O termo ecoturismo foi cunhado por Ceballos-Lascuráin em 1983. Todavia, foi a partir da Conferência Mundial das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, conhecida como ECO-92, que a expressão passou a ser mais utilizada. Nesta época, com a vasta discussão de assuntos sobre a conservação do meio ambiente, a procura por ambientes naturais aumentou significativamente em diferentes segmentos da sociedade. Ceballos- Lascuráin (1996) define ecoturismo ou turismo ecológico como a viagem ambientalmente responsável e a visitação a áreas naturais relativamente pouco perturbadas, com o propósito de desfrutar e apreciar a natureza e os aspectos culturais relacionados a ela. O autor considera ainda que o turismo ecológico deve promover a conservação, causar baixo impacto ambiental e envolver as populações locais, visando a repartição dos benefícios sócio-econômicos gerados.
Atualmente, ecoturismo é uma expressão amplamente divulgada na mídia. É utilizada por parte dos empreendedores e das pessoas que exploram ambientes naturais a fim de “vender” uma idéia de aventura ou de paraíso, sem a preocupação com os impactos da degradação e da visitação em massa. Um exemplo emblemático da atividade turística de massa, em ambientes naturais, foi o que aconteceu nos parques nacionais de Yellowstone e Yosemite nos Estados Unidos da América (WESTERN, 2005). Estes parques são exemplos clássicos do que tem ocorrido em diversas áreas naturais e unidades de conservação. Em suas palavras, “não demorou muito para que milhares de visitantes, com seu amor descontrolado, ameaçassem acabar com o Yellowstone” (WESTERN, 2005, p. 18). O número de visitantes aumentou em larga escala, redes hoteleiras se espalharam, foram construídas vias para facilitar o acesso aos parques. Várias espécies foram ameaçadas de extinção e o ambiente demasiadamente degradado. Ainda segundo o mesmo autor, diante da situação, as autoridades norte-americanas desenvolveram uma estratégia para conservar para o local, por meio de investimentos privados, da restrição às visitas e da cobrança de um ingresso caro. Deste modo, somente as pessoas que optavam por gastar um alto valor tiveram condições para visitar estes parques.
Adotar uma estratégia como esta no Brasil seria preocupante porque os parques são bens públicos e deveriam oferecer opções para que diferentes segmentos da sociedade tenham acesso a eles. Investimentos privados podem contribuir na gestão, mas é preciso realizar
estudos de viabilidade dos empreendimentos, tanto em termos de minimizar impactos ambientais, quanto para inclusão da comunidade local e de segmentos da população brasileira que têm baixo poder aquisitivo. A vinculação da visitação aos parques nacionais à contratação de serviços encarece a visita, podendo acarretar na elitização do acesso a ele, além de restringir as opções para a realização de atividades recreativas e, assim, diminuir a qualidade da experiência que diferentes tipos de pessoas que visitam os parques.
Voltando à abordagem conceitual, não há uma definição de turismo em ambientes naturais adotada de forma consensual pelos estudiosos e profissionais da área. Ceballos- Lascurain (1991, p. 31) define ecoturismo como “uma forma de ecodesenvolvimento que representa um meio prático e efetivo de atrair melhorias sociais e econômicas para todos os países e é um poderoso instrumento para a conservação das heranças naturais e culturais pelo mundo”. Healy (apud PIRES, 1995, p. 191) afirma que o
“ecoturismo pode ser definido como o turismo na natureza que contribui para a conservação através da geração de fundos para as áreas protegidas, criando oportunidades de trabalho para as comunidades locais e oferecendo educação ambiental. Ao promover estes objetivos, os impactos negativos da degradação ambiental, a instabilidade econômica e os impactos sócio-culturais podem ser minimizados”.
De acordo com Western (2005, p. 18), “ecoturismo é provocar e satisfazer o desejo que temos de estar em contato com a natureza, é explorar o potencial turístico visando à conservação e ao desenvolvimento, é evitar o impacto negativo sobre a ecologia, a cultura e a estética”. Para Boo (1992), ecoturismo é uma viagem na natureza que avança em direção à conservação e aos esforços de desenvolvimento sustentável. É o resultado da convergência de duas tendências independentes, a da indústria do turismo e a dos conservacionistas.
No Brasil, um dos conceitos mais comumente utilizados foi definido pela EMBRATUR (1994, p. 19) como “um segmento da atividade turística que utiliza, de forma sustentável, o patrimônio natural e cultural, incentiva sua conservação e busca a formação de uma consciência ambientalista através da interpretação do ambiente, promovendo o bem-estar das populações envolvidas”. Nesta concepção, é fundamental para o ecoturismo a sustentabilidade sócio-econômica, cultural e ecológica do lugar de destino.
Não obstante a existência deste leque de conceitos, Faria e Carneiro (2000, p. 42) afirmam que, quaisquer que sejam as linhas condutoras, as discussões sobre ecoturismo
revelam a necessidade de utilização de medidas de conservação e manejo, apresentando uma relação intrínseca entre as empresas privadas que organizam viagens para ambientes naturais, os turistas e as entidades (governamentais e não governamentais) responsáveis pela proteção das áreas naturais, além da participação da população local.
