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80 Para não prejudicar a compreensão do texto, deixou-se para agora comentários extras sobre a conferência. São basicamente três pontos que merecem destaque: (1) a noção de verdade; (2) o dispositivo criador; (3) e dispositivo versus alienação.

Quanto ao primeiro deles, é interessante observar que a cada vez que novamente lê-se a obra, são suscitadas sempre novas questões, descobertos novos sentidos. O que é comum em obras de densidade e profundidade filosófica. Permeando a questão da técnica, talvez até mais importante que ela, acompanha ao fundo a questão da verdade54. Além disso, a noção de verdade é trazida em contraposição – enquanto distinção – à noção de correto.

O correto é algo que impera na ciência e na técnica através da lógica, da relação causa e efeito, da concordância, da verificação empírica. Noutros momentos, Heidegger utilizou a noção de exatidão de maneira similar55. Em Sobre a essência da verdade, a verdade é tratada como mais próxima e originariamente vinculada à liberdade, e não à conformidade como de costume. Para Casanova (2015, p.142), “Heidegger não nega [...] a possibilidade de se pensar a verdade como adequação ou acurácia da representação. Ao contrário, ele só questionou o caráter originário de uma tal verdade”.

O correto, a exatidão, a conformidade da representação, são fundamentais para as ciências da natureza. Mas para o mundo humano, bem como para as ciências do espírito, estas não dão conta da complexidade que excede o nível da descrição ôntica. Neste caso, é a própria inexatidão que pode lhes conferir rigor, pois se trata da compreensão. Por isso, inclusive, o rigor nas ciências do espírito é mais difícil de ser alcançado. O comportamento humano caracteriza-se pela liberdade, que por sua vez estabelece relação com a verdade. Nesse sentido, a técnica jamais é autônoma, posto que, para isso, ela necessitaria de algo que somente humanos são dotados: a capacidade de deliberar. Este deliberar não se deixa apropriar por interpretações meramente lógico-descritivas, devido à multiplicidade de vetores que a todo o momento interferem nas decisões, e que acabam tornando as humanidades tão distintas das ciências da natureza.

Quando, porém, toda a deliberação é dragada para dentro daquilo que a técnica exige dos humanos, já se está dentro do nível do dispositivo, onde a verdade do ser não mais domina a liberdade. Ainda que o homem se considere pleno de si, sem esta noção mais

54 A verdade é uma preocupação recorrente para Heidegger. É amplamente tematizada, especialmente no parágrafo 44 de Ser e tempo. Uma análise em pormenores sobre este tema encontra-se na obra Sobre a Verdade:

Lições Preliminares ao Parágrafo 44 de Ser e tempo, de Ernildo Stein.

55 Ver A Época da Imagem do Mundo (1938), na qual Heidegger apresenta a exatidão como a característica que confere rigor às ciências da natureza, compreendida como a necessária conformidade na representação dos fenômenos da natureza. (HEIDEGGER, 2005a, p. 196).

81 profunda de liberdade, ele não está senão correspondendo à “propaganda do mundo”, ao apelo do dispositivo. Liberdade, então, não seria meramente atender desejos subjetivos, mas compreender o apelo do ser e poder “negociar” com ele. Neste aspecto, a noção de verdade heideggeriana não apenas concorda, mas ratifica a tese central de sua proposição filosófica sobre o esquecimento do ser na época da ciência e da técnica, conforme esboçado no primeiro capítulo.

Pela ciência e pelo modo com que os humanos se organizam socialmente, o correto é frequentemente confundido com a verdade. A ideia de que “quanto mais aparelhos, melhor”, assegurada pelos tecnófilos, pode até ser correta, mas não necessariamente verdadeira. Isto porque ela não leva em conta a não-neutralidade (os valores) da tecnologia, e que seus supostos benefícios não necessariamente são desejáveis do ponto de vista da vivência humana.

