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FORMIST - synthèse des ateliers du 13 juin 2003

Todos os participantes da minha pesquisa são meus colegas de profissão. Acompanharam minha trajetória acadêmica e naturalmente convidei-os para participar como sujeitos e todos aceitaram prontamente. Outros profissionais de diferentes especialidades foram convidados, mas, por incompatibilidade de agendas, somente seis colegas participaram, sendo cinco médicos e um enfermeiro. Destaco que meu trabalho não se respalda em amostragem por especialidade, mas em pessoas que trabalham em CP, suas experiências e reflexões.

Os critérios de inclusão para a pesquisa foram: colaborar voluntariamente com a pesquisa, vínculo profissional ou educacional com CP, disponibilidade e interesse para participar dos encontros com a pesquisadora. Os critérios de exclusão foi não atender um ou mais critérios de inclusão.

Após explicação sobre os objetivos da pesquisa e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (anexo 2), realizei dinâmicas conversacionais em diferentes contextos: no hospital, na casa dos participantes, cafés, restaurantes. Além disso, pude presenciar a realização de palestras proferidas por alguns participantes, atendimento ambulatorial e no pronto socorro e conversas informais entre eles, materiais que foram úteis para a construção das informações.

Realizei um encontro em grupo, com a presença de cinco participantes. Essa reunião durou cerca de 1h30. Nessa ocasião lemos um texto (anexo 1) e os sujeitos

109 fizeram uma discussão a partir do texto, que foi desdobrada em outros assuntos condizentes com experiências pessoais e profissionais.

O cenário de pesquisa foi constituído antes do convite oficial para a minha pesquisa, pois, em diferentes momentos, comentei com cada um deles sobre o desenvolvimento da minha pesquisa e todos demonstraram interesse pelos objetivos do meu trabalho. Além disso, foi importante o vínculo profissional e de amizade que tinha com todos os participantes. A partir do referencial epistemológico adotado, a qualidade do vínculo foi fundamental para que outros temas surgissem no fluir das conversações e nos encontros que tive com cada um. As conversas foram gravadas, e vários temas surgiram desde a atuação profissional e trajetória de vida. Surgiram, naturalmente, muitas emoções e não foi raro emocionar-me com as histórias compartilhadas e alguns deles também choraram enquanto conversávamos. Abaixo, destaco algumas informações gerais sobre cada participante:

Luísa, 52 anos, é médica especialista em clínica médica. Possui formação em homeopatia, meditação, reiki, floral. Atua como médica paliativista na enfermaria de CP há mais de dez anos. Idealizadora do movimento paliativista, é uma das principais figuras para a criação deste serviço no SUS/DF. Atualmente é preceptora de residentes e estagiários de medicina. Dedica-se à divulgação dos CP em palestras e consultoria gratuita e informal em Brasília e com profissionais de outros estados. Desde a infância possui referências importantes sobre amor ao próximo, religiosidade e espiritualidade, com especial destaque à figura de sua mãe, já falecida. É casada e tem uma filha de 20 anos.

Maria, 43 anos, é médica especialista em infectologia. Em sua trajetória profissional trabalhou com muitos pacientes com aids. Atualmente trabalha na atenção domiciliar, com pacientes oncológicos e não-oncológicos residentes no

110 Distrito Federal. É filha de médico do interior, evangélica, e seu primeiro contato com pacientes em CP foi pela capelania hospitalar. É divorciada e não tem filhos.

Iuri, 39 anos, é enfermeiro especialista em UTI e CP. Participou diretamente no desenvolvimento das enfermarias de CP, junto com a dr.a Luísa. Possui formação em medicina chinesa, florais, acupuntura, meditação. Seus pais são responsáveis por um centro espírita, no qual é voluntário. Considera-se espiritualista. É solteiro e pai de um adolescente. Atualmente dedica-se a projetos de educação e realiza palestras sobre CP no Distrito Federal.

Charles, 38 anos, é médico de família e comunidade e paliativista. Trabalha nas enfermarias e ambulatório de CP. É ateu, casado, e pai de três meninas. Possui personalidade forte, crítico, e é conhecido na equipe pela sua inteligência e resolutividade. É preceptor de residentes de CP e outras especialidades.

Leonora, 32 anos, é medica geriatra. Trabalha como médica em um Pronto Socorro e no ambulatório de CP. Atua em CP há um ano e meio. É preceptora de residentes de CP e outras especialidades. Foi evangélica quando criança e adolescente. Conheceu práticas de meditação por sugestão de colegas paliativistas e tem se dedicado a leituras sobre espiritualidade. É solteira e não tem filhos.

