3.3 Proposed Model
3.3.1 Generative Process
As categorias de análise foram retiradas da compreensão do Projeto Urbano, dentro da ótica morfológica. Pretendia-se estudar alguns aspectos, dentre muitos, que estão envolvidos na formação de um fato urbano e que determinam o seu caráter, não sendo essas nem a única nem a definitiva resposta para esta questão.
6.2.1 Escala
Tendo em vista o exposto, pode-se concluir, para a categoria de Escala, na análise referente ao recorte temporal de 1954, que a relação entre a edificação e a escala humana é respeitada. A média para a razão D/H encontrada foi de 2.3, sendo que a maior parte dos tipos analisados obteve como resultado o valor igual a 2,9. Quando o observador se posiciona na calçada da praça e de frente para cada edifício, ele pode perceber todo o volume da quase totalidade das edificações construídas no entorno. A exceção é o tipo 01, representado exclusivamente pelo casarão dos Boxewell, que também é o único elemento escultórico do conjunto, como foi visto na categoria de Proporção, e não atua negativamente sobre a área objeto do estudo. Uma vez que a maior parte da volumetria do construído não só está dentro do campo de visão do observador, como ultrapassa o volume das edificações, possibilita-se também a percepção do que está além do objeto, conferindo domínio espacial e uma maior noção de amplitude para o observador.
Em comparação à situação encontrada em 2004, quando as únicas edificações que podem ser percebidas como um todo são as remanescentes do Loteamento Banco Hipotecário Lar Brasileiro, pertencentes à tipologia 03. A média obtida para a razão D/H foi de 0,4, estando a maior parte das edificações entre 0,55 e 0.28. As edificações pertencentes ao tipo 06 permitem que o volume da sua base seja percebido em sua totalidade pelo observador, o que gera um elemento construído intermediário entre este e o edifício, mais próximo da escala
humana. O volume da base das edificações dos tipo 07 e 08 não pode ser percebido como um elemento em sua totalidade, por isso não está de acordo com a escala do observador situado na calçada da praça.
Aqui se considera que, em se tratando o edifício como um elemento isolado e sua relação com o espaço público, o que interfere mais é a forma e altura da base da edificação, sua implantação no lote, e o material escolhido para a vedação da parcela, que propriamente a altura do edifício em si. Uma vez que o modelo adotado pelos incorporadores imobiliários para habitação multifamiliar é o edifício vertical, seria necessário o aporte de uma metodologia de Projeto Urbano para definir as características e critérios para a forma da base da edificação, com o objetivo de criar um diálogo ou uma harmonia com a escala humana.
6.2.2 Proporção
Na categoria de Proporção, analisou-se a relação entre a Praça Fleming e a tipologia edificada do seu entorno, através das colocações de Camillo Sitte, quanto aos parâmetros necessários para estabelecer a proporção adequada entre as dimensões de uma praça e os elementos construídos do seu entorno. Considerou-se que a menor dimensão da praça deve ser igual à altura do elemento construído de maior relevância (D/H=1) no seu entorno imediato e que a sua maior dimensão não deve ultrapassar o dobro desta medida, resultando para esta última que, para a proporção D/H ser considerada equilibrada, o valor deve se mover entre 1 e 2 (1 ≤ D/H ≤ 2).
Foi observado, no recorte temporal de 1954, que as mediadas da praça ultrapassam a altura do elemento de maior destaque do entorno; enquanto que em 2004 encontramos a situação inversa. As medidas estão abaixo do indicado pelos parâmetros utilizados. Vimos, no capítulo referente ao recorte de 1954, que a área da praça foi determinada pela legislação, a qual indicava, para novos loteamentos, o percentual de 40% de área verde em proporção à
área destinada às parcelas. Na lei vigente à época, não havia a indicação quanto à utilização do percentual de área verde em um único espaço público. O resultado encontrado foi fruto da atitude projetual do arquiteto que, observando os preceitos modernistas, buscou complementar o espaço livre destinado ao lazer, que antes estava dentro da parcela. Na interpretação da legislação, o arquiteto tirou partido do espaço público tanto para ordenar o programa do loteamento, quanto para articular as novas construções com o meio natural e o construído existente. Atitude considerada, nesta pesquisa, como inserida nos princípios do Projeto Urbano.
