Apesar de a Educação Ambiental ter o princípio pedagógico da interdiscipli- naridade, na prática isso não ocorre. Ela está relacionada a algumas ciências: Geografia, Biologia, Química, Física, História etc. Cada uma dessas disciplinas
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escolares incorporou o discurso ambiental, porém com enfoques diferentes. Dentre essas disciplinas, é importante destacar o enfoque dado às questões ambientais pela Geografia. (SILVA, 2009, p. 11) Pois a ciência geográfica se pro- põe a estudar as relações entre a sociedade e a natureza e as mudanças rea- lizadas pelas sociedades, estabelecendo novos valores sociais, criando novos espaços geográficos.
Ajara (1993, p. 11) salienta:
Ao aproximar a noção de meio ambiente ao próprio conceito de espaço geográfico, estar-se-á não apenas superando as dico- tomias, frequentemente postas em análises ambientais, entre ecologia/economia, sociedade/natureza, meio físico-biótico/ organização socioeconômica, como também atrelando à ques- tão ambiental o dinamismo próprio ao contínuo movimento de criação/ (re) criação de espaços.
Conforme Pereira (2009), nos dois últimos séculos, consagrou-se um mo- delo de Geografia, pautado na descrição de elementos da natureza, em dados numéricos sobre população e economia, generalizados e descontextualizados.
Segundo Micaroni, Crenitte e Ciasca (2002), a vivência na escola deve per- passar por um processo de significação, despertando o desenvolvimento inte- gral do indivíduo. Portanto, a relação com o meio ambiente deve ser cultivada desde o inicio da pré-escola e, dessa forma, a relação discente/docente se faz fundamental na execução de projetos com fins ambientais.
O principal papel dos professores, na promoção de uma apren- dizagem significativa é desafiar os conceitos já aprendidos, para que eles se reconstruam mais ampliados e consistentes, tornando-se assim mais inclusivos com relação a novos con- ceitos. Quanto mais elaborado e enriquecido é um conceito, maior possibilidade ele tem de servir de parâmetro para a con- strução de novos conceitos. (SANTOS, 2002, p. 15-24)
Podemos compreender que a Educação Ambiental no ensino de Geografia tem como ponto de partida o lugar, levando em consideração o espaço vivido no/do cotidiano, o que permite uma melhor compreensão das relações sociais, políticas, culturais e éticas, bem como do mundo globalizado. Pois uma coisa é ler sobre o meio ambiente e ficar a par sobre ele, outra é observá-lo diretamen- te, entrar em contato direto com os diferentes grupos sociais que o compõem, analisar como as relações sociais o permeiam e o exploram, obter junto às pes-
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soas informações sobre as relações que mantem com o meio ambiente em que vivem, enfim, apreender como a sociedade lida com ele.
A disciplina “Geografia”, que tradicionalmente se preocupa com a relação sociedade-natureza, evidentemente tem muito a colaborar com a Educação Ambiental, como o próprio PCN explicita, ao continuar se referindo às ques- tões ambientais:
Como objeto de estudo da Geografia, no entanto, refere-se às interações entre a sociedade e a natureza, um grande leque de temáticas de meio ambiente está necessariamente dentro do seu estudo. Pode-se dizer que quase todos os conteúdos previs- tos no rol do documento de Meio Ambiente podem ser aborda- dos pelo olhar da Geografia. (BRASIL, 1998, p. 46)
A prática da Educação Ambiental no contexto do ensino de Geografia neces- sita ser encarada como uma das possibilidades de leitura do mundo, buscando- -se ferramentas que possam equacionar as relações entre os diversos aspectos sociais, políticos, econômicos e culturais inerentes ao processo pedagógico. Para tanto, é preciso ter claro que tipo de educação e de ensino se deseja de- senvolver, haja vista que práticas conservadoras e ingênuas podem reforçar um caráter frágil e sem criticidade. É importante ter clareza também dos limites do trabalho educativo ambiental para melhor compreender os caminhos da Edu- cação Ambiental na escola e reconhecer que mudanças são necessárias. Nesse aspecto, concorda-se com Segura (2001, p. 195):
Se a escola conseguir propiciar uma leitura crítica da realidade, agregando diversos conhecimentos a ela relacionados, estimu- lar a participação efetiva dos alunos na aprendizagem e chamar a responsabilidade de cada um para o objetivo de ampliar e melhorar a qualidade de vida, ela estará cumprindo seu papel na formação de consciência ambiental.
Para Dias (2004, p. 124),
As pessoas não se envolvem em temáticas ambientais sentadas em suas cadeiras, fechadas em um ‘caixote de tijolo e cimento’, regadas a quadro-de-giz ou a parafernálias audiovisuais. Elas precisam sentir o cheiro, o sabor, as cores, a temperatura, a umidade, os sons, os movimentos do metabolismo do seu lu- gar, da sua escola, do seu bairro, da sua cidade... Isso não se faz sentado em carteiras.
