8.3 Queries, Path Expressions, and Their Automata
8.3.1 Logic-based Queries
Os estudos sobre linguagem instauraram que o objeto da linguística é, por excelência, a linguagem verbal oral. Saussure, contrapondo-se aos estudos que colocavam como centro a escrita em suas manifestações e convenções, tais como a gramática e a filologia, considera que ―língua e escrita são dois sistemas distintos de signos; a única razão de ser do segundo é representar o primeiro‖ (2006, p. 34).
Saussure admite que a escrita seja um sistema de representação, e se configura como uma espécie de fotografia da linguagem oral, tendo, portanto, uma função secundária na descrição das línguas, já que se constituiria apenas como uma forma de transposição e, assim, de ―gravação‖ da oralidade, sendo útil para o estudo de línguas espacialmente distantes e daquelas que não existem mais. Para Saussure, então, o objeto concreto da linguística é ―o produto social depositado no cérebro de cada um, isto é, a língua‖ (p. 33). Enquanto sistema abstrato, a língua se materializa, em sua forma natural, na fala, produto individual do sistema linguístico.
Saussure (p.35 e 36) atribuiu o prestígio da escrita em sua época a quatro fatores: falsa ideia de que a escrita, por oferecer um objeto permanente e sólido, seria mais adequada que o som para constituir a unidade da língua; preferências individuais pelas impressões visuais, em oposição às acústicas, devido a sua nitidez e durabilidade; inversão da relação natural, decorrente do aumento ―imerecido‖ da importância da escrita dado pela literatura; falta de voz dos linguistas nos desacordos entre língua oral e ortografia, sendo que a escrita toma para si uma importância a que não teria direito.
Saussure argumenta, ainda, que os sistemas de escrita ideográficos assumem como unidade o mesmo signo da palavra falada, a ideia e, portanto, se constituem como uma segunda língua. Esse tipo de escrita, segundo o linguista, não instaura as ―consequências deploráveis‖, promovidas pelos sistemas que tomam os sons como elemento a ser representado. Essas consequências dizem respeito aos desacordos entre grafia e pronúncia, decorrentes da evolução da língua falada, empréstimos entre alfabetos e etimologia. A escrita apresentaria uma série de incoerências, dentre elas, a existência de mais de um signo para a representação de um mesmo som, grafias indiretas (equivalente as regradas pelo contexto) e flutuantes.
Disso decorreria uma visão errônea da língua oral. Nas palavras do autor (2006, p.40):
o resultado evidente de tudo isso é que a escrita obscurece a visão da língua; não é um traje, mas um disfarce (...) outro resultado é que quanto menos a escritura representar o que deve representar, tanto mais se reforça a tendência de tomá-la por base; os gramáticos se obstinam em chamar a atenção para a forma escrita. Psicologicamente o fato se explica muito bem, mas tem consequências deploráveis.
Saussure nomeia esses fenômenos como ―tirania da letra‖, que, influi na língua, modificando-a como no caso de idiomas literários. Para Sausurre, as deformações fônicas, decorrentes da ortografias, são, de fato, casos teratológicos, ou seja, não se integram ao desenvolvimento normal das línguas, e, por isso, devem ser tratadas em um compartimento especial da linguística.
Saussure defende que a visão estabelecida da linguagem verbal oral era, na sua época, determinada pela escrita, como código orientado
por regras concretas. Em função disso, o autor procura colocar as coisas em sua ordem natural, pondo em evidência a língua oral e, deixando à escrita, o papel de dispositivo gráfico para a representação da fala.
Paralelamente aos estudos filiados a essa premissa da escrita como representação da oralidade, uma série de investigações foi desenvolvida, cuja ideia principal era a de que, mesmo a linguagem verbal escrita representando a oralidade, as duas teriam papeis diferentes. Chafe e Tannen (1987) apresentam uma revisão de estudos que exploraram diferenças entre fala e escrita, desde o início do século XX até o final dos anos 80. Observa-se que esses estudos, inicialmente desenvolvidos no campo da educação, atentaram para as diferenças entre escrita e fala no que diz respeito ao estilo (BORCHERS, 1927, 1936 apud CHAFE; TANNEN, 1987).
Nos anos 60, por exemplo, DeVito, um estudioso que, até aquele momento, havia apresentado o trabalho mais profícuo em relação às diferenças entre oralidade e escrita, concluiu que, na escrita, professores de língua, tinham, por exemplo, maior diversidade lexical, usavam palavras mais difíceis, sentenças mais simples e ideias mais densas. Já a linguagem falada continha, por exemplo, mais referência própria, verbos e advérbios (DeVITO, 1964, 1965, 1967 apud CHAFE; TANNEN, 1987).
Assim como nessas investigações, nos anos 60, 70 e 80, proliferaram investigações que mostraram que escrita e fala se caracterizam por uso de estruturas diferentes (GIBSON et al, 1966; PORTNOY, 1973; O‘DONNELL, 1974; CAYER, SACKS, 1979 apud CHAFE; TANNEN, 1987). No final dos anos 70, estudos de linguistas igualmente verificaram diferenças estruturais, especialmente no que diz respeito ao tipo de sentença utilizada.
Mais tarde, outro tipo de análise de dados de fala e escrita permitiu supor que não existem diferenças essenciais entre fala e escrita, mas dimensões de variação e tipos de fala e escrita que se encaixam nessas dimensões (BIBER, 1984, 1985, 1986, 1987 apud CHAFE; TANNEN, 1987).
Observa-se, assim, que os estudos citados se detiveram nas diferenças estilísticas e estruturais entre fala e escrita, partindo da ideia de que essas duas modalidades se organizam de maneiras diferentes. A partir dos anos 80, surgiram estudos que mostraram um continuum de variação que permeia tanto o registro oral como o escrito. Nesse sentido, a escrita não é tida como apenas representação ou meio de transposição da fala, mas tendo uma organização própria, que admite alguns usos específicos.
2.2.2 Acesso ao sistema de escrita (leitura) como dependente da