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De modo geral, as atividades desenvolvidas pelas mulheres em processo de formação consistiram no encaminhamento de famílias para os programas de assistência social disponíveis. Os critérios para a escolha dos grupos familiares foram criados sob muita tensão para muitas e, de forma mais livre, para outras envolvidas no processo. O primeiro grupo seguiu parte da indicação do PRONASCI, já que nas suas atividades de ―multiplicadoras da paz‖, deixaram de direcionar jovens em situação de conflito com a lei. A razão para o desvio de direcionamento foi o medo de incomodarem traficantes de drogas e seus

179 familiares/protegidos. Observei, durante as oficinas do curso, o quanto as perturbava o fato de terem que ―mexer‖ com os ―meninos‖.

As mulheres se queixaram sobre as atividades solicitadas pela coordenação multidisciplinar de encaminhamento dos jovens. Elas ficaram assustadas com o trabalho que deveriam desenvolver em sua vizinhança, contudo, não formalizaram a sua queixa junto à SEDES, tampouco levantaram questões para a coordenação multidisciplinar. Estas beneficiárias evitaram o enfrentamento tanto com os usuários e traficantes de drogas, como com a gestão do projeto. De um lado, temiam a possibilidade de se vitimarem na comunidade em que moravam. O medo era proveniente da falta de experiência no trabalho comunitário, ou seja, não eram reconhecidas no bairro como agentes sociais. O processo formativo não lhes garantiu a confiança dos vizinhos. Ao contrário, especificamente devido a um equívoco cometido pela área de comunicação da Secretaria de Justiça da Bahia: A imagem das MPs foi abalada com o episódio da sua divulgação pelo Estado, disposta em outdoors distribuídos na via de acesso próxima ao bairro. Nos dois sentidos da Avenida Luís Viana (Avenida Paralela), a mensagem continha a figura de uma MP ao lado de um policial. Portanto, expressava uma espécie de trabalho de parceria entre a ―Polícia Cidadã‖ e essas mulheres. Logo, foram identificadas como ―X9‖, ou ―dedo-duro‖, a serviço da polícia e, contra os traficantes. A coordenadora pedagógica concebe o episódio dos outdoors da seguinte forma:

Na Paralela, tinha dois! Um na ida e um na volta. Um perto do viaduto do CAB e o outro perto da CHESF. Foi uma confusão. Mas isso tem a ver com a área de comunicação da SEDES, do governo do estado, que teve aquela divulgação em outdoor com Mulheres da Paz junto com um guarda, de não ter uma sensibilidade de ver como é que isso ia ser apresentado ao mundo público e de que, continuamente, estar falando nisso... Por que ‗comunicar é colocar um outdoor e que ele fala por se só‘... E o pior é quando fala errado. E eu penso que houve uma péssima divulgação, não houve um programa de comunicação, então, aí, toda essa distorção de fora pra dentro. (Perguntei-lhe por quanto tempo o outdoor permaneceu no local) Ficou um tempinho. Tiraram depois. A gente ficou reclamando, reclamando, as mulheres falando que aquilo era X9, ‗tira‘, ‗não tira‘, a secretaria de justiça... (Coordenadora P, 28/06/2013).

O PRONASCI apresentou a segunda lacuna, desta vez, traçada pela forma como foi estruturada a sua execução. Diferente dos demais estados, a Bahia assumiu a execução em lugar do município, o que fez com que Salvador, através da SEDES e da ONG Avante,

180 assumisse toda a responsabilidade sobre os quatro municípios; além disso, descentralizou as grandes ações, repartindo os projetos entre diferentes secretarias. Estas especificidades provocaram problemas particulares ao estado baiano. Atrapalhou a possibilidade de diálogo entre as secretarias, como também inibiu processos avaliativos que pudessem ser compartilhados entre as gestões, e sobrecarregou as instituições executoras. Nos encontros em que o PRONASCI era apresentado ao público, os dados e avaliações do projeto Mulheres da Paz, por exemplo, eram divulgados sem embasamento e, por pessoas que não tinham envolvimento, nem conhecimento sobre o caso particular deste projeto. A conclusão da coordenadora pedagógica ilustra bem a situação, ao afirmar que:

