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ené Descartes (596–650), filósofo francês do séc. XVII, pode ser consi- derado um pensador que demarca as bases do pensamento moderno. Uma de suas obras principais, Discurso do Método, abre as portas da modernidade. Esta obra teve profundo impacto no Ocidente, a ponto de Michel Ser- res afirmar que Descartes é “o filósofo subjacente à Revolução Industrial”. Suas idéias influenciaram muito a nossa relação com a natureza, pois Descartes foi o primeiro filósofo a propor uma física matemática; com Descartes a física deixa de ser especula- tiva e passa, de fato, a intervir na natureza. As conseqüências disso são enormes para os desdobramentos da nossa relação com a natureza – a objetividade cartesiana fez com que “perdêssemos” a possibilidade de pensar historicamente e colocou o homem europeu e branco na posição de Dono e Senhor da natureza. Vejamos como isso acon- tece. A modernidade parte de um esquecimento da tradição e do passado. Neste texto argumentarei que desde o séc. XVI e XVII temos passado por um processo de aniqui- lamento de qualquer vínculo com a tradição. Com o termo “tradição” pretendo evocar um conjunto de elementos que constituem nossa historicidade. Gadamer denomina tradição não um sujeito coletivo, “mas simplesmente como o nome coletivo em cada texto individual (texto no sentido lato, no qual poderíamos incluir uma fotografia, um trabalho arquitetônico, ou mesmo um evento natural)” (GADAMER, 989, p.).

O Iluminismo atacou severamente a tradição. O ataque começa com Francis Bacon no séc. XVI. Para Bacon a tradição, seja ela científica, filosófica ou mera- mente verbal, precisaria ser descartada para que chegássemos à ciência nova. Após Bacon nós passamos a viver em um presente puro, liberto da historicidade. Descar- tes no séc. XVII dá continuidade a esse processo iconoclasta de Bacon. Analisemos algumas passagens do Discurso do Método para compreender o processo de esqueci- mento da tradição e sua importância para as questões ambientais. Descartes inicia seu Discurso do Método comentando sua própria educação, declarando que uma boa parte do que aprendeu foi baseada no erro e na dúvida. Ele observa:

Desde a infância nutri-me das letras, e, por me haver persuadi- do de que por meio delas se podia adquirir um conhecimento claro e seguro de tudo o que é útil à vida, sentia um imenso desejo de aprendê-las. Mas, logo que terminei todos esses anos de estudos (ao cabo dos quais se costuma ser recebido na classe dos doutos), mudei inteiramente de opinião. Achava-me com tantas dúvidas e indecisões, que me parecia não ter obtido outro proveito, ao procurar instruir-me, senão o de ter revelado cada vez mais a minha ignorância (DESCARTES, 998, p. 33).

É aqui, no entanto, que Descartes apresenta em Discurso do Método o primei- ro de diversos ataques ao humanismo e à tradição.

Além disso, as fábulas levam a imaginar como possíveis muitos eventos. Mas, mesmo as histórias mais fiéis, se não mudam nem acrescentam valor às coisas para torná-las mais dignas de serem lidas, pelo menos omitem quase sempre as circunstâncias mais vis e menos ilustres, do que resulta que o resto não parece tal qual é, e que aqueles que regem os seus costumes pelos exem- plos que deles extraem estão sujeitos a incorrer nas extravagân- cias dos paladinos de nossos romances e a conceber projetos que estão além de suas forças. (Ibid., p. 35).

Descartes salienta o valor da matemática e surpreende-se que nada mais sólido saia de tais fundações tão notáveis. Simultaneamente compara as ciências matemáticas aos escritos de moral dos antigos escribas que nada diziam e diz que suas obras são como construções de “castelos em alagadiços e areia”. Está claro que Descartes busca discernir uma fundação sólida e estável para sua tese. Neste ponto sua preocupação consiste, então, na criação da filosofia fundacional.

