A leitura é uma experiência, um ato, um processo de transformação que parece não se esgotar no significado direto das palavras, recorrendo-se intimamente à linguagem metafórica na tentativa de decifrar-lhe os enigmas. Ler um livro. Ler o mundo. Mergulhar na leitura. Emergir das páginas de um livro. Devorar com sofreguidão as palavras. A analogia da vida como um livro aberto. O livro como um passaporte, um ―bilhete de partida‖ para uma fascinante viagem, como tão inspiradamente o define o poeta e escritor mineiro Bartolomeu Queirós (2006), em seu artigo ―O livro é passaporte, é bilhete de partida‖.
A metáfora da leitura solicita por sua vez, outra metáfora. Leva-nos a buscar explicações em imagens que transcendem a biblioteca do leitor e, contudo, estão em seu interior, fazem parte de seu corpo de tal forma que a função de ler é associada a outras funções corporais essenciais.
Saboreia-se, devora-se um livro com os olhos em sua verdadeira nutrição espiritual; mergulha-se entre suas páginas. A metáfora do mergulho, tão associada à leitura representa bem esse sentido. A leitura como mergulho é algo que é difícil traduzir com precisão, tantas que são as imagens e muitos os lugares aonde a literatura nos leva. Todas essas metáforas associadas ao ato de ler evidenciam uma intimidade, uma necessidade de interiorização, uma comunhão entre livro e aquele que o lê, pois por mais que um leitor pense apropriar-se de um livro, no final, livro e leitor tornam-se uma só coisa, espelham-se e confundem-se um ao outro no ato da leitura.
A possibilidade de um número infinito de leituras, todas se somando reciprocamente é exemplificada por Calvino (1999), ao relatar suas experiências literárias:
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Cada novo livro que leio passa a fazer parte daquele livro abrangente e unitário que é a soma de minhas leituras. Isso não acontece sem esforço, para compor esse livro geral, cada livro particular deve transformar-se, relacionar-se com os livros que li anteriormente, tornar-se o corolário ou o desenvolvimento ou a refutação ou a glosa ou o texto de referência (Calvino 1999: 258).
Certas leituras que realizamos permanecem, como nomeia Marisa Lajolo, ―ricocheteando‖ na vida do leitor, tornando-se parte de sua vida, acompanhando-o e às vezes determinando suas vivências. Esse fenômeno de permanência de uma obra cujo valor foi posto à prova do tempo foi denominado de clássico, adjetivo definido pelo Dicionário Hauaiss da Língua Portuguesa (2009) como ―o que serve como modelo ou referência; que segue ou está de acordo com os cânones ou que é conforme com um ideal‖ (Hauaiss 2009: 478), consoante ocorre com Os Lusíadas, de Camões.
A essas leituras de ―formação‖, e à sua essência e importância, dedicou Calvino um ensaio. Curioso, o autor, já é pronunciado como um clássico futuro, exatamente por seus livros ―exercerem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo individual‖ (Calvino 1999: 10). Calvino (op.cit.) situa a dimensão de um clássico e o poder da literatura de propagar-se indefinidamente, quando afirma ser um clássico um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer. A teoria de Calvino é muito bem aplicada, quando analisamos os seguintes versos de Camões e Patativa do Assaré, que através da poesia clássica e popular, respectivamente, (mas ambas de feição social, satírica e performática) representam a voz de seu povo:
Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram. Cesse tudo o que a Musa antiga canta, Que outro valor mais alto se alevanta (Camões I. 3: 1). Eu sou de uma terra que o povo padece Mas não esmorece e procura vence Da terra querida, que a linda cabocla de riso na boca zomba no sofrê
Não nego meu sangue, não nego meu nome Olho pra fome, pergunto que há
eu sou brasileiro, filho do Nordeste Sou cabra da Peste, sou do Ceará. (Assaré 2006: 13).
