterno retorno apresenta-se, de uma só vez, como “a mais extrema forma do niilismo” e “a mais alta forma de aquiescência que se pode atingir. [...]. É inevitável que a existência tal como é, sem sentido ou finalidade, se repita; é imprescindível que o homem, não possuindo outra vida além desta, a afirme. Não temos escapatória: estamos condenados a viver inúmeras vezes e, todas elas, sem razão ou objetivo;
tudo o que nos resta é aprender a amar o nosso destino. Com o eterno retorno, Nietzsche desautoriza as filosofias que supõe uma teleologia objetiva governando a existência, desabona as teorias científicas que presumem um estado final para o mundo, desacredita as religiões que acenam com futuras recompensas e punições. Recusa a metafísica e o mundo supra-sensível, rejeita o mecanicismo e a entropia, repele o cristianismo e a vida depois da morte. [...].
Aterrorizante, o pensamento do eterno retorno aponta a falta de sentido de todas as coisas; corretivo, descarta uma grande quantidade de mundos hipotéticos; liberador, alivia o fardo da esperanças vãs. [...]. Contra o ressentimento, é preciso lembrar que não há vida eterna; esta vida é eterna. (NOVAES, 1992, p. 218/219).