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Entre janeiro e maio de 1977, Roland Barthes pronunciou as aulas do curso "Comment vivre-ensemble", que seria posteriormente publicado na forma de livro. Diferentemente da edição dos cursos de Michel Foucault, por exemplo, que apresenta a transcrição integral dos áudios de cada aula gravadas pela plateia, o que se tem em mãos na publicação desse curso de Barthes são as notas preparadas por ele para servir de suporte e de esquema das aulas.

Assim, trata-se de um "texto" (ou de um infratexto) em estado "rudimentar, abreviado miniaturizado, reduzido, concentrado, elementar, por vezes esboçado ou virtual" (MARTY, 2003, p. XVIII), cuja leitura, não isenta de certo desconforto, conduz o leitor para a própria experiência de pensamento33 levado a cabo por Barthes. O que se experimenta com a leitura desse livro, mais (ou menos) do que os próprios cursos, são as fantasias e imaginações do professor, expressas nas palavras justapostas, nos símbolos, nas listas, nas setas e igualmente nas abreviações, nas lacunas, nos resumos, nos silêncios.

Com o subtítulo "Simulações romanescas de alguns espaços cotidianos", o curso de 1977 é uma excursão fantasiosa em torno da figura da idiorritmia, "algo como uma solidão

33 Nesse caso, a observação de Viveiros de Castro é pertinente: "A noção de ‘experiência de pensamento’ não

tem aqui o sentido usual de entrada imaginária na experiência pelo (próprio) pensamento, mas o de entrada no (outro) pensamento pela experiência real: não se trata de imaginar uma experiência, mas de experimentar uma imaginação" (VIVEIROS DE CASTRO, 2001, p. 32).

interrompida de modo regrado: o paradoxo, a contradição, a aporia de uma partilha das distâncias" (BARTHES, 2003, p. 13). Em um primeiro esforço genealógico, Barthes precisa que a construção da palavra aponta para o "modelo de um elemento fluido, forma improvisada, modificável. (...) maneira particular, para os átomos, de fluir; configuração sem fixidez nem necessidade natural" (BARTHES, 2003, p. 16).

É por esse motivo que a pergunta em torno da possibilidade das "comunidades idiorrítmicas", compreendidas como "grupos muito restritos, nos quais a coabitação não exclui a liberdade individual" (BARTHES, 2003, p. 329), só pode ser respondida de forma negativa, pois o rhytmós se refere justamente aos "humores, as configurações não estáveis, as passagens depressivas ou exaltadas" (BARTHES, 2003, p. 16), os quais, por sua vez, fogem ao domínio do próprio ou, no mínimo, apontam para a sua fugitividade, sua fluência.

Nesse sentido, a questão que se coloca a partir do curso de Barthes é a seguinte: como viver junto sabendo, de partida, que a idiorritmia é impossível? Essa impossibilidade, por seu turno, não aponta para o desejo de um grupo total, fechado, no qual a "liberdade individual" seria suprimida em nome de uma unidade (comunitária) superior. Não se trata, pois, de opor ao próprio ritmo do sujeito um ritmo próprio da comunidade. Assim, Barthes superaria de partida a oposição indivíduo/coletividade (e suas variações) que mantém o pensamento orbitando a ideia clássica da comunidade.

A experiência do viver-junto não é uma adesão ao ritmo da comunidade, fusional e preestabelecido, mas também não pode ser pensada como o respeito ao ritmo de cada um, como uma conciliação entre a vida coletiva e a individual34.

Pensada como experiência espacial ("viver num mesmo lugar") e ao mesmo tempo como experiência temporal ("viver ao mesmo tempo em que...") (BARTHES, 2003), o viver- junto em Barthes só pode ser tomado como a perturbação causada pela aproximação de um outro, estranho, desconhecido e, portanto, inassimilável, expresso no curso a partir das figuras dos animais, do chefe, dos criados, das beguinarias, das flores, da regra, da comida, da sujeira, entre outras (BARTHES, 2003, p. 4-5). A comunidade se constitui, aqui, como um viver junto a esse estranho, na estranheza que ele nos provoca.

Assim, esse estranho pode até nos fazer acreditar que estejamos em casa, como formula Edmond Jabès (1989, p 112) a respeito do encontro com o estrangeiro, mas ele desperta ao mesmo tempo a sensação de que essa "nossa casa" (nosso ritmo, nosso humor,

34 Em outro lugar, Roland Barthes escreve que o conjunto de sua obra "não buscava a relação exclusiva (posse,

ciúme, cenas); também não buscava a relação generalizada, comunitária; (...) o que se buscava era um plural sem igualdade, sem in-diferença" (BARTHES, 2003a, p 79).

nossa exaltação e nossa depressão) já não nos pertence. Desse modo, trata-se de uma comunidade em que a presença/aparição do outro nos expõe ao que Agamben denomina "zona de não conhecimento", uma espécie de limbo no qual

as criaturas estão irremediavelmente extraviadas, mas numa região que está para além da perdição e da salvação: a sua nulidade, de que tanto se orgulham, é acima de tudo a neutralidade em relação à salvação, a objeção mais radical que alguma vez foi feita à própria ideia de redenção (AGAMBEN, 1993, p. 14).

Assim, a passagem do comum ao próprio e do próprio ao comum (o uso ou ethos, a ética do uso característica da comunidade que vem) não expressa uma dialética entre o individual e o coletivo. Trata-se de "mantermo-nos na relação justa com uma ignorância, deixar que um desconhecimento guie e acompanhe os nossos gestos, que um mutismo responda limpidamente pelas nossas palavras" (AGAMBEN, 2010, p. 132).

Nesse sentido, também em Agamben, a comunidade, os interstícios de uma zona de não conhecimento aberta pela aparição do outro, não existe e talvez, apenas talvez, existam somente os seus gestos; talvez, "se pudéssemos olhá-la por dentro, entrevíssemos apenas - mas não seguramente - um velho pequeno trenó abandonado, apenas - mas não claramente - o aceno arisco de uma rapariga que nos convida para brincar" (p. 132-133).

Seria preciso adentrar essa zona de não conhecimento que é a comunidade que vem, responder aos acenos dos fantasmas que a habitam e buscar, na sua presença, os rastros da nossa própria fantasia de pesquisa, uma educação qualquer. É o que nos resta.

4 O PENSAMENTO DE GIORGIO AGAMBEN E UMA ONTOLOGIA

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