Porque tinha outro problema na gestão que era assim: nunca foi assim no programa do PRONASCI, mas, aqui, na Bahia, esse programa, ele foi todo repartido. Mulheres da Paz foi pra SEDES, a parte de juventude - Protejo e tal - foi pra SEC (IAT), a parte do programa que era da rede estava com a Secretaria de Justiça e a capacitação dos policiais (a parte da segurança). Então, assim, um programa todo repartido, retalhou-se o programa todo e nenhum outro estado retalhou e na verdade, nenhum estado realizou, quem realizava era o município. E se ficasse com a Secretaria de Ação Social, ela ficava com tudo. Aqui, ficou com o estado, que ficou com três municípios e, além disso, o estado retaliou entre suas secretarias. Então, essa gestão também era muito complicada. Por que na verdade deveria ter tido também nesse aspecto um processo de avaliação, que eu acho que foi muito falho. Assim, o Mulheres da Paz não conversou com o Protejo e trabalhou com pouca articulação das análises que eram feitas pela Secretaria de Justiça nos dois seminários que a gente conseguiu reunir, [...] que foi uma policial, uma chefe de polícia muito boa. Teve um seminário trabalhando integradamente os três projetos, a gente conseguiu trazer o Protejo, o Mulheres da Paz, os policiais, a Justiça. Foi um seminário inicial, a gente queria fazer outro, foi pra trazer expectativas e possibilidades de cooperação. Aí, fora isso, não teve mais nada, nada mesmo. E de vez em quando saia alguém da Justiça parecendo o dono da verdade, fazendo uma análise assim sobre o programa, por que ele foi não sei onde e se encontrou com um grupo de Mulheres da Paz. Ele não sabia de onde tava falando, aliás, ninguém falou mal do Mulheres da Paz porque viu o trabalho que dava, viram o esforço... Então, foi todo retalhado, o PRONANSCI aqui e eu acho que prejudicou a interlocução entre os vários componentes, o Mulheres da Paz, o Protejo, etc. (Coordenadora P, 28/06/2013).

Por outro lado, voltando o olhar para as estratégias das mulheres beneficiárias diante dos desacertos do PRONASCI na Bahia, estas temiam represálias da secretaria executora, a SEDES, ou seja, a possibilidade de perda do benefício, cujo pagamento era de sua responsabilidade. As mulheres participantes me procuravam, no lugar da coordenadora multidisciplinar, em virtude da condição de submissão em relação à mesma, que mantinha

181 uma postura de pouco diálogo e muitas imposições, diferente, portanto, da orientação da EP (ONG Avante) para a condução das aulas. A partir das recomendações da coordenação pedagógica, de um modo geral, discutíamos caminhos relativos ao ―respeito‖ à argumentação das pessoas, nos momentos de conflitos. Com as oficinas, objetivávamos fazê-las se sentirem seguras e conscientes dos seus direitos, para colocarem os seus pontos de divergência, principalmente, em relação ao programa. Assumida essa postura, as MPs se sentiram mais próximas a mim, tornando-me uma fonte de escuta, restringindo o campo das conquistas esperadas para as mulheres no processo formativo, pelo menos até aquele momento.

Algumas das queixas que surgiram entre elas foram: ―a gente vai ter que mexer com eles, é! Eles acham que a gente é X9!‖, ou ainda, ―pró, me diga uma coisa, eu vou tirar eles do tráfico e vou oferecer o que a eles? Tem trabalho, tem tênis, tem roupa, tem dinheiro pra eles? Eles querem isso tudo! Eu não acredito nesse projeto.‖ Diante dessa situação, não pude dar uma resposta diferente, senão a de se desviarem da proposta do projeto. Eu não tinha condições de atender àquelas demandas, então, orientei-as a não procurarem os lares onde houvesse algum membro envolvido com o tráfico ou uso de drogas. De forma diretiva, eu lhes dizia: ―Pulem essas casas‖.

Os ânimos foram aliviados, sobrando-lhes as famílias que necessitavam regularizar documentos, realizar inscrição no programa Bolsa-Família e outros pequenos problemas. A falta de novas possibilidades para os jovens, público-alvo do PRONASCI, foi latente sob as determinações deste programa, que falhou novamente no que se refere ao início das atividades do Protejo e Mulheres da Paz. O projeto Mulheres da Paz teve início depois de iniciadas as ações do Protejo na Bahia, quando deveria ser o contrário, deixando aberta a questão ―para onde encaminhar os jovens?‖. Assim, configura-se a terceira grande lacuna do projeto

Mulheres da Paz.

