O que, da minha linguagem, está evidente ou não para comunicar o meu conteúdo e estrutura de trabalho? (Ricardo).
A busca por referenciais teóricos metodológicos que sustentem as práticas coletivas, foi um aspecto preponderante nas narrativas, quase sempre com uma perspectiva crítica e sócio histórica. Frequentemente, a terapia ocupacional social foi citada para a compreensão dos fenômenos sociais, pelas participantes deste estudo.
Penso que o acompanhamento dos indivíduos, a partir de uma perspectiva coletiva, pode ser feita por meio da leitura daquela realidade não como uma pessoa isolada, mas como um componente de um lugar social que ela ocupa. É o que chamamos na terapia ocupacional social de acompanhamento individual e territorial e articulação da rede. (Ana Paula).
Os referenciais teórico metodológicos da terapia ocupacional apareceram nas narrativas trazidas pelas participantes: referenciais que sistematizam conceitos de ocupação, ocupação coletiva, cotidiano e atividade.
As abordagens grupais apareceram como mais um recurso para se trabalhar com práticas coletivas. Monica e Ricardo reiteram a importância da coerência entre as práticas grupais e o trabalho nos diferentes contextos a partir de uma perspectiva coletiva, seja para as próprias compreensões teóricas do processo grupal, seja para pensar a abordagem grupal inserida em uma perspectiva social.
Acredito que uma prática com a dimensão coletiva requer outros referenciais teóricos e metodológicos, outra forma de pensar na prática, porque senão só estou mudando o local de atuação, mas sem mudar a minha prática. Um trabalho com grupo pode ser uma prática coletiva ou não, pode ser só uma prática clínica que tem mais gente. Então, penso que o que determina uma prática com uma dimensão coletiva seja o conceito que a gente traz de coletivo, que não é só um agrupamento de pessoas. (Monica).
Por exemplo, o trabalho com grupo, pode ser uma estratégia sob uma perspectiva social da coletividade, quando fazemos rodas de conversa, a estratégia da roda de conversa é grupal, então tem uma abordagem grupal para conduzir as rodas de conversa. Só que esse dispositivo grupal precisa estar conectado com a perspectiva do coletivo. (Ricardo).
Importantes na formação continuada dos profissionais, vale lembrar que esses aspectos podem e devem contribuir para os processos de formação em terapia ocupacional, para que o processo de aprendizagem das práticas individuais e grupais possa ser feito de maneira
articulada às perspectivas coletivas.
A depender do grupo ou do coletivo aos quais se destinam as práticas, as terapeutas ocupacionais discorreram sobre os referenciais teóricos que julgam coerentes com suas práticas. Um exemplo disso são as concepções de território propostas por Milton Santos (1999).
Eu gosto quando o Milton Santos fala que o território é vivo, então se ele é vivo, ele vai influir nas nossas práticas, ele é influenciado e influi. (Monica).
As nossas ações não se limitam a um espaço, pois usamos diferentes dispositivos da comunidade, embora algumas atividades sejam feitas em um mesmo local, junto com a população acompanhada. (Martha M.).
Esses aspectos também aparecem na relação com a obra do educador Paulo Freire, que concebe a práxis humana enfatizando a “unidade indissolúvel entre minha ação e minha reflexão sobre o mundo” (FREIRE, 2008, p. 30). Essa concepção corrobora com a articulação entre tempo e espaço para a compreensão e realização das ocupações coletivas que acontecem num constante movimento para se adaptar às necessidades do contexto:
A prática coletiva se dá por meio do processo de trabalho desenvolvido ao longo de um tempo e sua concepção de espaço constituído simbolicamente a partir do envolvimento dos valores e atividades (território), de modo que as pessoas passam a organizar o seu tempo e seu cotidiano. (Ricardo).
O que eu vejo na prática coletiva é que os objetivos e as intervenções vão se construindo nos fazeres junto ao coletivo (...) O espaço e o tempo, que já são mutáveis na esfera individual, na esfera coletiva são mais ainda. (Monica).
