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Hydrological cycle from space

Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 23-28)

Verificamos que saúde e doença são conceitos socialmente construídos, pois o sujeito só é considerado doente (ou sadio) devido aos valores culturais fomentados pela sociedade onde está inserido e que fixa os critérios e as modalidades normativas ao longo do tempo e do espaço. A antropologia da saúde vem fornecendo subsídios para os setores biomédicos ao contextualizar culturalmente os modelos etiológico-terapêuticos. As atuais análises antropológicas na área da saúde contribuem para a redefinição de paradigmas e desenvolvimento de abordagens mais abrangentes “da saúde e da doença.

As questões culturais, cognitivas e subjetivas são observadas e tornam-se fatores significativos na análise da situação de saúde das populações” (BASTOS et al., 2007,

p.285). O corpo é considerado pelos viesses biológicos, psicológicos e sociais, destacando-se a percepção individual e grupal dos problemas de saúde, assim como as estratégias construídas pelos atores, envolvendo processos de alívio e cura.

Este ramo antropológico – em conformidade com Medeiros (2002) e Fleischer et

al (2010) - relativiza os fenômenos, criticando os pressupostos biocêntricos e

hospitalocêntricos no tratar do sujeito doente, porém amplia os conceitos de saúde para além das patologias e dos saberes dos especialistas. Uma antropologia que frisa a dimensão popular, incluindo em seus estudos práticas e conhecimentos, vistos como modelos terapêuticos extraoficiais, dando-lhes visibilidade e voz ativa aos atores que deles compartilham por encontrar, em seus meios, práticas sutis imersas em eficácia física e simbólica. Modelos de terapia, que se estendem para além dos subalternos.

Hegenberg (1998) alenta para o fenômeno do adoecer, distinguindo – ao seguir os princípios de Cassell (1976) - duas formas de sentir e lidar com as doenças: “desease” e “illness”. Na desease, o infortúnio é visto (pelo médico) como evento biológico e individual, sendo explicado pelo mau funcionamento das estruturas orgânicas, estando associado a uma “entidade-doença”. A illness representa (para o paciente) o evento humano, cujos infortúnios são sentidos intersubjetivamente, por meio de desajustes, que rompem com o “bem-estar” dos afetados.

O “estado enfermo” da disease seria caracterizado, pela equipe médica, como um desvio patológico dos valores orgânicos “normais”. Seus sinais são apresentados fisicamente na forma de anomalias e ou no mau funcionamento dos sistemas e órgãos biológicos. A disease permite que a medicina reduza a pessoa a parâmetros fisiológicos apresentados em escalas de normalidade e anormalidade, ignorando o suplicante e sua vida em sociedade, no intento de reduzi-lo a padrões e categorias. Já o “estado doentio” da illness seria representado por aquilo que o paciente traria consigo, incluindo sua angústia, tramas, diálogos e demais movimentos sociais – por ele e por outrem articulados - na tentativa de amenizar ou remediar sua situação. Os autores vêm demonstrando, que é no “estado doentio” da illness, que conseguimos acompanhar a fluência de significados atribuídos às doenças pelos próprios pacientes, no condizente às suas experiências pessoais e intersubjetivas. Inclusive, a definição de qualquer ator enquanto doente depende de uma série de relações concretizadas entre pares.

Boltanski (1989) revelou como os infortúnios e suas formas de sentimento e representação variam conforme as classes sociais, pois detectou que os queixumes relativos às dores como “doenças graves” apareciam com maior incidência nos grupos sociais “mais abastados”, do que nas “classes populares”, pois o uso do corpo costuma também variar dentre extratos sociais. A percepção da dor e da doença seria distinta, tangencialmente, em relação à possibilidade de continuidade ou não das atividades

rotineiras do trabalho, assim como em relação à busca por alívio e cura. O corpo, nesta lógica, apresentar-se-ia como o mais importante, dentre os vários instrumentos técnicos, que representam sinais de status, cuja posse, estado e aparência distinguem e reforçam o lugar dos sujeitos na hierarquia social. Assim, somos capazes de observar os atores diferindo-se entre si por suas características corporais expressas na forma de cor, volume, odor e da capacidade, ou incapacidade, de deslocamento no tempo e no espaço.

Diante dos procedimentos biomédicos para o tratamento das enfermidades (diseases), o corpo do suplicante, em qualquer classe social, costuma ser entregue à manipulação de médicos e especialistas; procedimento tal que fomenta no paciente - em especial naqueles oriundos de classes subalternas - um constante sentimento de insegurança e ansiedade, complicando o seu estado illness. O subalterno não compactua do hábitus da classe médica; representada por atores pertencentes às camadas superiores da sociedade e, por isto, possuidores de linguagens, visões de mundo e simbologias próprias capazes de expressar códigos e esquemas ancorados nos padrões técnicos e científicos, muitas vezes inacessíveis à compreensão deste tipo especial de infortunado.

