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um indício de que o diâmetro havia de ser suficientemente avantajado para que o plano da inscrição fosse compatível com a linha de curvatura do corpo da torre.
Também os perfis do rio levantados em 1861 confirmam a dimensão relativa das duas torres de São Miguel o Anjo. O desenho da "VIII. secção" mostra que a torrinha assentava sobre uma plataforma mais larga, como um soco que pousava nos penedos do rio [118].
A torrinha ostentaria uma estátua, talvez aquela retirada do fundo do rio, em 1869. A estátua e as quatro colunas citadas na epígrafe concedem uma primeira ideia de que a estrutura que se singularizava no meio do rio poderia imitar a forma de um templo. Na interpretação de Rafael Moreira440, o templete pontuaria a barra do Douro como se fosse uma evocação cultual antiga de Portunus441.
É certo que a definição arquitectónica do espaço interior da capela de São Miguel o Anjo parece fazer referência a desenhos de Giuliano da Sangallo do templo de Portunus. Francesco da Cremona conheceria, portanto, a temática das obras dedicadas àquela divindade. Mas a ligação estabelece-se essencialmente no trabalho de conformação do interior da capela dedicada ao Arcanjo São Miguel.
A ideia da torrinha como templo não encontra sustentação nas palavras inseridas na inscrição que a ornamentava. Aliás, uma das implicações da sua concepção como templete seria a que a sua presença no meio do rio devia singularizar-se no espaço da barra, demarcando-se de uma visível correlação significativa com a torre do Anjo.
Pelo contrário, considerando as circuntâncias da história da navegação no rio, lembrada no projecto e mesmo na possível construção das torres trecentistas do estreito das Dezoito Braças, formado pelos penhascos da Arrábida e da Furada; considerando as condições locais da passagem dos três canais de navegação para fugir aos escolhos; e analisando a articulação de posição e formas das duas torres, parece claro que se conjugam para significar arquitecturalmente uma Porta. As duas torres marcam o passo da barra - a porta do rio, «ostium» - e assinalam a entrada na cidade.
O facto de a inscrição da torre-baliza do rio fazer a designação conjunta das duas edificações como torres, e não de outro modo, fixa o sentido da obra de D. Miguel da Silva. A notação da ideia de portal e a figura de simetria das edificações que balizam o limiar da passagem implicam que as duas sejam reconhecidas como torres. A figura do corpo, ao modo de um pedestal, reenvia mutuamente, enquanto que os elementos de remate e coroamento distinguem a sua qualificação própria.
10.3.1 A torrinha com a forma de um monumento funerário
Do mesmo modo que na torre do Anjo, também para a formação da ideia da torrinha do rio tem interesse a imagem de alguns sepulcros antigos, com facto significativo acrescido de a forma redonda poder constituir um referimento explícito a uma forma particular de monumento funerário. Numa primeira aproximação ao problema, será necessário entrar em conta com as quatro colunas que teriam sido levantadas por D. Miguel
440. Moreira, R. 1994 : 59,60. Moreira, R. 1995, Vol. II : 336. Mário Barroca. 441. Moreira, R. 1995, Vol. II : .
Desenho da obra e estudo do antigo | O monumento
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da Silva, de acordo com a epígrafe, lembrando que foram encontradas ou avistadas colunas no fundo do rio, nas imediações da baliza.
Se as colunas integrassem a composição da estrutura da torre redonda, a sua forma poderia assemelhar- se a um monumento funerário organizado em forma de templo. Sobre um primeiro nível composto de um pódio maciço, porventura com soco, elevar-se-ia um corpo mediano, conformado como a cela de um templo. Nesse estrato, de configuração circular, acompanhando a forma do corpo subjacente, ou poligonal, seriam aplicadas as colunas e a estátua que foi retirada do leito do rio. O nível superior terminaria numa cúspide piramidal.
A disposição de uma edificação em vários planos, faz referimento à forma de um templo que tem como arquétipo, segundo Jacopo Ortalli, o mausoléu de Halicarnasso.
Tale schema costruttivo rientra a pieno titolo nella categoria architettonica dell’edificio a più piani conformato a tempio, ben noto alla letteratura archeologica che ne ha proposto svariati inquadramenti tipologici nonstante l’eterogeneità delle singole componenti e l’ecletticità delle soluzioni formali, . . . Chiara è comunque la composizione di fondo del monumento ad edicola, in cui rientra appunto la variante a copertura piramidale, e la sua connotazione sacrale, frutto dell’ovvio riferimento alla forma templare, come certa è la derivazione del tipo architettonico giunto alla sua compiuta definizione attraverso un prolungato ed articolato processo evolutivo. Al riguardo sirichiamano gli archetipi del tardo classicismo e dell’ellenismo di ambiente microasiatico, tra i quali naturalmente spicca innanzitutto il grande monumento eponimo di Mausoleo ad Alicarnasso, che dettero vita ad una variegata serie di soluzioni; . . . 442
Se o plano intermédio fosse aberto, e as colunas se distribuissem de forma regular, o seu número tenderia a assinalar uma disposição angular, de recorte quadrado. Causaria estranheza uma tal composição, pois significaria um retrocesso relativamente às formas subjacentes. Em alternativa, seria necessário imaginar uma solução parcialmente encerrada que contemplasse uma disposição das colunas aos pares, ou a sua conjunção de um lado, aquele que se definira como frontal.
