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Dans le document Africa in figures 1997 (Page 55-60)

Primeira cidade brasileira que efetivamente nasce como cidade (TEIXEIRA,

TEIXEIRA e MARCONI, 1978,p.XI - 1), Salvador tem como estrutura inicial a praça

administrativa, o arruamento próximo, portas de defesa e porto (Fig. 01). A primeira praça de Salvador, a Praça do Palácio, configura-se como um quadrilátero seco, resultante do parcelamento que compõe o seu entorno, trazendo o objetivo de concentrar as edificações do governo nas três instâncias – Legislativo, Executivo e Judiciário, embora abrigasse no primeiro momento, somente as duas primeiras.

a)

b)

O palácio dos governadores, ao sul, a casa de câmara e cadeia, a leste, ao norte a casa da fazenda, alfândega e armazéns, deixavam a escarpa livre, somente com peças de artilharia. Complementavam a organização casas pertencentes aos administradores e operários, e o pelourinho, no centro (Ufba, Faufba-Ceab, 1998, p.32-33).

(c) Fig. 01 c. Esboço da 1ª casa dos Governadores, construção em taipa 1949. Fonte E.

O parcelamento se fez segundo o modelo do urbanismo medieval português, onde a topografia determinava tudo, desde a estruturação dos caminhos à configuração dos lotes, normalmente estreitos e compridos que deveriam permitir bom escoamento de águas. A definição das ruas determinava as quadras e, ao mesmo tempo, os lotes que respondiam a solicitações dos usuários, ainda em construções precárias (MARX, 1988, p.94-95).

Pode-se perceber a estruturação do núcleo matriz em dois eixos principais que se cruzam ortogonalmente, estabelecidos segundo a direção sudeste / noroeste, sentido cidade / porto, e nordeste / suldoeste pela previsível expansão urbana que indicava para a cidade um desenvolvimento longitudinal sobre a cumeada, ao longo da baía, como elemento principal para estruturação do seu tecido. Entretanto, na área da praça administrativa, fica clara a prevalência da sua relação com a área baixa, definida diretamente pela encosta, onde imediatamente se configuram caminhos íngremes, executados para atender aos deslocamentos e à comunicação, que, na época, prioritariamente acontecia por via marítima.

A cidade fortificada protegia-se externamente de outras potências da Europa pelos fortes localizados na entrada da Baía de Todos-os-Santos: Santo Antônio da Barra (1583) e Mont Serrat (1583/87). Essas construções constituiriam uma nova paisagem no “sítio natural” que, até então, somente sofria intervenções provenientes de tentativas de domínio e explorações incipientes e externas, ou das

187). A arquitetura militar define a paisagem de Salvador desde os seus fortes, suas portas de defesa, seus baluartes, suas muralhas e quartéis, entre outros tipos. Posicionados estrategicamente, os seus largos para treino, organização e manobra das tropas e equipamentos de artilharia em muito contribuíram para a definição do

tecido urbano, como se verá mais à frente.4

Ainda em finais do século XVI, articulados às atividades do porto, na parte baixa e estreita da cidade, surgiam estaleiros e um comércio correspondente. Salvador já funcionava como centro de importação e exportação, como entreposto de troca de produtos vindo de Portugal, de escravos trazidos da África e remessas de açúcar produzido na área do Recôncavo baiano. Cidade da não produção, mas do controle comercial, ideia fundamental que condiciona a sua forma urbana (SAMPAIO, 1998, p.48-49).

Conjunto articulado por caminhos irregulares, praça administrativa, espaço para igreja e dois alargamentos encerrados nos portões norte e sul, assim a cidade no primeiro período se apresenta como espaço que abriga as edificações vinculadas às decisões máximas da província, mas também como abrigo de atividades sociais, como articuladora entre edifícios religiosos e lugar onde aconteciam atividades comerciais que exploram os caminhos de conexão geral

(REIS, FILHO, 1968; Ufba, Faufba-Ceab, 1998,p.144-145).

Além das características de defesa, portuárias e de produção agrícola, a cidade define-se também pela presença marcante da Igreja Católica; inicialmente, com a Companhia de Jesus e seus missionários, que aqui se estabeleceram para fins de catequese. A eles se deve a primeira ermida construída - a de Nossa Senhora da Conceição - na área da praia, a instituição do primeiro bispado do

Brasil, em 1551, com a sua Sé.5 Mais tarde, ainda em finais do século, instalam-se

outras ordens religiosas, como os carmelitas calçados (1586), os beneditinos (1581) e os franciscanos (1588), (Ufba, Faufba-Ceab, 1998 p.58; ÁVILA, 2003, p.262).