Comprazia-me, sobretudo, com as Matemáticas, por causa da certeza e da evidência de suas razões; mas não percebia ain- da seu verdadeiro uso e, acreditando que serviam somente às artes mecânicas, surpreendia-me que, embora fossem firmes e sólidos seus fundamentos, nada de mais elevado se tivesse edificado sobre eles. Do mesmo modo, eu comparava os escri- tos dos antigos pagãos que tratam dos costumes nos palácios imponentes e magníficos, construídos, porém, sobre areia e lama. Erguem muito alto as virtudes e apresentam-nas como as mais apreciáveis de todas as coisas que existem no mundo, mas não ensinam a conhecê-las o bastante, e, com freqüência, o que denominam com um nome tão belo não revela mais do que uma insensibilidade, ou um orgulho, ou um desespero, ou um parricídio (Ibid., p. 35).

Além disso, Descartes passou a expressar sua surpresa com o fato de que na filosofia também tal diversidade de opiniões não apenas conseguia existir, mas pros- perar. Ele deprecia, então, tudo que na sua idéia parece ser “meramente demons- trável”: “Quanto às demais ciências, na medida em que emprestam seus princípios da filosofia, decidi que nada sólido poderia ser construído a partir de tais fundações trêmulas” (Ibd., p. 24). Após atacar o que denomina ciências falsas como a Astrolo- gia e Alquimia, Descartes se volta aos escritos literários, que ele coloca no mesmo nível da prestidigitação.

Ele afirma:

Eis a razão pela qual, tão logo a idade me permitiu sair da su- jeição de meus preceptores, abandonei inteiramente o estudo das letras. E, decidindo-me a não mais procurar outra ciência, além daquela que pudesse existir em mim próprio, ou então no grande livro do mundo, passei o resto de minha mocidade viajando, observando cortes e exércitos, freqüentando gente de diversos humores e condições, recolhendo diferentes experiên- cias, testando a mim mesmo nas armadilhas que a sorte me proporcionava e, por toda parte, fazendo uma tal reflexão sobre as coisas que se me apresentavam, para que pudesse delas tirar algum proveito (Ibid., p. 37).

“Penso, logo existo”: o sujeito da Razão como

fundamento da verdade

A partir de suas experiências e observações de viagem, Descartes chega à conclusão de que os costumes e a cultura em geral não podem ser usados para determinar a veracidade de coisa alguma, uma vez que há nas culturas tanta diver- gência e discórdia quanto entre os próprios filósofos. Ele escreve:

Assim, o maior benefício que daí tirei foi que, percebendo uma série de coisas que, entretanto, nos parecem aceitas e aprovadas comumente por outros grandes povos, aprendi a não confiar muito em nada do que me fora incutido somente pelo exem- plo e pelo hábito, e, desse modo, livrei-me gradativamente de muitos erros que podem ofuscar nossa luz natural e nos tornar menos capazes de ouvir a voz da razão. (Ibid., pp. 37-38).

À época de Descartes, já havia uma desconfiança de que os hábitos e pen- samentos fossem produzidos pela cultura. Na verdade, mesmo antes de Descartes, Montaigne já propunha que a verdade era relativa e intrinsecamente ligada à cul- tura em que era produzida. Na tentativa de eliminar tais suspeitas, Descartes busca descobrir um fundamento sólido e verdadeiro que não dependesse da cultura a que pertencia. É através de sua obra sobre a diversidade de opiniões na cultura que Des- cartes chega ao momento crucial do Discurso do Método – a mudança da história, cultura e tradição ao“eu”, a base de todo o conhecer.

A partir desse movimento elementar emergirão as fundações metafísicas da modernidade: “Mas, depois que, por alguns anos, apliquei-me a estudar no livro do mundo, a procurar adquirir alguma experiência, tomei um dia a decisão de estudar também a mim próprio, e de empregar todas as forças de meu espírito na escolha dos caminhos que devia seguir” (Ibid., p. 38).

