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coroamento representado à semelhança de um lanternim [4]. Também a abóbada da ousia da igreja de São João ostentava no alto um remate, porém não uma lanterna de entrada de luz [5].
É possível que um minúsculo lanternim integrasse o projecto inicial da torre de São Miguel o Anjo, mas, no interior, do mesmo modo que ao nível do coroamento da cúpula, pelo exterior, nada parece indicar a presença de tal lanterna que, a ter existido, não se destinaria prioritariamente a infundir luz no interior da capela. Antes, o elemento de coroamento poderia abrigar uma lanterna de luz para a sinalização das rochas próximas e da navegação no passo da barra.
Na parte alta da cúpula existem marcas de pequenos apoios de um elemento que pousaria sobre a abóbada [134]. Número e disposição dos pontos de apoio sugerem que o recorte do objecto de remate não
acompanhasse a configuração octogonal da cúpula, antes tivesse uma base hexagonal [138].
A Memoria setecentista não refere um lanternim, mas descreve que a abóbada seria rematada por «sua grimpa no tope que servia de respiradouro ao farol»389. Assim, teria havido uma abertura no alto da cúpula, que estabelecia uma comunicação entre o interior da capela e o elemento de remate.
8.3.3 Um sistema de ordenadas de alinhamento
No Anjo, as arestas das faces da abóbada são constituídas por um rebordo ou uma "nervura" saliente, cuja função não é essencialmente construtiva. A delimitação dos planos da cúpula facilita a tomada de referências de alinhamento. Em conjunto, o lanternim ou a grimpa, associados à configuração octogonal da cúpula e à demarcação nítida dos seus oito panos favoreciam a leitura de enfiamentos e de ventos. Desse modo, clarificava-se a leitura de São Miguel o Anjo como torre dos ventos, associando-a a uma tradição de emulação de obras do antigo390.
Embora correndo o risco de avançar demasiado no desenvolvimento de hipóteses, cujos fundamentos não estão inteiramente seguros, será possível adiantar duas razões para a diferença notada entre o número de panos da cúpula (oito) e de apoios da lanterna (seis).
Se em algum momento o lanternim serviu para guardar um foco de luz, então a disposição hexagonal seria a mais favorável à sua visibilidade, considerando a diminuta abertura concedida pela dimensão do corpo que coroaria a abóbada.
Além disso, o desfasamento das coordenadas indicadas segundo a divisão octogonal da cúpula e hexagonal da lanterna permite especificar enfiamentos mais pormenorizados que aproveitam o modo como se conjugam as linhas da abóbada e os suportes da lanterna, na variação da deslocação no espaço. Dois dos suportes da lanterna apoiam-se tangentes ao alinhamento das "nervuras" extradorsadas da cúpula, no sentido E-NE / O-SO, com um desfasamento no sentido dos ponteiros do relógio. Esse desfasamento corresponde a uma mínima rotação na direcção E-W, tomada relativamente às nervuras que se apresentam a cerca de 67º 30’ NE.
389. Biblioteca Nacional de Lisboa, ms. 8009 do F. G. (antigo Y/4/93), Registo de entrada n.º 5819. Basto 1949 : 257. 390. Ver .
A obra, uma composição de torre, facho e fano | O funcionamento do farol
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Numa posição à entrada da barra, haverá momentos em que os suportes da lanterna sextavada coincidem dois a dois, designando um enfiamento perfeito. A sua apresentação tripartida articular-se-ia com a Marca Nova das Três Orelhas. Pelo contrário, se a lanterna fosse oitavada, a relação com a marca das Três Orelhas não seria tão evidente. Ora, na actualidade, o enfiamento principal tomado para a entrada na barra, é de 77º NE referido a «Marca Nova por Marca Nova»391. Se um dos alinhamentos antigos fosse «Anjo à Casa da Quinta», como ainda se encontra referenciado em plantas dos séculos XIX392 e XX [162], então a posição das nervuras extradorsadas da cúpula e dos apoios da lanterna poderia ter utilidade para a referenciação desse enfiamento que seria menor que o valor actual.
O princípio pode ser formulado em teoria, mas a utilidade do sistema e a sua verificação exacta, ao tempo da edificação da obra de São Miguel, depende da configuração do lanternim, em especial no que se refere aos elementos de suporte, como depende de outras variáveis que em parte já não podem ser reconstruídas com segurança.
Eram essas variáveis, as condições originais das rochas e do leito do rio, e os caudais antigos que justificavam determinados enfiamentos para a entrada no rio. Também a forma da restinga do Cabedelo estava em constante mudança conforme as correntes, sendo desenhada com variantes nos mapas da barra393.