Outro exemplo é a prática pensada para a população assistida, ao mesmo tempo que se tem uma relação de ensino-aprendizagem. Ana Maria e Martha Minatel nos contam da necessidade de articular a aprendizagem das alunas (graduação em terapia ocupacional) com o processo das práticas coletivas das ações:
Vivenciamos previamente algumas atividades para que elas possam participar mais ativamente das rodas de conversa como visita às casas lares, observação da rotina dessas cuidadoras, observação dos espaços destinados às crianças para o brincar, para os estudos, para o descanso, para o cuidado com o próprio corpo, etc. (Ana Silvello).
Essa relação continuada de aprendizagem revelada nas narrativas nos remete novamente a Freire, quando o autor enfatiza o aprendizado que se desenvolve pela vida, mesmo depois de finalizados os processos formais de ensino:
A educação é permanente não porque certa linha ideológica ou certa posição política ou certo interesse econômico o exijam. A educação é permanente na razão, de um lado, da finitude do ser humano, de outro, da consciência que ele tem de sua finitude. Mais ainda, pelo fato de, ao longo da história, ter incorporado à sua natureza não apenas saber que vivia, mas saber que sabia e, assim, saber que podia saber mais. A educação e a formação permanente se fundam aí. (FREIRE, 1993, p. 22-23, grifos do autor).
Para além dos referenciais coletivos, também os referenciais de cada um mostra as especificidades das práticas, de acordo com o contexto e a população, grupo ou coletivo, para alcançar objetivos também de natureza coletiva.
Ana Maria, por exemplo, justifica a escolha dos seus referenciais por dedicar-se a um grupo predominantemente de mulheres que estão na condição de cuidadoras de crianças. O cuidado de si e do outro parecem ser centrais para suas abordagens. No momento da pesquisa, suas referências vêm principalmente da sociologia.
Hoje na sociologia, estudo as teóricas feministas que pesquisam o cuidado como Carol Gilligan, Joan Tronto, Pascale Molinier, Viviane Zelizer, Helena Hirata entre outras. Tronto (2103) defende o cuidado democrático, o cuidado não só deve acontece com quem está perto da gente, é necessário pensar no cuidado democrático, nós temos que cuidar não só das pessoas mais próximas. Isso me encanta muito, o fato de não se preocupar só com o cuidado da minha família. Isto configura uma preocupação coletiva, na minha opinião. (Ana Maria).
Marta Aoki, por sua vez, justifica a escolha pelos seus referenciais situando seu trabalho na Atenção Básica, com ênfase no território, ao mesmo tempo em que também reconhece referenciais próprios da terapia ocupacional.
A Reabilitação Psicossocial ajuda muito a pensar nessa questão sobre as necessidades das pessoas, os autores que falam sobre grupos Pichon Riviére entre os terapeutas ocupacionais, a própria Viviane Maximino, essa gente que ajuda a pensar como fazer grupos, isso eu fico muito atenta, tanto os grupos quanto ações coletivas, de garantir o que é importante em um grupo, que todas as pessoas possam se escutar, que a gente possa se olhar. (Marta Aoki).
Para Martha Minatel a escolha pelo seu referencial é guiada por um trabalho com ênfase no território com crianças, ao mesmo tempo em que ela reafirma uma preocupação com o ensino:
A metodologia que utilizo implica em abordagens coletivas, como é o caso da metodologia da problematização, mais especificamente o Arco de Maguerez, pensada a partir do referencial teórico de Paulo Freire, da reflexão, da ação e da transformação daquela realidade. E para pensar a infância, também tenho usado Manuel Sarmento, sociólogo português, para os alunos conseguirem entender um pouco dessa participação social da criança e da importância deles construírem as políticas, construírem cidadania. (Martha Minatel).
Monica justifica a escolha de seus referenciais por ser um trabalho com ênfase no território, com jovens que vivem em uma favela do Rio de Janeiro:
Nessa perspectiva de trabalhar com a juventude do Complexo do Alemão, a partir de uma dimensão territorial, utilizamos referenciais teóricos da terapia ocupacional do campo social e de outros autores, como Paulo Carrano, Lucia Rabello de Castro, Licia Valladares, Jorge Luiz Barbosa, Adriana Facina. São autores que já estudam a questão das favelas do Rio há algum tempo ou que trabalham diretamente com juventude, ou as duas coisas, e eles têm me ajudado a entender um pouco mais esse contexto que pensa a questão da favela e da juventude aqui no Rio, que têm algumas características próprias, inclusive, de dimensões coletivas de cuidado e de organização.