As participantes do curso que se sentiam inseguras em acompanhar jovens em situação de violência, a grande maioria delas, então, adotaram uma estratégia que envolvia, contraditoriamente, subversão e silêncio. Elas não procuraram esses jovens, mas desenvolveram basicamente atividades de encaminhamento de mulheres ao programa Bolsa-

Família e órgãos de expedição de documentos, bem como orientações às famílias para a

resolução dos conflitos que envolviam, por exemplo, a violência doméstica e familiar. Algumas afirmaram:

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O cachaceiro; menina sem documento, encaminhei; arranjei trabalho para a eleição. Procurei as mais pobres, sem informações, que a gente viu que a família mais precisavam, com muitas crianças, com jovens na rua, do Pró-Jovem. [...] Acompanhei várias famílias com problemas com o Bolsa-Família, adolescentes fora da escola. A diretora do Colejão chamava pra eu resolver as coisas... O que a gente fez foi com a gente mesmo. Não teve ajuda de ninguém, do governo, de deputado que a gente apoiou... cadê? Não veio nada pra gente! As pessoas cobram a gente e eu fico constrangida porque não posso ajudar. Eu e uma colega queria dar dinheiro pra uma moça resolver um problema com o Bolsa-Família. Mas aí, a gente não tinha mesmo. (MP Lourdes, 07/12/2012).

Aposentar uma senhora de 72 (anos) sem andar, encaminhei para o INSS, mas não deu em nada. Tem um bocado de filhos que não tinha registro, encaminhei pro CRAS. Basicamente, a Bolsa-Família. (MP Diana, 05/12/2012).

Não foi aqueles conflitos com dificuldades de mediar, eram mais brigas familiares, briga de irmãos, de mulher com marido, mulher com a questão do Bolsa-Família, mulheres que ficavam esperando você fazer alguma coisa, aí tinha que dar uma dura... ‗ah, fulana, você tem que correr atrás‘, eu dizia. Orientei pra ir no CRAS. Tinha uma que eu comecei a visitar, mas depois eu deixei, porque as pessoas não queriam porque... Você sabe, né .... Eu tava correndo risco, você entende, né... Eu parei com essas três. As outras eu não corria risco. Foi no sentido de ser... Como é que diz... Uma pessoa solidária, eu era muito egoísta, eu achava que devia viver a minha vida sem me preocupar com os outros. Se eu não fosse uma mulher da paz eu jamais iria ajudar aquela mulher, por exemplo. Quem disse que eu fazia isso? Eu não fazia por ninguém. Me ajudou a ser solidária. Pensar um pouco nas outras pessoas. (MP Dilma, 05/12/2012).

Eu fui selecionando as pessoas. Onde eu achei que tinha pessoas viciadas em drogas e bebidas, que eu tinha mais aproximação, onde tinha adolescente. Foi assim que eu selecionei, foi assim que eu fui atrás. Pra resolver problemas do Bolsa-Família, a gente indicou vários. Carteira de identidade, pra quem não tinha condições de ir tirar, nem de pagar, a gente pedia pra ir falar com o SAC, a gente pedia pra ir falar com assistente social, a gente pedia atestado de pobreza. A gente fez muitas coisas como mulher da paz. Eu me metia no meio da briga (risos). O povo falando de um lado, falando de outro, um monte de grito... ―Eu to ensinando e você não quer!‖ [...] Aí, acabou tomando vergonha, agora tá melhor (risos). Mediei principalmente briga de marido e mulher, de quem tava espancando [...]. E eu disse – eu não vou me meter, já dei telefone, os locais, tudo escrito pra você e é você que tem que procurar, eu não posso fazer nada por você. Se você chegar e dizer assim pra mim, - Lourdes, eu quero ajuda, você me leva, e eu digo assim: - eu vou, eu te levo. A última que eu ajudei, minha filha, apanhava do marido, eu tive que bater nele pra largar ela. Ela foi pra delegacia, deu queixa, acabou tirando e eu fiquei com a minha cara de tacho. Ela veio pra casa, quando ela chegou em casa, apanhou de novo. Ela veio pra minha casa e eu falei: - Volte! Volte pra apanhar de novo! Até você tomar vergonha. Quando você tomar vergonha você me avisa. Agora, tá aí, até hoje, com o marido. Trabalhando e cuidando da vida dela. (MP Lourdes, 07/03/2013).