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Patativa do Assaré, pseudônimo de Antônio Gonçalves da Silva (1009 – 2002), é o maior poeta popular brasileiro de todos os tempos. Usa o dialeto caboclo quando quer, para identificar-se com as classes oprimidas. Ele sintetiza os saberes populares e eruditos. É homem que lê sobre o que acontece no mundo, pois acredita que é preciso transformá-lo. Mesmo quando jovem e ainda violeiro, já estudava o Tratado de Versificação, de Olavo Bilac e Guimarães Passos e lia Os Lusíadas. A leitura deste último, por exemplo, foi motivo de inspiração para o seu poema em oitavas ―O Inferno, o Purgatório e o Paraíso‖. Fato que se confirma em entrevista ao professor Gilmar de Carvalho, quando Patativa afirma que não lia os livros escolares lia revista, jornal, os poetas da língua e muitas outras coisas: PA - ―Lia até Camões, aquele... Os Lusíadas, de Camões, que é uma coisa intrincada‖. Ainda continua: ―É, ali... é uma história muito bonita, mas é pra... pra quem não estudou muito, não é tão compreensível. Mas eu li todo e aprendi aquela forma de versificação dos ―Lusíadas‖, viu? É tanto que naquele meu livro ―O Purgatório, o Inferno e o Paraíso‖, a versificação é aquela mesma‖. E assim recitou:
PA - ―das armas e barões assinalados, cuja a acidental praia lusitana, por mares dantes nunca navegados, ainda passaram além da Itapobrana, entre guerra e perigos e corsários, mais do que permitia a força humana. E entre gente remota edificaram novo reino que tanto sublimaram‖.12
Patativa afirma que segue a mesma tônica, a mesma medida, mas o sentido é diferente e, em seguida recita:
PA - ―Pela estrada da vida nóis seguimos cada qual procurando melhorar.
Tudo aquilo que vemos e que ouvimos desejamos na mente interpretar,
1212 ―As armas e os barões assinalados
Que da occidental praia lusitana, Por mares nunca dantes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, E em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometía a força humana, Entre gente remota edificaram Novo reino, que tanto sublimaram...‖ (Camões I, 1:1).
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pois na Terra nóis todo possuímos o sagrado direito de pensar.
Nesse mundo de Deus, olho e diviso: o purgatório, o inferno e o paraíso.‖
Explica, ainda, ao professor Gilmar de Carvalho: PA -―Esse meu poema, viu ? Eu, na divisão das classes: inferno, classe pobre; purgatório, classe média; paraíso, classe rica‖.
Este grande poeta do Sertão nordestino era filho de um casal de agricultores perdeu a visão do olho direito aos quatro anos de idade, conforme conta em verso. Essa circunstância acidental leva o poeta popular a identificar-se projetivamente com Camões, representando um leitor do autor de Os Lusíadas:
Perdi meu ôio direito Ficando mesmo imperfeito Sem vê perto nem longe Mas logo me conformei Por saber que assim fiquei Parecido com Camonje (Camões) (Assaré Apud Sérgio 2010: 1).
Sobre este fato, na referida entrevista, Patativa explica quando o professor Gilmar de Carvalho solicita que ele falasse de como começou o seu problema com a visão:
PA- Olha, eu... Com quatro anos eu, em conseqüência do sarampo, que num era... naquele tempo não havia médico aqui no Assaré e... muitas cegueiras vieram da... do problema do sarampo, onde eu perdi o olho direito. Foi em conseqüência de um sarampo. Não houve mei. O olho vazou, mas... E há... há pouco tempo eu falei de Camões, não é ?
Patativa do Assaré justifica o acidente de Camões:
PA- E, segundo eu li, foi na Guerra de Ceuta, uma seta que, quando veio, atingiu o olho dele e vazou. E sabemos também que Jesus Cristo nasceu em extrema pobreza e por isso eu tenho essa estrofe.