Monica ressalta a necessidade de “ouvir” a realidade objetiva dos contextos a serem enfrentados:
O território foi trazendo outras demandas, então fiz o misto tanto de trabalhar com eles essa temática no coletivo, mas também com alguns jovens mais no individual. Nesta direção, também tenho discutido bastante sobre a mobilidade urbana, procuro pensar também a questão das políticas de planejamento da cidade, a participação das pessoas nisso, e para isso não conseguimos ver uma participação que não seja utilizada uma dimensão coletiva. (Monica).
Desde 2011, Ricardo vem trabalhando na perspectiva do desenvolvimento local, principalmente com as comunidades tradicionais e a população dentro de contextos rurais e agrícolas, que são aquelas que estavam mais afastadas das políticas de planejamento urbano, ao mesmo tempo que situa a ocupação como lugar epistêmico que o ajuda a justificar e a pensar a terapia ocupacional. A partir dessas experiências, Ricardo narra o processo desenvolvido por ele para fundamentar suas práticas coletivas:
A abordagem de terapia ocupacional de ensinagem em desenvolvimento local participativo, compreende que a construção de projetos de vida coletiva são estratégias criadas e exploradas por terapeutas ocupacionais, a fim de facilitar o desenvolvimento das capacidades humanas, gerando oportunidades por uma rede formada por diversos segmentos sociais e garantindo o direito à participação no planejamento, controle e avaliação do espaço social (cidade). Uma das estratégias desta abordagem é fazer a imersão na vida local. Essa imersão tem a ver com inventariar as formas ocupacionais, as funções ocupacionais, as intencionalidades, as tomadas de consciência nesses processos. (Ricardo).
Os constructos de ocupação coletiva e consciência ocupacional são referenciais que sustentam essa abordagem produzida por Ricardo (CORREIA et al., 2017; 2018), ao analisar a prática em terapia ocupacional com intervenções constituídas junto a uma comunidade quilombola para a criação de um plano diretor participativo local, na inclusão dessa população enquanto cidadãos de direito, os autores fazem essa articulação com práticas coletivas:
A participação na cidade deve considerar os processos de envolvimento coletivo em ocupações para as tomadas de decisão, planejamento e engajamento sobre o desenvolvimento e expansão de seus espaços públicos e sociais. (...) Considera-se que terapeutas ocupacionais podem produzir espaços de atuação no planejamento urbano das cidades, se suas intervenções estiverem balizadas pelas ocupações coletivas e políticas públicas de urbanização. (CORREIA et al., 2018, p. 827).
Ana Paula reflete sobre como as ocupações coletivas podem ser entendidas a partir do cotidiano de vida das pessoas:
O que são as ocupações coletivas no sentido da compreensão do cotidiano das pessoas sob aquilo que compõe e vem de uma vertente coletiva? Dentro dessa dialética entre sujeito e sociedade, entre individual e coletivo, pois não existem apenas ocupações individuais, evidentemente, as ocupações coletivas são elementos do cotidiano, da vida concreta dos sujeitos. (Ana Paula).
O que apresentei até aqui na discussão entre os marcos teóricos e as experiências deste grupo de terapeutas ocupacionais, parece responder os objetivos deste estudo, pois por meio dessa vasta experiência, foi possível compreender como pensam e desenvolvem suas práticas, bem como as ideias, os fundamentos teórico- metodológicos e as interfaces das ações. Com o mapeamento das práticas coletivas, foi possível (re) conhecer as diferentes ações, contextos e referenciais que sustentam as práticas deste grupo de participantes. As discussões sobre o cuidado com as questões individuais, grupais, territoriais e comunitárias mostraram-se articuladas e contextualizadas `as questões sociais, políticas e culturais, ao mesmo tempo em que apareceram nuances das particularidades de cada prática e a importância do posicionamento epistemológico de cada participante. O que parece ser o fio condutor desta discussão, e o que corrobora a posição defendida por Elewani e Frank, é a intencionalidade com que essas práticas vêm sendo desenvolvidas, num contínuo de conflitos, co-presença, construção de parcerias, reflexões da própria prática e dos resultados das mesmas na relação com indivíduos, grupos, coletivos, para que a realidade social seja transformada.