A estabilidade do Desenho Geométrico constituiu-se, para a presente pesquisa, no segundo momento, pois, apesar de haver, nas décadas de 1980 e 1990, uma valorização dos saberes da Matemática pura no curso, o Desenho Geométrico continuou sendo trabalhado da mesma maneira que fora no final da
década anterior, isto é, ministrada em duas disciplinas de 4 créditos cada e utilizando-se do material produzido pelo professor Luiz Antônio da Cunha.
O aumento de mais de 50% no cômputo de disciplinas ofertadas pelo Departamento de Matemática para o curso de Licenciatura é um dos elementos que indicam que a ênfase do curso, neste período, foi no ensino da “Matemática pura”. Em seu depoimento, o professor Alberto Raad (2013) afirma que havia uma “ideia”, compartilhada pelos docentes do curso, de se “fazer uma licenciatura forte” objetivando preparar os alunos para um curso de mestrado “sem as deficiências” ou “os vácuos” que ele e os demais docentes tiveram na própria formação.
Nessa altura, podemos levantar a hipótese de que a inserção da disciplina Português I na matriz curricular do curso de Licenciatura em Matemática, no início da década de 1980, paradoxalmente tem como objetivo preparar os alunos para a pós-graduação. Essa iniciativa se alinha com as concepções informalmente expressas por alguns professores do Departamento de Matemática. Tal disciplina abordava técnicas e normas para formatação de trabalhos acadêmicos, não havendo uma preocupação em desenvolver habilidades linguísticas para a formação inicial do professor da Educação Básica.
A concepção expressada, nas décadas 1980 e 1990, quanto ao que seria uma “boa” licenciatura em Matemática, mostra-se condizente ao contexto histórico em que essa licenciatura estava inserida, tendo nos livros, disciplinas e professores uma forte influência das concepções bourbakistas de Matemática. De maneira reduzida, pode-se dizer que nessa concepção é dada ênfase à Álgebra e à Teoria dos Conjuntos.
Na década de 1980 houve a inclusão das disciplinas: Álgebra II e III, Álgebra Linear II, Análise Matemática, Introdução à Variáveis Complexas, Cálculo III e IV na Licenciatura em Matemática. Esse quadro alterou significativamente a proporção de disciplinas sob a responsabilidade do Departamento de Matemática na Licenciatura, passando a oferecer 24 de um total de 47 disciplinas ao curso.
Cabe destacar a formação continuada do professor Alberto Raad que, ao cursar mestrado em Matemática, na segunda metade da década de 1970, esteve sob a influência da concepção bourbakista de Matemática. A reforma curricular ocorrida no curso de Matemática da UFJF na década de 1980 teve no professor Alberto Raad um dos principais articuladores.
Conforme dissemos, nas décadas de 1980 e 1990, o Desenho Geométrico se configurou de forma estável na matriz curricular do curso de Matemática da UFJF,
uma vez que se manteve inalterado quanto ao número de disciplinas e créditos semanais, como também, quanto à ementa utilizada e quanto ao material didático.
O material didático referencial para a disciplina de Desenho Geométrico ao longo de sua existência na UFJF, elaborado pelo professor Luiz Antônio da Cunha, resumia-se em notas de aulas organizadas por ele, as quais partiam de sua experiência docente. Essas notas de aula foram pioneiras em um tempo em que havia escassez de bibliografias, pois, ao sistematizar o conhecimento, contribuíram para a estabilidade dessa disciplina. A inspiração para elaboração deste material, em grande medida, partiu de apostilas de cursinhos que preparavam os alunos para a universidade.
Ao assumir a disciplina em 1988, o professor Adlai Detoni fez uso do mesmo material organizado pelo professor Luiz Antônio da Cunha. Esse material foi parâmetro para o trabalho dessa disciplina durante, praticamente, todo o período em que esteve presente no curso de Licenciatura em Matemática da UFJF.
A estabilidade do Desenho Geométrico nesse período também pode ser compreendida, em alguma medida, pelo fato de o mercado de trabalho ainda absorver o professor com essa habilitação na Educação Básica, conforme apontam Zuin (2001) e Machado (2012). As entrevistas realizadas com os professores Alberto Raad e Luiz Antônio da Cunha, por sua vez, também reforçam essa tese, na medida em que afirmam que o Desenho continuou a ser valorizado no currículo do curso de Matemática da UFJF para garantir ao licenciando o direito de ministrar essa disciplina na Educação Básica. O fato do Desenho Geométrico não ser pré-requisito para nenhuma outra disciplina do curso, reforça essa ideia.
Consoante a análise da entrevista realizada, constatamos que o professor Alberto Raad percebia uma compartimentalização dos Departamentos na gestão do curso. Dessa forma, o tratamento dado à disciplina, no que se refere às bibliografias, metodologias, ou objetivos a alcançar no ensino, ficava sob o controle do Departamento responsável em lecioná-la, não sofrendo ingerências. Assim, estar sob a responsabilidade do Departamento de Desenho nas décadas de 1970 a 1990, também ofereceu ao Desenho certa estabilidade.
No Departamento de Desenho, segundo a fala dos professores Adlai Detoni e Regina Kopke, esse saber tinha como foco não apenas a materialização de elementos da geometria euclidiana plana, mas, também, a percepção de inúmeras possibilidades do espaço gráfico. Esse entendimento mais amplo não conferia à disciplina a função de apenas ilustrar ou concretizar a Matemática, mas exigia, para
si, espaço próprio.
Contraditoriamente, no final dos anos de 1990 e início dos anos 2000, verificamos que os mesmos fatores que trouxeram estabilidade à disciplina Desenho Geométrica durante as décadas anteriores, também contribuíram para a sua extinção. Esse contexto delineia o terceiro e último momento em que essa disciplina esteve presente na matriz curricular do curso de Licenciatura em Matemática da UFJF.