Assim, durante a entrevista, recitou:
PA- ―Nasci dentro da pobreza e sinto prazer com isto, por ver que fui com certeza colega de Jesus Cristo. Perdi meu olho direito ficando mesmo imperfeito sem ver os belos clarões. Mas logo me conformei por saber que assim fiquei parecido com Camões.‖
Diante do exposto, não há como refutar a presença de Camões no ideário das diversas nacionalidades literárias, fundindo-se como elemento da cultura dos povos. A obra do poeta e sua biografia, bem como a mitologia que as envolvem, transformaram-no em um dos maiores e mais conhecidos símbolos de Portugal o que o coloca, muitas vezes ao longo da história, na
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condição de paradigma. Esse processo de modalização camoniana é perceptível nos registros de recepção criativa desde o século XVI até os dias atuais, mostrando que o interesse, não apenas literário, por Camões jamais cessou. Com referência à criação literária nas mais diferentes abordagens e teorias literárias, desde o comparativismo estruturalista de Barthes e Derrida até aos dias atuais. Pretendemos revelar o que a obra camoniana e como ela foi concebida ao longo do tempo. Para isso contamos com o apoio da ―Estética da Recepção‖ de Jauss e os estudiosos da Escola de Konstanz.
Como este trabalho tem por suporte teórico a Estética da Recepção e do Efeito é forçoso apresentar um breve apanhado a respeito das principais idéias nascidas dos pensadores da Escola de Konstanz.
Em 1967, na primeira edição de O leitor e a literatura, Jauss dá ao mundo as teorizações que levariam a uma ruptura definitiva com o estruturalismo e a abordagem imanentista. Partidário de uma concepção interdisciplinar na crítica textual e tendo como eco a voz dos colegas de estudos, dentre os quais Wolfgan Iser, Jauss propõe nesse livro aquilo que já deixara claro no discurso de sua aula inaugural na Universidade de Konstanz:
Qualquer obra de arte literária só será efetiva, só será re-criada ou ―considerada‘, quando o leitor legitimar como tal, relegando para plano secundário o trabalho do autor e o próprio texto criado. para isso, é necessário descobrir qual o ―horizonte de expectativas‘ nos textos que lêem em virtude de estarem condicionados por outras leituras já realizadas, sobretudo se pertencerem ao mesmo gênero literário (Lima 2002: 15).
É nesse sentido que a estética da recepção forma seguidores, dentre os quais Hans Ulrich Gumbrecht, segundo Costa Lima um dos mais brilhantes alunos de Jauss e um dos responsáveis pelo desenvolvimento desse novo modelo de crítica literária. Para o pensador alemão, o complexo sistema de constituição do sentido passa por uma dinâmica de interações entre autor e leitor, assimétrica pelo natural distanciamento espaço-temporal entre Interlocutores e, por isso, estuda sob dois prismas. O primeiro leva em consideração a premissa de que em um processo de comunicação existe a intenção de se modificar o pensamento de, pelo menos, um dos parceiros. Essa intencionalidade proveniente do autor é chamada de função intencionada. O outro lado do prisma sugere que em todo processo de comunicação os parceiros devem compartilhar de um acervo comum mínimo para que a comunicação seja efetiva. No entanto, esse acervo comum nem sempre é suficiente para que a função intencionada pelo autor seja concretizada, assim a função realizada não corresponde à primeira motivação do autor.
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Partindo da hipótese de que Camões constrói Os Lusíadas sob uma perspectiva profundamente humanista, nosso ponto de partida será marcado por uma breve revisão da literatura referente ao poema épico em quatro séculos de recepção crítica e criativa para que seja estabelecida uma linha de análise validadora da reabilitação humanística do texto camoniano.
A recepção da obra camoniana e a formação de uma mitologia envolvendo o poeta e seus escritos têm início antes de 1572, data da primeira edição de Os Lusíadas. Sabe-se que por aquela época era comum a circulação de cópias manuscritas, devido à dificuldade de se ter em mãos um livro impresso. Luis Franco Correia foi o primeiro a reunir, em 1557, poemas esparsos, inclusive os de Camões, e produzir um cancioneiro impresso 15 anos depois. A fama do poeta formou-se à medida que tais textos circularam desde o Oriente até à Corte, através dos cancioneiros, em avulsos e em cartas. E dessa forma surgem os admiradores e os de opinião pública formada a respeito do poeta: há os que o enaltecem e os que denigrem como fica claro em a Lusitânia Transformada, de Fernão Álvares do Oriente, um exemplo de recepção, quando o autor mostra dois pastores que, após uma peregrinação, chegam ao Templo da Poesia, que encontram inteiramente destruídos. A única estátua no Templo que se encontra intocada é a estátua de Camões. Diz Fernão, em Lusitânia Transformada (1985) que ao pé da estátua há um esquadrão de Bávios e zoilos ―que com muitos tiros pretendiam danificá-la‖.
