2.8 Techniques d’implémentation utilisées dans les machines virtuelles
2.8.5 Hachage parfait
Habermas publicou um breve artigo sob o título de “Amor, Trabalho e Reconhecimento”, no jornal Zeit, em 18/07/2009, traduzido e publicado no Brasil pela Revista Educação e Filosofia Uberlândia, em 2011, no qual homenageia Honneth por ocasião da passagem de seu sexagésimo aniversário e realiza uma breve apresentação da sua obra sociofilosófica.
Segundo Habermas (2011), o olhar sobre resistências manifestas, motivadas por “experiências de desrespeito”, tem um alcance limitado, pois nas sociedades avançadas relativamente estáveis, ele não penetra nas camadas mais internas das relações sociais, mesmo com crescimento destas “experiências de degradação social”, que assumem um status de “naturalização das desigualdades”.
Atento a essa limitação da Teoria do Reconhecimento, em desvelar aquelas patologias normalizadas, silenciosas, cujas raízes se estendem a níveis mais discretos da integridade ferida de grupos e indivíduos, Honneth vem buscando aguçar o olhar para essas patologias, focando-o para os sintomas não espetaculares, infeccionados, de patologias ocultas, mediante a sintonia fina do instrumental conceitual da teoria do reconhecimento, que precisa também ser sensível às consequências mais sutis do “reconhecimento negado”.
Em sua breve análise, Habermas (2011) afirma que Honneth sabe que ele não pode desviar-se para uma “psicologia do reconhecimento”, se a teoria do reconhecimento devesse ser uma chave para a compreensão das patologias sociais.
Tendo consciência dos limites de uma teoria social de largo alcance, como é o caso da teoria social de base normativa fundada no primado do reconhecimento, Honneth tem desenvolvido esforços para aprimorar sua matriz teórica, como foi o caso do frutífero debate com Nancy Fraser, com Avishai Margalit e Joel Witebook. (SAAVEDRA, 2008, p.29)
Segundo Matos (2004), Nancy Fraser critica o monismo teórico de Honneth que conduz à subsunção das lutas por distribuição de renda ao reconhecimento, e, diferentemente deste, esta propõe uma perspectiva dualista de análise dos conflitos sociais, mediante a articulação da categoria reconhecimento com a redistribuição, com o objetivo de pensar um “conceito de justiça social” que agregue essas duas
dimensões, possibilitando, assim, uma teorização da cultura no capitalismo contemporâneo.
O debate entre Honneth e Fraser (2001) suscitou muita atenção e, de certa maneira se relaciona com a produção do canadense Charles Taylor, constituindo-se a obra destes três autores, a produção teórica de maior relevância sobre a temática do reconhecimento nos tempos atuais, na qual cada um, à sua maneira e segundo abordagens diferenciadas, ressaltam diferentes clivagens da teorização do reconhecimento, porém sob a concordância da central da importância desta categoria social para compreensão da sociedade contemporânea e de seu desenvolvimento.
Minha posição pessoal, a exemplo da pesquisa desenvolvida por Matos (2004) e Mendonça (2009), apesar de reconhecer que ainda há um longo caminho a ser percorrido, principalmente no campo empírico, para a consolidação da teoria do reconhecimento, defendo que esta se encontra bem mais desenvolvida em Honneth, onde sua abordagem da categoria reconhecimento é suficientemente ampla para dar conta tanto da dimensão intersubjetiva da auto-realização, quanto das lutas redistributivas.
Honneth, ciente dos limites de sua teoria e buscando ampliar o seu olhar micrológico das patologias sociais, delineia, em 2005, um refinamento complementar de sua mirada teórica mediante um deslocamento do conceito lukacsiano de reificação, explicitado em seu pequeno livro “Verdinchung” (Reificación: un estudio en la teoría del reconocimiento, 2007), e, em um breve artigo publicado no Brasil, em 2008, sob o título de “Observações sobre a Reificação”, onde retoma a clássica categoria da reificação, porém deslocada de sua tradição marxista pelo recurso a uma interpretação desta segundo os princípios da teoria do reconhecimento.
De certa maneira, foi a partir do debate com Nancy Fraser e outros autores, que Honneth inseriu esta nova dimensão existencial à sua teoria do reconhecimento, assumindo que a primeira esfera de reconhecimento do amor também possui um potencial normativo, por ser elemento essencial nas relações intersubjetivas dos modos de reconhecimento, tendo primazia sobre os demais na condição de um reconhecimento elementar.
