4.2.1 Assentamento Jurema: Leandro José e Paula Patrícia 9
O agricultor Leandro José tem 32 anos, ensino médio incompleto, mora no Assentamento Jurema há 15 anos e participa da feira desde o seu início. A família é composta por sua esposa e dois filhos de 8 e 3 anos. Atualmente é o presidente da Associação de Produtores e Produtoras da Feira Agroecológica de Mossoró – APROFAM. O agricultor conta com ½ hectare na Bodega do Bode, local onde está o PAIS, e é filho de assentado. No lote conta com 15 hectares para criação de abelha e com poucos cajueiros; produz na área de parceiro 10de 15 hectares com criação de caprinos, ovinos e abelha.
O tempo dedicado a produção é de aproximadamente de oito a nove horas por dia e não dispõe de mão-de-obra, trabalhando em parceria com outro assentado. No Assentamento Jurema a maior dificuldade é o acesso a água, eles não contam com esse recurso em disponibilidade suficiente para garantir o crescimento da produção, e mesmo a manutenção da produção que tem, é realizada com muita dificuldade. O acesso diário vem de uma caixa de água com 5 mil/litros, mas água salgada, e por isso a necessidade de testar a cultura para saber qual a que melhor se adapta as suas condições locais. Nesse sentido ele fala “aqui eu não consigo produzir alface direito, coentro eu não produzo com água salgada, então assim, hoje eu tenho água, mas não é suficiente ainda para o que a gente queria”.
O agricultor é um dos membros da APROFAM desde o seu início, evidenciou-se em seus relatos que embora ele produza com uma série de limitações, ele reconhece que não pode voltar a condição de antes em que tinham terra, mas não tinham condições de
9 Na pesquisa é utilizado pseudônimos para os participantes. 10
112 produzir, embora, hoje, as condições ainda sejam limitadas. A análise que fazemos a partir da sua narrativa, é sobre as bases que sustentam e possibilitam a resistência do grupo, de modo que dentro das suas possibilidades, constroem um discurso e uma prática que os conecta com uma realidade para além deles e delas. Nesse sentido, Ploeg (2016, p. 20) defende que os atores dessas experiências encontram e constroem outras alternativas que são desenvolvidas como possibilitadoras da construção de outra realidade, nesse sentido, afirma o autor:
Os interstícios são fendas no sistema global, buracos estruturais que surgem como resultado de massivos processos de exclusão. São os vácuos que os aparatos estatais não conseguem regular por meio da máquina institucional. Alguns desses interstícios simplesmente aparecem, outros são ativamente criados a partir de realidades quase sempre caóticas e contraditórias em que todos nós transitamos. [...] De modo geral, os interstícios são locais de lutas permanentes, berços de resistência e às vezes surgem como lugares onde são forjadas sólidas alternativas aos acordos capitalistas.
O agricultor comercializa nas feiras carnes, algumas hortaliças como alface, cheio verde, pimentão, cenoura, e também carnes de caprino, ovino e aves. O acesso a cidade não é difícil, ao contrário, dos assentamentos e comunidades participantes, pode- se considerar que o Assentamento Jurema é o que tem melhor acesso à cidade. A distância corresponde a 15 (quinze) Km da cidade. O agricultor conta com transporte próprio. Quando perguntado o que o motivou para produzir de forma agroecológica, ele relatou que desde sua infância teve contato com a agricultura através do seu avô, e esse nunca foi adepto de insumos agrotóxicos, produzia para o consumo familiar sem insumos artificiais. Em diversos momentos faz-se a relação de ausência de agrotóxico com a agroecologia. Nesse sentido, ele relatou:
Assim, meu contato com a terra vem desde criança, porque meu avô, meu bisavô eram agricultores, eles tinham um roçado muito grande e eles botavam a gente para trabalhar, aí passou para meu pai, e meu pai passou para mim que a gente deveria continuar com isso, com o contato que a gente tinha com a terra.