Além das razões de ornamento e de conclusão da forma clássica da obra, também a balaustrada poderia deter uma utilidade específica dentro do sistema de coordenadas de alinhamentos concedido pelas nervuras da abóbada e pelos suportes da lanterna. Mas não é possível interpretar a significação exacta do sistema complexo, já que não é inteiramente claro se os balaústres, que foram desenhados em número de seis em cada face, se apresentariam sob uma forma diferenciada no ângulo das paredes da torre, ou se se manteria a distribuição regular dos prumos. A serem não mais que seis balaústres, o seu espaçamento (e o seu bojo?) seriam marcantes.
8.4 O funcionamento do farol
8.4.1 Um foco de luz, fogos e fumaças
O funcionamento da torre como farol e como referência de sinalização por meio de fogo e fumaças implica a identificação da posição do(s) foco(s) emissor(es) de sinais. A emissão de um foco de luz pode ser imaginada de várias maneiras. A hipótese menos plausível é a da existência de um lume obtido pela combustão directa de material linhário: a queima de madeira numa fogueira que seria feita no topo da cúpula, na plataforma superior da cobertura ou no interior da capela. A haver lume, o material de combustão poderia ser um composto químico em estado líquído394.
391. A referência para a entrada na barra do Douro encontra-se, por exemplo, numa carta marítima inglesa de 1970, «I.ts in line 077º 00’», in Henrique Vieira de Oliveira, Achegas para a história do porto de Carreiros (Porto - Nevogilde : O Progresso da Foz, 1989) : 41, fig. E2. (=Oliveira 1989). 392. Cf. Vista da Entrada do Rio Douro e da Costa Adjacente tirada na direcção do Anjo à Marca Nova a milha e meia de distância, levantada em 1861-62 sob direcção do Conselheiro F. Folque, Lisboa 1871 (AMOP, C-260_1C), in Barroca ; Osswald 2001, Vol. II.
393. Aquelas condições foram sendo modificadas com as obras de melhoramento da barra, a construção dos paredões e a destruição dos maciços de pene- dos que obstruíam o leito do rio, e mais recentemente, com a alteração dos caudais do rio em consequência da construção das barragens, influindo no equi- líbrio de deposição das areias e da abertura da barra para o mar, e o lançamento dos novos molhes da foz.
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Na torre do Anjo, poderia ter sido prevista a combustão de um material inflamável que seria colocado num recipiente - uma taça que pousaria no alto da cúpula -, em cima da guarda da balaustrada ou em outro suporte. A presença de um recipiente de queima no cimo da cúpula que devia ter deixado vestígios no revestimento exterior da abóbada, um indício que talvez pudesse ser investigado. Além disso, haveria de requerer um dispositivo complementar para aceder ao alto, por meio de uma escada móvel ou fixa. Tal elemento só poderia estar do lado norte, já que não existem vestígios nas outras faces, nem mesmo conviria uma obstrução da sua visão que prejudicasse a tomada de referências de alinhamentos. Porém, sendo o lado de terra o mais protegido, é também o que integra a fachada principal. Nesse caso, a escada teria uma presença visível, pelo que seria improvável que fosse constituída por um elemento móvel em madeira. O seu lançamento poderia estar associado a um elemento de remate da parede, ao modo de uma espadana ou frontão.
Em alternativa, o recipiente de queima poderia estar suspenso de uma haste articulada eventualmente da grimpa. Essa é, talvez, a hipótese mais provável: uma grimpa associada a uma haste de onde pende um cadinho. A solução é representada numa imagem da torre de Hércules, de A Coruña, integrada no foral da cidade e no brasão de armas [51,52]. Mais tarde, Bluteau descreve nos mesmos termos o funcionamento corrente de um facho, quando estabelece a definição do termo no Dicionário395.
Na altura em que é levantada a Marca Nova frente à casa dos Pilotos, o projecto de deslocamento da marca representa ainda a posição anterior que estaria em funcionamento nesse momento. A marca consistia, então, numa lanterna que se encontrava colocada ao nível do parapeito da guarda da cúpula. No caso de a luz ser difundida a partir dessa posição, a alvura das faces da abóbada que a enquadravam em pano de fundo, amplificava o efeito do foco de luz.
394. Como foi referido, o conhecimento de produtos inflamáveis, de combustão lenta e durável, mereceu o interesse de mestres como Francesco di Gior- gio que inclui, nos Trattati, um capítulo com excertos da obra de Marco Grego, Liber ignium ad comburendos hostes.
51 A torre de Hércules num escrito de Carlos V, datado de Madrid, 27 de Agosto de 1552 (Arquivo de La