Na Parte II do Discurso do Método, Descartes propõe suas famosas reflexões feitas numa sala aquecida pelo fogão. Tais reflexões ilustram particular e claramente a mudança do “eu” como centro de toda a certeza e verdade. Escrevendo em 69, num dia de solitária reflexão, Descartes propõe pela primeira vez que há no tra- balho de uma pessoa individual e única muito mais perfeição do que na produção de um grupo de indivíduos. Os trabalhos de um único arquiteto também parecem para Descartes muito mais belos do que qualquer trabalho em que um número de pessoas tenha participado. Descartes suspeita de qualquer ciência que não resulte da “luz natural da razão”. Ele concluiu que:

E assim pensei que as ciências contidas nos livros – pelo me- nos aquelas cujas razões são apenas prováveis e não oferecem quaisquer demonstrações, pois se compuseram e se avolumaram gradativamente graças às opiniões de diversas pessoas – não se acham, absolutamente, tão próximas da verdade quanto os sim- ples raciocínios que um homem de bom senso pode formular naturalmente, no que concerne às coisas que se lhe apresentam (Ibid., p. 39-40).

É possível identificar, em tal pensamento cartesiano, uma certa medida de ansiedade em relação à condição da infância. Desse modo Bordo (987) salientou que há na obra de Descartes um claro senso de desânimo. Ele sugere que isto é fruto da crença de Descartes de que é uma pena que não consigamos colocar em uso os discernimentos propiciados pela razão, quando nascemos. Descartes queixa- se particularmente do fato de cedo sermos moldados por professores e tutores, em suma, pela tradição. É neste período, que somos dotados pelo “preconceito” da tra- dição. Na verdade, Descartes parece lamentar o próprio fato de termos que herdar a cultura, a história e a tradição. Em suas palavras:

E, ainda assim, pensei que, uma vez que todos nós fomos crian- ças antes de chegarmos a ser adultos, e como foi necessário, durante muito tempo, que fôssemos governados por nossos de- sejos e nossos preceptores – que com freqüência se opunham uns aos outros – e que nem os primeiros nem os últimos talvez nem sempre nos aconselhassem o melhor, é quase impossível que nossos juízos sejam tão puros ou tão sólidos quanto se ti- véssemos o uso inteiro de nossa razão, desde o nascimento, e se tivéssemos sido guiados somente por ela. (Ibid., 998, p. 40).

É então que é possível identificar o início do que Bordo (987) descreve como processo de purificação do pensamento, que se encontra em Meditações, nas

regras para a direção do espírito e nos Princípios. Descartes declara estar preocupado

com as incertezas de seu tempo e numa tentativa de vencê-las propõe uma volta ao início de tudo. Isto, segundo seu argumento, só pode ser feito através de um ataque persistente e completo à tradição:

[...] mas que, com relação a todas as opiniões que até então aco- lhera em meu crédito, o melhor que poderia fazer seria dispor- me, de uma vez por todas, a retirar-lhes essa confiança, a fim

de substituí-las, em seguida, ou por outras melhores ou então pelas mesmas, depois que as tivesse ajustado ao nível da razão (Ibid., p. 40).

Para Descartes, o silogismo aristotélico provou ser mais útil para a explica- ção dos conhecimentos existentes do que para levar a conhecimentos novos e mais estáveis. Esse espírito de insatisfação força-o a buscar estabelecer um novo método, no qual possam ser eliminados tanto a perturbadora diversidade de visões quanto o potencial exagerado para o erro. Esse novo método foi assim condensado em quatro regras simples. Segundo Doll (993), os princípios desse novo método conquista- ram profunda aceitação nas modernas instituições educacionais. Os preceitos foram os seguintes:

O primeiro preceito era o de jamais aceitar alguma coisa como verdadeira que não soubesse ser evidentemente como tal, isto é, de evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção, e de nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e tão distintamente a meu espírito que eu não tivesse nenhuma chance de colocar em dúvida.

O segundo, o de dividir cada uma das dificuldades que eu exa- minasse em tantas partes quantas possíveis e quantas necessá- rias fossem para melhor resolvê-las.

O terceiro, o de conduzir por ordem meus pensamentos, a come- çar pelos objetos mais simples e mais fáceis de serem conhecidos, para galgar, pouco a pouco, como que por graus, até o conheci- mento dos mais complexos e, inclusive, pressupondo uma ordem entre os que não se precedem naturalmente uns aos outros. E o último, o preceito de fazer em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais que eu tivesse a certeza de nada ter omitido. (Ibid., p. 44-45).

