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Novidade e familiaridade são, para E. Cohen (1973, 1979), apontados como elementos essenciais da experiência turística. O ca- ráter variável das práticas de viagem, portanto, reside na maior ên- fase, por parte dos sujeitos viajantes, em um dos dois termos ex- postos. Para alguns turistas, mesmo ao se visitar outra localidade, região ou país, é preciso acionar “lembretes de familiaridade”. Tais lembretes – incorporados, por exemplo, nos atos de se hospedar em um hotel pertencente a uma grande cadeia, comer em um restau- rante de “comida internacional” ou deslocar-se pelo destino a partir do uso de transportes particulares arranjados por empresas turís- ticas ou guias contratados – funcionam no sentido de evitar as im- pressões ameaçadoras ou não prazerosas que um encontro com a alteridade pode vir a causar.

Desse modo, neste tipo de experiência turística, a fruição do exterior – leia-se, da localidade visitada – faz-se mobilizando uma microambiência pautada pela noção de familiaridade (proporcionada

organização para ser elaborado. Para se fruir o presente, através das viagens, é preciso pensar, mesmo que minimamente, em uma perspectiva futura – organizando-se em termos orçamen- tários ou documentais. O que é importante frisar, desse modo, é a existência de uma raciona- lidade, de uma experiência nômica, mesmo em relação a algo que colocaria em suspensão os sistemas de regras cotidianas. Para tal suspensão acontecer, por fim, um cotidiano de organi- zação e racionalidade deve estabelecer-se nos períodos pré-viagens, o que contraria certo ima- ginário presente também entre vários viajantes de que seus percursos se fazem apenas de maneira intuitiva, espontânea e independente.

pelos pacotes turísticos com suas atividades previamente fixadas, coordenadas pela ação de um guia ou “animador de excursões”), ou seja, é a vivência dentro de uma “bolha ambiental” (BOORSTIN, 1961; COHEN, 1972) que negocia com a estranheza local ao transpor para o trânsito elementos da cultura nativa do viajante, o que é deman- dado.93 No entanto, o polo da novidade pode ser enfatizado em ou-

tras modalidades de experiência turística, reclamando para os deslo- camentos uma compleição menos mediada e mais independente; esse é o caso das práticas de viagem aqui analisadas.

Para Marc, Benny e Ceci, os roteiros não são “dados” ou “ofere- cidos” por uma agência turística que se encarregará de coordenar todas as dimensões que envolvem uma viagem. Ao contrário, a indi- cação do percurso a ser seguido é produto de um processo de cons- trução bastante caro aos sujeitos. Poder escolher o sentido e os des- tinos de uma jornada é, portanto, elemento de distinção no que se refere a um modelo turístico que Cohen chamou de “convencional” ou de “massa”. Há, desse modo, nas experiências dos interlocutores aqui apresentados, uma posição de centralidade reservada a uma atuação reflexiva, ao poder de agência dos indivíduos. Mesmo as es- colhas de destinos sendo incontornavelmente encompassadas por um “campo de possibilidades” (VELHO, 1994), norteado em grande medida por fatores como orçamento ou aquisição da documentação exigida, há um processo de fabricação, de escolha ou de autoria da rota pela qual se vai viajar, que é definidor da prática.

Se no discurso de Benny, representado em tópico anterior, um dos elementos que o faz valorizar as viagens é a possibilidade de ser em trânsito “quem se quer ser”, talvez o mesmo possa ser dito em re- lação à disposição de tomar os roteiros ou rotas não como dados e sim como produtos de criação singular, não obstante as diversas restrições

93 O termo “bolha ambiental” ou “bolha de proteção” também é recorrente nas reflexões sobre turismo, também sendo trabalho por Urry (1999). Para o sociólogo inglês, a “bolha” tem um sentido bastante próximo daqueles definidos por Cohen (1972) e Boorstin (1961), sendo con- siderada uma exigência de visitantes que participam de pacotes turísticos, em que se esperam apenas “padrões ocidentais de acomodação e alimentação”, além de um atendimento pessoal bilíngue. Ainda, segundo o autor, os participantes da “bolha” dificilmente a deixam, correndo o risco de serem infantilizados pelos profissionais com os quais tratam.

já destacadas. Assim é que parece não ser absurdo dizer que um ele- mento de valorização das viagens de longa duração, que procuram se fazer de forma independente da ação dos pacotes turísticos, é a possi- bilidade de “ir para onde quiser”. Sobre a questão, Marc discorre:

Eu já conversei com gente que diz que conhece a Europa, que já foi para vários países. Depois, quando pergunto como foi, eles dizem pouca coisa, porque ficaram apenas um ou dois dias em cada cidade ou país. Eu não me sentiria satisfeito com uma viagem em que tem hora para tudo, em que eu não posso ir ou deixar de ir para onde quiser.

Ceci também é possuidora de uma opinião semelhante:

A Austrália é cheia de empresas turísticas, mas eu fico imagi- nando o quão entediante deve ser ter todo o seu dia planejado. Quando estive na Ásia, não contratei guias, nem disse para mim: vou ficar tantos dias nesse lugar e outros tantos naquele. Aqui na Europa, menos ainda.

Debruçando-se sobre os relatos de Marc e Ceci, é possível perceber que à viagem em si, à saída da rotina, deve ser acrescen- tada a sensação de protagonismo em relação à feitura do trânsito. A criação do roteiro é um exercício de autonomia que se funde ao desejo de evadir-se dos sistemas prescritivos das comunidades de origem dos viajantes. Trabalhar com a ideia de um roteiro pro- posto por um terceiro, a empresa turística, talvez seja reafirmar a posição de Krippendorf (1987) de que, quando se viaja, leva-se também algo de seu cotidiano na mala; parece-me ser justamente isso que meus interlocutores tentam evitar. Logo, se há uma agência que é tomada como parte central das práticas de viagem em apreciação, ela de modo algum é a agência turística, e sim a capacidade criacional dos sujeitos ante seus próprios percursos. Disso, deriva o termo “poética do deslocamento”, utilizado em ou- tros momentos dessa obra muito mais para sinalizar o caráter de fabricação deste tipo de viagem que qualquer consideração român- tica acerca de tais práticas.

Diante da formação de um roteiro, efetivamente, as motiva- ções particulares de cada sujeito são mobilizadas. A escolha do des- tino, então, se relaciona estreitamente com o escopo da viagem. Dentro de uma perspectiva que valoriza os circuitos artísticos legiti- mados, por exemplo, destinações como Florença, Roma e Paris certa- mente serão objeto de visitação. Desde os tempos do Grand Tour (TOWNER, 1985) é sabido que Itália e França figuram como destinos fundamentais nas viagens executadas a partir de tais motivações. Entre sujeitos que priorizam experiências musicais, como um outro exemplo, surgem roteiros que se estruturam a partir dos grandes festivais europeus ou mesmo encontrando lugar em outros conti- nentes, como parece ser o caso dos amantes da música trance estu- dados por D´Andrea (2007)94 Marc, Benny e Ceci; não se apresentam

como exceções, suas rotas são forjadas em um constante diálogo com suas disposições motivacionais.