A categoria de informantes compreende, na tradição antropológica, uma vasta paleta de pessoas que, de um modo mais formal ou informal, ajudam o antropólogo na sua pesquisa, proporcionando conhecimentos de natureza qualitativa que possibilitam uma interpretação da realidade social. O cruzamento destas várias interacções estabelecidas, acto justaposto e simultaneamente contrastante, permite elaborar a representação que faremos da realidade social em estudo.
Nesta investigação houve inúmeros informantes, desde as pequenas Guiomar e Uzu, que, em 2003, me ajudaram a nomear as partes dos tas, permitindo, assim, iniciar o mapeamento do espaço contíguo circundante, até homens como o matas Paulo Mota e o bei José Tilman, que passaram comigo horas da sua vida, transmitindo, em conversas ou entrevistas formais da elaborada oratura local, os textos da sua cultura que julgaram pertinentes.
Parece-me relevante apresentar uma breve recensão do processo de encontro com estes homens e mulheres, de forma a enquadrar os êxitos e limitações que representam, e delimitar o quadro no qual emergem as explicações etnográficas
expostas em seguida. Como se referiu anteriormente, a multivocalidade presente neste texto estende-se a um conjunto de pessoas que participam nele, de múltiplas formas. A amplitude existente entre a indiferença de uns e a calorosa afectividade de outros marca o dia-a-dia do terreno.
Como foi dito, o contacto com a população em estudo ocorreu durante a minha estadia em Timor-Leste, entre os anos 2000 e 2002. É, sobretudo, neste último ano que tenho a possibilidade de estabelecer uma ligação mais próxima com a comunidade, pelo facto de ali passar com regularidade, e pela principal razão de os seus professores primários serem meus alunos.
Durante a minha estadia em Bobonaro, entre 2001 e 2002, tive um contacto regular com um professor de Ai Asa, que me ajudou a compreender alguns aspectos da organização política local, na perspectiva desta povoação. Ele, tal como outros, chegava a determinados momentos em que afirmava que já não sabia mais ou que não podia falar acerca disso, pois não tinha esse direito. Para isso, devia contactar com os “velhos” e, entre estes, o nome do matas Paulo Mota era aludido recorrentemente.
Conheci o matas Paulo Mota num regresso de Lolotoe, junto à estrada. Quando lhe disse que gostaria de falar com ele, disse-me que estava ali, que ali era o seu lugar e que esperaria. Em 2002 tive a oportunidade de estar em Tapo, no dia das eleições de Abril, tendo assistido a uma reunião preparatória da deslocação a Díli para as comemorações da independência de um grupo liderado pelo matas Paulo Mota e o bei José Tilman. Finalmente, em Agosto, tive a possibilidade de estar algumas horas com o matas Paulo Mota na visita que fiz, aquando da an tia.
Quando regressei, em 2003, o contacto com o matas Paulo Mota foi restabelecido. Nesse ano, procurei efectuar uma entrevista formal com ele, mas o curto tempo de estadia e o facto de falecer um membro da sua Casa – obrigando-o a realizar um conjunto de actos – impediu que a mesma se realizasse. No entanto, a realização de duas magalias inseridas na reconstrução de duas Casas sagradas permitiu fixar em gravação e filme parte do seu saber e desempenho oratório.
Somente em 2004 pude efectuar duas entrevistas formais com o matas Paulo Mota. No entanto, nesse ano, acompanhei o grupo que partiu de Tapo em direcção a Memo e pude interagir com mais pessoas; entre estas, algumas estavam mais inclinadas a ajudar na compreensão do que estava a ser feito e do seu enquadramento. Por outro lado, a minha crescente participação em eventos rituais locais ajudou a contextualizar a minha presença, embora ainda vista como a do mestre-jornalista.
Durante a estadia de 2005 / 2006, o matas Paulo Mota esteve doente e acamado a maior parte do ano – tendo falecido em vésperas da minha partida – e procurei então diversificar as minhas fontes. Foi um processo moroso e complicado, que permitiu percepcionar a relação tensa entre os vários actores sociais relativamente ao conhecimento do caminho dos antepassados. Para muitos, eu já sabia tudo o que deveria saber, pois tinha estado em contacto com o matas Paulo Mota. O propósito era falar com cada um dos dezassete matas – responsáveis pelas dezoito Casas sagradas (um dos matas assume, em simultâneo, a tutela de duas Casas), de forma a poder obter a história da sua casa e com cada um dos quatro bei.
Em relação a estes últimos, foi marcada, logo no início, por sugestão de um deles, uma entrevista comum. Esta entrevista foi protelada durante três meses, até que se deu como inconclusiva. Durante este período, houve várias conjecturas da parte de alguns mais próximos acerca das razões da ausência de vários deles nos dias estabelecidos e do consequente protelamento da reunião. A primeira defendia que esta sugestão tinha sido uma forma de um obter dos outros os conhecimentos; a segunda, que alguns não saberiam nada e não queriam dar isso a conhecer. Assim, com dois dos bei só pude ter conversas informais, ainda que pertinentes, e com outros dois efectuei entrevistas formais. Um, meu vizinho, viria a tornar-se o meu principal companheiro ao longo do ano, visitando-me regularmente – o bei José Tilman.
Com os matas passou-se o mesmo. Durante um ano tentei falar com todos eles, marcando entrevistas (excluindo um, que estava na Indonésia – ainda que o tenha conhecido aquando de um reencontro familiar na fronteira). Tal como com os bei, a minha relação com todos em contexto ritual era marcada pela efusividade e abertura, mas a realização de entrevistas era sempre adiada. Assim, dos dezassete possíveis
interlocutores, só efectuei entrevistas formais a sete (um deles com delegação de outro para falar sobre a sua Casa).
