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5.4 Formalisation

5.4.5 Gestion des boucles

Até 1995, Portugal e o Luxemburgo eram os únicos países da União Europeia que não tinham uma escola de cães-guia para cegos. A partir de 1995 com a candidatura da Escola Profissional Beira Aguieira a um programa comunitário no âmbito do projeto Horizon/Feder, surgiu a escola de cães-guia em Mortágua. Foi o ponto de partida para

ser possível a realização de uma parceria com a Federação Francesa de Escolas de Cães- guia (FFAC), com a formação de dois educadores em França, aquisição do terreno e construção do edifício e da equipa. Em 2000, nasceu a Associação Beira Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual (ABAADV). Conta atualmente com três educadores e um pré-educador e trabalha com o objetivo de formar cães-guia para cegos. É apoiada pelo Estado através de um protocolo celebrado com a Segurança Social, a Câmara Municipal de Mortágua, outros Municípios, algumas empresas patrocinadoras e sócios (ABAADV, 2014). A escola começou por trabalhar com dois educadores, entregando oito cães; posteriormente, com três educadores, passando a formar aproximadamente doze cães por ano. Com a colaboração atualmente de um pré-educador que abrevia o trabalho dos educadores, a escola conseguiu entregar catorze cães em 2012 e dezoito em 2013, com as respetivas substituições dos cães que foram reformados. Presentemente, alguns utilizadores estão a constituir a segunda ou a terceira dupla. Esta faixa, por já ter tido um primeiro cão, tem prioridade sobre os restantes (ABAADV, 2014; Paiva, 2013).

A maior parte dos cães-guia treinados encontra-se a trabalhar nas cidades, uma vez que a população com deficiência visual está mais concentrada nos centros urbanos onde desenvolve a sua atividade profissional. Porém, a intervenção da escola vai de norte a sul do país. Um cão-guia é uma ferramenta que está acessível a todos desde que a pessoa cega tenha emprego ou esteja em formação (Paiva, 2013). No entanto, sabe-se que só uma pessoa com deficiência visual em cada cem pode beneficiar de um cão-guia. A decisão de utilizar uma bengala ou um cão-guia não pode ser feita de forma irrefletida, já que o cão não é um objeto ou uma máquina. Tem sentimentos, desejos e vontades que têm que ser tidos em conta diariamente (ABAADV, 2014; FFAC, 2011).

O cão-guia é entregue gratuitamente à pessoa cega, mas tem um custo que resulta das despesas de manutenção da escola, salários dos colaboradores, alimentação, saúde, material, entre outras necessidades. Ao utilizador apenas são imputadas as despesas do estágio durante a entrega ao utilizador. O custo final de um cão-guia educado e pronto para entrega é aproximadamente 17.500 euros. Contudo, este valor não corresponde totalmente à realidade, já que não é contabilizado o trabalho indispensável e voluntário, das famílias de acolhimento (ver secção 3.3.4.5.) (ABAADV, 2014; Paiva, 2013).

Até ao mês de março de 2014, a Escola de cães-guia de Mortágua já entregou 134 cães educados na instituição, a 111 utilizadores; 8 cães, educados pela Guiding Eyes for the Blind, escola nos Estados Unidos da América, entregues a 8 utilizadores. O estágio destas duplas foi concluído em Portugal com o acompanhamento dos educadores da Escola portuguesa; e um cão educado pela Ecole de Chiens Guides dAveugles de Lyon et du Centre-Est em França entregue a um utilizador. A disparidade observada entre o número de cães e de utilizadores prende-se com o facto de a vida útil de trabalho do cão ser curta, estimada entre os 7 e os 9 anos, aproximadamente. São uma ajuda importante para as pessoas cegas, mas este número ainda está aquém das necessidades. A quantidade de candidaturas é elevada e a espera longa (Paiva, 2014).