Beatriz, 31 anos, é geriatra e residente em medicina paliativa. Durante o curso de medicina sua irmã teve um câncer raro; atualmente está curada. Faz residência nas enfermarias e ambulatório de CP. Recentemente fez estágio em CP na cidade de São Paulo. Recém-casada, não tem filhos, e é espírita.

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Construindo Informações

[...] os processos de construção e produção de informação representam, neste marco epistemológico, um mesmo processo, no qual um orienta e complementa de forma permanente o outro, colocando à prova a capacidade ativa do pesquisador, no sentido de tomada de decisões durante o processo, definição de novos instrumentos em dependência das necessidades que vão emergindo no curso da pesquisa. (GONZÁLEZ REY, 2014, p. 33)

Seguindo o referencial da Epistemologia Qualitativa, a construção da informação refere-se a um processo progressivo, dinâmico, contraditório e inacabado. Não há a intenção de apresentar uma verdade acerca das produções subjetivas dos sujeitos participantes, mas um esforço de significar as configurações subjetivas com vistas aos objetivos iniciais desse estudo.

Nesse processo progressivo as informações produzidas estão

necessariamente vinculadas aos processos subjetivos do próprio pesquisador, destituindo assim o lugar da neutralidade científica. Dessa maneira, além do meu lugar ativo como pesquisadora emana também a importância da criatividade, responsabilidade intelectual e envolvimento com o desenvolvimento da pesquisa. Esse processo não se restringe às “construções cognitivas”, mas às minhas experiências subjetivas como pessoa, psicóloga, paliativista, servidora pública e pesquisadora, ao vínculo estabelecido com os sujeitos participantes, minhas ideologias, crenças e pré-conceitos. Como nos dizeres de Gonzalez Rey (2014):

A produção de conhecimento, por sua vez, é um processo permanente de nossa subjetividade que, de forma contínua, provoca-nos, evocando reflexões e dúvidas constantes, posto que é expressão da configuração subjetiva de nosso cotidiano, cujos desdobramentos caracterizam as permanentes construções intelectuais que geramos sobre esse saber. De fato, o desenvolvimento de um caminho teórico abre um processo mais abrangente de produções subjetivas que representam uma verdadeira filosofia de vida. Dentre as atividades que ganham vida no processo de

112 crescimento pessoal, quando estamos imersos num caminho de produção de saber, está a forma com que as diversas leituras realizadas convergem no desenvolvimento de novas ideias que passam, por sua vez, a alimentar o caminho de nossa construção teórica na ciência (p. 15).

Nesses anos de desenvolvimento do doutorado lido diariamente com Cuidados Paliativos: sou responsável pelo Núcleo de CP da SES/DF, trabalho no ambulatório de CP do HBDF, sou pesquisadora sobre o mesmo tema e muitos dos colegas paliativistas fazem parte do meu convívio pessoal. Assim, as construções que serão apresentadas estão conjugadas às produções subjetivas dos sujeitos participantes; minhas experiências na gestão de serviços de CP no Distrito Federal; o sofrimento dos colegas paliativistas (e ao meu também) ao lidarem com a triste realidade dos pacientes – que ultrapassam a dor física, mas que remetem a situações existenciais profundas de abandono, violência doméstica, fé, esperança etc. Todos esses núcleos se articulam em sistemas subjetivos complexos e minha ideia é desenvolver um modelo teórico que embase ações educativas sobre a vida e o morrer para essa classe profissional que têm muitos desafios e contribuições para os usuários do sistema público de saúde: as equipes paliativistas.

Portanto, nesse capítulo apresentarei construções interpretativas das informações que se desenvolveram em conversas individuais, discussões em grupo, em momentos informais, anotações do meu diário de campo e complemento de frases. Durante a construção das informações, observei a similitude de determinados temas que surgiram durante as dinâmicas conversacionais com os participantes, e também de conteúdos semelhantes presentes nos complementos de frases. Essas informações foram destacadas e desenvolvidas em zonas de sentidos, que segundo Gonzalez Rey (2005) são “[...] espaços de inteligibilidade que se produzem na pesquisa cientifica e não esgotam a questão que significam, senão que

113 pelo contrário, abrem a possibilidade de seguir aprofundando um campo de construção teórica” (p. 6).

Cada zona de sentido refere-se a campos de inteligibilidade produzidos no curso da pesquisa qualitativa e que transpõe a ideia de linearidade científica para uma proposta que possibilita o surgimento de novas representações teóricas sobre o tema em estudo. Destaco ainda que as zonas de sentido têm uma função didática de organização das minhas construções e que elas comunicam-se entre si e não são momentos estanques.