No capítulo referente ao recorte de 2004, observou-se que os novos edifícios são o resultado dos parâmetros construtivos ditados pelas legislações em vigor naquele momento, as quais faziam a leitura da cidade através do zoneamento. Este tipo de planejamento passa da escala urbana para a escala da parcela, sem observar a escala intermediária que trata do conjunto de parcelas e sua relação com o espaço público. Por isso, o novo conjunto de edifícios, definidores do espaço da Praça Fleming, é fruto de atitudes projetuais individualizadas que observam apenas o lote e seus condicionantes, ditados pela legislação urbanística vigente e definidos a partir das orientações do mercado imobiliário. Esta atitude reforça a desconsideração quanto à relação das novas edificações com o espaço público, estando fora dos princípios do Projeto Urbano.
6.2.3 Permeabilidade Visual
Com relação ao recorte temporal de 1954, no tocante à Permeabilidade Visual, observou-se que a atitude projetual de complementaridade do espaço livre público em relação ao espaço construído, evidencia-se através dos muros baixos do jardim frontal das casas, que fazem uma transição entre os dois espaços. Observando-se a relação entre a Praça e o todo construído, dentro do contexto urbano, constata-se que, embora o conjunto tenha um caráter
de fechamento entre as edificações, dada a sua morfologia e o traçado urbano, o gabarito baixo permite que se perceba o espaço além das edificações. Além de conferir a permeabilidade visual também entre o espaço interno do conjunto e o espaço circundante a ele. Esse fato contribui para que, embora exista o fechamento do conjunto, o efeito de confinamento espacial seja reduzido.
O cenário que observamos no recorte temporal de 2004 é outro, neste importam tanto o volume edificado quanto o tipo do elemento de vedação. Fruto de uma tipologia creditada à violência urbana, os muros altos impedem a continuidade visual da maior parte dos tipos analisados. A exceção recai sobre o tipo 06, no qual o volume do pavimento garagem semi- enterrado, de cerca de 1,50m de altura, foi complementado por grade que mantém a mesma permeabilidade visual de quando se deu a sua construção, o que possibilita um campo mais profundo de visão, cortado, porém, ao nível da fachada.
Sem a intenção de se aprofundar nas questões sociais, mas a título de comentário fundamentado no referencial teórico desta pesquisa, Jane Jacobs já tratava do tema salientando que a falta do olhar vigilante dos moradores e da identificação destes com aquele espaço público, aumenta a insegurança. Em se detendo apenas nas questões morfológicas, conforme os parâmentos para a projetação de espaços livres sugeridos por Ashihara, um muro a partir de 1,5m de altura funciona como elemento de vedação e pode ocultar uma pessoa. Isso significa que, ao mesmo tempo em que impede a visão das residências, esse elemento também impossibilita que se vigie o espaço livre público a partir da residência. O recorte urbano analisado oferece algumas soluções para a manutenção da continuidade visual, como grades e elementos vazados que permitem a continuidade visual e ao mesmo tempo a proteção exigida pelos dias de hoje.
circundante a ele, cabe aqui a ressalva que, mais uma vez, o elemento de maior influência no fechamento espacial não é o gabarito dos edifícios. considera-se que se existe um distanciamento entre os mesmos, mantém-se a percepção do espaço situado além do conjunto, mas sim do gabarito e da volumetria dos pavimentos destinados a guarda dos veículos que juntos, geram o confinamento espacial, uma vez que não permite a percepção do que está além do conjunto. Assim, o efeito espacial resultante do conjunto atual da Praça Fleming é o de confinamento, o que se deve não propriamente à tipologia do edifício vertical, mas a falta de diversidade de tipologias, sendo o entorno praticamente formado por esta tipologia.