Nesse Assentamento, duas famílias produzem e estão associadas a Aprofam. Nos dias de comercialização Leandro José leva os produtos do outro produtor para
113 serem comercializados, quanto aos outros moradores, poucos produzem sequer para a subsistência. Em seu relato o agricultor considera que o problema está no fato da produção dos demais assentados terem se voltado, quase que exclusivamente, para o caju. Pois, segundo ele, não houve estudos prévios por parte dos órgãos governamentais competentes sobre as condições, sobretudo, de solo para orientar a produção, assim praticamente todos os assentados acessaram a empréstimos e financiamentos para investirem nessa única espécie. Hoje, em sua maioria, os cajueiros não renderam, e assim, os agricultores desse assentamento em grande parte, estão desmotivados para investir em outra forma de produção.
Atualmente, Leandro José é presidente também da Associação dos Agricultores e Agricultoras no Assentamento Jurema. O local onde realiza a produção e comercialização no Assentamento trata-se de um espaço coletivo que foi cedido pelos membros da Associação, para que ele mantenha o seu PAIS. Segundo o agricultor essa concessão foi realizada através de Assembleia e consta em Ata.
Nesse assentamento encontrou-se uma realidade parecida com a de outras unidades produtivas, ou seja, um pequeno percentual de moradores produzem ao menos para a subsistência, e a agroecologia sequer é conhecida por essas pessoas. Desse modo, compreendemos à luz de Caporal (2009) que para a transição agroecológica é necessária duas condições fundamentais, a saber, a descolonização do pensamento, pois existe por parte dos moradores dos espaços rurais certo descrédito na produção sem agrotóxicos, assim como é importante o redirecionamento das práticas e hábitos, uma vez que a agroecologia implica em um conhecimento e adoção de práticas científicas que estão relacionadas a um conhecimento holístico e sistêmico.
Assim, a adoção da agroecologia constitui-se como um desafio, uma vez que trata-se de uma mudança política, econômica e sociocultural, como afirma Caporal (2009), e assim, atitudes e valores estão relacionados nesse processo. Na experiência de produção e comercialização em questão, evidenciou-se que é o coletivo que fortalece esse processo de transição, são as muitas mãos e vozes juntas que validam e potencializam os esforços percebidos nas unidades produtivas.
As imagens abaixo apresentam o sistema de mandala do PAIS onde o agricultor cultiva hortaliças que são comercializadas no Assentamento e na feira aos sábados. Nas figuras 4 e 5 o agricultor mostra a caixa de água que utiliza para a produção diária e o galinheiro do sistema PAIS. No momento não está sendo possível a criação de galinhas devido aos constantes roubos à sua criação. Para ele, é melhor produzir nesse local
114 porque assim conta com a disponibilização de água da escola vizinha a Bodega do Bode.
Atualmente, o agricultor conta também com a tecnologia do Bioágua, que trata- se de uma tecnologia de reutilização da água, possibilitando a segurança alimentar e nutricional da família, conforme Santos et al. (2016). Essa tecnologia advém de uma parceria com professores da UFERSA da área de solos e água. Segundo o agricultor, a referida tecnologia ainda está em fase de experimento, não tendo sido analisada a primeira produção decorrente da tecnologia. No que diz respeito a utilização da mesma, o agricultor ressalta que tudo o que venha ajudar o produtor à melhora a sua produção, é bem-vindo. Sobretudo, pelo contexto de escassez do recurso água no Semiárido.
Figuras 3 e 4: Agricultor no sistema mandala e criação apícola – P.A. Jurema
115 Fonte: Pesquisa
4.2.2 Assentamento Favela: Izaura Clementino
A dinâmica de produção do Assentamento Favela difere do que se evidenciou no Assentamento Jurema, em alguns aspectos. O assentamento conta a produção agroecológica de seis mulheres, e a maioria delas está participando da Feira Agroecológica de Mossoró desde o seu início. A agricultora 2, tem 32 anos, nível superior incompleto, atualmente é graduanda de Serviço Social. Integra a feira desde o seu início. O assentamento Favela fica a 26 km de Mossoró. Para a produção agroecológica, ela conta com 15 hectares, e além da Feira, comercializa com o Programa Nacional de Alimentação Escolar – PNAE, e o Programa de Aquisição de Alimentos – PAA11, faz o processamento de popas e doces, conta com a mão de obra familiar, e só contrata mão de obra externa à família quando precisa. Quando perguntamos se os agricultores e agricultoras dividem-se para produzir os produtos para a comercialização na feira, ela respondeu:
11 O PAA foi instituído em 2003 como resultado da proposição do CONSEA e como parte da estratégia
do Fome Zero. Em 2009 foi sancionada a lei que estabelece novas diretrizes para o PNAE (CONSEA, 2009).
