hoje, continua em vigor ·.
O depoimento da professora Maria Julieta permitiu-nos perceber alguns vestígios, de como se deu a configuração da nova disciplina, Geometria Plana, na UFJF. Notamos que aproximar o desenho geométrico e a geometria euclidiana plana foi tema defendido não apenas pela professora Maria Julieta, mas compartilhado por outros professores do Departamento de Matemática da UFJF. A partir de seu depoimento, constatamos que a retirada da disciplina Desenho Geométrico da matriz curricular do curso de Matemática da UFJF foi influenciada pela convicção de que, essa, estaria sendo trabalhada apenas como um “receituário”. Dessa forma, não estaria sendo “útil”, pelo fato de o aluno não articular esse saber aos conceitos da geometria euclidiana plana.
Então, pudemos perceber que a professora Maria Julieta de Araújo atribui valor ao desenho, desde que seja trabalhado a partir ou pela geometria.
4.3 Memórias do professor Amarildo Melchiades da Silva
O professor Amarildo Melchiades se graduou em Matemática pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 1988. No período de 1993 a 1997, cursou mestrado em Educação Matemática na Universidade de Santa Úrsula (USU).
Em 1990, iniciou suas atividades profissionais na Universidade Federal de Juiz de Fora lecionando diversas disciplinas: Introdução às Variáveis Complexas, Álgebra Linear, Variáveis Complexas, Álgebra IV, Matemática Aplicada, Concepções e Tendência em Educação Matemática. Atualmente, exerce suas atividades como Professor Associado da Universidade Federal de Juiz de Fora, MG (UFJF).
No período de agosto de 2004 a julho de 2007, o professor Amarildo Melchiades da Silva assumiu o cargo de coordenador do curso de Matemática da UFJF. Em 2006, durante sua coordenação, foi ofertada uma nova matriz curricular para o curso. Esse fato se torna importante por marcar a saída da Disciplina de Desenho Geométrico das matrizes curriculares do referido curso. Desde 1969, período em que o curso de Matemática foi criado na UFJF, essa é a única vez que a disciplina não se configura nas matrizes curriculares do curso. O Desenho Geométrico, como disciplina autônoma, não mais é ofertado a partir de então.
de Licenciatura em Matemática da UFJF na década de 1980, possibilita-nos a análise da disciplina a partir de dois aspectos: seu ponto de vista enquanto aluno, e, também, como professor do curso nessa mesma instituição.
O professor nos relata que as disciplinas Desenho Geométrico I e II que cursou na graduação, ofertadas pelo Departamento de Desenho, tinham como metodologia o uso de apostilas, as quais traziam, como eixo norteador, construções geométricas com régua e compasso. A apostila proposta estava embasada em exercícios, e algumas questões teóricas iam sendo desenvolvidas paralelamente à resolução da apostila.
[…] na verdade, eu fiz a disciplina com o professor Luiz Antônio, e ele trazia todo um material já estruturado em módulos onde a gente discutia e fazia as construções. Então já tinha um material como uma apostila, tanto no Desenho Geométrico I, quanto no Desenho Geométrico II, em que a gente ia seguindo a sequência proposta pela ementa e pelo professor. As provas eram constituídas de resolução em geral, quatro problemas de desenho geométrico, de construções, em que ele avaliava, então, a metodologia que eu me lembro era basicamente essa: ia seguindo o módulo às vezes discutindo questões teóricas, mas muito fazendo as construções.
Os relatos do professor Amarildo, acerca de sua formação inicial e sua prática docente como professor do curso de Licenciatura em Matemática, tenderam a uma preocupação constante dele e de seus pares em relação ao lugar e relevância do desenho geométrico e da geometria no âmbito do curso. Porém, fica claro que, apesar de algumas discussões serem levantadas em relação ao tratamento que deveria se dar ao estudo do desenho geométrico e da geometria, a localização dessas disciplinas em departamentos diferentes dificultava o diálogo mais efetivo entre os professores, que pudesse favorecer uma ementa interligada.
