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Health care fi nancing in the European Union

2.1 Frameworks for analysis

Respaldada metodologicamente na hermenêutica histórica, argumento que, nessa narrativa histórica que aqui estou fazendo, não posso dizer sob a égide do identitário, tal como indicado por Ricoeur, que a leitura que fiz, até aqui, do passado concernente à compreensão dos problemas escolares por Arthur Ramos e, por conseguinte, à constituição da noção de “criança problema” é uma leitura do passado tal como ele foi. Antes, tratou-se, e ainda se trata, de uma narrativa histórica, conforme igualmente indicado pela metodologia historiográfica proposta por Ricoeur, na qual a referida leitura do passado está fundada em uma matriz que incorpora as dimensões do Mesmo e do Outro. Isso porque, no curso da presente pesquisa, identifico vestígios de como tal noção de “criança problema” se constituiu, com Arthur Ramos, no contexto do escolanovismo, constituindo-se como uma possibilidade de manejo, dentre outras, ao desafio dos problemas escolares de aprendizagem e comportamento, apresentados por inúmeras crianças.

Dentre os vestígios encontrados para a presente narrativa histórica, de tal modo que essa narrativa não se dê em uma concepção identitária e muito menos em uma submerção na pura ficção, tal como orienta Ricoeur, destaco o acervo teórico existente em relação à atuação de Ramos nas clínicas ortofrênicas no contexto do escolanovismo, o acervo teórico existente em relação ao contexto do convite feito a Ramos por Anísio Teixeira para a chefia do Serviço de Ortofrenia e Higiene Mental. Ademais, destaco, quanto aos vestígios encontrados sobre o passado da constituição histórica da noção “criança problema” com Ramos, privilegiando a sua atuação nas clínicas ortofrênicas: documentos consultados

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no Arquivo Arthur Ramos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, que incluem cartas, cartões, documentos das Escolas Experimentais e artigos de sua autoria, publicados, inclusive, em Revistas internacionais. Destaco, privilegiadamente, as obras de sua autoria. Dentre essas obras, atribuo significativa importância a Os suicídios de crianças, Educação e Psicanálise e A criança problema: a

higiene mental na escola primária. Mas foi o livro A Criança Problema – A Higiene Mental na Escola

Primária o fundamental documento que me serviu como principal vestígio do passado da constituição da noção “criança problema”, com esse médico e educador, no presente capítulo, utilizado para responder aos pontos estabelecidos para investigação desse capítulo. Pontos esses que foram colocados no início do presente capítulo.

Desse modo, argumento de que se trata de uma narrativa historiográfica acerca do passado da constituição da noção de “criança problema”, que deve ser lida como o que provavelmente aconteceu antes que o que efetivamente tomou lugar, como Ricoeur (2010e), referenciado ao conceito de

verossímil em Aristóteles, nos orienta, conforme assinalado anteriormente e abordado no primeiro capítulo. Em outras palavras: o recurso aos ditos vestígios desse passado impede, além de uma análise historiográfica sob o signo do Mesmo, também um mergulho na pura ficção. Esse é o recurso ricoeuriano face ao perigo do mergulho na pura ficção.

Mas, aqui, urge que eu retome algo fundamental e mais radical trazido no primeiro capítulo: o recurso que encontro em uma pequena contribuição que a psicanálise pode fazer à história da educação para evitar o mergulho na pura ficção; para evitar o mergulho em uma leitura fantasiosa demais do passado da constituição da noção “criança problema”: encontrar o ponto de real desse passado. Essa formulação é um princípio caro à Psicanálise. Para a psicanálise, é o ponto de real no passado que, ao ser sustentado, pode vir a desbastar a dimensão fantasiosa desse passado. Real que não é sinônimo de realidade e que insiste na sua dimensão de retorno, ainda que sob modos de apresentação diferentes. Um retorno, ainda que sob distintos modos de apresentação, não é uma simples dimensão de permanência, tais como as que abordarei108 no próximo capítulo, na própria medida em que se constitui

em uma dimensão de permanência mais radical. Uma dimensão de permanência de algo que se apresenta como um desafio que deve ser sustentado; como enigma, a despeito de formulações que possam, rapidamente, nos fazer enveredar por leituras fantasiosas, idealizadas, por demais consistentes e, por conseguinte, fechadas em si mesmas. Como por exemplo, asseverar fechadamente, sem sustentar a devida complexidade da questão, que essa constituição da noção “criança problema” foi uma prática autoritária, preconceituosa e excludente, ou que foi uma prática consistentemente compreensiva, no

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sentido idealizado do termo. Tanto uma quanto outra alternativa não atentam para as possibilidade/méritos e limitações da prática de Ramos. A aposta é que uma leitura do ponto de real do passado dessa constituição histórica, com Ramos, possa contribuir no desbastamento da fantasia e da idealização e conferir uma leitura mais enxuta da questão.