Pelo perfil de muitos filhos, problemas de adolescentes fora da escola, ou usuários de drogas, às vezes eles estavam com um pé lá e outro cá, sabe? Mães solteiras, renda familiar baixa, alcoolismo. Visita de famílias, muitas com conflitos, mas não havia suporte, então não dava em nada (risos). O bom é que sou uma referência para as famílias. (MP Thaís, 30/11/2012).

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Acompanhamento de algumas famílias, de jovens envolvidos com drogas, famílias com problema de desemprego, conflitos familiares. Trouxe à comunidade religiosa. Pretendo voltar porque vi resultados. Foram vinte e três famílias cadastradas. Mobilizou toda a comunidade religiosa e de jovens que participavam de projetos no local. (MP Rita, 06/12/2012).

Para algumas mulheres, o desenvolvimento do trabalho pelos moldes do PRONASCI não passou pelos impedimentos discutidos acima. Isto porque estas já desenvolviam, no local, atividades comunitárias, no caso de Rita, atividades de acolhimento aos moradores de ruas e usuários de drogas. O seu critério de escolha para as famílias a serem encaminhadas teve por base o questionário do projeto Mulheres da Paz. Assim, escolheu uma rua considerada violenta no lugar conhecido como Beira do Rio, selecionou as famílias pelo questionário que criou por ―marido desempregado, mulher desempregada,‖ por quantidade de filhos e pelo uso de drogas.

Isso também se repetiu com Zeferina, que já atuava como liderança comunitária no bairro. Esta MP é uma das referências mais respeitadas no bairro, por causa do seu histórico familiar de mobilização social e atividade comunitária; bem como, em decorrência da própria atividade que desenvolve na e com a sua vizinhança através templo judaico no qual a MP Rita assume a liderança. Entretanto, a partir do trabalho desempenhado pelo MP chegou a ser ameaçada de morte pelos vizinhos envolvidos no tráfico de drogas. Assim, Zeferina relatou:

[...] Aqui, nós éramos tachadas de X9. Eu fui ameaçada por um traficante, mas eu tive a ousadia passiva e educada, por conhecer ele, por praticamente ter visto ele nascer, porque ele morava aqui ao lado. [...] Ele não vive mais, já morreu, mataram ele dentro da casa dele, mas ele era um menino dócil, sempre. Eu tinha atenção com ele e quando eu passava com aquela camisa do Mulheres da Paz, ele: ‗dona Zefa... Mulheres da Paz, né? Hum...‘ Mas eu não to sabendo o que é... Ele só me dizia isso. Aí, um dia, uma amiga minha, assim, conversa de parede e meia, ela ouviu uma turma da pesada que mora na minha rua, conversando, eles tudo falando do projeto deles contra mim e contra esse irmão meu que é policial. Então, essa pessoa chegou pra mim e me disse ‗se cuide, que você tá nesse Mulheres da Paz, mas você ta sendo visada. Diz que toda vez que a polícia vem aqui na rua é você que tá chamando‘, tá entendendo? ‗E você chama porque quer que prenda fulano de tal‘. Aí, um dia, eu tava na minha casa e ouvi um tiro. Cheguei e olhei, aí, ele tava passando, e eu digo assim: ‗oh, meu filho, que bom que você passou aqui agora! Venha cá, meu amor, chegue aqui para eu falar com você... Tudo bem com você?‘, ele respondeu: ‗tudo bem, dona Zefa. A senhora viu esse tiro aí?‘. Eu disse: - ‗Se eu ouvi sei que não era você!‘. - ‗Pois é! Mas eu sei que lá na saída todo mundo vai dizer que fui eu! O tiro veio do lado de cá, mas a senhora viu que eu saí aqui da oficina.‘ -‗É por isso mesmo que eu quero te dar um aviso. Meu filho, saia dessa vida. Mulher da Paz não quer dizer que a gente entrega vocês pra polícia, não. Nós procuramos ver a sua

