6. Client/Server Responsibilities
6.2. Server Responsibilities
6.2.1. General Server Responsibilities
Outros modos de ser e de saber tornam-se acessíveis a quem se despoja por inteiro da forma-homem, a quem deixa as ondas do mar lavar o rosto de areia.
Essa proposição, assim como o diagnóstico do "fim próximo" do homem (FOUCAULT, 2007, p. 536), carrega um ar perturbador. Certamente, não porque implique e aponte para o desaparecimento da espécie homo sapiens da superfície do globo (nos afastamos desse sentimento da catástrofe na mesma proporção em que confirmamos, pelo saber legitimado da ciência, a concretude e a atualidade dessa possibilidade). O horror que nos toma diante de uma ideia como essa se deve ao fato de existirem, em nossa contemporaneidade, regiões inteiras do planeta em que o homem, a humanidade não passa de um vulto. Que existam mundos inumanos e que o nosso esforço de humanização ilimitada fracasse diante deles: eis o que nos assusta.
Mais ainda: os limites e a localização destes mundos nos são quase completamente desconhecidos, de modo que um descuido mínimo pode nos jogar na presença dos terríveis habitantes dos mundos que não são nossos. Pois, as terras dos demônios, das bestas, dos fantasmas e de outras figuras grotescas do inumano já não estão confinadas nas bordas do nosso mundo, nas profundezas abissais dos oceanos ou nos subterrâneos do planeta; os lobisomens, as pernas cabeludas, os bois da cara preta, as cucas, os homens-porcos e outras assombrações já não respeitam os limites das florestas que eram a sua morada-prisão; os seres periféricos (estrangeiros, favelados, refugiados) já não respeitam os limites do centro das nossas grandes cidades.
A grande luz dos nossos refletores nos impede de ver o deslocamento desses seres, visíveis na escuridão de suas vidas obscuras. Eles estão no meio de nós! Basta um descuido e sua careta pode transfigurar nosso mundo para sempre (como no conto de China Mieville [2014], no qual a banalidade de um assassinato tornou visível a fenda entre a cidade e a cidade: Bes'zel e Ul Qoma ocupam o mesmo lugar geográfico, estão absolutamente sobrepostas, mas as distâncias entre as duas devem ser mantidas a todo custo, de modo que os habitantes das duas metrópoles jamais podem permitir se verem). Quem está sendo
atormentado por um demônio sabe que, com os olhos abertos ou fechados, pode vê-lo em qualquer lugar, não apenas na casa mal assombrada da rua X ou Y.
O mundo humano exibe, por todos os lados, rastros e manchas mais ou menos opacas dos outros mundos sobre os quais avançou. Alguns desses rastros são inapagáveis, nos restando apenas desenvolver dispositivos que nos permitam passar por estes lugares sem nos afetar com a sua energia (quando não é possível evita-los por completo). Assim, não são os vestígios proto-históricos de um mundo pré-humano ou os indícios de continuidade do mundo depois do fim do homem que produz assombro. Verdadeiramente assustadora é a presença insistente de seres e mundos que escapam do humano.
Tudo o que se deseja é que esses seres demandem a sua inclusão nos limites do mundo humano. O humanismo, com as suas estratégias político-pedagógicas, aprendeu a dilatar suas fronteiras sem ser transfigurado pela presença estrangeira. Mas que outros construam "na própria Terra as formas de vida negadoras da Humanidade, sociedades para além do social e temporalidades para além do tempo" (ROMANDINI, 2013, p. 27), ou seja, que seres quaisquer façam comunidade sem reivindicar uma identidade, uma inclusão, é o que não admitimos suportar.
Por isso, a nossa política e a nossa pedagogia se identificam sem reservas com a "vontade de segurança" com a qual respondemos a possibilidade de encontro com esses outros terríveis. É "por questões de segurança" que nos submetemos a mecanismos de identificação, controle e vigilância desprovidos de qualquer razoabilidade; é também para "reduzir os índices de violência" que propomos projetos educativos (formais e não-formais) para os que são eufemisticamente apontados como estando em situação de risco e vulnerabilidade.
Ou seja, é a partir de um pânico moral, uma desqualificação e negativização do outro e do seu mundo apontando-os como uma ameaça (MISKOLCI, 2007), que nos colocamos em contato com a presença sombria e irredutível dessas outras formas de vida. Esses medos pouco tem a ver com os traços característicos dos outros e dizem muito mais sobre a forma como reagimos a possibilidade de nos misturar e confundir-nos com eles. Assim, não está em jogo, aqui, uma prevenção dos problemas, perigos e possibilidades catastróficas, mas uma defesa de nós mesmos diante dos outros associados ao mal, o que nos autoriza, no limite, a elimina-los sem mais.
Os dispositivos midiáticos cumprem um papel central nesse processo de produção do terror. É sobretudo através desses dispositivos que os medos sociais são evocados para justificar as reações que temos diante dos outros. Na discursividade midiática, os outros
abrem mundos que são caricaturados para amplificar os medos e permitir o controle social sobre as aparições desses lugares e seres que nos assustam.
Em nosso tempo, no qual a razão vigilante e punitiva obedece ao controle e regulamentação do tecido social e político, argumenta Miskolci, "os empreendedores morais, ao invés de propor a criminalização e o aprisionamento tendem a sugerir medidas educacionais, de prevenção e regulamentação legal" (MISKOLCI, 2007, p. 113). Por esse motivo, a própria história da inclusão educacional daqueles tomados como perigosos é uma história da produção de pânicos morais em relação aos mundos que os outros abrem e a possibilidade virtual de sermos transfigurados por eles. Essa história de terror ainda está completamente por ser contada.