3.3.3.1. Os procedimentos

Antes de uma pessoa cega poder adquirir um cão-guia, deve ser capaz de caminhar com segurança e independência no seu dia a dia. Deve ter feito um programa de orientação e mobilidade. Esta etapa é fundamental para depois se poder desenvolver uma relação de trabalho com um cão-guia (Min, 2013).

Cada instituição tem a sua forma própria de trabalhar e, consequentemente, diferentes maneiras de selecionar os futuros utilizadores de cão-guia.

De acordo com a Eye Dog Foundation for the Blind (2014), uma das muitas instituições americanas que treinam e fornecem cães-guia, a pessoa cega para entrar no programa para aquisição de um cão-guia, tem que preencher alguns requisitos básicos:

Ø Ser legalmente cego;

Ø Possuir boa saúde física e mental;

Ø Frequentar o ensino secundário ou trabalhar (não havendo idade mínima nem máxima para obter o animal);

Ø Ter condições adequadas e querer o cão com intenção de melhorar a mobilidade (Cardoso, 1997).

Em Portugal, os procedimentos são semelhantes. Porém, a idade mínima para a candidatura ser aceite é aos 18 anos (Cardoso, 1997). A pessoa cega começa por ter acesso a um dossier composto por vários documentos, de entre os quais se destacam: carta de acolhimento que apresenta e acompanha o dossier de candidatura (anexo 1), formulário (anexo 2), e respetivos critérios de admissão, seleção e entrega do cão (anexo 3). Mais tarde, num tempo menos distanciado da entrega, é realizada uma entrevista em profundidade e feita uma avaliação cuidadosa das suas capacidades físicas, tipo de personalidade e reais necessidades. Estes procedimentos ajudam a direcionar os técnicos a selecionar o animal e a fazer a apreciação das características do futuro utilizador em conformidade (Paiva, 2014).

3.3.3.2. Parcerias entre a ABAADV e escolas estrangeiras

A Federação Francesa de Escolas de Cães-guia para Cegos (FFAC) coordena as ações das outras escolas afiliadas. Reconhecida a sua utilidade pública, a federação oferece aos seus membros um suporte técnico e financeiro para que o máximo de cães- guia sejam entregues gratuitamente (FFAC, 2011).

Como a lista de espera ronda em média os 50 candidatos anualmente, a escola Beira Aguieira procurou desenvolver duas parcerias, uma com a Federação Francesa de Cães-guia, que fornece alguns cachorros anualmente para serem treinados em Portugal, e outra com a Escola Guiding Eyes for the Blind, em Nova Iorque. No segundo caso, a pessoa cega recebe no mês de setembro uma carta acompanhada de um questionário que deve ser preenchido pelos interessados (anexos 4 e 5). Tendo em conta as respostas, a escola vai aferir aqueles que preenchem os critérios de seleção. Posteriormente, um educador da Guiding Eyes for the Blind desloca-se a Portugal para avaliar e selecionar entre os meses de outubro e novembro, os candidatos para irem em maio do ano seguinte. Os critérios de seleção são os mesmos da escola portuguesa, acrescidos de outros, tais como conhecimentos elementares de inglês, disponibilidade durante três semanas (em vez de duas como em Portugal) e estrutura económica para suportar os custos inerentes às viagens, estadia por quinze dias nos Estados Unidos e pagamento do estágio. Um educador acompanha os dois utilizadores selecionados e, posteriormente, em Portugal, os educadores da ABAADV completam a formação das duplas, em

contexto de trabalho e já no quotidiano de cada um dos utilizadores. As duplas serão acompanhadas pela ABAADV.

A colaboração da escola norte-americana evoluiu no decurso de uma auditoria técnica efetuada pela Federação Internacional de Escolas de Cães-Guia para Cegos (IGDF) à Escola de Cães-Guia de Mortágua. Foi posta em evidência a longa lista. No sentido de minimizar esta situação, a escola aceitou a parceria e acompanhou os primeiros dois utilizadores a realizar estágio à Guiding Eyes for the Blind, em maio de 2010 (Paiva, 2013).