Diante dos múltiplos aspectos que compõe esse cenário de disputas, conquistas e resistências e ciente das lacunas presentes na tessitura deste trabalho ao abordar um tema que é ponto de chegada de tantas trajetórias e do qual partem tantos caminhos a serem percorridos, defina essas considerações finais como uma pausa na caminhada. Um momento de respiro para que os passos dados e as reflexões desenvolvidas até aqui possam tomar uma forma, para que as falas e os olhares aqui trazidos e relacionados possam ser sentidas e, assim, incorporadas ao caminhar deste pesquisador e aos passos que podem ser dados por este educador.
No tocante ao ensino de História, observo entre a aplicação das propostas para a Educação das Relações Étnico-Raciais através da descolonização curricular, cuja abordagem à história e cultura africana, afro-brasileira e indígena é seu aspecto mais significativo, ainda entra em descompasso com os diversos elementos conservadores já presentes na Educação Básica e no ensino de História, ademais de outros que tem se inserido no ambiente escolar pela via da reprodução cultural e religiosa levada pelos sujeitos que se relacionam com esse espaço.
Considero que a consolidação das pautas para a Educação Escolar Quilombola da maneira como é reivindicada pelos movimentos – da educação infantil ao ensino superior, assim como é observável na modalidade de educação do campo – constitui um pilar fortalecedor de experiências e propostas para uma educação antirracista, mais democratizante e igualitária tanto para as escolas do campo, quanto para as escolas urbanas.
Todavia, diante de um cenário político de profundo retrocesso das políticas sociais, raciais e voltadas para a população camponesa no Espírito Santo e no Brasil, a construção da Educação Escolar Quilombola deve assumir o aspecto de resistência e o caráter revolucionário do quilombo histórico e das comunidades quilombolas contemporâneas. Sua construção deve ser garantida por cada educador, aluno e comunidade consciente de sua importância, assim como a retomada territorial quilombola do Sapê do Norte vem sendo realizada, em cada espaço possível dentro do sistema opressor, em cada fileira de monocultura derrubada em prol da
diversidade da produção camponesa e como um fogo que contagia e envolve quem antes apenas observava de longe. O fogo que “queima aqui” e abre espaço para o sapê “rebrotar lá” (FERREIRA, 2009).
Enquanto a Educação Básica se mantiver preservada por grades – físicas, organizacionais e curriculares – continuará perdendo as enriquecedoras oportunidades de diálogo com os saberes e as identidades de seus sujeitos educandos. Seguirá estimulando a concorrência para o mercado de trabalho ao invés da construção de campos de união, seguirá reproduzindo exclusões, evasões e fracassos escolares, ao invés de construir sonhos, seguirá reproduzindo a dispersão que afasta o camponês da terra e fragmenta as relações familiares e comunitárias, ao invés de fortalecer os afetos que unem as comunidades, os laços que “grudam” os sujeitos apesar de suas diferenças, como se fosse uma corda de caranguejo.
Não se trata de construir paliativos educacionais para agradar as militâncias do movimentos negros e quilombolas, mesmo porque as educadoras negras e educadores negros constituem há décadas uma frente de geração de vanguardas e de renovação de forças para os mais diversos movimentos contestatórios à opressão social, racial, religiosa e de gênero em nossa sociedade, portanto, enquanto coletividade, não se sentam na sobra de benécies políticas enquanto seus filhos e filhas seguem sendo assassinados nas periferias do país em decorrências das más distribuições e as exclusões que este sistema político e econômico produz.
Por fim, considero que um verdadeiro encontro entre as diferenças se torna cada dia mais necessárias para curar as fraturas profundas que nossa sociedade vivencia no momento desta escrita. Um encontro no qual as universidades, os coletivos de juventudes, os sindicatos do magistérios, as associações de pesquisadores relacionados aos campos dos distintos saberes, as associações comunitárias camponesas, quilombolas e urbanas, as escolas e as famílias pactuem a construção de um projeto educacional amoroso e humano, com respeito mútuo e crescimento compartilhado, diante do qual as secretarias de educação co-laborem envolvidas, ou apenas cumpram sua função de instâncias gestoras dos recursos necessários à realização do que foi pensado pelo todo e para todos e todas.
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