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Gestion des programmes et des projets

B. Constatations et recommandations

11. Gestion des programmes et des projets

A resistência frente às imposições da memória faz parte da história de Santa Catarina, especialmente pelo episódio de 30 de novembro de 1979. Durante o último governo da ditadura militar no Brasil, em uma visita do então Presidente da República, General João Baptista Figueiredo, ocorreu um protesto pacífico de estudantes universitários contra a inauguração da placa em homenagem a Floriano Peixoto, alusiva aos 90 anos da República, que seria inaugurada na Praça XV de Novembro. Esse protesto acaba por se transformar em uma incontrolável revolta popular que ficou conhecida como Novembrada.

A chegada do Presidente da República teria reunido quatro mil pessoas na Praça XV de Novembro. Funcionários públicos, engraxates, motoristas de táxi, crianças e aposentados, office-boys, guardadores de automóveis, comerciários e estudantes. O Governador do Estado na época, Jorge Bornhausen, dispensou os funcionários e decretou ponto facultativo. Nas ruas e na Praça XV, bandeiras e faixas saúdam o presidente da conciliação. O Presidente não fez nenhum pronunciamento e, após o discurso do governador, saiu do Palácio e foi ao Ponto Chic, um café localizado a duas quadras do Palácio, conhecido também como “Senadinho” – ponto de encontro de políticos boêmios e aposentados. Lá ele seria homenageado com o diploma “amigo do Senadinho” (CORADINI, 1992).

Do outro lado da praça (na Câmara Municipal), o jovem e moderado vereador do MDB, I. P. surpreendia seus pares com um inflamado discurso, classificando de injuriosa a colocação de uma placa alusiva ao 90.º aniversário da República. I. P. não escondia que o estímulo para a audaciosa atitude de enfrentamento da ditadura militar vinha sobretudo do sentimento de humilhação sofrida há tanto tempo, mas que permanecia latente em parcela significativa das famílias tradicionais da capital. No bar Ponto Chic, o famoso “Senadinho” da rua Felipe Schmidt, era aguardada a

visita do general F., o qual, em companhia de ministros e do governador J.B., iria saborear um cafezinho - mais uma etapa do projeto de marketing político do “João, presidente como a gente”, cujo objetivo era transformar o novo general de plantão em figura popular. Os experientes freqüentadores do “Senadinho” chamavam atenção para a falta de tato da Secretaria da Comunicação Social da presidência da República em prestar uma homenagem a Floriano Peixoto numa cidade que, embora tenha sido batizada com seu nome, não possui sequer um busto ou logradouro público em sua memória.79

Figura 3.44 (A e B) - Novembrada , placa em homenagem aos 90 anos da Proclamação da República, arrancada por populares na Praça XV (A). General Figueiredo no Tumulto (B). Fonte:

<http://www.tijoladasdomosquito.com.br/.../> (Blog de Amilton Alexandre, um dos integrantes do movimento estudantil)

O protesto foi organizado pelo Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e tomou proporções que as lideranças estudantis não imaginavam. O Presidente empurra um estudante e toda a comitiva acaba envolvendo-se na confusão. Figueiredo com muito custo consegue atravessar a rua e entra no carro oficial. Na Praça os manifestantes batem nos carros da comitiva, afastam os policiais militares e tomam a Praça (CORADINI, 1992, p. 155).

Sete estudantes foram presos e enquadrados na Lei de Segurança Nacional: Adolfo Luís Dias, Amilton Alexandre, Geraldo Barbosa, Lígia Giovanella, Marise Lippel, Newton Dias Vasconcelos e Rosângela de Souza. Todos acabaram absolvidos, por falta de provas, pela Justiça Militar em Curitiba, dois anos depois.

A vida política só pode ser comparada com um teatro se pensar verdadeiramente a relação entre o partido e a classe, entre a luta das organizações políticas e a luta das classes, como uma relação propriamente simbólica entre um significante e um significado ou, melhor, entre representantes dando uma representação e agentes, ações e situações representadas. (BOURDIEU. 2007, p.175).

