Chapter IV: Fraud Exception
4.4 Application of Fraud Exception
4.4.2 The Fraud Rule in English Law
O praticante se dirige à floresta, aos pés de uma frondosa árvore, ou para uma sala vazia, senta-se de pernas entrecruzadas, em posição de lótus, mantém a coluna ereta e estabelece a mente atenta à sua frente. Ele inspira consciente de que está inspirando. Ele expira consciente de que está expirando… E, então, consciente de todo o seu corpo ele pratica: ´Inspirando, eu acalmo o meu corpo. Expirando, eu acalmo o meu corpo – Buda Shakyamuni.
(HANH, 2014d, p. 24-25).
Assim é, desde o início: “apenas sentar”. Eis a prática meditativa que tem sua origem na ancestral Dhyana65, do Buda Shakyamuni, como método cuja finalidade é despertar para a realização. Segundo contam fontes históricas, posteriormente, na expansão do Budismo, criaram-se tradições específicas, tal como foi Ch’an do Budismo chinês e o Zen do japonês.
Dentre os mestres budistas contemporâneos, Thich Nhat Hanh talvez seja um dos mais populares, fato que alude à sua grande capacidade compassiva. Por seu esforço em traduzir ensinamentos milenares às pessoas comuns da sociedade, um número maior de sujeitos têm a oportunidade de ser apresentado a uma doutrina filosófica de forte teor libertador.
O empenho de Hanh em tornar acessível, por exemplo, o Sutra Sobre os Quatro Estabelecimentos da Mente Atenta, que originalmente foi uma explanação búdica a uma audiência de monges, tem, para ele, uma justificativa elementar. De maneira despretensiosa, declara que “se monges e monjas podem praticar a mente atenta, andando, estando de pé,
65 Diz: “o termo adequado para sentar-se e estar consciente é ‘meditação sentada’. ‘Zen’ é o termo japonês para
‘dhyana’, que em sânscrito, significa ‘meditação’. [contudo] você não precisa sentar para meditar. Sempre que estiver olhando em profundidade (seja caminhando, cortando legume, [...]) você pode meditar.” (HANH, 2015b, p. 18).
deitados e sentados, então, leigos e leigas também podem. Há alguém que não ande, fique em pé, deite e sente diariamente?” (HANH, 2014d, p. 16).
Praticar meditação, logo, é para ele: “olhar profundamente a fim de enxergar a essência das coisas” (HANH, 2014d, p. 15), desenvolvendo uma visão universal muito mais ampla do que a observada ao redor, de maneira superficial. Esse é o meio pelo qual se pode explorar a natureza do motor central, promotor de todo sofrimento: a ignorância. Meditar é consciência.
A palavra Pali sati (Sânscrito: smrti) significa “parar” e “manter consciência do objeto. A palavra Pali vipassana (Sânscrito: vipashyana) significa “penetrar no objeto para observá-lo”. Enquanto estamos completamente cônscios e observando atentamente um objeto, a ligação entre o sujeito que observa e o objeto observado, gradualmente, dissolve-se: sujeito e objeto tornam-se um. Esta é a essência da meditação. Somente quando penetramos um objeto e nos tornamos um com ele é que podemos compreender (HANH, 2014d, p. 15-16).
De acordo com a pregação de Buda, em cada experiência coexiste sempre a sombra do sofrimento: seja pelo que se quer e não se tem, pelo que se tem e não se quer ou, ainda, pelo que se tem e se quer (e, nesses casos, a ideia de finitude, duração e perda). Todos, continuamente alimentados pelo desejo, no qual jaz, como pano de fundo, a ignorância. Estado cujo teor predominante é a substancialidade, onde a natureza ilusória da percepção é justamente a visão inadequada, baseada na ideia de autonomia, isolamento dos seres e dos fenômenos.
É importante marcar a afirmação de que não se trata de excluir nada, até mesmo porque a ideia essencial, neste âmbito, é a de que nada é ou está, em qualquer momento, isolado. Em outras palavras, não é preciso unir aquilo que jamais foi separado. A realidade aqui é vista de maneira não dual, Una.