De acordo com Saavedra (2008), Honneth não deixa claro, em sua obra Luta por Reconhecimento, se as esferas de reconhecimento deveriam ser interpretadas como parte de uma antropologia ou se elas deveriam ser vistas como resultado de um processo histórico. Essa tensão se deixa revelar na medida em que a esfera do amor é
caracterizada com fortes elementos antropológicos, enquanto as esferas do direito e da solidariedade são definidas como esferas do campo sócio-histórico.
A antropologia filosófica presente na obra de Honneth considera que o modo de reconhecer precede o modo de conhecer, caracterizando o primado do reconhecimento na sua dimensão existencial, a qual deve ser compreendida como o modo de reconhecimento mais fundamental, que serve de base para as demais esferas do reconhecimento. Dessa maneira, o modo de reconhecimento afetivo do amor constitui-se na dimensão antropológica que fundamenta os demais modos sócio- históricos do reconhecimento, que dependem deste “reconhecimento elementar”.
Honneth insere na sua teoria a dimensão existencial do reconhecimento mediante uma reinterpretação do conceito lukacsiano da reificação, recorrendo ao primado do reconhecimento como fundante da sociabilidade humana, porém sem afastar-se do legado crítico habermasiano, do qual é considerado seu principal herdeiro.
Dalbosco (2011) evidencia que a motivação de Honneth em voltar-se para o tema da reificação teve como partida a dificuldade de uma explicação sociológica para o genocídio industrializado, enquanto “práxis horrível”, que caracterizou a história da humanidade. Honneth compreende que a origem de tal práxis se encontra no fenômeno da reificação como forma genuína de esquecimento do reconhecimento, que caracteriza a forma mais radical de destruição do laço (sentimento) originário que une as pessoas umas às outras. (DALBOSCO, 2011, p.25)
No Livro Verdinglinhung (Reificação), de 2005, Honneth, apud Dalbosco (2011), aponta três razões básicas que justificam a atualidade do conceito de reificação para a diagnose de nossa época: a) as narrativas que ampliam a aura estética de economicização da vida; b) o sujeito contemporâneo manipulado pelo processo de mercantilização dos sentimentos; e, c) as formas grassas de utilização instrumental das pessoas. Sob tais contextos éticos a reificação é concebida como modo de procedimento que toma os sujeitos não de acordo com suas propriedades humanas, mas sim como objetos mortos sem sentimentos. (Honneth, 2005, apud DABOSCO, 2011, p.35-36)
Não trataremos aqui, em função do escopo de nossa análise, da abordagem metodológica utilizada por Honneth para proceder a sua exegese do conceito de reificação formulado por Lukács. Apenas nos limitamos a sintetizar, em linhas gerais, que este realiza uma reconstituição crítica deste conceito, por meio de uma dupla
abordagem interpretativa com base numa “versão oficial” e outra “não oficial”. Na “versão oficial” a reificação é tomada no sentido próximo ao conceito marxista de “fetichismo da mercadoria” e de processo de “coisificação” do especificamente humano.
Segundo Dalbosco (2011), no que concerne a versão “não oficial”, na qual Honneth ancora sua concepção de reificação, Lukács distancia-se do sentido marxista na medida em que analisa os efeitos de coações que a reificação provoca, em contextos sociais capitalistas, na totalidade da vida cotidiana, na qual este chega a sua tese de que no capitalismo a reificação torna-se a “segunda natureza” das pessoas. Nessa, segunda versão, a análise crítica de Honneth aponta que o critério funcionalista de trocas econômicas mostra-se insuficiente para explicar esta “segunda natureza”, cujo enfrentamento exige uma ideia de ação humana para além da esfera econômica.
Saavedra (2008), analisando a dimensão antropológica da teoria de Honneth, afirma que este compreende que a forma de vida humana possui um excedente em reflexibilidade que está fundado em uma compreensão coletiva dos princípios basilares da moral, na qual o sujeito humano aprende a apreender os outros sujeitos como sujeitos com intencionalidade, ou seja, que não agem necessariamente conforme a sua vontade. Assim posto, a categoria social do reconhecimento está diretamente vinculada à autoconsciência e ao fenômeno da reificação, enquanto forma de esquecimento do reconhecimento, representando uma falha nesse processo de aprendizagem.
A dimensão existencial do reconhecimento, introduzida por Honneth a partir da ampliação do conceito lukacsiano de reificação, desloca a interpretação desta categoria social fundamental para a compreensão das patologias sociais de nossa época do contexto objetivante do funcionalismo economicista, para situá-la no plano da práxis social cotidiana, ou seja, das relações intersubjetivas do mundo vivido, estabelecendo o nexo da reificação com o reconhecimento no plano antropológico de uma práxis rotineira de seu esquecimento.