A placa que seria instalada na Praça XV de Novembro era uma homenagem aos 90 anos da República e compunha os dizeres: “1889 – 1979. Homenagem do Presidente da República João Figueiredo ao Marechal Floriano Peixoto no 90.º aniversário da República. Brasília, em 15 de novembro de 1979. João Figueiredo, Presidente da República.” Até a presente data, a placa encontra-se em poder do atual coronel N.M.,que na época era um jovem militar (Figura 3.44).

Protegendo as mãos com jornais, pois a placa ainda estava quente, o jovem oficial da polícia militar decidiu levá-la para casa. ‘Percebi que tinha diante de mim um objeto de valor histórico inestimável para o povo da capital catarinense, e sabia que se deixasse a placa ali certamente seria destruída’, relata o hoje coronel N.M., que durante dezesseis anos arvorou-se em depositário do monumento.80

O episódio também resultou em um livro, com autoria de Moacir Pereira: Novembrada um

relato da Revolução Popular, e o filme Novembrada, que será tratado mais adiante.

A identidade é fruto dos esforços do campo de poder, com o objetivo de sustentar e unificar um povo em um lugar. Nessa medida, a Praça XV aparece como um microterritório utilizado na manutenção das ideologias e palco das manifestações políticas instituídas pelo poder público, mas também como espaço demonstrativo da realidade social e, por consequência, das novas formas de apresentação dessa realidade.

Para Popini, o episódio da novembrada é um forte indício de que a praça abriga importantes signos da memória coletiva.

Mudanças ocorreram posteriormente na paisagem local - o palácio foi transformado em museu - mas o lugar manteve a sua função e significado. As antigas práticas de sociabilidade mostram-se resistentes às mudanças, contribuindo para a renovação do significado da praça como espaço de sociabilidade, reforçado pela celebração de episódios históricos como esse. O significado consagrado pela população é sempre renovado para os visitantes e para os novos imigrantes, sendo então designado como o principal sítio de manifestações religiosas e políticas, mas, sobretudo como o espaço de comunicação entre os cidadãos no cotidiano. (POPINI VAZ, 2003, p.146).

O episódio político motivou a produção de um curta-metragem ficcional, intitulado Novembrada. O filme teve a direção de Eduardo Paredes, que foi premiado pelo Festival de

Gramado, em 1998, com três Kikitos: Melhor Direção de Arte, Melhor Filme (Júri Popular) e Prêmio Canal Brasil. O filme teve como protagonista o ator Lima Duarte, fazendo o papel do último presidente da ditadura militar, General João Figueiredo.

Sinopse: Em novembro de 1979, um protesto de estudantes universitários, contra a presença do Presidente da República João Figueiredo, transforma o centro da ilha de Santa Catarina em um campo de batalha. Este episódio ajudou a derrubar a censura e tornou-se um marco no processo de abertura democrática no país.

Figura 3.45 - Imagens do filme Novembrada Fonte: <www.pmf.sc.gov.br/funcine/filmes.htm>

Em uma obra ficcional existe a liberdade poética, porém, como esse filme está baseado em um fato real, o episódio teve cobertura da televisão e do jornal, logo, o diretor teve uma linearidade a ser seguida.A reação de parte da população contra a inauguração de uma placa em homenágem ao Marechal Floriano Peixoto na praça XV, um personagem que contesta o ato publicamente, lembra também das atrocidades cometidas por Floriano Peixoto, executanto catarinenses sumariamente na Ilha de Ainhatomirim. Detalhes que mostram a articulação política e a maneira como esse episódio acontece na ilha de Santa Catarina. Apesar de ser uma obra de ficção, o filme propicia ao espectador uma memória sobre o episódio ocorrido na história da cidade (Figura 3.45).