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situação e procuramos ajudar vocês a saírem do mal e das coisas erradas. Nós procuramos ajudar você. É uma coisa humana, que nós aprendemos a lidar com o ser humano. Nós não estamos aqui para levarem vocês para serem mortos pela polícia, não.‘

Aí, eu disse isso a ele porque eu tinha autoridade para dizer. O irmão dele era afilhado desse meu irmão que era chefe do Nina Rodrigues. Eu disse pra ele: ‗você sabe que eu te conheço de criança. Você é um bom menino, mas você se deixou levar pelas coisas... Meu filho, saia daqui uns tempos, se mude pra outro lugar, passe um tempo por lá porque você sabe que não é bem visto aqui.‘ - ‗Eu sei, dona Zefa...‘. [...] Mataram ele dentro de casa.

Outras pessoas aí, outras colegas que eram Mulheres da Paz, se queixaram que eram apontadas quando passavam, que diziam, ‗que nada! Ali, é X9!‘. Eu fiz a minha parte, chamei ele... Ele chegou em casa, pegou o carro do amigo, botou as coisas da mulher e foi, passou um tempo fora. Mas voltou... É por causa das drogas, é o dinheiro fácil, mas que destrói rapidamente a vida do ser humano. Enfim! (MP Zeferina).

Pelo fato de ser irmã de um policial civil, que também mora próximo à sua casa, a sua imagem veio a ser perturbada na condição de MP. No mesmo período, estavam ocorrendo várias intervenções policiais de combate às atividades do tráfico de drogas na região e, isso despertou a atenção dos traficantes sobre Zeferina, como se ela estivesse colaborando com a polícia nas ações de repressão empreendidas no local. Os traficantes não sabiam que havia um policial infiltrado entre eles, colhendo e prestando informações à polícia sobre todos os crimes e as estratégias para as suas ações criminosas. A pessoa infiltrada encontrou uma forma de proteger a MP, chamando a sua atenção para o plano de emboscada contra ela, acusada pelos traficantes de ser X9.

Segundo o seu relato, uma vizinha teria escutado a conversa dos jovens, pela parede de sua casa, porém, eu tomei conhecimento de outra fonte sobre a ação policial, na época em que eu ainda liderava as oficinas pelo MP. Logo, não quis confrontar a história relatada por esta MP para não constrangê-la, nem expor a outra fonte. Embora haja fundamento no seu relato sobre a ―parede e meia‖, que surgiu em outros relatos das MPs a respeito das suas casas. As suas casas não constituíam um espaço de segurança para manterem conversas sobre os conflitos relacionados à violência no bairro – assim como os conflitos de outra espécie que necessitariam de maior privacidade.

Conforme o seu relato, Zeferina não se sentiu intimidada e partiu para uma conversa com o chefe do grupo. A sua autoridade em relação a determinadas lideranças do tráfico de drogas no local permitiu que a MP procurasse o ―chefe‖ para desfazer o mal-entendido.

185 Contudo, observei momentos de extremo respeito da MP ou, ainda, de subserviência com relação ao traficante, como acontece com moradores (as), de um modo geral, que vivem nesses contextos, diante do poderio dos traficantes (ZALUAR, 1985).

Ao mesmo tempo, alguns (as) desses (as) moradores (as) mantêm vínculos com alguns (as) traficantes estabelecidos pela vizinhança, amizade e carinho, bem como laços parentesco. Então, as atividades de mediação de conflitos das MPs foram permeadas por tensões, dentre as quais, equívocos interpretativos entre moradores da região, prejudicando o aproveitamento do curso; como também o ônus causado pela extensão do exercício do cuidado consoante a proposta da política PRONASCI.

Após a consideração a respeito do cotidiano de acompanhamento das famílias elencadas pelas MPs, passo a analisar os processos de transformação pelos quais passaram estas mulheres. Cabe, assim, no próximo tópico, tecer observações sobre possíveis mudanças em suas vidas, trazendo para o centro da análise a perspectiva de agentes do projeto e, mais especificamente, a perspectiva das mulheres beneficiárias pela política.