116 Tem alguns solos que não dá, por exemplo, para produzir a beterraba, a cenoura, e a gente tem alguns solos que tem como produzir. Então, a gente não proibiu ninguém de produzir o que quisesse, mas eu tenho o compromisso de, por exemplo, trazer a cenoura. Eu não posso deixar de ter o coentro, a alface e a rúcula.
A alimentação da família da agricultora 2 antes da feira, em relação ao que produziam era mais das hortaliças, e ela relatou que durante boa parte da sua vida viu o seu pai produzir e vender os produtos com preço muito abaixo do que valiam, pois nesse tempo, o atravessador era o único meio de escoamento da produção, assim ela relata “o atravessador chegava e comprava do preço que queria, hoje, a gente não faz isso, não faz”.
A possibilidade de acesso a outros mercados é relatada como um caminho para a sustentabilidade, pois afirma que a feira e o PNAE, por exemplo, possibilitam que ela tenha locais de comercialização de seus produtos, que em sua narrativa, permitem melhores condições do que as que tiveram seus pais:
Em 2014, o feijão que eu produzi deu para vender na feira e no PNAE, enquanto o feijão estava a R$ 6,00, eu apurei mais dinheiro do que no ano que eu vendi 30 sacos. Porque quando eu chegava na COBAL12, eu vendia à preço de banana, porque era só o que eles tinham para me dar.
Na fala da agricultora, evidenciou-se que hoje estando como produtora e vendendo diretamente ao consumidor em uma experiência que é distinta da que os seus pais tiveram, sobretudo, no que diz respeito a acesso a mercados, ela sente que seu trabalho é mais valorizado, e assim pode dar um retorno melhor para a sua família.
Durante a entrevista a agricultora mencionou que já há a demanda para outro mercado para os participantes da Feira. Trata-se da entrega a domicílio, assim ela fala “esse tem um potencial muito grande, porque tem pessoas que não tem como ir a feira, porque é cedo, e não querem ir em um sábado cedo demais, então a gente tem esse potencial”.
12 Referência a Companhia Nacional de Abastecimento que antigamente chamava-se Central de
Abastecimento de Frutas, verduras, cereais e frigorífico – COBAL em Mossoró-RN.Referência a Companhia Nacional de Abastecimento que antigamente chamava-se Central de Abastecimento de Frutas, verduras, cereais e frigorífico – COBAL em Mossoró-RN.
117 Pela fala da agricultora, ela considera que a feira agroecológica tem se fortalecido ao longo do tempo, mas muitos desafios ainda precisam ser superados, como o acesso às tecnologias, recursos e políticas públicas. Trata-se de uma narrativa que nos possibilita compreender sob que circunstâncias e cenário esses atores têm desenvolvido suas dinâmicas de trabalho, ao que nos leva igualmente, para a afirmativa de Ploeg (2016, p.23):
É verdade que as sociedades camponesas desapareceram, exatamente como uma nova forma de agricultura surgiu baseada no modelo empresarial (modelo este que envolve uma remodelação completa de muitos dos principais equilíbrios). Contudo, o modo camponês de agricultura continuou ajustando-se as novas circunstâncias e desde o início dos anos 1990 se revitalizou, se fortaleceu e se ampliou; em suma passou por um renascimento. Muitos agricultores (utilizo o termo “agricultores” como um conceito genérico que engloba muitos tipos diferentes) no mundo inteiro continuaram ou recomeçaram a produzir como camponeses. Assumem a tarefa de diversas maneiras de acordo com as exigências, dificuldades e possibilidades que têm diante de si no início do século XXI.
Atualmente, toda a família de Izaura trabalha com a produção agroecológica, e juntamente com ela, é também integrada a APROFAM a sua irmã e o seu cunhado, e Izaura ocupa a função de fiscal na Associação.
Figuras 7 e 8: A agricultora comercializando na FAM e comemoração do aniversário da APROFAM
118 4.2.2.1 Assentamento Favela: Lúcia Maria e Antônio Sebastião
O Assentamento Favela conta com 92 (noventa e duas) famílias, sendo que 8 (oito) trabalham com produção e comercialização agroecológica através do PAIS. Segundo as famílias entrevistadas, a maioria de moradores do assentamento trabalham fora no espaço urbano e não tem a prática de produzir.