Fazer acontecer a atividade ecoturística em parques nacionais é um desafio. Faria e Carneiro (2000) apontam que, em determinados destinos, o ecoturismo não tem promovido o desenvolvimento sustentável do núcleo receptor, devido à ausência de empenho e de comprometimento político dos governos para mobilizar os recursos – humanos, financeiros, culturais e morais – que garantam a integração dos princípios ecológicos com o desenvolvimento econômico. De uma forma geral, pode-se dizer que o desenvolvimento do ecoturismo em áreas protegidas pode envolver custos e benefícios para os diferentes atores envolvidos. De acordo com Boo (2005), os custos potenciais são a degradação do meio ambiente, as injustiças e instabilidades econômicas e mudanças socioculturais negativas. Os benefícios potenciais são a geração de renda para as áreas protegidas, o surgimento de oportunidades de emprego para as pessoas que vivem próximas a essas áreas, a promoção de educação ambiental e de conscientização sobre a conservação da natureza.
Seguindo esta lógica, sob o ponto de vista das comunidades vizinhas aos parques nacionais, as possibilidades de trabalho e oferta de serviços de apoio ao turismo seriam diversas, como por exemplo: alimentação (restaurantes, lanchonetes, sorveterias); hospedagem (pousadas, dormitórios, campings); artesanato (adornos, potes, bolsas, confecções, esculturas); venda de doces caseiros; transporte de turistas entre atrativos do entorno; serviço de condução de visitantes etc.
Inúmeras estratégias para envolvimento das comunidades do entorno de parques nas atividades ecoturísticas são adotadas no mundo. Na Uganda, por exemplo, a Política Nacional de Meio Ambiente de 1994 definiu que a renda proveniente do turismo em áreas protegidas (ingressos, fotografia etc) seria administrada por um Comitê de Gestão de Parques, no qual a comunidade local estaria representada. Neste país, parte dos lucros provenientes do turismo no Parque Nacional “Bwindi Impenetrable” tem gerado cerca de US$ 4.000 por mês para cada uma das 21 vilas do entorno do parque (SEKHAR, 2003).
No Brasil, atualmente, há uma crescente organização das atividades ecoturísticas da região, onde se situa um parque nacional, na forma em arranjos produtivos locais - APL.
Arranjos produtivos são aglomerações de empresas localizadas em um mesmo território, que apresentam especialização produtiva e mantêm algum vínculo de articulação, interação, cooperação e aprendizagem entre si e com outros atores locais tais como governo, associações empresariais, instituições de crédito, ensino e pesquisa (SEBRAE, 2005). Segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas – SEBRAE (2005), um arranjo produtivo local deve primar por uma convergência em termos de perspectivas de desenvolvimento, estabelecer parcerias e compromissos para manter e especializar os investimentos de cada um dos atores no próprio território, e promover ou ser passível de uma integração econômica e social no âmbito local.
O SEBRAE tem sido um dos promotores de arranjos produtivos locais de diversos setores da economia brasileira, inclusive do turismo em ambientes naturais e rurais. Exemplo disso é o projeto “Estímulo e Fortalecimento ao Agroturismo na Região do Caparaó”, realizado em municípios do entorno do Parque Nacional do Caparaó, em Minas Gerais. O projeto objetiva estimular e fortalecer a atividade econômica do agroturismo e do ecoturismo na região, de forma sustentável, aumentando o fluxo de turistas, gerando renda, ocupação e melhoria da qualidade de vida. Envolve ações de capacitação, educação ambiental, conservação da cultura e do ambiente local e estruturação da oferta turística (SEBRAE, 2006). Outra iniciativa interessante está sendo desenvolvida pelo Sebrae de Goiás nos municípios do entorno do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. O intuito é promover o desenvolvimento sustentável do setor de turismo de Alto Paraíso e Cavalcante, tendo como eixos a conservação ambiental, a melhoria da qualificação empresarial e profissional, a criação de novos produtos e a promoção da região para aumentar o fluxo de turistas na baixa temporada. Os seus principais públicos-alvo são micro e pequenos negócios do setor de turismo de Alto Paraíso, Distrito de São Jorge e Cavalcante, com foco nos segmentos de meios de hospedagem (hotéis, pousadas e campings) e operadoras de turismo (SEBRAE, 2006).
Não obstante a validade de desenvolver projetos em diferentes lugares, eles não podem ser realizados de forma isolada e pontual. A fim de que o ecoturismo seja um componente efetivo para a sustentabilidade, em conexão com parques nacionais e com a região em que eles estão inseridos, é necessário um planejamento cuidadoso (tanto físico quanto gerencial), diretrizes e regulamentos claros que garantam um desenvolvimento estável. Para isso, é preciso trabalhar a partir de um enfoque regional com articulação intersetorial
entre governos, empresas privadas, comunidades locais, órgãos gestores de UC e organizações da sociedade civil (CEBALLOS-LASCURAÍN, 2005).