Jesuítas e Franciscanos estruturaram-se dentro dos limites reservados à cidade, após a primeira expansão, enquanto os Beneditinos e os Carmelitas, ainda

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Garzedin acrescenta sobre a influência da Igreja / freguesias e dos distritos militares na definição e classificação de espaços da cidade, que inclusive adotavam critérios diferenciados entre si, questão que só foi devidamente resolvida com a Constituição de 1824, passando a definição para o Estado. (GARZEDIN, 2005, p.65)

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Traz o objetivo de abrigar a Arquidiocese Primaz do Brasil e aqui difundir o catolicismo (Ufba, 1998 p. 35, 55-56 e 125).

fora das portas, posicionaram-se de forma estratégica onde se previa o crescimento da cidade, demarcando o seu território e, ao mesmo tempo, reforçando os vetores

de expansão no sentido norte / sul (Ufba, Faufba-Ceab, 1998, p.58-59). É

perceptível o poder de definição da Igreja Católica na estrutura das cidades colonizadas, nessa época.6

Se os espaços livres no entorno de edificações religiosas cumpriam a função de atendimento a ritos religiosos, para muito além dessa necessidade traziam também o objetivo de permitir o enquadramento e a valorização do conjunto, demonstrando a força e o prestígio da entidade e dos seus dirigentes. Nesse mesmo sentido, caminham as instruções e normas elaboradas pela Igreja Católica que, abalada na época pela recente Reforma Luterana, convoca o Concílio de

Trento e mais tarde, na Bahia, influencia o “Synodo Diocesano” (1707).7

A construção da Sé, que substitui a igreja de palha inicial, surge ainda em finais do século XVI, entre as duas grandes praças do primeiro núcleo, em posição privilegiada e área fronteiriça à escarpa, de frente para a baia. É a Igreja do Salvador – a Sé Episcopal. Situada em pequeno terreno livre e sem vegetação que contorna toda a igreja, “[...] está em redondo cercada de terreiro [...], faltam torres de sinos [...] alta e sóbria que por sua vez articula-se por rua larga com uso de comércio”. No lugar da anterior capela de palha constrói-se a Igreja de N. S. d’Ajuda, “com capela em abóbada”, conservando “aquele” seu espaço fronteiriço (SOARES, apud Ufba, 1998, p.53).

Percebe-se claramente a interferência dos jesuítas no traçado do “terreiro”. Espaço monumental e geometricamente bem definido, ganha o nome de Terreiro de Jesus por abrigar o colégio e a igreja da ordem. Espaço nascido para o exercício do sagrado e da formação cultural, começa a ser edificado a partir da segunda metade do século XVI e constitui o segundo largo da cidade, local da primeira escola oficial brasileira. Seu entorno contém também edificações residenciais e, na sequência, a

ordem dos franciscanos demarca o espaço com o seu cruzeiro, símbolo da ordem.8

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Nesse sentido, muitos exemplos podem ser vistos no processo de catequese nas cidades centrais do Brasil com a participação de Jesuítas, Carmelitas, Franciscanos, Conceição, Mercedários – fundavam, urbanizavam e administravam povoados e aldeias de acordo com o seu poder de ação. (TEIXEIRA e VALLA, 1999)

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Estabelece disposições sobre a cidade e seus espaços coletivos, autoriza as construções de templos religiosos, seus adros, em posição de destaque, o entorno dos edifícios com vista à reserva de espaços para as suas manifestações. (MARX, 1988; GARZEDIN, 2005, p. 60-64)

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Nesses elementos que formam um conjunto religioso pode-se claramente ler a definição dos respectivos territórios.9

As configurações geradas mostram as proporções do parcelamento em vigor e a organicidade decorrente do ajuste à morfologia local, constituindo a irregularidade das ruas, os alargamentos e o estreitamento dos espaços. Pode-se dizer que a forma implantada resulta de modelo híbrido, que acumula características de construções vernaculares em processos de sedimentação geradores de uma tipologia que veio a ser chamada de colonial. Cria-se assim o diferencial entre a cidade planejada de acordo com o ideário da época e aquela que realmente é executada.

Apesar dos feitos conjuntos da administração luso-espanhola, predominam em terras brasileiras as formas de ocupação portuguesa; entretanto, diferenças fundamentais caracterizam cada uma delas, podendo-se referir os traçados mais livres e a adoção de praças múltiplas, como referência portuguesa, e o modelo ortogonal e a “Plaza Mayor,” como traçado espanhol. Assim Salvador define o seu conjunto de praças de forma especializada e hierárquica, estabelecendo-as de início para o uso administrativo e religioso, enquanto os largos, normalmente vinculados a ordens religiosas e serviços militares, constituem-se como lugar de vida urbana (Ufba, Faufba-Ceab, 1998, p.54).

