4. HTTP-Based Interface for the Redirection Interface
4.5. HTTP Redirection
Sobre este advento de uma junção denominacional, que tinha propósito claro de uma delas em conquistar espaço sobre a outra na comunidade Marimari, retomaremos no tópico sobre poder eclesiástico e poder local.
Na manhã seguinte, conversei com o professor Máximo sobre um pouco de sua versão da história da comunidade e das relações locais. Ali esteve o senhor Maurício, seu sogro e um dos anciões da Comunidade Napoleão, filho mais velho de João Marcos Napoleão, conhecido como João Rondônia, é irmão mais velho do ex-tuxaua Davi. Em conversa rápida, ele me relatou ser neto do primeiro Napoleão da região. Na continuidade da conversa com o professor, esse narrou um pouco da história da Escola, que teve a sua mãe, dona Maria José como uma das primeiras professoras remuneradas no ano de 1968. Entre seus apontamentos, destacamos sua crítica aos professores formados em Licenciatura Intercultural Indígena, segundo ele, o domínio de conteúdo específico é insuficiente, e resulta em profissionais com muito conhecimento genérico, e pouco eficiente no campo profissional. De modo semelhante, o interlocutor disse reprovar o modelo de calendário intermitente, aplicado nas escolas indígenas, como defendido pelo Instituto Insikiran de Formação Superior Indígena, que em suas palavras “fragiliza o ensino médio e não prepara para o mercado, aí impõe aos alunos o direcionamento aos cursos específicos para indígenas ou para as cotas”66. Uma crítica com uma visão positivista ou pelo menos reflexiva ao modelo atual.
Como uma das lideranças locais devido à sua própria função de professor e gestor escolar, o interlocutor fez considerações sobre a necessidade de o tuxaua atentar para o Regimento Comunitário, pois sua rejeição desconstrói sua autoridade moral, as exceções 66 Entrevista com o professor Máximo Teodósio, em 19 de julho de 2017.
existem, mas que fiquem como exceção e não como regra. Desse prisma, o poder regimentado poderia ser acionado para a manutenção da ordem.
Naquele dia conversei com o operador Sr. Laécio, especificamente sobre as ligações de energia das casas. Esse me explicou que estava proibido qualquer ligação de energia, visto que, a rede de distribuição não suportava. Além do mais era ordem advinda da sede da empresa em Boa Vista, com anuência do tuxaua. Nossa indagação foi direcionada, já que, na noite anterior, fui contatado por um morador que queria saber se ele poderia realizar a ligação de energia de sua casa. Como estranho ali, jamais poderia me envolver em uma situação de infração às regras locais. Pior ainda, envolvendo diretrizes superiores externas.
No quarto dia em Napoleão, logo pela manhã, o professor Ênes se dirigiu a uma plantação de mandioca próximo à Igreja Assembleia de Deus, decidi acompanhá-lo para uma conversa espontânea. Ali o provoquei se não tinha medo de ser surrado pela maniva, de pronto me respondeu que já havia pedido permissão para cortá-la, daí explicou um pouco sobre o que disse ter aprendido com seu pai sobre como tratar maniva, que deve ser tratada com cuidado, não deixar cair nem jogar, para que não a assuste. Sempre que transportá-la para plantar em outro lugar, levar alguns troncos e plantá-los também, para que a maniva nova não sinta saudade de sua mãe e assim produza com abundância. Pontuando enfim, sobre a perspectiva de ver a mandioca como um ente com vida própria. Aproximando a prática da agricultura aos mitos e lendas da criação, onde seres vegetais foram resultado de alguma metamorfose de animais para o benefício dos humanos.
Na ocasião, o interlocutor relatou ainda a experiência de uma caçada, onde disse ter sido atingido por uma alergia em sua pele, resultante após ter seguido o rastro de um veado “encantado”. Destacou que foi em sua adolescência, que estava em companhia de seu pai na região da comunidade de São Pedro, onde fora criado. Após adentrar na mata, o rastro desapareceu ao lado de uma pedra e, ao retornar para a área aberta, iniciou-se uma coceira com hematomas em formato de rastro de veado em seu corpo. Por fim, como seu pai realizava rezas, preparou uma quantidade de água com ervas, e após um banho com aquela mistura sua coceira desapareceu.