Essa confusão entre verdade e correção revela-se com maior evidência, por exemplo, na interface com a economia, na medida em que o correto, enquanto o “economicamente viável” opera como verdade quase indiscutível. Uma lógica em que a economia alarga sobremaneira sua influência sobre a determinação da verdade pode ser considerada uma perversidade, especialmente sob o ponto de vista da verdade do ser e da vida autêntica56.

O segundo ponto refere-se ao problema de que se a técnica reside no dispositivo e não propriamente nos aparelhos57, caso seja desmantelado o dispositivo, como se poderiam ter aparelhos sem a estrutura que os desenvolve? Há, de fato, técnica fora do esquema do dispositivo ou esta é a própria condição para a técnica moderna? Afinal, os modernos aparelhos dos quais se usufrui hoje (o computador, por exemplo, no qual este texto está sendo redigido) requerem uma estrutura complexa de organização produtiva até chegarem a se tornar um produto consumível (subsistência). Este processo depende de certa sincronia, que é coincidente com a gênese do dispositivo. Ou seja, o dispositivo é a própria estrutura do movimento de perseguição ao desenvolvimento tecnológico, de modo que pensar a independência ante o dispositivo poderia, quem sabe, inviabilizar o próprio esforço técnico-

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Note-se que a expressão “vida autêntica”, muito utilizada em Ser e tempo, denota esta relação tanto com a verdade, quanto com a liberdade do ser-aí. Autêntico, nesse sentido, remete ao que é genuíno, legítimo, fidedigno, portanto, extrapola a mera correção.

57 Aqui cabe ressaltar, novamente, que os aparelhos não devem ser confundidos com dispositivo, embora no português estas palavras tenham proximidade. Os aparelhos, no sentido aqui discutido, correspondem à subsistência (Bestand). Um chip, por exemplo, não pode ser considerado o dispositivo (Gestell), como faz Stein (2007), pois o chip é um aparelho, um manual (ser-para-algo), é subsistência. Esta é uma confusão comum e que compromete a própria compreensão do que Heidegger quis dizer com Gestell.

82 científico. Como pensar uma relação mais positiva e livre com a técnica, se a liberdade parece conduzir o ser humano para fora dela?

A questão não é simples. Fica subentendido que, para Heidegger, ou a técnica não depende do dispositivo e pode se desdobrar em modos de desocultar, por assim dizer, mais autênticos; ou ela depende do dispositivo e este mesmo dispositivo pode originar desocultamentos mais autênticos. Nos dois casos, parece óbvio haver em comum o fato de permanecer a possibilidade de outros modos de desocultamentos. O dispositivo promove o caráter autômato da técnica, dificultando tais modos de desocultar, e, ao mesmo tempo, apresenta-se como algo que reúne a humanidade em torno de objetivos comuns, mesmo que seja de um inconsequente progresso tecnológico. Isso significa também que pode haver esperança, ainda que ela precise ser cultivada, incentivando modos de desocultar mais adequados.

Como isso pode ser feito e quais seriam tais modos de desocultar? Heidegger apenas aponta a arte como direção alternativa ao desocultar desafiador da técnica moderna. O que indicaria o esforço de abandonar a dimensão do útil e voltar para a experiência estética, para o belo ao invés do bom? É claro que não. Parece que a consequência mais fundamental que deve ser retirada desta experiência é a já referida relação com a verdade. Como uma expressão da verdade, a arte seria capaz de “desmentir” o meramente correto, pautando novos desdobramentos éticos.

A própria arte é, também, de algum modo, técnica. É preciso certos domínios para a sua execução. Por isso, tinham razão os gregos quando não concebiam a técnica e a arte como coisas absolutamente distintas. Se a arte é um dos modos do desocultar, talvez esteja se falando de uma arte e de duas técnicas (a mesma palavra para dois significados). A primeira técnica, num sentido mais originário, consistiria no produzir, o qual se desdobraria em modos de desocultamento, que corresponderiam à arte (poiesis) e ao requerer desafiante. Este último, como dito, se reconhece como o segundo tipo de técnica, a técnica moderna58.