Esse é apenas um exemplo que faz transparecer nos textos literários indícios da recepção dos poemas de Camões, em primeiro momento no debate acerca da legitimação do épico como tal, ao longo de todo o século XVII. De um lado, os que defendem a posição do poeta como paradigma, encontrando em Os Lusíadas a epopeia que resgata, através da forma clássica perfeita, a identidade portuguesa em um período de indefinições por consequência da era castelhana; e, do outro lado, aqueles que, indiferentes ao destino português, passam a atacar o épico e o autor, acusando-o de plágio, fuga ao gênero clássico e, mediocridade. Mesmo assim, institui-se o mito de Camões e de Os Lusíadas como resgatadores de todo passado heroico português, seja pela biografia do poeta ou pela interpretação dos seus versos.
Em oposição a essa mitificação, surgem as vozes que pretendem resgatar o que há de mais humano e menos político nos versos do poeta quinhentista. São exemplos os versos de Fernando Pessoa, em Mensagem.
Ó mar salgado, quando do teu sal São lágrimas de Portugal!
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Por te cruzarmos, quantas mães choraram Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosse nosso, ó mar! (Pessoa 2011: 11).
A nova leitura de Camões recebe uma urdidura muito peculiar, acentuando as tendências democráticas e socialistas em Patativa do Assaré. Através da afirmação do povo português como elemento primeiro na constituição do país como nação, as referências antigas mostram em algumas das obras literárias contemporâneas, e como foco deste trabalho as de Patativa do Assaré, uma grande liberdade crítica de profundos problemas e desigualdades sociais, expressos em uma realidade vista como politicamente complexa ou mesmo confusa.
Menino iletrado, mas assíduo ouvinte de leituras de cordéis, logo começa a versejar. Frequenta escola apenas para aprender a leitura e por ela é seduzido. Por volta dos vinte anos, depois de uma peregrinação pela Amazônia, Antônio adota o pseudônimo de Patativa, a partir de um artigo de jornal em que um crítico comparava sua poesia espontânea à pureza do canto da pequena ave do Sertão.
A partir de seu segundo livro Cante lá que eu canto lá (1978), a obra de Patativa passa a interessar intelectuais e estudiosos da academia. É interessante lembrar que Patativa do Assaré transitava como o maior desembaraço entre a língua matuta e a culta, conforme objetivos que tinham em mente ou o público que desejava atingir.
A leitura de Os Lusíadas, por exemplo, inspirou as oitavas patativanas do poema ―O Purgatório, o Inferno e o Paraíso‖, conforme o próprio autor o reconhece em entrevista cedida a Gilmar de Carvalho (Cf. Anexo, doc.2) :
Como é triste viver sem possuir Uma faixa de terra para morar E um casebre, no qual possa dormir E dizer satisfeito: ―Este é o meu lar‖. Ninguém pode, por certo, resistir Tal desgraça na vida sem chorar Só é que existe inferno no outro mundo Com certeza, o de lá é o segundo!
(Assaré 2008: 45).
Através de sua poesia popular, clássica, social, satírica e performática, Patativa do Assaré deu para o humilde camponês, para o homem do Sertão, para as súplicas de seu povo, uma voz:
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Neste estilo popular
Nos meus singelos versinhos O leitor vai encontrar Em vez de rosa espinhos Na minha penosa lida Conheço do mar da vida As temerosas tormentas Eu sou o poeta da roça Tenho mão calosa e grossa Do cabo das ferramentas (Assaré 2002: 147).
O maior poeta popular brasileiro de todos os tempos usa o dialeto popular e caboclo quando quer, para identificar-se com as classes oprimidas. Ele sintetiza os saberes populares e eruditos. É homem que lê sobre o que acontece no mundo, pois acredita que é preciso transformá-lo. Mesmo jovem e ainda violeiro, já estudava o Tratado de Versificação, de Olavo Bilac e Guimarães Passos e lia Os Lusíadas.
