A povoação de Tapo fica situada na vertente Este da montanha Datoi, a cerca de 1300 metros de altitude. Esta montanha é parte integrante da cordilheira central que atravessa a ilha de Timor, de Este a Oeste. No entanto, a sua orientação predominante é Sul – Norte. A sua centralidade, na ilha, é reconhecida pelos próprios e faz parte integrante dos seus fundamentos sócio-cosmológicos.
A povoação (e o seu território) fica situada no Interior Montanhoso; o clima de Tapo é frio, quando comparado com o de Bobonaro e, sobretudo, com o de Maliana. O regime de chuvas caracteriza-se pela existência de duas estações de chuvas: as to, grandes
chuvas de monção (e nome do ano), que ocorrem entre Outubro e Maio, sucedidas pelas holi, as pequenas chuvas entre Junho e princípios de Agosto. O período seco é, assim reduzido, de meados de Agosto a meados de Outubro.
Mapa 6 – Tas de Tapo
Fonte: Elaborado com base em - Peta Rupabumi Indonesia. 1:25.000 Map nº 2406-543 Bobonaro, Edisi: 1 – 1993.
O tas1 mil2 – povoação1 interior2 – localiza-se num pequeno promontório, reclinado sobre o vale, que se estende a Este, até à montanha de Colimau e, que a Sul, se abre para a passagem das ribeiras (zol) de Il sai, Masi, Laco e Laumea, até às planícies do Suai. A Sudeste é flanqueado pela montanha de Leber, a Oeste, Bekalai, Mot Po’ e Lakus (nomes usados localmente e que raramente constam dos mapas) e a Norte, pela de Loilaco; a Nordeste vislumbra-se o monte Ilatlaun, território Kemak, com ligações mitológicas a Tapo e, mais para lá, as povoações de Obulo e Atsabe. Para Sul, pode observar-se o mar do Suai, denominado mo 1 mone 2 – mar 1 homem 2. Em Belgu, ponto de passagem para Memo no sopé do Datoi, avistam-se ambos os mares
que delimitam a ilha de Timor, o do Suai e a Norte o mo 1 pana 2 – mar 1 mulher2. Para além de se entrever grande parte do Timor-Ocidental, Indonésia, é possível perscrutar, a Norte, as ilhas de Alor e Lomblen. Do topo da montanha e também de Wepo, a segunda povoação do suco, localizada mais para Sudeste, a cerca de 1400 metros de altitude, é possível observar o Ramelau e Kablak, em território Mambae.
Figura 3 – Localização de Tas Golo’, Wepo e Tapo. A montanha Datoi encontra-se a montante de desta última povoação. Fonte: Google, 2010.
O suco tem, actualmente, duas povoações: Tapo, a sede, onde se localiza o tas, e Wepo. Para além destes dois aglomerados, em que se concentra a maioria da população, várias casas vão-se alinhando ao longo da estrada alcatroada que atravessa o suco, ligando as duas povoações referidas, e que se dirige a Lolotoe. Em 1975, o número de povoações habitadas era de dez (Quadro 3). A invasão indonésia, e a diminuição da população, devido à guerra, e a sua concentração é a razão invocada para o abandono de oito aglomerados. A aglomeração da população foi também uma medida preferida pelas autoridades indonésias, permitindo um maior controlo das populações submetidas perto das vias de comunicação e afastadas dos locais mais isolados, evitando, desta forma, o potencial apoio à guerrilha.
Tabela 4 – Povoações habitadas em 1975 e em 2005
1975 2005
Muna Abandonada
Bui Ba’ Abandonada
Tas Golo Abandonada
Golegusun 4 casas
Hol Ni hon Abandonada
Tali ton Abandonada
Wepo Habitada
Ole Gal Abandonada
Lon Mual Abandonada
Tapo tas Habitada
Apesar do abandono a que as povoações estão votadas, os campos circundantes continuam a ser trabalhados e usados para o pastoreio das vacas, cavalos e búfalos (a diminuição das cabeças de gado na posse do suco é apontada como um dos maiores efeitos da guerra61). No entanto, maioritariamente ocultos da vista, subsistem, motivos materiais e emocionais, que são ciclicamente reactivados, atraindo os seus antigos habitantes sobrevivos. A ligação é eminentemente ritual, nomeadamente a execução de ritos relacionados com a fertilidade dos animais e pessoas da Casa, junto dos altares dedicados, exemplo da Tala gie a62, e a construção, ou reconstrução, de
antigas campas de familiares mortos na guerra, que se encontram isolados naqueles locais.