O autor acredita que os subalternos convivem com um universo estranho, quando se deparam com a doença e o seu “tratamento” concretizado por uma equipe médica; procedimento, aliás, buscado apenas quando receitas, práticas e ritos da medicina popular não foram capazes de aliviar ou sanar os males. Ao desapropriar-se de seu corpo, doença e emoções, o paciente reconhece a legitimidade médica, pois esta, agora, é a única agência especializada na definição de estratégias, envolvendo a localização do mal, no corpo e ou na mente, e os posteriores ataques ao distúrbio para alcance de “normalidade”. Boltanski (1989) demonstra a relação mantida entre o corpo biológico, a cultura e a sociedade, esmiuçando sua análise ao nível das classes sociais francesas, buscando a lógica do fomento e da aplicabilidade de seus respectivos hábitus. Ele chega a conclusões construtivas ao perceber que, assim como as sensações e as percepções, os cuidados com o corpo e a saúde também oscilam conforme os extratos sociais, de modo que as regras corporais não são idênticas dentre agrupamentos humanos de uma mesma sociedade. As ideias de força e de fraqueza surgem como constantes específicas nas regras corporais das classes subalternas. Nestes termos, a doença é vista como fraqueza ou “falta de força”, pois influi na vida normal, impedindo a atividade trabalhista dos “pobres”. Assumir ser portador de patologias, nestes contextos, é debilitar-se socialmente, pois, mediante tal concepção instrumental do corpo e da saúde, um corpo doente é um “corpo imprestável” ao mercado de trabalho.

O conceito de experiência, acompanhado pela noção de ação social, pode ser capaz de nos remeter a questões essencialmente humanas, envolvendo, entre muitas coisas, a condição de estar no mundo a partir de um corpo biológico e social. Assim, o corpo nada mais seria do que o vetor, que insere o sujeito no mundo, ao mesmo tempo em que ele torna capaz a interação nos espaços, perante a manipulação de coisas e objetos, ou seja, ações sociais que por intermédio do corpo adquirem sentido.

Nesta perspectiva, nada mais seríamos do que “seres em situação”, sendo o corpo nossa principal dimensão, além de ser o lócus primordial diante das dimensões da vida, que se integram aos esquemas corporais capazes de explicitar as modalidades do ser humano (ALVES et al., 2003). Porém, não estaríamos estagnados neste processo de situação, pois os sujeitos apresentam tendências de transcender a situação, orientando-se para o futuro, pois toda situação é histórica e socialmente construída. Um corpo que vive é um corpo que age. A partir desta premissa compreendemos a relevância das abordagens preocupadas com a experiência dos atores em seus ambientes, pois tal experiência revela importantes dimensões das patologias e de seus tratamentos.

O adoecer envolve relações intersubjetivas, desde a identificação da patologia por intermédio da emergência de seus sintomas, até os complexos processos do cuidar e do tratar. É verdade que o social está nos corpos, devido ao fato de que os corpos – e as percepções que o acompanham – serem originalmente sociais. Eu e os outros compartilhamos de esquemas comuns de conduta e intencionalidade. É neste sentido, que os autores vêm demonstrando que a subjetividade representa um processo posterior à intersubjetividade, sendo o self um produto direto da experiência. Conceber o caráter intersubjetivo nos eventos de aflição e cura nos fornece uma percepção apurada da realidade cotidiana, pois o mundo rotineiro é o espaço da práxis, sendo os códigos adquiridos em nossa rotina diretamente atrelados aos interesses e às ações práticas.

O sentido patológico intersubjetivo não deixa de associar-se ao estado vivido do corpo, obviamente, indissociável de nossa subjetividade. Os estudos antropológicos na área da saúde tendem a mostrar que toda doença traz consigo representações, valores e julgamentos – em grande medida morais – num constante processo de produção sígnica, sendo conveniente ressaltar, que estados patológicos não se resumem aos sentidos e às percepções individuais, pois, como vimos, toda enfermidade passa por mecanismos intersubjetivos cercados por ações comunicativas e interpretativas de realidades.

A missão dos antropólogos comprometidos com os fenômenos envolvendo a saúde e a doença seria, justamente, a de buscar compreensões voltadas às patologias,

porém partindo, como ponto de vista teórico e etnográfico, das vivências subjetivas dos suplicantes em seus estados de aflição. As mais variadas situações de infortúnio, assim como as experiências que as mesmas acarretam, seriam de amplo valor analítico, uma vez que representariam realidades replenas de significação. Experiências que, neste sentido, são legitimadas socialmente e, até certo ponto, padronizadas na vivência dos atores, que costumam interpretar e narrar suas experienciações a partir da rememoração de casos e eventos, envolvendo situações funestas, as quais foram ou não acometidos.

3.3. O infortúnio da mente no “descompasso da alma”. A dependência enquanto

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