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Falaremos agora sobre alguns símbolos utilizados por Edelarzil e seus significados em meio ao imaginário popular e em seu imaginário religioso subjacente.

O simbolismo da água

Não é segredo que a água é um dos elementos mais sacralizados pela maioria das civilizações. Em diversas culturas podem ser encontradas relatos de águas milagrosas, fontes com poderes mágicos de cura ou de juventude. Muitas águas curativas, até mesmo, segundo suas propriedades minerais, acabaram sendo tidas como mágicas. “As águas são simbolizadas, reverenciadas e consagradas desde os primórdios em todas as culturas, teologias, crenças, mitos e religiões do planeta, com indícios que remontam ao Neolítico (8000 a.C.)” (LAZZERINI; BONOTTO, 2016, p. 560). Há culturas e crenças religiosas em que a água emitida pelas fontes, conectam o mundo exterior e o interior, “por onde fluem deuses, espíritos e mesmo seus ancestrais” (LAZZERINI; BONOTTO, 2016, p. 560). Muitas nascentes foram consideradas locais de manifestação hierofânica e atraiam e ainda atraem peregrinos em busca de contato com o divino e não é incomum que esses muitos desses lugares tenham se tornado locais de culto e motivado a construção de templos.

A água: Elemento que normalmente aparece na prática da benzedura, remete às formas da natureza, ao mesmo tempo em que lembra as águas purificadoras do batismo. “A mesma idéia da purificação do batismo está contida nas benzeduras, feitas com água benta, características da zona rural” (QUINTANA, 1999, p. 184).

No ritual de Edelarzil, a água é utilizada em dois momentos: para o ato do benzimento, que acontece durante a procissão do ritual da materialização, onde ela embebe o algodão na água e passa na testa e nos pulsos dos clientes e para molhar o algodão já posta na peneira para materialização, para purificação ritual.

O algodão

Como dissemos anteriormente, o algodão tornou-se um elemento essencial para os rituais de materialização de Edelarzil. Esse fora sacralizado como objeto neutralizador e como receptor para a materialização dos objetos e legitimado através da consulta da médium aos seus guias espirituais, em particular, Nossa Senhora do Rosário e Santo Antônio de Pádua. Ao longo do tempo, ele foi ganhando certo ritmo dentro do ritual. No início, as pessoas desfiavam seu próprio algodão a pedido de Edelarzil, para que se

dissipassem quaisquer suspeitas de fraude contra ela. No entanto, simbolicamente, o desfiar o algodão tornou-se uma forma de “energização” do mesmo, tendo que as pessoas mentalizarem coisas boas para si ou para quem o algodão está sendo desfiado e depois colocados por elas mesmas em cima da peneira posta sobre o altar ou em sacos que ficam em torno desse.

Durante a procissão de entrada, quando se dá início ao rito, Edelarzil benze as pessoas com um chumaço de algodão molhado, passando-o na testa e nos pulsos enquanto ora em voz alta e em seguida, o lança sobre a peneira. Outra forma, que pode ser entendida simbolicamente, de colocar a pessoa sobre o altar?

O algodão não se trata de um elemento inédito em rituais, se faz presente em outras profissões de fé como o Candomblé e Umbanda onde:

O algodão simboliza o branco, a pureza e o início da existência. É um dos elementos primordiais que deram condições a o homem de produzir suas vestimentas e de se proteger da s intempéries da natureza. O seu uso representa o aquecimento vegetal. Pertence a um Orixalá muito antigo, chamado Babá Rowu, um a divindade participante do início da criação. Como o algodão está ligado aos orixás funfun é considerado um elemento ambíguo, pois se conecta com duas polaridades, a vida e a morte. Ele participa do nascimento, do início do iaô, mas também faz parte do momento da morte, nos rituais de Axexê (BARROS (Org.), 2009, p. 227).

Na Umbanda são utilizadas as folhas e as sementes, para banhos e defumações para invocar as forças do Orixá Oxalá, com energia de congregar e cristalizar. Também é usado no meio popular para a realização de simpatias. Levantamos a hipótese de que a assimilação simbólica não teria sido apenas através dos relatos de sua experiência na lavoura do algodão. Por si só, o algodão é matéria, mas através dos valores simbólicos já existentes no meio popular e que de alguma forma a médium teve acesso, assim, ela pode integrá-lo mais tarde e ressignificá-lo dentro de seu ritual.

A procissão

Pode ser que, muitas pessoas que frequentam o centro de Edelarzil, percebam a procissão que se forma para entrar na capela e dar início ao ritual, como uma simples fila com o intuito organizacional. Meramente para manter a ordem das senhas. Porém, para um católico que ali se coloca, imediatamente se invocam as significações do ato que permeia seu imaginário. Sendo Edelarzil, declaradamente católica, não é estranha essa forma de organização. A procissão de entrada é um hábito nos inícios de cultos e missas católicas, aliás, a procissão é um ato praticado ativamente nas festas santorais, em dias de

louvor eucarístico e também penitencial. Normalmente essas, realizadas do lado de fora da Igreja. A procissão de entrada no rito católico significa a lembrança da peregrinação terrena. Segundo Dom Manuel Francisco:

Nos primórdios da Igreja, a procissão de entrada era muito solene. Era feita, quase sempre, de uma igreja para outra. [...]. O sentido desta procissão deve ser buscado no contexto mais amplo da caminhada que as pessoas fazem de suas casas até a igreja. Ela lembra que somos peregrinos neste mundo a caminho da casa de Pai (EVANGELIZAR É PRECISO).56

Portanto, possivelmente, esse ato de integrar uma procissão inicial em seu rito, trata-se de um acesso ao imaginário católico que ela recebeu de sua família e que traz consigo em sua profissão de fé.

O número três

O número três também é de uso frequente no ato da benzeção, é o número ímpar e o mínimo para obter eficácia. Invocar a Trindade, rezar três vezes a oração, usar três folhas de cada erva terapêutica, passar três vezes pela benzeção. Edelarzil segue essa lógica, o ideal é tirar três vezes no algodão e melhor ainda se for treze, porque é o número de Santo Antônio, voltar três vezes para o ritual. Aqui o número 13 com conotação positiva no sentido de mudança e boas “vibrações”.

Chauí (1991) observou que o três é visto em várias culturas como um número perfeito, possuidor de harmonia, podendo conter poderes mágicos, a autora comenta a reiterada presença desse número nos textos religiosos: a Santíssima Trindade; nas vezes que Pedro negou Cristo; nas virtudes cardeais (fé, esperança e caridade). Nas histórias infantis encontramos uma situação semelhante: três são os pedidos ao gênio da lâmpada, assim como também três vezes a madrasta vai à casa do anões em “Branca de Neve”. Diversas são as histórias em que o número de irmãos é três: “A gata borralheira”, “Três cisnes”, “Três plumas” etc (QUINTANA, 1999, p. 183).

É um número com representatividade de equilíbrio, no imaginário popular até mesmo para se ter filhos é considerado ideal ter até três filhos.

56 Disponível em: < https://www.padrereginaldomanzotti.org.br/artigo/procisso-de-entrada/>. Acesso em

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