Alvo de interesses em decorrência da riqueza acumulada pela produção de açúcar, madeira, azeite de baleia, dentre outros produtos, a colônia sofre inúmeros ataques e, em função das questões políticas na Europa, passa do domínio

português para um governo luso-espanhol (1580/1640). Em 1624/1625, é tomada

pelos Holandeses (REIS, 2000; Ufba, Faufba-Ceab,1998, p.61-65). Esse é um

período marcado por guerras e destruições, mas também por melhoramentos no sistema defensivo e na estruturação da cidade, como o represamento do Rio das Tripas, facilitando o início da ocupação da segunda cumeada (OLIVEIRA, 2004, p.50). É instalado o poder Judiciário na praça administrativa, com a construção da

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Registra-se ainda a ordem leiga da Misericórdia, que constrói as instalações iniciais da Santa Casa próximas à praça administrativa, sentido norte, que, juntas ao Colégio dos Jesuítas, compõem a freguesia da Sé. Conjunto que desenvolve papel extremamente relevante na estruturação da cidade. (VILHENA, 1969; ÁVILA, 2004, p. 261- 268)

Casa da Relação (1617-1621),10 em local onde mais tarde será construído o Elevador Lacerda. Assim, instaura-se o fechamento parcial da praça para a baía.

Constata-se então que, embora as praças seiscentistas preferencialmente guardassem um dos seus lados livres para assegurar visuais de defesa e de valorização, em Salvador, a Praça do Palácio, nesse momento, já tem fechamento parcial para a baía, com a construção do seu terceiro poder – o Judiciário

(CARVALHO, 1999, p.101), e o Terreiro já nasce de costas para a baía.11 Amplos,

alargados, sem vegetação e sem pavimentação, os espaços das praças apresentavam apenas equipamentos utilitários, como fontes para abastecimento de água e o pelourinho (Ufba, Faufba-Ceab, 1998, p.58).

Os largos mostravam-se irregulares, intencionalmente determinados, ou como resultado de confluências de ruas. Começavam a constituir-se pela estruturação dos caminhos, do parcelamento ou pela hierarquia das edificações que continham, elementos responsáveis pela sua configuração e, ao mesmo tempo, pela sua alteração.12

Fig. 02. Evolução física de Salvador em 1638. Fonte B.

Todo esse conjunto era articulado por ruas e caminhos estreitos, em estrutura linear, mas de traçado irregular, predominantemente em terra, sem preocupação de

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Sobrado em dois andares, de seção retangular, em estrutura sobre arcos, deixando a sua parte inferior para conexões estabelecidas entre este edifício e o Passo dos Governadores, além de constituir servidão pública por escada, entre a praça e a ladeira da Conceição. (CARVALHO, 1999, p.101)

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O Terreiro de Jesus nasce como um amplo espaço alargado, geométrico, perfeitamente determinado pelos jesuítas.

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Os largos já definidos no período: d’Ajuda, do Carmo e de Santo Antônio, da Sé, de São Bento e da São Pedro articulados a suas respectivas igrejas; e espaços militares, que mais a frente viriam a constituir o largo do Pelourinho e a Praça Castro Alves, correspondentes a portas norte e sul da fortaleza. O largo de São Pedro refere-se ao espaço distante da área urbana, em frente à primeira Igreja primitiva de São Pedro, próximo ao local do atual forte de mesmo nome. (Ufba, Faufba-Ceab,1998, p.88-90)

nivelamento nem passeios, trazendo, entretanto, uma prevalência de sentido norte/sul. Sua organização determinava lotes estreitos e compridos, quase sempre íngremes, com casas localizadas nos dois lados, que aos poucos foram ganhando altura, chegando por vezes a quatro pavimentos e com quintais arborizados. Esse tipo de ocupação já extrapolava as portas de defesa, nos dois sentidos da expansão

(REIS, FILHO, 1968,p.142-145).

Por fim, o bairro da praia também mantém uma ocupação linear, ajustada entre

a encosta e o mar, estendendo-se da Conceição à Ladeira do Taboão.13

Apresentando uso comercial e de serviços, em conexão com o mar e o porto, abrigava algumas edificações residenciais em estado precário, nas imediações da então Igreja da Conceição (fig. 02).

Dans le document Africa in figures 1997 (Page 55-60)

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