A estrofação e a métrica são populares, o que marca é a liberdade, que só é possível graças à simplicidade. Patativa usa oitavas, sextilhas e décimas, às vezes alterna os dois últimos tipos de estrofes, com uma sextilha a abrir e outra a fechar o poema. Toda essa versatilidade e esse afastamento de moldes rígidos de estrofação, bem como a fuga do verso clássico, sejam o decassílabo ou o alexandrino, configura a influência romântica, intertextualizando com Sonetos, de Camões.
Dicotomias como riqueza e pobreza; a felicidade e o infortúnio; o bem e o mal; aspectos como o social e o político; a ética, a honestidade, o perdão, a grandeza de alma, a fé em Deus e na religião, bem como a necessidade de justiça social e de igualdade, a dimensão do sofrimento e do heroísmo do povo, a tradição e a natureza são os temas mais recorrentes na poética de Patativa do Assaré. É possível aproximar a temática do heroísmo de Camões e Patativa:
E disse: - Ó gente ousada, mais que quantas
No mundo cometeram grandes cousas Tu, que por terras cruas, tais e tantas E por trabalhos vãos nunca repousas,
Pois os vedados términos quebrantas E navegar meus longos mares ousas,
Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho (Camões V. 41: 133-223).
Distante da terra, tão seca mas boa,
Exposto à garoa, À lama e ao paú
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Viver como escravo Na terra do Sul (Assaré 2008: 92).
A poesia social engajada, reivindicativa, com a denúncia da exploração patronal, coronelística e política, o descaso do governo com os pobres, o drama dos agricultores sem- terra, a manipulação das políticas de combate às secas, os deslocamentos, as migrações vergonhosas a serviço dos privilégios de poderosos e latifundiários, a fazer do povo gado de currais eleitorais ou reserva de mão de obra de um capitalismo voraz beneficiário das desigualdades sociais resume o poeta de Assaré que representa em sua poética a existência do pão, da moradia, da saúde, da educação, da segurança, sendo esta o mesmo que a constância, a evitar o êxodo, o sofrimento de partida, a humilhação e outras desgraças dele provenientes.
Diante do exposto, a qualidade e a força criativa de Camões e Patativa são significativas por ser em representação de uma recepção. A seguir essa trajetória o leitor experimenta uma leitura de ecos textuais de Os Lusíadas, desse algo que mais não é de Camões, mas que está sempre presente no processo de humanização do próprio ser humano.
A experiência de leitura evoca uma relação íntima que une leitor ao universo textual, pois além do sentido literal e do significado literário, o texto que lemos adquire a projeção de quem somos.
O efeito da leitura no sujeito leitor precede e condiciona seu efeito sobre a sociedade. A tomar como referencial essa premissa, defendemos a importância e a interferência da literatura na formação de consciências, sendo fundamental para o processo de humanização do homem.
Através do diálogo com o texto, com a leitura da palavra escrita, o homem vê-se diante da possibilidade de vivenciar uma experiência de libertação de sua cotidianidade, ao ser lançado por um momento circunscrito num universo ao qual não pertence, mas do qual, de alguma maneira faz parte, e do qual se vê preenchido.
Norteado por suas crenças, experiências de vida, percepções e valores esse leitor reescreve e dá existência a uma realidade nova, transformando-se neste momento em criador. Somente a partir daí, o leitor, nutrido da experiência literária, poderá ter a possibilidade de enxergar novos horizontes e participar da evolução e transformação da sociedade.
Assim sendo, enquanto existir alguém que escreva e outro que tenha o desejo, a disposição e o prazer de ler, a literatura prosseguirá com seu poder de fazer existir o que não existe, sem encerrar sentidos, sem fechar questionamentos, mas sim, continuará abrir portas,
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ampliar horizontes e iluminar nossa visão de mundo, pronta a nos ensinar a perguntar, nos fazendo ir além dos livros que julgamos ler.
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