A agricultora Lúcia Maria tem 61 anos, casada, ensino fundamental incompleto. A sua família é composta pelo marido, José Moreira da Silva, 59 anos, fundamental incompleto, e suas filhas de 32 e 12 anos. Lúcia e o marido são filhos de agricultores e informaram que sempre trabalharam com agricultura. Moram no Assentamento há 32 (trinta e dois) anos, e sempre morou na zona rural, os pais da agricultora trabalhavam na condição de parceiros. Perguntada se havia alguma diferença na forma que seus pais produziam e na que ela produz hoje, a mesma informou, que a maneira de agricultura é a mesma, contudo, a diferença é que hoje tem mais variedade e ela e o marido, não plantam nas terras alheias.
Na produção agroecológica trabalham apenas Lúcia e o marido. Eles produzem em uma área de 40 metros que fica no quintal de casa, contam com cisterna e o PAIS encontra-se ativo. Integraram-se a APROFAM há 3 anos e realizam o processamento de doce. Alegam que só receberam assistência técnica quando receberam o PAIS onde mantém a produção de frutas e verduras. Lúcia considera que o valor do produto comercializado nas feiras é baixo. Durante a entrevista, os produtores falaram que na ocasião em que receberam o PAIS, o mesmo não veio completo, como exemplo, citaram o sombrite que só veio 5 mts – considerando que a área de produção é 40mts. No que diz respeito a comercialização nos outros espaços de produção (CAERN; UERN e Ninho Residencial), essa família não pode participar durante a semana. Nesse assentamento as produtoras contam com transporte próprio para se dirigirem às feiras.
Quando começou a produzir, essa família mandava a produção para a feira por intermédio de outra agricultora do Assentamento, quando adquiriram o certificado de OCS (Organização de Controle Social) emitido pelo SEBRAE, passaram a ir para o espaço de comercialização. Se o produtor não frequentar assiduamente a feira, o certificado é recolhido e deixa de integrar a APROFAM. A agricultora considera que “hoje eu tenho que ter mercadoria direto, toda semana para vender aos clientes” e isso para ela é bom, pois, tem possibilitado melhoria na renda da família.
Perguntada como era a produção antes da agroecologia, ela nos respondeu “A gente plantava só para comer, plantava feijão, o milho, a macaxeira. Hoje tem mais
119 variedade, eu levo verdura, levo doce, caju. Aí tem uma variedade de mercadoria. Antigamente era praticamente só o feijão e o milho”.
Para a família, trabalhar com agroecologia representa maiores benefícios para eles, assim como para as famílias dos consumidores, pois consideram que “traz mais saúde”. A dificuldade para essa família em trabalhar com a agroecologia, diz respeito a falta de água “a gente não tem água suficiente, com a pouca água que a gente tem, vamos pelejando para manter. Mas não temos água suficiente”. Mesmo com as dificuldades de água e tecnologias, por exemplo, a família produz, e essa produção é representativa para alimentação da família, afirmaram que hoje, dificilmente se deslocam para Mossoró, porque preferem consumir o que tem em casa, o que vem da produção do quintal. Sobre as dificuldades para a produção, a agricultora afirmou sobre o custo e demais desafios:
Tem coisa que é cara, por exemplo a semente, a gente não pode comprar em quantidade, a gente sobrevive disso, então a gente vai comprando de pouquinho. A gente não tem água suficiente, então, tem que ir produzindo de pouco, a gente tem um poço aqui mas está parado. Não pagaram a conta da água, aí o poço está desativado. A gente usa água da adutora, mas não é constante, e agora com essa seca aí é que a água é pouca.
Perguntada como é a experiência de vender diretamente ao consumidor, ao que foi dito:
É melhor, né. Porque a gente vende com um preço mais justo. Pronto, porque se eu pegasse essa mercadoria e fosse vender lá na COBAL, eu venderia mais barato que nas feiras, porque os agricultores que vendem na COBAL tem o atravessador, então o produto sempre sai mais barato para o produtor, então a gente não tem atravessador, melhor para a gente.