A diminuição do número de habitantes também é relevante. De acordo com Friedberg (1971), havia, em 1970, 256 chefes de família. Em 1990, as estatísticas do Governo da Província de Timor –Timur, nome pelo qual foi designado Timor-Leste no sistema administrativo indonésio, indicavam um total de população de 779 habitantes63. Em 200164, o mesmo indicador totalizava 185, sendo o total da população 87365. Este
61
A diminuição do número de gado teve, aparentemente, efeitos nas práticas culinárias. Manuel de Jesus recorda, com emoção, que na sua juventude se consumia regularmente leite de búfalo, nomeadamente para cozer batata-doce. Actualmente recorre-se às latas de leite condensado para preparar o café, quando se tem uma visita, ou quando uma criança está doente.
62
Cerimónia que se realiza de cinco em cinco anos, na tala, uma ara que cada Casa possui na montanha.
63
Doc. Peduduk Bobonaro Tahun 1990, Rasil SP90 October 1990, Kantor Satistik Propinsi Timor Timur.
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número indicia, igualmente, a deslocação de alguns membros da comunidade para a Indonésia em 1999. De acordo com os dados relativos a 199966, existiriam 979 habitantes. Esta quebra demográfica demonstra uma recuperação lenta da sua população, se comparada com alguns levantamentos familiares efectuados em 2004, em que a perda directa de irmãos germanos sugere rácios de 50% a 70 %.
Tabela 5 – Dados demográficos
Ano
Chefes de
família Total Pessoas Total
Tapo Wepo Tapo Wepo
1971 256 1203 1990 779 1999 979 2001 185 875 (514) 2002 142 43 185 608 277 873 2003 127 42 169 500 186 686 2004 135 31 161 526 107 654
Fonte: Friedberg, 1971; Kantor Statistik – Propinsi Timor Timur, 1990; ETTA 2001; ETTA 20002; ETTA 2003; Sousa 2004.
Segundo os dados de 200367, haveria 686 habitantes: 500 em Tapo e 186 em Wepo. Este facto indicia uma descida acentuada da população: 21.5%. A diminuição da população residente parece estar ligada ao processo migratório de algumas famílias – particularmente da população mais jovem –, para Díli e Maliana, para estudar e para procurar trabalho.
Os dados do terreno: recenseamento kik (Tétum: pequeno) realizado em 200468. Em 2004 e 2005 o número de habitantes apurado foi de 654 e o de fogos de 134 (Tabela 5).
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O recenseamento realizado no âmbito do "The 2001 Survey of Sucos" apresenta, para o mesmo ano, somente 514 habitantes. O documento suscita dúvidas, pois nada justifica uma descida tão acentuada da população, nem mesmo a migração interna. Na realidade, este valor parece corresponder somente à população do tas, como o Recenseamento que realizei em 2004 parece indicar. Na realidade, muitos elementos deste documento relativos ao subdistrito de Bobonaro são erróneos, pois vários sucos são identificados como sendo "kemak", quando são "bunak", e vice-versa.
66
Documento avulso, ETTA 2001.
67
Documento avulso, Administração Provisória do Distrito de Bobonaro, 2003.
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Este recenseamento foi elaborado em colaboração com o Chefe de Suco, tendo sido complementado por inquéritos pontuais. Os recenseados correspondem à população presente (a residir) no suco,
A população encontra-se repartida da seguinte forma: 52669 (80%) habitam no tas e os restantes 128 (20%) moram fora do tas, o denominado tas liur (Tétum - fora, exterior).
Tabela 6 – Distribuição da população no suco de Tapo
Zona Habitantes Nº agregados Fogos
Tas
Bui gali 154 37 35
Gomo tama 149 40 38
Tas mil 110 19 18
Loka golo bul 2 1 1
Loka golo 81 24 27 Hol bol 30 9 9 Total tas 526 130 128 Liur Mog zon 7 2 2 Bui sibun 20 4 3 Liwe ba’ 2 1 1 Bele malas 18 3 3 Wepo 75 16 15 Muna 1 1 1 Golegusun (5) (4) 4 Total liur 128 29 29 Total 654 159 157
É relevante constatar a concentração de habitantes no tas, porque é uma situação contrária à existente antes de 1975, em que a população se dispersava pelas várias aldeias. Por outro lado, a concentração de 110 residentes no tas mil (a parte onde se encontram as Casas sagradas), correspondente a 17% do total dos habitantes do suco, é um indício interessante da valorização dada à sua continuidade, quando são recorrentes as indicações de que estes espaços se esvaziaram noutras povoações vizinhas, exemplo de Marobo, estudado por Clamagirand (1982) e na Indonésia (Barnes, 1974). O mesmo poderá propor-se em relação a Wepo. A permanência desta