Já ficou caracterizado que o dispositivo não consiste em nada técnico, do tipo maquinal, mas no modo pelo qual a realidade se desoculta como subsistência (Heidegger
52 Aqui há uma distinção entre a historiografia (historisch) e a história (geschichtlich), a história narrada e a história oculta (a história do esquecimento do ser), respectivamente. O tradutor esclarece sobre a presença desta distinção em Ser e tempo, no quinto capítulo da segunda seção, §72-77. A história do ser, por sua vez, abre-se na relação entre história (Geschichte) e destino (Geschick), a qual se refere na sequência da conferência (HEIDEGGER, 2007, p. 397, nota do tradutor).
75 volta repetidas vezes a esta fórmula). O desocultar não acontece num além a todo o fazer humano, mas também não somente no homem, nem tão somente por ele.
A grande dificuldade é que o homem já está desde sempre no âmbito do dispositivo. Por isso a questão de como relaciona-se com a essência da técnica “sempre surgirá muito tarde” (HEIDEGGER, 2007, p. 387). O que não significa tarde para saber-se quando se é desafiado pelo dispositivo, de ter-se a sabedoria de quando o fazer é em maior ou menor medida aquele correspondente ao desafiado pelo dispositivo.
O dispositivo deve ser compreendido fazendo parte de um enviar (schicken), ou seja, do caminho do desocultar, do destino do ser. Isto é, imposto, de certa forma, pela conjuntura a qual não se tem domínio. Ao mesmo tempo, na medida em que o homem percebe-se nesta conjuntura, está diante da própria liberdade, da abertura para a essência da técnica.
Liberdade, afirma Heidegger, não é quando o homem age por vontade própria, ou por mero acaso do seu querer. Estas podem ser tão somente formas de coação, das quais ainda não se deu conta. Liberdade, de forma mais originária, pressupõe que o homem só se torna livre na medida em que se descobre no âmbito do destino, e assim “torna-se um ouvinte, mas não um servo”53
(HEIDEGGER, 2007, p. 388). Para que esteja em relação com a liberdade, é indispensável que haja algum tipo de descobrimento, de rompimento, de clareira no âmbito do destino. Por isso, a liberdade guarda um parentesco muito íntimo com a verdade.
Reitera-se que o destino deve ser pensado na dimensão histórica, e não no sentido de algo que está fadado a acontecer, inalterável. Há uma certa ambiguidade nesta acepção, mas ela não é incontornável: por um lado o homem está sempre levado pelo destino, no sentido de que está sempre inserido numa determinada época, de determinados tipos de desocultamentos, os quais pautam sua vida, sua realidade. Pode o homem, todavia, numa espécie de lapso de consciência, descobrir-se neste destino e não mais meramente correspondê-lo em seu apelo.
Nesse sentido, a essência da técnica repousa no dispositivo e, este, pertence ao destino do desocultar. O problema que se coloca frente ao conceito de destino, diz respeito à sua constância. Por que logo com a constância, o que tem ambas a ver? Ambos os conceitos se relacionam com o tempo. O destino, porém, é de uma ordem de constância muito superior à da constância com que podemos manter nossa vigilância. Isto é determinante na relação com a técnica e também razão para Heidegger enquadrá-la no âmbito do destino. Enquanto a técnica evolui e perdura de geração a geração, pelo menos numa certa tendência, o homem é sempre
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76 outro a cada geração e somente em momentos de extrema lucidez pode estar diante da liberdade de seu destino, e assim confrontar o dispositivo.
Por imperar no destino, a técnica traz em si o perigo. No seu modo peculiar de desocultar, ela desvela destino, criando uma nova história (para o ser) do qual o homem não é senhor – ainda que advogue sê-lo pelo vislumbre da técnica que ele se orgulha ter criado. O perigo está nesta descrita submissão que a técnica, na forma de dispositivo, acomente o homem. Mas não somente, porque poder-se-ia perguntar se isso sempre já não se deu assim? A resposta seria não, pois o modo como a técnica moderna, apoiada na ciência, se desdobra é algo sem precedentes.
Heidegger se refere à característica diferencial da técnica moderna marcada pela estrutura do modo de representar, onde tudo o que é se mostra. E só é por um restrito senso de verificabilidade, assumido na noção de causa e efeito que pode induzir a equívocos. Isto é, quando o homem passa a ver tudo nesta lógica de causa e efeito, tudo o que foge a ela perde o sentido e é falseado, como uma não-verdade. Aqui o autor utiliza explicitamente o exemplo da fé, onde em favor da representação por meio da causalidade, até mesmo Deus e a noção de sagrado, perdem seu mistério. Assim, pela própria teologia, Deus pode se rebaixar a uma causa (causa efficiens), mas isso não revela a proveniência desta causalidade.
Não há neste argumento necessariamente nada de místico ou de metafísico. Trata-se novamente da tematização da verdade. Também a ciência e a técnica devem ser postas diante deste questionamento:
Ao mesmo tempo, o descobrimento, segundo o qual a natureza se apresenta como um contexto efetivo e calculável de forças, pode, certamente, permitir asseverações corretas, mas justamente por meio deste resultado pode permanecer o perigo de em todo o correto se retrair o verdadeiro (HEIDEGGER, 2007, p. 389).
O perigo a que Heidegger se refere, portanto, não consiste meramente no uso que se pode fazer da técnica, no sentido de se poder agredir fisicamente uns aos outros ou algo parecido. O perigo encontra-se justamente no fato de o homem desorientar-se em relação a si próprio. Pensando com Heidegger, o perigo consiste no próprio destino do desocultar. Ao modo do dispositivo, sobretudo, ele é o maior perigo.
Neste sentido, Heidegger vê uma dupla perversidade no dispositivo. A primeira é que na medida em que o homem vai, cada vez mais, se deixando envolver com o dispositivo, tanto mais ele se considera dominador da técnica, tanto mais se ilude e se torna fortemente requerido como subsistência. A segunda, é que o próprio dispositivo encarrega-se de encobrir
77 a possibilidade de uma relação mais originária com relação “aquilo por onde acontece o descobrimento” (HEIDEGGER, 2007, p. 390), isto é, com a verdade. Pois seu modo de desocultar é do tipo requerer desafiante. Este modo imperando, como é o caso, dificulta a possibilidade de outros modos de desocultamentos, inclusive no sentido da poiesis, por exemplo, típico da arte.
[O dispositivo] impede o aparecer e imperar da verdade. O destino, que no requerer manda <schickt> [sic], é, assim, o extremo perigo. A técnica não é o que há de perigoso. Não existe uma técnica demoníaca, pelo contrário, existe o mistério da sua essência. A essência da técnica, enquanto um destino do [desocultar], é o perigo. Agora, quem sabe, a mudança de significado da palavra “[dispositivo]” torna-se um pouco mais familiar para nós, quando a pensamos no sentido do destino e do perigo (HEIDEGGER, 2007, p. 390).