Não é de se surpreender que os críticos do pensamento cartesiano tendam, então, a enfocar o ímpeto reducionista dessas regras, como demonstra o trabalho de Capra (982), Merchant (989) e Berman (985). Pretendo acrescentar, a tais análises do pensamento cartesiano, outra dimensão, isto é, o que vejo como o ani- quilamento da historicidade, por mais residual que sua presença explícita possa ser e seu constante ataque à tradição. Como está proposto nessas regras, o método de Descartes possibilitou-lhe o uso da razão em seu potencial completo. Descartes

não descansará enquanto a razão não existir e funcionar por virtude de seu próprio poder. Ele afirma: “Mas o que mais me satisfazia nesse método era o fato de que, por ele, estava seguro de usar em tudo minha razão, se não perfeitamente, pelo me- nos da melhor forma que eu pudesse.” (Ibid., p. 47). Numa práxis cartesiana, havia uma constante necessidade de permanecer vigilante, de forma que nenhum resíduo de tradição pudesse manchar os processos da razão. Desse modo, ele explica a si mesmo: “[...] desenraizando de meu espírito todas as más opiniões que nele se ani- nharam até essa época quanto acumulando muitas experiências, para servirem mais tarde de matéria para meus raciocínios, e exercitando-me sempre no método que me prescrevera, a fim de me firmar nele cada vez mais.” (Ibid., p. 47).

Descartes busca construir um conhecimento inteiramente novo. Com isto em mente, passa a eliminar toda a filosofia escolástica. Mas nesta crítica ele vai além, propondo minar e apagar a validade do bom senso. Em suas palavras:

E, como ao demolir uma casa velha, reservam-se geralmente os escombros para servir à construção de outra nova, do mesmo modo, ao destruir todas as minhas opiniões, que julgava mal- fundadas, fazia diversas observações e adquiria muitas experiên- cias, que posteriormente me serviriam para fundamentar outras mais certas (Ibid., p.53).

Na Parte IV do Discurso do Método, e após delimitar os preceitos de sua mo- ralidade provisória, Descartes dirige-se ao ataque de ainda outro aspecto da tradição – os sentidos. É importante aqui lembrarmos que na filosofia medieval nada chega- va ao intelecto sem antes ser processado pelos sentidos. O pensamento cartesiano passa a mudar esse estado de coisas radicalmente:

Há muito observara que, quanto aos costumes, é necessário às vezes seguir opiniões – que sabemos ser muito erradas – tal como se fossem indubitáveis, como já foi dito acima; mas, por desejar então ocupar-me somente com a pesquisa da verdade, pensei que seria necessário agir exatamente ao contrário, e re- jeitar como absolutamente falso tudo aquilo em que pudesse imaginar a menor dúvida, a fim de ver se, após isso, não restaria algo em meu crédito que fosse inteiramente indubitável. Assim, porque os nossos sentidos nos enganam às vezes, quis supor que não havia coisa alguma que fosse tal como eles nos fazem ima- ginar. E, por haver homens que se equivocam mesmo em seus

raciocínios no tocante às mais simples questões de Geometria, e cometem aí paralogismos, rejeitei como falsas – julgando que estava sujeito a falhar como qualquer outro – todas as razões que eu tomara até então por demonstrações (Ibid., p. 55).

Descartes propõe, então, uma analogia entre os costumes e opiniões encon- trados na tradição e os sonhos. Conclui que a tradição é pouco mais do que um sonho. Como se pode fazer a distinção entre um estado de alerta, no momento do despertar, e o do sonho durante uma soneca? Significativamente, no entanto, apesar de argumentar que tudo podia não passar de um sonho, ele reconhecia também que uma coisa ainda era a mesma – o fato de que a todo momento ele pensa. Com base nesta observação, “Penso, logo existo”, Descartes argumentou que “as mais extrava- gantes suposições dos céticos não seriam capazes de a abalar, julguei que podia acei- tá-la, sem escrúpulo, como o primeiro princípio da Filosofia que procurava” (Ibid., p. 57). Assim surge o sujeito moderno, o qual a educação moderna tentará reproduzir. Importante: neste estágio este sujeito ainda não tem um lugar.

Um lugar para o Sujeito: o pertencimento como

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