Eu e vários colegas, quando éramos alunos, e depois quando professor ficávamos discutindo, o que era mais interessante: você ter uma disciplina autônoma de Desenho Geométrico e um curso de Geometria ou se essas duas disciplinas poderiam estar integradas em um único curso? Quer dizer, você fazer um curso de geometria, que ao mesmo tempo que você fizesse, estudasse geometria, você fizesse as construções geométricas? Então, o que acontecia é que a disciplina Desenho Geométrico não estava associada à disciplina Geometria do curso de Matemática. Quer dizer, uma alocada no Departamento de Desenho Técnico Projetivo, que eram o Desenho Geométrico I e II, e as Geometrias alocadas na Matemática. Então a gente percebia que as coisas não encaixavam, não tinham muita conexão. […]. […] Então às vezes você acaba tendo um problema, as disciplinas de Departamentos diferentes e tal, não tem conexão em conjunto, entendeu? Mesmo porque os professores de departamentos diferentes nem conversam muito. Ou nada. Às vezes quando é do mesmo departamento não conversam, então você imagina de outros departamentos. Então ficava uma coisa fragmentada em termos de construção, o conjunto da obra. Eu hoje ainda não consigo ver ela conectada, entendeu?[...].
Quanto às concepções do professor Amarildo, constatamos que ele considerava importante oferecer o desenho geométrico e a geometria em uma única disciplina, pois, segundo ele, isso ofereceria ao aluno a possibilidade de conectar tais conteúdos. Dessa forma, o desenho geométrico seria útil para ilustrar a geometria assim como traria às construções geométricas justificações algébricas, a partir da geometria euclidiana plana.
[...] eu acho que essa disciplina integrada à geometria seria muito interessante, porque você poderia trabalhar os dois lados, né? Você faz uma construção geométrica e justifica algebricamente, ou faz uma construção algébrica e justifica geometricamente. Então essa revelação daria dois modos de produção de significados para os alunos poderem atuar e pensar sobre eles [...].
Ao ser perguntado, em que medida os professores do Departamento de Matemática participavam da elaboração da ementa e da metodologia a ser utilizada na disciplina de Desenho Geométrico no curso de Licenciatura em Matemática, o professor Amarildo nos relata que:
Não tinha essa possibilidade. Nós nunca participamos disso. Na verdade o que você tinha em discurso dentro do Departamento de Matemática era que a disciplina Desenho Geométrico podia estar integrada à Geometria [...]. […] Aí tem uma coisa que é o seguinte: para ser muito honesto, tudo que não está dentro da grade do curso de matemática, que é obrigação dos professores de matemática, os colegas às vezes não têm muita preocupação. Então as disciplinas que são dadas em outros departamentos é algo que não passa muito pela preocupação de alguns colegas. Passaria ou daria atenção se isso estivesse dentro, porque aí surgem as questões: quem que vai dar esse tipo de coisa. Mas eu nunca... o máximo que eu vi, e eu me coloco nisso também, foi esse pensamento. Existia uma possibilidade de que se ela fosse integrada seria melhor.
Verifica-se no discurso do professor que, enquanto a disciplina estava sob a responsabilidade do Departamento de Desenho, não havia uma preocupação do corpo de professores do Departamento de Matemática com a ementa dessa disciplina. No entanto, a partir do momento que a disciplina passou a fazer parte das disciplinas oferecidas pelo Departamento de Matemática, os professores começaram a analisar sua estrutura curricular.
Ao ser questionado sobre os motivos que levaram à reestruturação do currículo do curso de Matemática em 2005, o professor nos narra que um dos fatores foi a necessidade de se diminuir o número de disciplinas da matriz curricular do curso de Matemática. Fato que, segundo o professor Amarildo, levou à retirada da disciplina de Desenho Geométrico I em 2005.
Geométrico e a Geometria em uma única disciplina a partir de 2006, foi a necessidade de se diminuir o campo disciplinar ofertado pelo Departamento de Matemática, consequência da saída de professores, no período, para capacitação. A dificuldade em substituir os professores também contribuiu para que o Departamento de Matemática procurasse diminuir o número de disciplinas.
Havia, também, uma preocupação do professor quanto à forma como a disciplina de Geometria vinha sendo ministrada a partir de 2006. Para ele, dependendo do perfil do professor que fosse responsável pela disciplina, em um determinado período, o conteúdo construções geométricas poderia ou não ser contemplado.