Para Dalbosco (2011), o fenômeno da reificação deve ainda se constituir uma das preocupações centrais da educação e a possibilidade de sua atualização depende do confronto crítico com o conceito de reconhecimento. Com base na teoria crítica de Honneth, o citado autor defende a tese, com a qual concordamos, de que um “conceito crítico de educação só se deixa sustentar com base na recusa decidida a qualquer
forma de reificação, encontrando tal recusa amparo conceitual na teoria do reconhecimento”.
Outro conceito crítico na constelação conceitual em torno do reconhecimento e que pode contribuir para alargar o espectro investigativo sobre a formação integrada é “o conceito de autonomia”, tomado na sua condição ampla de categoria social e não como mero instrumento de emancipação política.
Tomamos como fundamentação para estabelecimento dos nexos entre reconhecimento e autonomia o estudo desenvolvido por Flinckinger (2010), no qual o referido autor recorre à fundamentação kantiana de autonomia e aos argumentos hegelianos do reconhecimento, para afirmar que é possível revelar a relação mútua entre estas duas categorias sociais fundamentais.
Flinckinger (2010) aponta que a ideia de autonomia emerge dos ideais iluministas, mediante a aposta na libertação do homem moderno da camisa-de-força da sociedade medieval, passando o indivíduo autônomo a assumir as responsabilidades de suas ações no mundo. Tal radical mudança exigia a formação deste novo homem para vida autônoma, cabendo à educação um papel fundamental nessa tarefa.
Para relacionar autonomia e reconhecimento, como conceitos-chave desta formação, o citado autor analisa separadamente o sentido pedagógico destas categorias para em seguida estabelecer um nexo de interdependência entre autonomia pessoal e reconhecimento social.
Flinkinger (2010) toma o conceito de autonomia partindo do legado iluminista kantiano de levar o homem a superar sua menoridade e conduzi-lo a sua maioridade esclarecida, mas tomando-o não como uma determinação atomística, mas pressupondo um referencial intersubjetivo no qual o conceito de autonomia assume o status de uma categoria essencialmente social. Assim, o sentido pedagógico da autonomia está associado com o potencial formativo do processo de conquista das condições do exercício da autonomia pessoal enquanto determinação social, cabendo à educação contribuir, em última instância, para o esclarecimento e aceitação deste fundo social da ideia de autonomia.
O sentido pedagógico do reconhecimento é tomado por Flinkinger (2010) considerando que a educação é um processo de construção da sociabilidade e que, neste sentido, pressupõe a relação de reconhecimento entre os indivíduos, fundamentada na concepção hegeliana de luta por reconhecimento, segundo a qual a
liberdade e a autonomia somente seriam possíveis à base do reconhecimento mútuo dos indivíduos.
Para Flinkinger (2010), a utopia real do reconhecimento hegeliano subjaz na Teoria do Reconhecimento de Honneth, na qual a “luta por reconhecimento” deve ser vista como o pressuposto ético-moral para a conquista ou ampliação da autonomia e da autoestima dos indivíduos. Para este autor, o cerne dessas considerações, para a temática de estabelecimento de vínculos de interdependência entre a categoria social do reconhecimento e a práxis educativa, se insere na tese de que o reconhecimento social providenciaria a condição para o desenvolvimento da autoestima do indivíduo no convívio com seu ambiente social, cuja valorização é considerada a base da autonomia pessoal. Neste sentido evidencia-se a importância da teoria do reconhecimento de Honneth no fundamento ético-moral que subjaz à constituição dos processos educativos, assim como de quaisquer processos que envolvam relações intersubjetivas com pretensões de contribuir para a valorização social.
Segundo Flinkinger (2010), há uma relação essencialmente reflexiva entre as categorias autonomia e reconhecimento, na qual uma pressupõe a outra, e compõe a diretriz básica para os processos que visam à conquista da maioridade, autonomia e liberdades pessoais, cabendo à educação assumir, antes de tudo, o desafio de ajudar o educando a alcançar uma postura de reconhecimento social, mediante a qual ele mesmo consiga conquistar sua autoestima e autonomia individual necessária à sua auto-realização pessoal e social.
Uma educação que vá além da mera inclusão social, mas que conduza ao desenvolvimento de uma postura social de respeito às diferenças e de reconhecimento do outro como base para a formação para a emancipação, uma formação que integre a formação geral e científica com a formação cultural e política e que nutre a pretensão de ser uma formação omnilateral, como é o caso da formação integrada, somente poderá encontrar sustentação em seus princípios educativos se efetivamente buscar no acoplamento estrutural entre trabalho e reconhecimento uma concepção ampliada de trabalho como princípio educativo de uma formação para autonomia e para a rejeição de qualquer forma de reificação.
3.2 Experiência e Reconhecimento: categorias complementares para a análise