Sobre a renda adquirida nas feiras, a agricultura afirma que é importante para a família; bem como se essa deixasse de existir o que isso representaria para ela, assim nos relatou:
É importante, porque aqui em casa só tem a minha renda, meu marido não tem salário, as minhas filhas moram comigo, então a gente vive do salário (aposentadoria) que eu recebo e das feiras. Eu ia ficar só com o meu salário. Aí ia diminuir mais para a gente, seria mais difícil.
120 Sobre a experiência de coletividade, a agricultora relatou:
Isso aí é uma coisa difícil viu? Você é acostumada a trabalhar com o individual, e aí para o coletivo, as vezes dá certo, e as vezes pode não dar certo, porque são muitas pessoas. Na APROFAM eu só vendo a mercadoria de Navegante (outra produtora), se ela não puder ir. Aí eu estou fazendo um favor a ela, mas essa história de a gente está pegando mercadoria dos outros e misturar, isso não acontece, a gente não mistura, cada um vende a sua.
Lúcia considera que a APROFAM é um trabalho individual, no sentido que cada produtor produz sozinho, contribui com a Associação e comercializa em um espaço coletivo. Nesse momento, ela fez referência a outra Cooperativa (COAFAM) a qual faz parte, e disse que nessa, o trabalho é mais difícil, as desavenças são maiores. Para a agricultora, há aspectos na APROFAM que precisam melhorar, sobretudo, para otimizar a produção, sobre esse ponto, ela afirmou:
Precisa melhorar o plano de produção, porque todo mundo leva praticamente todos os produtos, aí bóia (sobra produto). Aí se tivesse um plano de produção, dizendo o que era para cada um plantar, dizendo a quantidade, e só levando aquela quantidade, o que estava no plano, aí dava mais certo, porque ninguém ia perder a mercadoria.
Na ocasião da entrevista, a agricultora nos informou que o plano de produção havia sido solicitado pelo SEBRAE para ser entregue nos dias posteriores a entrevista. E disse ainda que há um ano já havia sido solicitado um plano, feito, contudo, não foi cumprido. Perguntou-se o que os produtores consideram em termos de necessidade para a feira agroecológica, ao que foi dito:
A água para a gente produzir, e a verba (recurso) para a gente comprar sombrite para fazer um espaço melhor, porque com esse sol, a gente planta, morre, a gente não tem como comprar, os produtos que a gente vende não dá para comprar alguma coisa (ficar com o lucro) e comprar sombrite.
Analisando a narrativa da agricultora, deparou-se com três mecanismos específicos apresentados por Ploeg (2016, p.112). Segundo o autor, a agricultura camponesa apresenta três mecanismos específicos que lhe possibilita por vezes maiores
121 níveis de rendimentos. Tratam-se do fato da agricultura camponesa chegar onde os empreendimentos capitalistas não entram, e nesse sentido, desbravam terras marginais. Em segundo lugar, as unidades camponesas apresentam um nível mais elevado de formação de capital por unidade de terra, em que se utiliza mais sementes, mais adubo e mais cavalo e boi. Em terceiro lugar, a organização da produção é regida por uma lógica distinta, pois na unidade camponesa, o objetivo é maximizar o produto líquido ou a renda do trabalho, e assim “Em suma, os camponeses promovem melhorias convertendo terra inativa em recurso produtivo, combinando-a com níveis mais elevados de trabalho e capital e orientando a produção na direção da mais alta intensidade possível de ser alcançada”. E nesse sentido, afirma ainda que contemporaneamente, muitos camponeses têm migrado da lógica capitalista de produção para a construção de novos mercados e canais de mercado.
4.2.2.2 Assentamento Favela: Viviane e José Antônio
A agricultora Viviane tem 33 anos, é casada e tem ensino médio completo. Trabalha com ela na produção o seu marido José Antônio, 32 anos, ensino médio completo. O casal tem três filhos de 16, 9 e 4 anos. Para produzir, a família conta com o PAIS que a sua irmã, Izaura, também integrante da APROFAM recebeu e cedeu a ela. O marido trabalha fora na área de construção civil. Na APROFAM, Viviane exerce a atividade de fiscal e no Assentamento é Secretária da Associação. A agricultora também é integrante da COAFAM (Cooperativa de produtores e produtoras da agricultura familiar). A família conta com uma área de 22 x17 para produção, e irá aumentar a produção, foi contemplada com recurso do Programa RN Sustentável. A família considera que desde sempre trabalha com produção agroecológica, pois nunca