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Veiga (1991, p. 76) completa a ideia, quando diz que “[...] sabe-se que o conteúdo, e o conhecimento só adquirem significado se vinculados à realidade existencial dos alunos, se voltados para a resolução dos problemas colocados pela prática social [...]”.
Freire (2001, p. 33) destaca a importância de o(a) professor(a) trabalhar o lugar como resultado das relações que se estabelecem entre as pessoas em seus cotidianos: “Por que não aproveitar a experiência que têm os alunos de viver em áreas da cidade descuidadas pelo poder público para discutir, por exemplo, a poluição dos riachos e dos córregos e os baixos níveis de bem-estar das popula- ções, os lixões e os riscos que oferecem à saúde das gentes?”
O lugar ou o espaço vivido, repleto de referências pessoais, faz com que o homem se torne sujeito do processo de organização do espaço. Ou seja, o conhe- cimento da cidade e do bairro, por exemplo, será reflexo do exercício da cidadania que, por sua vez, motivará a sensibilidade para o valor socioambiental do lugar.
Dessa maneira, a Educação Ambiental procura abrir os olhos das pessoas à consciência de que o ser humano é parte do meio ambiente, procurando superar a visão antropocêntrica, que fez com que o homem se sentisse sempre o centro de tudo, esquecendo a importância da natureza, da qual é parte integrante. Ou seja, a Educação Ambiental deve ser entendida em seu sentido mais amplo, voltada para a formação de pessoas para o exercício da cidadania e para uma percepção desenvolvida sobre os ambientes no qual estão inseridas. Assim sendo, transformar e aprimorar a relação entre os seres humanos e destes com o ambiente deve ser o maior objetivo da Educação Ambiental, lembrando que o termo “ambiente” é mui- to mais que o ambiente natural: incluímos também os modificados pelo homem, como as instituições sociais, a escola, o ambiente de trabalho, a vizinhança etc.
Em 1999, foi sancionada no Brasil a Lei Federal nº 9.795/99, que institui a PNEA, a mais importante lei para a Educação Ambiental. Nela, são definidos os princípios relativos à Educação Ambiental que deverão ser seguidos em todo o país. A referida Lei traça orientações políticas e pedagógicas para a Educação Ambiental e traz conceitos, princípios e objetivos que podem ser ferramentas educadoras para a comunidade escolar.
Fazem parte dos princípios básicos da PNEA: o enfoque holístico, democrá- tico e participativo; a concepção do meio ambiente em sua totalidade, conside- rando a interdependência entre o meio natural, socioeconômico e o cultural, sob o enfoque da sustentabilidade; o pluralismo de ideias e concepções peda- gógicas; a permanente avaliação crítica do processo educativo; a abordagem
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articulada das questões ambientais locais, regionais, nacionais e globais; a vin- culação entre a ética, educação, trabalho e as práticas sociais, além do reconhe- cimento e o respeito à pluralidade e à diversidade individual e cultural. E tem como objetivos fundamentais: a democratização das informações; o fortaleci- mento da consciência crítica sobre a problemática social e ambiental; o incen- tivo à participação individual e coletiva, de forma permanente e responsável na preservação do meio ambiente; o fortalecimento da cidadania, autodetermi- nação dos povos e solidariedade; e também o desenvolvimento de uma com- preensão integrada do meio ambiente em suas múltiplas e complexas relações.
Assim, para nos posicionarmos inteligentemente em relação a este mundo, temos de conhecê-lo bem. Para nele vivermos de forma consciente e crítica, devemos estudar seus fundamentos, desvendar seus mecanismos. Em nossa época, ser cidadão pleno significa antes de tudo estar integrado criticamente na sociedade, participando ativamente de suas transformações. Sendo assim, devemos refletir sobre o nosso mundo, compreendendo-o do âmbito local até os âmbitos: nacional e planetário. E a Geografia é o instrumento indispensá- vel para empreendermos essa reflexão. Portanto, de acordo a Morales (2004), é dentro desse processo que a Educação Ambiental deve preparar as novas gera- ções, com novas atitudes e mentalidades, capazes de compreender as comple- xas inter-relações entre os processos objetivos e subjetivos do seu mundo, per- mitindo o desenvolvimento de uma postura crítica e interdisciplinar, baseados nos princípios do sentir, da reverência em relação à vida.
Conclui-se que a forma mais eficaz de sensibilizar o ser humano sem dúvida é pela educação, conforme se desperta nas pessoas a consciência, pode-se es- perar uma atitude transformadora. Freire (1981, p. 79), há mais de três décadas, já refletia que a “educação é o desenvolvimento de uma consciência crítica que permite ao homem transformar a realidade”, e ainda hoje vemos o quão com- plexo é se mudar o paradigma cultural de que o homem não se vê parte do meio ambiente, apesar de interagir, intervir e alterar os espaços a sua volta em todas as suas ações sociais.