A dimensão de permanência mais radical concernente ao real é a dimensão de permanência de algo que se apresenta como um desafio que insiste em não ser simbolizado; que insiste em não fazer sentido; que insiste em escapar do controle, da previsibilidade e da garantia. Mas, se de um lado, de acordo com Lacan, o real é o que resiste ao simbólico, por outro, como já assinalei, o seu destino ético não é a impotência diante dele, e sim a invenção de algo inédito, de um “saber fazer”, de um “se virar com ele” que leve em conta a castração no saber do Outro. Isso quando esse ponto de real é sustentado, e não escamoteado pela fantasia não desbastada e pela excessiva idealização. Desde o início da presente pesquisa, pensei que, somente ao final desse percurso, eu poderia aceder a essa possibilidade de ler o ponto de real do passado da constituição “criança problema” com Arthur Ramos. E qual, a meu ver, é o ponto de real desse passado? O desafio dos problemas escolares de aprendizagem e/ou comportamento, apresentados por inúmeras crianças que a configuração da educação como um direito social teve de se deparar (grifos meus). O desafio dos ditos problemas escolares, tal como abordei no terceiro e quarto capítulos.

Em outras palavras, ao debruçar-me diante do acervo histórico do passado da constituição da noção “criança problema” com Arthur Ramos, especialmente sobre os vestígios destacados anteriormente, eu consigo sustentar um ponto ali presente, ainda que sob um modo de apresentação diferente, onde posso localizar seu retorno ao tempo presente, na própria medida em que, conforme relatei, com Lacan (1959-1960), o real é aquilo que retorna sempre ao mesmo lugar. Conforme já disse, o ponto de real do passado da constituição histórica, tal como a psicanálise pode nos indicar, é um ponto que pode contribuir para o desbastamento da dimensão da fantasia e da idealização em uma narrativa histórica, sendo essa, a meu ver, uma contribuição que a psicanálise pode fazer no âmbito de uma metodologia em uma narrativa histórica. Tal categoria psicanalítica está sendo usada não no intento de oficializar uma explicação da origem dos problemas escolares; não com o objetivo de explicar o passado da constituição investigada. Mas, no sentido de possibilitar dizer algo dele a partir dos seus efeitos.

Assim, argumento que a constituição da noção de criança “problema” com Ramos, nos anos 1930, indica, significativamente que os problemas escolares foram o desafio à expressão da configuração do compromisso com a escola primária, no contexto escolanovista, no que essa formulação “criança problema” constituiu-se como uma possibilidade de manejo, ofertada por Ramos para lidar com esse

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desafio. Argumento, ainda, que a constituição da noção de criança “problema”, com Ramos, indica, significativamente, que os problemas escolares permanecem sendo o desafio ao compromisso com a abrangência da escola primária ao qual a educação pública brasileira continua concernida. Ou seja, a leitura do passado histórico dessa constituição ajudando-nos a compreender o presente, tal como indicam Ana Maria de Oliveira Galvão e Eliane Marta Teixeira Lopes (2010). A constituição da noção “criança problema”, com Arthur Ramos, porta o mérito, pois, de indicar o desafio dos problemas escolares à realização do direito social à educação a partir da radical heterogeneidade do cenário educacional colocado por essa realização.

Mas, como assinalei no capítulo anterior, tal constituição comportou outras heranças que incorporam algumas dimensões de permanência e deslocamento do passado em relação ao presente. Interessam à presente análise historiográfica algumas dessas outras heranças de que passarei a tratar, no próximo capítulo, em termos de algumas dimensões de permanência e deslocamento concernentes aos diálogos travados por Ramos, no âmbito da sua compreensão dos problemas escolares, em relação à atualidade dessas compreensões com as quais ele dialogou contra e a favor. Estou falando das compreensões psicológica, médica e psicanalítica acerca dos problemas escolares. Com a abertura para algumas novidades que o presente nos coloca, como a neuropsicologização desses problemas.

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Capítulo 5:

Arthur Ramos e a compreensão dos problemas escolares: algumas