Na mesma oportunidade ele me mostrou o local de quatro sepulturas onde ficava seu roçado de macaxeira. Ali, relatou um pouco sobre a relação com a morte por parte dos crentes em oposição aos católicos. Segundo ele, ali próximo à Igreja Assembleia de Deus, enterravam os mortos de origem evangélica, enquanto os católicos eram enterrados em outro
ambiente do outro lado do lago67. Uma ideia de segregação religiosa atribuída para os mortos. Outra prática também registrada, diz respeito a situações de enterros atrás da casa da família, como relatou a senhora Arlete, que me falou ter enterrado uma filha no seu quintal para que pudesse cuidar melhor da sepultura68. Uma configuração mista com relação ao direcionamento dos mortos. Nesse aspecto, alguns interlocutores relataram a existência de urnas funerárias em cavernas da região, principalmente.
Na manhã do sétimo dia procurei o professor Enéas Tobias, gestor da Escola Municipal Vovó Camila, ali conversamos sobre a organização da escola, suas demandas e expectativa profissional. Ele que é Macuxi, nascido na comunidade Pacu, na região de serras no município de Normandia, veio para o Napoleão em 2011, quando se casou com uma mulher da comunidade. Mais um exemplo da uxorilocalidade Macuxi, Santilli (1989b). É professor efetivo municipal de língua nativa, desde 2014. No começo trabalhou na comunidade Homologação, e a partir de 2016 foi para trabalhar em Napoleão. Comentou a dificuldade da alfabetização em língua materna, pois não existe material didático para as séries iniciais. Além das divergências de expressões na própria língua materna, segundo ele, há uma leve diferença entre as microrregiões em três dialetos: Macuxi da serra, do pé da serra e do lavrado. Detalhou que seu aprendizado da língua materna foi buscado na escola, embora seus pais fossem falantes ativos da língua Macuxi, somente na escola conseguiu aperfeiçoar e compreender melhor o domínio do Macuxi. Uma vantagem para o empreendimento da escola como centro de recuperação da língua nativa. Disse que iniciou seus estudos na comunidade Contão, esteve também morando na sede do município de Pacaraima e na comunidade Boca da Mata. Depois quando veio para o Napoleão começou trabalhando como cobrador de ônibus. E só depois é que se tornou professor.
No nono dia na comunidade, depois de contatar algumas pessoas, conversei um pouco com o professor Zeilton, uma das lideranças locais, esse já foi gestor da Escola Estadual e, tuxaua do Napoleão. Como nosso interlocutor estava como uma turma de alunos do 6º ano, uma garotada da faixa etária de nove a dez anos, pretendi realizar uma atividade com eles, uma tentativa de construir um mapa da comunidade (anexo). Ali pontuamos sobre a possibilidade dessa atividade ocorrer depois do recesso escolar, o que foi possível no mês de setembro de 2017.
No dia seguinte, em conversa com o professor Efésios, ele me passou um pequeno texto escrito em Macuxi que, segundo ele, relata um pouco da história do povoamento em 67 Conversa com o professor Ênes Paulino em 20 de junho de 2017.
torno do Lago do Cabeludo, também chamado de Lago do Napoleão, este lago fica atrás da Escola, em sua margem, os primeiros moradores se estabeleceram. O referido lago foi a primeira referência da comunidade, e os anciões declaram que era farto de peixe, hoje encontra-se com pouca água devido ao assoreamento e muita vegetação em seu interior (Foto 25). No documento também explica que o nome Napoleão foi dado como apelido a um morador que tinha por nome em Macuxi de Taitai, como era considerado um nome estranho pelos brancos, foi apelidado de Napoleão, o que virou um sobrenome da família.