Constrói-se, assim, a partir desta declaração, um conhecimento básico, no qual distingue-se o ego como apenas uma das demais ilusões. Desenvolve-se a percepção de elementos subjetivos que expressam condições de conexão com o todo, de forma que o estudo de si é condição sine qua non. É o meio, o início e o fim último. Seu fundamento, razão e instrumento.
A meditação é, então, um instrumental analítico no qual se pode enxergar a teia dos seres, ou seja, a vida e suas relações intrínsecas como uma superposição de nós de energia. É como um conjunto estratégico que decompõe a tessitura elemental, em cuja teia todos os fenômenos surgem e ressurgem de modo interligado.
Monges, este é o caminho direto para a purificação dos seres, para a superação do sofrimento e da lamentação, para o desaparecimento da dor e da tristeza, para
aquisição do verdadeiro método, para a realização do Nirvana – os quatro fundamentos da atenção plena.
E quais são os quatro? Aqui, monges, um monge permanece contemplando o corpo como corpo, ardente, plenamente atento e consciente, havendo deixado de lado a cobiça e a tristeza em relação ao mundo. Ele permanece contemplando as sensações como sensações, ardente, plenamente atento e consciente, havendo deixado de lado a cobiça e a tristeza em relação ao mundo. Ele permanece contemplando a mente como mente, ardente, plenamente atento e consciente, havendo deixado de lado a cobiça e a tristeza em relação ao mundo. Ele permanece contemplando os fenômenos como fenômenos, ardente, plenamente atento e consciente, havendo deixado de lado a cobiça e a tristeza em relação mundo (BEISERT, 2017, s.p.).
Por conseguinte, “a mensagem é clara: não dualidade é a palavra-chave para a meditação budista” (BEISERT, 2017, s.p.). Perceber que não há distinção entre contemplador e contemplado. Ver que as repetições “corpo no corpo”, “mente na mente”, “sentimentos nos sentimentos”, expressas no Sutra Satipatthana, são um manual básico e, desde o início da doutrinação, indicam o caminho de maneira simples: há que se tornar uno com a existência, tal qual o exemplo do grão de sal que, ao intentar medir a salinidade do mar, mergulha nele, tornando-se o próprio.
Nesse caminhar, Hanh observa que a mente atenta é, por assim dizer, o sétimo passo do Caminho Óctuplo66 e, portanto, precede a meditação. Para que esta seja efetiva, é condição irrevogável que o praticante tenha plena compreensão, conhecimento e uma prática correta do que seja este estado desperto. Caso contrário, a meditação não acontece absolutamente. Assim diz:
O Sutra do Coração diz que não há nada para ser atingido. Nós não meditamos para atingir a iluminação, porque a iluminação já está em nós, consequentemente não há necessidade de buscá-la. Não precisamos de propósitos nem metas [...]. Quando praticamos a ausência de objetivos, entendemos que nada nos falta, já somos tudo o que queríamos ser. Nessa altura, nossa luta desesperada, principia a cessar. Fazemos as pazes com o momento presente, e conseguimos observar a luz do sol entrando pela janela e ouvir o barulho da chuva. Não precisamos mais correr atrás de coisas externas. Podemos usufruir esse momento. As pessoas discutem como chegar ao Nirvana, mas na verdade já estamos lá. A ausência e o Nirvana são uma coisa só (HANH, 2001, p. 182).
Vê-se que há algumas características correlacionais entre mente atenta e meditação. A primeira, inseparável da segunda, facilita e amplia a seguinte, à medida em que promove um distensionamento do corpo, mente e sentimentos, provocando um aprofundamento da
66 “O Nobre Óctuplo Caminho (ariyasthangamagga): [...] consciência-correta (samma-sati)” (ANDRADE, 2015,
consciência. Pode-se dizer que é visível no comportamento do praticante, embora, na realidade, trate-se de uma prática interior.