[…] Então eu penso que talvez tenha acontecido isso com a disciplina Desenho Geométrico. Quer dizer, sugeriu-se que ela deveria estar interna ao curso de Geometria, mas e aí, dependendo do perfil do professor, se ele tem uma visão que a Geometria deveria ser ensinada de uma maneira axiomática dedutiva, ele não faz o desenho geométrico lá dentro. Mesmo quando está sugerido que faça. Então começa a ter um outro tipo de problema, que é projetar, quer dizer, você faz uma projeção e ela não acontece por causa da concepção do professor. Então eu acho que o que aconteceu naquele momento foi um pouco isso, quer dizer, acho que a gente estava muito preocupado era enxugar o currículo do Departamento de Matemática um pouco. Bom, mas enxugar com cuidado, né? […].
[…] É. Eu acho que essa ideia de enxugar o currículo de um tempo para cá sempre passou a existir. Para você ter uma ideia, quando eu fui aluno eu fazia quatro cálculos. Cálculo I, II, III e IV. Desde a década... acho que no meio da década de 90, suas estruturações, ou talvez 2000 em diante, você começa a ter dois cursos de cálculo.
[…] teve um momento que quase que fechou o departamento para todo mundo se doutorar. Quer dizer, você tinha uma saída de vários professores, outros ficavam segurando as pontas aqui com 16 créditos semanais, que na Universidade as pessoas acham muito... Então o quê que acontecia? Um dos caminhos que o Departamento encontrou foi enxugar.
O professor Amarildo nos relata que o fim do Departamento de Desenho e, consequentemente, a transferência da disciplina Desenho Geométrico para o Departamento de Matemática foi o fator decisivo para levar a fusão do Desenho Geométrico e a Geometria, pois, segundo ele, essa concepção era defendida por seus pares do Departamento de Matemática. Observemos a fala do professor:
O que eu posso vislumbrar sobre isso talvez seja essa ideia que eu via vários colegas tendo dentro do Departamento de Matemática de que o Desenho Geométrico deveria aparecer dentro do curso de Geometria. Acho que essa é a minha questão mais forte. Então isso já estava na cabeça das pessoas. No dia em que essa disciplina vem pra dentro do departamento, é natural que ela não fosse uma disciplina autônoma.
A partir do depoimento desse professor, pudemos perceber alguns elementos que levaram ao enfraquecimento da disciplina de Desenho Geométrico no curso de
Matemática da UFJF, bem como os motivos que levaram à sua retirada em 2005, da matriz curricular do curso tais como, a necessidade de se diminuir o número de disciplinas da referida matriz do curso de Matemática, além de diminuir a sobrecarga de disciplinas sob a responsabilidade do Departamento.
A convicção, não apenas do professor Amarildo, como de outros professores do Departamento de Matemática, de que a Geometria e o Desenho Geométrico deveriam ser trabalhados em uma única disciplina foi outro fator que levou a extinção da disciplina. Segundo essa concepção, oferecer as disciplinas de forma autônoma levaria ao ensino fragmentado e desconectado. Então, o ensino de desenho geométrico, no curso de Licenciatura em Matemática, segundo esse professor, teria maior relevância se estivesse a serviço da geometria, e, por conseguinte, a geometria traria ao desenho geométrico justificações teóricas.
Na contramão das concepções desse professor, bem como das concepções dos outros dois entrevistados anteriormente, temos a visão, ou melhor dizendo, concepções de outros professores que também atuaram e ou atuam como docentes no referido curso. Assim buscamos, ainda, as memórias de professores que exerceram suas atividades no Departamento de Desenho da UFJF. Esse Departamento foi o responsável em ofertar a disciplina Desenho Geométrico para o curso de Matemática dessa instituição no período de 1969 a 2003.
Dessa forma, às memórias dos professores do Departamento de Matemática seguir-se-ão às dos professores Luiz Antônio da Cunha, Regina Coeli Moraes Kopke e Adlai Ralph Detoni, pertencentes ao extinto Departamento de Desenho, essenciais à nossa investigação.