4. Human Resources and Programme Budget
4.1 Human Resources
Já havia me dado conta de como a temática da sexualidade, bem como as questões suscitadas pelos debates em torno da diversidade de papéis sexuais, mais do que dizerem respeito apenas a preocupações de foro íntimo – ou talvez por isso mesmo, ou seja, por serem íntimas demais – poderiam nos interpelar tão profundamente. Afinal, os discursos sobre sexualidade que fazemos circular, através do que pensamos e falamos, ou seja, a ordem discursiva que acionamos e à qual pertencemos – no sentido mais profundo de pertencimento que possamos imaginar – manifesta com agudeza as maneiras como
concebemos e percebemos a constituição de nossos próprios “eus”, além de indicar a parcialidade de nossas reivindicações acerca do conhecimento verdadeiro (Giroux 1999).
Assim, não me surpreenderia ao perceber que entre o pessoal, o íntimo, e aquilo que se defendia como conhecimento legitimamente válido em música não se poderia mais separar. Em outros termos, a partir da reação às questões sobre sexualidade, pude perceber pressupostos teóricos tão conservadores acerca desta temática quanto os são aqueles referentes à estética, ao currículo e ao conhecimento em música. A expressão feminista, “o pessoal também é político”, ao tratar de tais questões por entre músicos de formação acadêmica, assumia, pois, enorme significado.
Os vínculos entre aquilo que concebemos como conhecimento e a nossa localização como sujeitos sociais pareciam, pois, mais evidentes quando discorríamos sobre a sexualidade. E não poderia ser de outro modo, uma vez que, segundo Weeks:
A sexualidade é modelada na junção de suas preocupações principais: com a nossa subjetividade (quem e o que somos), e com a sociedade (com a saúde, a prosperidade, o crescimento e o bem estar da população como um todo). As duas estão intimamente conectadas porque no centro de ambas está o corpo e suas potencialidades. Na medida em que a sociedade se tornou mais e mais preocupada com as vidas de seus membros – pelo bem da uniformidade moral, da prosperidade econômica; da segurança nacional ou da higiene e da saúde – ela se tornou cada vez mais preocupada com o disciplinamento dos corpos e com as vidas sexuais dos indivíduos (2000, 52).
A produção do self tem sido considerada, assim, uma dimensão importantíssima nos processos de formação mais amplos – desde os processos de educação escolar, passando pelas diversas instituições sociais e culturais que nos interpelam profundamente através de inúmeros discursos (o médico, o religioso e o pedagógico, dentre os mais poderosos) que, em última análise, participam ativa e profundamente na constituição de nossas subjetividades. A este respeito, Louro nos diz que:
Aprendemos a viver o gênero e a sexualidade na cultura, através dos discursos repetidos da mídia, da igreja, da ciência e das leis e também, contemporaneamente, através dos discursos dos movimentos sociais e dos múltiplos dispositivos tecnológicos. As muitas formas de
176 experimentar prazeres e desejos, de dar e de receber afeto, de amar e de ser amada/o são ensaiadas e ensinadas na cultura, são diferentes de uma cultura para outra, de uma época ou de uma geração para outra (2008, 18).
A questão elaborada a partir da citação a Moreira, buscava, pois, evidenciar a articulação entre a formação acadêmica em música e a construção das identidades sociais. Para tanto, as considerações acerca da emergência de “novas” identidades sociais – principalmente aquelas mais “problemáticas”, tais como as referentes à sexualidade não heterossexual – me pareciam particularmente instigantes e produtivas. O longo trecho destacado a seguir é bastante revelador de como a “natureza situada do conhecimento” se manifesta, ainda que nossos discursos procurem negá-la, através de reivindicações de neutralidade e objetividade:
L.: [...] Tem um especialista em currículo, o professor Antonio Flávio Moreira, ele
tem discutido as questões curriculares já há algum tempo, e ele tem discutido o currículo a partir dos chamados Estudos Culturais, com sua preocupação com multiculturalismo, ou seja, a partir da constatação de que as sociedades contemporâneas são multiculturais e que o currículo...
Benedito: ... deveria refletir isso.
L.: pois é. Então ele fala acerca da necessidade de uma “reelaboração de conteúdos
que concorram para desafiar a lógica eurocêntrica, cristã, masculina, branca e heterossexual” que, segundo ele, tem informado os processos de formação escolar e acadêmica...
Benedito: eu não seria tão liberal quanto ele, mas eu concordo com ele. Ah... com
relação a homossexualismo, eu tenho muitos amigos homossexuais, gosto deles, mas
eu não posso pregar o homossexualismo, quer dizer, não me parece a coisa certa a
fazer. Eu não posso ser intolerante, eu não posso prejudicar a pessoa porque ela fez
essa opção, entende? Mas, por outro lado, se fizerem proselitismo, eu não vou gostar. Então, eu não favoreceria conteúdos que favorecessem, digamos, a prática do
homossexualismo... eu não sei, parece que ela fica permanentemente em torno de dez por cento, ou uma coisa dessa... eu não sei muito sobre isso, Luedy. [...]