A estátua e a inscrição detêm uma altura aproximada. A sua colocação relativa poderia realizar-se em dois estratos sobrepostos ou organizados em frente e verso. O seu ordenamento relativo determinaria a definição de um plano frontal principal, ou de uma composição de frente e verso. A fixação de sentidos de orientação admite, em teoria, possibilidades iguais em quatro quadrantes443.
Numa outra hipótese, a parte superior manteria o carácter fechado e compacto do primeiro estrato, apresentando-se a estátua numa edícula. Mas neste caso, quanto mais as colunas estivessem integradas no corpo da construção, menos se justificaria a sua referência destacada na inscrição.
Tanto Francesco da Cremona, como D. Miguel da Silva poderiam ter tido contacto com exemplos da Antiguidade romana e tardia, em particular nas regiões setentrionais da península itálica. Tem interesse, pois, registar que a variação de formas dos monumentos funerários contemplava uma particular difusão do modelo de monumento com edícula e cúspide, na parte oriental do Norte, na Emilia central e na Romana, e do modelo do monumento com a forma de «tholos» ou de «monoptero» aberto, sobre base circular, com baldaquino, na região do Veneto444.
442. Jacopo Ortalli, "Monumenti e architetture sepolcrali di età romana in Emilia Romagna", in Settimana di Studi Aquileiesi, 24, 1995, Monumenti sepol-
crali romani in Aquileia e nella Cisalpina : atti della XXVI Settimana di Studi Aquileiesi (Trieste : Editreg SRL, 1997) : 319-321. (=Ortalli 1997).
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Como referência para compreender a forma da torrinha, poderia ainda citar-se um outro exemplo de monumentos funerários antigos. A sua forma seria a de um corpo cilíndrico maciço, de proporção mais larga que alta, composto de um soco e um tambor, com cobertura cónica ou em calote.
Esses modelos marcam um ressurgimento de formas de tumulação características da Grécia tardo- clássica e da tumulária da Macedónia, que surgem em Itália, mais tarde, no contexto de uma valorização da ascendência troiana do povo de Latium que ocorre no tempo dos imperadores dos últimos tempos antes de Cristo445. O tema do «tumulus» como expressão de exaltação do herói ganha então um novo impulso.
O exemplo é dado pela forma do mausoléu de Augusto, referido a um «monumentum» antigo que se considerava ter sido erguido pelos Latinos como santuário à memória heróica de Eneias. A conjunção de tradições gregas e itálicas e a descoberta de túmulos do fim da época clássica e dos primeiros tempos do período helenístico estão na origem da formação de um novo tipo de monumento funerário de configuração circular na Itália central446.
Ora precisamente entre os exemplos da nova arquitectura funerária, inspirada pelas criações imperiais, encontram-se os dois túmulos desenhados por Giuliano da Sangallo que têm uma particular incidência na obra do Anjo:
• o sepulcro de L. Munatius Plancus, em Gaeta, edificado numa posição dominante, numa colina do monte Orlando que era tomado, segundo a tradição, como tumulus da ama de Eneias (desse modo, os Munatii Planci mostravam a ligação que os unia à família imperial e aos seus antepassados míticos)447 [95];
• o sepulcro de Caecilia Metella, em Roma,
• o túmulo dos Plautii, situado em Tívoli (Tibur, Latium), que tinha sido levantado por M. Plautius Sil- vanus, cônsul juntamente com Augusto, no ano 2 a.C [96]448.
Este último monumento funerário, além da monumentalidade da edificação (a série de deposições de membros da família, no monumento, iria prolongar-se até finais do primeiro século da era de Cristo), distinguia-se pelo modo como tinha sido encenada a colocação dos epitáfios na face voltada ao eixo viário. A exposição dos elogios lembrava a proclamação de fasti oficiais, afixados no fórum449.
Também no Norte de Itália se descobrem monumentos funerários com uma forma cilíndrica, com exemplos conhecidos da Emilia Romana450, e de Sarsina e Rimini, entre outros [97,98].
A forma de pódium de secção quadrangular, sobrepujada pela iconografia que faz a designação específica do sentido do monumentum, o corpo circular de arquitecturas funerárias da época imperial, e as tábuas com inscrições que dão notícia e fazem o elogio da obra e das personagens homenageadas, eis algumas
444. Ortalli 1997 : 321. 445. Gros 2001 : 422. 446. Gros 2001 : 427.
447. Gros 2001 : 422-423. O desenho deve corresponder a um registo efectuado possivelmente no contexto da viagem a Nápoles, mas retomado mais tarde, o que explicaria a incerteza da representação de pormenor do entablamento dórico. Cf. Borsi, S. 1985 : 69-70.
448. Giuliano da Sangallo restitui, entre outros elementos da fachada, o tímpano; a planta acrescenta de modo interpretativo, mas arbitrário. Cf. Borsi, S. 1985 : 209-211.
449. Gros 2001 : 432-433. 450. Ortalli 1997 : 363-370.
95 Giuliano da Sangallo, sepulcro de L. Munatius Plancus (Torre Orlando), em Gaeta, sepulcro em Vienne