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São desconhecidas no Brasil, ainda hoje, muitas das mulheres intelectuais que, na segunda metade do século 19, receberam educação, correspondiam-se com estrangeiro/as ou escreviam em jornais. Algumas delas se consideravam feministas ou tinham posições que hoje poderíamos classificar como análogas. Portanto, reconhecer discursos desta espécie torna-se importante para a constituição das memórias dos feminismos latino-americanos, à luz das teorias feministas pós-coloniais às quais se aliam esta Tese.

O Sufrágio Universal e a Abolição da Escravatura são experiências sociais que marcam essas análises, tendo como paisagem um roteiro de viagem estabelecido por mulheres engajadas politicamente com a liberdade feminina, seja pelos modos de vestir ou discursos, a despeito dos já estabelecidos e cristalizados. Nossos focos

de investigação são os textos escritos por uma destas mulheres, a livre pensadora Julie Engell-Günther.

Sem dúvida, o movimento pela educação é parte constituinte destas lutas feminista, em geral, construídas em redes. June Hahner (2003) destaca que, durante muitos anos, as mulheres latino-americanas já profissionalizadas participaram de conferências internacionais científicas e relativas às questões sociais. Em uma série delas, ocorrida entre 1895 e 1916, foram tratadas demandas que coincidiam com as batalhas feministas, como maternidade e assistência infantil.

O olhar sobre o Brasil de uma europeia do século 19 une-se a outros já relatados em diários como o escrito pela viajante que passou pela América Latina, Flora Tristan, avó do artista Paul Gauguin – obra publicada em 2000 pela Editora Mulheres45 (Florianópolis-SC).

O problema da presente pesquisa foi entender os contextos históricos, sociais e culturais que foram a base dos escritos e memórias desta livre pensadora alemã que viveu no século 19 entre o Brasil e a Alemanha.

Nesses 165 anos, desde o período em que Julie Engell-Günther esteve no Brasil, muitas feministas estiveram em atuação, mas nem todas as experiências dispõem, hoje, do mesmo grau de visibilidade. Se durante todo este tempo nenhuma luta esteve sem as mulheres, interessa conhecê-las de forma mais aprofundada nas suas relações de gênero e interétnicas, a partir de uma perspectiva pós-colonial.

A motivação desta Tese foi entender novos e antigos sonhos feministas. Há confluência de agendas feministas com o movimento de mulheres europeias e o que estes projetos têm a ver com fazer política e com o Estado? Pensamos que ainda há muito por fazer pela transformação do lugar das mulheres, e que é possível construir novos campos de lutas a partir das muitas vozes para que se siga dialogando com as diferenças e para que mulheres possam continuar escrevendo sobre mulheres.

A partir do estudo dos escritos de Julie Engell-Günther, busquei estudar uma imagem do Brasil oposta à produção mais conhecida de outros viajantes que também escreveram sobre as relações de gênero e interétnicas da época. Esses olhares foram produzidos no contexto de uma ampla rede feminista internacional no século 19 e das diferentes

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Não apenas “Peregrinações de uma pária”, como toda a coleção de autoria feminina desta Editora, sistematizada pela professora Zahidé Lupinacci Muzart, foi indispensável para a formulação da presente questão deste estudo.

redes de tradução e constituição de memórias sobre o feminismo e a imigração alemã.

Nestes contextos, se faz necessária uma análise mais criteriosa sobre essas realidades, onde muitas etnias se encontraram para a formação de uma identidade para o País provocada pelas diferentes formas de governo. A antropologia teve importante papel para a compreensão destes momentos, com autores como Gilberto Freyre, entre 1920 e 1930; ou Florestan Fernandes e Darcy Ribeiro, entre 1940 e 1950.

Nos movimentos migratórios e de formação de cidades no interior de Estados como São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, preocupa observar, principalmente, a forma como estas memórias são ativadas e como estas histórias constituem a composição da antropologia e dos estudos de gênero.

O processo migratório foi instituído pelo poder legislativo, na substituição da mão-de-obra escrava pela branca, ou pelo poder executivo, a partir da fundação de colônias alemãs com distribuição da pequena propriedade.

As primeiras imigrações de europeus para o Sul do Brasil ocorreram em 1824 (Colônia de São Leopoldo - RS) e 1829 (Colônia de São Pedro de Alcântara - SC). A combinação de sucessivas crises provocadas pelo desemprego durante a Revolução Industrial – bem como a instituição de vacinas, que fez diminuir a mortalidade infantil e manter um índice populacional em ascensão – despertou o interesse pela migração de muitas famílias – 60 milhões deixaram os países de língua alemã.

Enquanto isso, o Brasil de terras devolutas e de enormes abismos sociais entre poderosos e escravos preocupava-se em formar uma classe média que fosse capaz de fazer circular uma moeda forte. Ao mesmo tempo, a ameaça de levantes de escravos, como ocorria em outros países, e a necessidade de “branquear a raça” fizeram com que muitos europeus fossem incentivados pelos governos e colonizadoras a migrar. Cinco milhões deles, que viviam nos Estados Unidos e no Brasil, falavam alemão (JOCHEM, 1999).

De 1818 a 1950, 235 mil alemães vieram para o Brasil. Enquanto a colonização aumentava, a Escravidão diminuía. Do total da população brasileira, 18 milhões eram descendentes de alemães, o que corresponde a 10%.

Por este motivo, memórias de mulheres sobre as relações de gênero e étnicas podem trazer contribuições mais plurais para um campo androcêntrico em sua formação. Momentos que devem ser repensados à

luz de novas teorias que buscam a reparação histórica, mesmo que relativa.

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