Os espaços de matrizes africanas mantêm obrigações internas ao longo de todo o ano, mas existe um calendário de festas públicas dedicadas às divindades, que varia de casa para casa. Situamos o calendário de festas de alguns terreiros a fim de demonstrar o dinamismo do candomblé na cidade de Cachoeira.
Segundo Mircea Eliade, o religioso vive dois tempos, o tempo secular e o tempo sagrado, apresentando uma solução de continuidade. O tempo sagrado mostra-se como não homogêneo nem contínuo.141 É por meio dos ritos que se pode passar da duração de tempo ordinária ao tempo sagrado. “Participar religiosamente de uma festa implica a saída da duração temporal ‘ordinária’ e a reintegração no tempo místico reatualizado pela própria festa.” Assim, o tempo místico é recuperável. “A cada festa periódica reencontra-se o Tempo sagrado – aquele que se manifesta na festa do ano precedente ou na festa de há um século [...]” Assim, um calendário exprime o ritmo da atividade coletiva, ao mesmo tempo que tem por objetivo assegurar a regularidade.142
No passado, os atabaques batiam em datas que coincidiam com as dedicadas a santos católicos, tradição mantida por alguns terreiros. Mas a lógica do calendário de cada terreiro segue outros critérios, porque há datas ligadas à própria história da casa, como a da sua fundação, do aniversário de iniciação da mãe ou do pai de santo; da iniciação e obrigações de uma filha ou um filho de santo (que pode ser um dia de uma grande festa do terreiro) e a da confirmação de ogã. Também há diferenças na sequência das festas influenciada pelas nações de candomblé.
Em Cachoeira, o mais usual é abrir o calendário anual após o dia de Corpus Christi, ocasião em que os católicos veneram a Santa Eucaristia. Esta data católica é um dia de quinta- feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade, que ocorre no domingo após o de Pentecostes, 50 dias depois da Páscoa, ressurreição de Cristo no catolicismo.
O “Loba Nekun Pai” abre, assim, seu calendário em junho e dá continuidade às suas festas nos meses seguintes:
Em junho é Comida de Exu, a festa é do lado de fora. A data varia. É sempre num domingo. Na outra semana, antes do São João festeja Ogum; depois tem missa para
141 ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. Tradução: Rogerio Fernandes. São Paulo:
Martins Fontes, 2001. p. 64.
142 DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa: sistema totêmico na Austrália. Tradução:
São Pedro, é comida de Xangô. Em agosto, é Obaluaiê (sozinho) e dezembro, a família das águas: Oxum, Nanã, Oxalá e Iemanjá.143
No Loba Nekun Filho, o calendário de festas também abre em junho, mas no dia 1o, com missa pela manhã e reza para Santo Antônio e Nossa Senhora da Conceição à noite no terreiro. Cumpre as suas obrigações para Ogum, depois bate para Oxalá e, em meados do mês de junho, acontece a festa mais importante da casa, dedicada a Iemanjá, que dura uma semana de obrigações, uma tarde é dedicada aos erês, acontece o Tabuleiro de Obaluaiê e a festa para o caboclo Juremeira e o presente das águas no Rio Paraguaçu.
Alguns terreiros concentram muitas festas em determinado mês do ano, como o Ilê Axé Alaketu Oxum Apará, cuja primeira festa pública, as Águas de Oxalá, é seguida de festas para Obaluaiê, Nanã e Oxumaré, todas realizadas no mês de julho, consecutivamente, por haver uma relação entre elas, provavelmente de origem jeje. Já o terreiro Ilê Kaiô Alaketu Axé Oxum tem seu ponto alto nos rituais públicos que ocorrem no mês de setembro, começando pelo que é dedicado a Ogum; depois acontece a Festa das Iabás; no sábado é festa para Oxum e no dia seguinte é o cozido de Oxum. Na quinta-feira seguinte, os membros da casa levam o presente de Oxum às águas do Rio Paraguaçu. Na volta do presente, encerram com toque para os caboclos.
É tradição do Guarany de Oxóssi fazer a festa do patrono da casa no último sábado de abril, próximo ao dia 23 de abril, que é o dia de São Jorge no calendário católico, e no mês de junho realizar a Trezena para Santo Antônio, dedicada às famílias do Alto do Rosarinho e outros bairros. Em agosto, são celebrados Nanã, Omolu e Tempo. Mãe Madalena, a fundadora desse terreiro, costumava fazer uma “romaria” (de ônibus) até o município de Amélia Rodrigues, no último domingo de agosto, para prestar homenagem a São Roque, São Lázaro, Omolu, e Nanã. Toda segunda-feira do mês de agosto, é tradição oferecer pipoca ao orixá da doença e da cura (Omolu). No mês seguinte, setembro, Mãe Madalena levava caruru para as crianças do Iguape, em devoção a São Cosme e São Damião. Na primeira sexta-feira de outubro, são as Águas de Oxalá. No dia 12 de outubro, celebram os Erês, com brinquedo e caruru distribuídos às crianças da comunidade do Rosarinho, seguindo a proposta da casa, integrada à ação social. Em dezembro, as festas são dedicadas a Iansã, Oxum e outras iabás.
No domingo de Páscoa ocorre a abertura do “Ano Novo” no terreiro Nkosi Mucumbi Dendezeiro, reverenciando Aluviá. É tradição fazer a Trezena para Santo Antônio seguida de samba; as rezas, realizadas em português e latim, culminam no dia 13 de junho. Em agosto, a
festa é para Kaviungo, com ritos no barracão e a oferenda de pipoca. Em 27 de setembro, é obrigação para Ibejis. As iniciações, em geral, ocorrem até o início de novembro, quando o terreiro entra em recesso.144
No Seja Hundê, na Lagoa Encantada, em janeiro acontece a uma grande festa pública que é o Boitá; já no mês de junho, há a Fogueira de Sogbô. No Humpame Ayonô Huntoloji, fundado por Gaiacu Luiza, o Zandró145 e o Boitá acontecem no mês de dezembro. O primeiro se dá em uma noite de sábado e o segundo, no final de uma tarde de domingo.
Na última década, no domingo após 2 de fevereiro, o povo de santo da região celebra a Festa de Iemanjá, fazendo o xirê ao ar livre, seguido da saída de barcos para levar flores à orixá das águas. (Figura 11)
Figura 11 – Festa de Iemanjá. Cachoeira, BA, em 2012.
Foto: Autora
Se considerarmos que há aproximadamente meia centena de terreiros em Cachoeira e que, além das festas dedicadas às divindades, há as festas das saídas de iaô e confirmações de ogã, entre outras, deduzimos que o número de festas é bastante grande. Mas devemos lembrar que os terreiros ficam sem bater por longos períodos quando membros da casa falecem.
144 COSTA, Estelito Reis da Conceição. Depoimento oral, 14 fev. 2014.
2.3 A VALORIZAÇÃO DO PATRIMÔNIO E DAS TRADIÇÕES RELIGIOSAS E O