Por fim, quanto ao terceiro ponto, é tentador pensar o dispositivo como uma forma de alienação. Tem-se, no entanto, como mais eminente para o conceito de alienação o sentido impresso pelo marxismo relativamente ao trabalho, em especial no que atine ao distanciamento entre o trabalhador e o seu produto. Mas não é exatamente este o sentido da

58 Aqui busca-se pensar a partir de e com Heidegger. Evidentemente outros autores elaboraram esta relação de outra maneira. O dicionário de filosofia de Abbagnano (1998, p. 940) traz que as técnicas racionais podem ser divididas em três tipos: “ls T. simbólicas (cognitivas ou estéticas), que são as da ciência e das belas artes; 2a T. de comportamento (morais, políticas, econômicas, etc); 3fi T. de produção”. O terceiro tipo seria o que mais se inflacionou e dominou o sentido da palavra, sobretudo no período pós-iluminista.

83 alienação no dispositivo. Heidegger não pensa com as categorias historicamente consagradas pela sociologia (como ideologia, por exemplo), sequer costuma utilizá-los. Porém, o dispositivo tem proximidade com a noção de alienação em Hegel, bem como com a sua derivação em Marx. Heidegger chega a comentar o conceito de alienação em Marx na carta Sobre o Humanismo, afirmando que ao conceber o homem natural como um ser social, Marx foi, entre os filósofos, quem melhor compreendeu a relação entre história e ser (HEIDEGGER, 1995b). Na carta, o conceito de alienação é entendido como uma espécie de intuição hegeliana do fenômeno da A-patridade [sic] (Heimatlosigkeit), do desenraizamento, relativo ao destino do ser do homem moderno. E Marx, neste sentido, teria a ampliado. Porém, o que Marx não teria compreendido suficientemente é justamente que este fenômeno de alheamento pertence ao processo mais abrangente da história do esquecimento do ser pelo próprio fenômeno técnico-científico, e não meramente restrito às relações de produção59.

Eis a diferença clara e substancial entre os conceitos de alienação e de dispositivo. Dispositivo é não apenas uma forma de alheamento de si, mas a maior delas, no sentido de a mais envolvente e, ao mesmo tempo, a mais intocável, a mais próxima e, paradoxalmente, distante. A alienação (em Marx), por sua vez, é alheamento de si através do trabalho, logo, mais iminente e mais factualmente corrigível, tão logo o homem tenha consciência de sua dominação para rebelar-se. Assim o fenômeno é similar, mas o que para Marx fora alienação60 e trabalho, para Heidegger é o dispositivo e a técnica.

Mais uma vez, Heidegger busca a matéria prima para suas elucubrações na história (tradição) e na linguagem (etimologia). Da combinação sinérgica delas postas a serviço, resulta o que, bem por isso, chama-se de filosofia hermenêutica. Esta conferência, A Questão da Técnica, é mais uma amostra disso, uma obra difícil de ser desconsiderada sempre que se quiser revisitar o que a tradição tem de mais significativo sobre o tema. E o fato dela continuar sendo referida dá mostra de que a discussão continua latente, acenando para possibilidade de algo novo se criar no rumo deste caminho que foi o de Heidegger.

59 “O desenvolvimento dessa interpretação foi iniciado num seminário (fechado, aliás, [sic] pelo serviço de segurança do nazismo) ministrado para um pequeno círculo de professores universitários no inverno de 1939- 1940 a propósito do livro de E. Jünger, Der Arbeiter (O Trabalhador) e completado logo depois num longo seminário sobre Marx. É nesse último que Heidegger faz a distinção entre o marxismo e comunismo como partido e concepção de mundo e o marxismo e comunismo como pensamento.” (HEIDEGGER, 1995a, p. 18, prefácio do tradutor).

60 “Na linguagem filosófico-política hoje corrente, esse termo [alienação] tem os significados mais díspares, dependendo da variedade dos caracteres nos quais se insiste para a definição do homem.” (ABBAGNANO, 1998, p 27).

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