Os motivos deste insucesso poderão ser vários e foram objecto de discussão com muitos dos que me estavam próximos. A principal razão apontada era que muitos tinham medo de falar. Tinham receio de que as suas palavras pudessem desencadear reacções sobrenaturais. Outra razão prendia-se com a ignorância. Objectivamente, alguns deles não o sabiam. Não seriam dotados da capacidade – inspiração –, para alguns, de reter e recitar as palavras sagradas. Este facto é importante, pois é expectável que o matas, após a sua nomeação, faça “escola”, procurando aprender junto dos elementos da sua Casa, e não só, o caminho dos seus antepassados, os seus nomes e também as fórmulas precatórias que permitam realizar as cerimónias da casa. Na impossibilidade de o fazerem, os matas podem delegar essa competência em alguém, mas ninguém lhes pode usurpar esse direito, falando sem que para tal tenha sido designado.
Paradoxalmente, alguns destes matas estavam dispostos a ajudar-me em contexto ritual, explicando-me procedimentos e traduzindo pontualmente palavras. No entanto, apesar da afabilidade, a circunspecção de alguns era evidente e nunca foi possível ultrapassar a barreira do silêncio. Esta relação entre os actos e as palavras não pode deixar de ser analisada, pois foi algo com que fui confrontado permanentemente. Há actos rituais públicos e privados. Entre os primeiros, pude participar em quase todos os momentos do ritual, à excepção, reconhecida, de alguns em que a minha presença em determinados locais foi vetada. Tenho destes uma informação em segunda mão. No entanto, de uma forma geral, a minha participação nestes actos era bem-vinda.
As palavras são objecto de veneração e temor. O saber das palavras parte de um conhecimento mais vasto, composto pela experiência de locais e execução de ritos específicos. Conjugados na mesma pessoa, estes saberes são fonte de autoridade e de poder, que pode fazer distinguir um indivíduo, quer este desempenhe ou não um cargo. A procura da palavra é um esforço que é feito activamente por várias pessoas,
como os jovens matas. Tive a oportunidade de privar com alguns desses indivíduos, que se tornaram meus companheiros de pesquisa, ao longo do ano de terreno45.
O trabalho de transcrição e de tradução das recitações e entrevistas foi um processo moroso e complexo. A transcrição de grande parte dos textos foi efectuada durante a estadia, em conjunto com um jovem responsável ritual. A velocidade de dicção e o consumo da masca produzem uma opacidade em algumas recitações. Este facto, intencional ou inadvertido, colocou muitas dúvidas à transcrição. A fase de tradução dos textos foi, também, complexa, devido à dificuldade em encontrar, na língua Tétum ou em português, um sinónimo para a palavra ou a expressão. Para procurar ultrapassar este problema alguns dos textos foram revistos, ainda em Timor, por mais do que um intérprete, nomeadamente professores primários (em Tapo e Maliana).
Nota acerca da comunicação e tradução
Os contextos linguísticos de comunicação foram múltiplos, tendo sido usado o Tétum (sobretudo nos primeiros anos), o Bunak (à medida que dominei esta língua, sobretudo na sua feição narrativa), e o português. Tive ainda necessidade de conhecer palavras de Bahasa Indonésio, usado conjuntamente por alguns informantes com as línguas anteriores.
Atendendo a esta diversidade linguística, sempre que a palavra não for de origem Bunak será feita uma alusão explícita: Tétum; Português; Bahasa Indonésio. Relativamente ao Bunak, há que assinalar o facto de o t inicial se ler ts diante de i e
tch antes de u. Foi adoptado neste trabalho a transcrição usada por Berthe (1965)46 e Friedberg (1978), à excepção da representação ortográfica da oclusão glotal, figurada nos textos presentes na tese por um apóstrofo (‘).
45
Neste contexto, é interessante mencionar uma frase curta, mas enigmática, de Almeida ( [1976], 1994, 581) sobre a forma abrupta como terá terminado uma entrevista que realizava com um informante que lhe relatava a dispersão dos Bunak para Ocidente e Oriente da ilha, resumida atrás: “ Foi pena que o meu venerando informador não tivesse podido concluir a narração lendária, que me contava com tão grande entusiasmo.”
46
A Professora Doutora Claudine Friedberg teve a bondade de me facultar o documento original do léxico de Bunak elaborado por Louis Berthe, em 1965 (não publicado). A sua leitura e tradução para português, de que resultou uma versão com 122 páginas, constituíram um exercício fundamental para o domínio e reflexão acerca de termos complexos, sobretudo, os que são usados nas narrativas mitológicas.
Sobre o uso das imagens
Como foi referido, uma das personagens que me foi imputada foi a de “jornalista”, devido ao hábito de fotografar, e filmar, os rituais. A fotografia, tal como o filme, foram usados ao longo da pesquisa em diversas circunstâncias. O principal objectivo foi o de registar os eventos rituais de forma a poder analisar posteriormente, com os seus executantes, os detalhes da sua realização. Por dificuldades várias (por exemplo, a inexistência de energia eléctrica na comunidade), não foi possível implementar esta estratégia integralmente.
Apresenta-se, como complemento à tese, um exercício fílmico intitulado “An tia 2004.
Bai Lika: a partilha dos porcos-selvagens”. Trata-se de um documentário elaborado
com base nos registos vídeo efectuados durante o acompanhamento feito ao grupo de
okul gomo no ano de 2004. São fragmentos de um processo que se desenrola ao
longo de seis dias. Como tal foi dada ênfase à visualização da bai lika nos vários momentos rituais.