L.: recentemente, houve uma polêmica com relação a um dos verbetes do novo Grove,
o verbete era o “música lésbica e guei”...23
Benedito: ih... vixe, mãe de Deus, que horror...
23 Referia-me à tradução feita por Carlos Palombini do artigo de Philip Brett e Elizabeth Wood, “Música
lésbica e guei”, publicada na Revista Eletrônica de Musicologia, vol VII, de dezembro de 2002. O artigo, por sua vez, era uma versão expandida, e sem cortes, do verbete homônimo publicado no New Grove Dictionary
of Music and Musicians (2001). O artigo apresentava de maneira crítica os “bastidores” do processo de negociação empreendido por Brett e Wood junto ao editor do dicionário referente ao título, aos cortes sugeridos e ao espaço destinado ao texto final do verbete.
L.: então, havia esse verbete, escrito por dois autores homossexuais, uma lésbica e um
gay, e aqui no Brasil ele foi traduzido pelo Carlos Palombini. E ele escreveu um artigo acerca dessa polêmica que envolvia o seu editor, o Sadie, por conta de supressões que o Sadie fez ou teria tentado fazer ao artigo. O fato é que esses grupos existem, esses indivíduos existem, e eles estão reivindicando um espaço neste cenário também.
Benedito: esta musicologia gay e essa coisa toda, eu me lembro de um encontro da
sociedade internacional de musicologia, na Inglaterra, em Londres, em que havia uma mesa redonda exclusivamente constituída por gays e... e... e o que fosse. De novo, isso pra mim faz tanto sentido como se tivesse uma musicologia heterossexual – não tem nada a ver, meu Deus!
L.: mas você não acha que as posições, os lugares e os papéis que nós
desempenhamos, como homem, como mulher, homossexual, heterossexual, branco, negro...
Benedito: isso é problema deles, a escolha é deles, não precisa fazer clube.
L.: a perspectiva de uma mulher, de uma compositora mulher, é a mesma de um
compositor masculino?
Benedito: não sei, talvez não seja, se não for melhor ainda. Quer dizer, eu não tô aqui
para castrar ninguém, entende? Simplesmente, acho que certas coisas devem tomar seu curso. Rapaz, eu sou casado há quarenta e oito anos, ou mais, até hoje eu recebo porrada de minha mulher, todo dia. E daí?
L.: deixa eu ver como eu posso formular melhor a questão...
Benedito: isso afeta o meu respeito por ela, ou dela por mim? Isso significa que ela
não deva ter oportunidades tais como eu tive ou como qualquer outra pessoa tenha? Será que eu não reconheço, por exemplo, as dificuldades que minha filha tem porque é médica, em vez de médico, entende? Mas será que isso vai fazer uma medicina feminina, uma medicina masculina?
L.: isso me faz pensar que, por exemplo, já que estamos falando de medicina, que
quando se começou a investigar a AIDS, a síndrome da imunodeficiência adquirida, primeiramente a ciência médica tachou a doença de peste gay. Então a gente tem um histórico de resistências, de lutas, a gente não pode negar que há um espaço onde estas diferenças podem ser suprimidas, onde o diferente pode ser excluído, né? E aí eu fico me perguntando, como seria isso em música. [...]
Benedito: [...] Eu não sei... Luedy, eu jamais iria tachar um compositor de compositor
ruim etc porque ele foi homossexual, isso não me passa pela cabeça. Pelo contrário, acho que a gente cria o preconceito, na ânsia de identificar homossexuais compositores, esse é, aquele não é, e não sei o quê... isso é uma maluquice. Mas taí, tá bom... [...] o que eu acho é que tem problemas maiores que não estão sendo cuidados e que estes são assustadores. [grifos meus]
O discurso de Benedito acerca das questões suscitadas pela diversidade sexual manifesta de maneira inequívoca os limites de seu conservadorismo acerca destas questões – a começar pela própria maneira, um tanto irritadiça, com que considerava a temática da homossexualidade no âmbito da musicologia (“vixe, mãe de Deus, que horror”). Enfim, da
178 equiparação das denúncias às restrições impostas pelo preconceito a um “proselitismo” (“eu não posso pregar o homossexualismo”), ao uso da expressão “homossexualismo”, até à recorrente menção à “escolha” que estes indivíduos fariam (o que nos conduziria à constatação que, uma vez que eles “escolheram” viver assim, ser homossexual seria “um problema deles”), tudo isto manifesta os limites epistemológicos evocados por um discurso conservador acerca da sexualidade.
Ao mesmo tempo, porém, percebemos em alguns trechos como o discurso de Benedito se aproxima de um humanismo liberal, que se manifesta não somente em seu reconhecimento de que há diferenças, mas também na defesa de que estas diferenças devam ser respeitadas (e até, em alguns casos, exaltada – como é o caso da diferença entre gêneros). Tal discurso humanista liberal, no entanto, não questiona as condições culturais, políticas e históricas através das quais se produziriam as diferenças. Assim, a afirmação de que “as coisas devem tomar seu curso” pode ser compreendida como uma naturalização das diferenças: elas estão aí, talvez não haja muito o que fazer com isso, além de reconhecê-las e, em alguns casos, admirá-las. Para Benedito, além do mais, há “problemas maiores”.