CONSEILS ET UTILISATION A
III. 2 7 Formes et modalités d’achat
As informações destacadas nos relatórios presidenciais que tratam desta atividade mostram que a manufatura não se concentrou numa região, como no caso da mineração aurífera - região central mineradora - ou da mineração diamantífera - no Distrito Diamantino, da região central mineradora em direção ao Norte. Embora estivesse presente em várias regiões mineiras, o norte de Minas é sempre lembrado como uma região de importante produção algodoeira e manufatureira. O tema recebeu maior destaque do que o tema da mineração, de diamante ou de ouro. Os presidentes a consideravam um dos ramos de riqueza mais importantes nas regiões em que foi implantada. Os relatórios e falas demonstraram que as indústrias de tecidos teriam crescido em diversos municípios, sendo importantes em várias partes de Minas. Mesmo assim, não foi um tema constante entre os administradores. Apenas alguns administradores se dedicaram a este tema e descreveram um quadro positivo no desenvolvimento da indústria manufatureira.
Em 1873, Joaquim Floriano de Godoy433 comentou a prosperidade da indústria de tecidos de algodão e lã na província de Minas. Dez anos mais tarde, Antônio Gonçalves Chaves434 afirmou que a indústria manufatureira teria obtido resultados brilhantes, pois já havia nove fábricas em Minas. No relatório de 1884,435 continuou a afirmar que a indústria manufatureira estava se desenvolvendo na província e que alguns melhoramentos foram introduzidos em algumas fábricas, de modo a duplicar a produção de tecidos que continuava a ter grande procura. Nas falas de 1883,436 1884437 e 1886,438 os presidentes comentaram o progresso das doze fábricas montadas nos municípios de Sete Lagoas,439 Curvelo,440 Itabira, Sabará, Diamantina, Pitangui, Juiz de Fora, Uberaba, Viçosa e Montes Claros. Antônio Teixeira de Souza Magalhães441 afirmou que a indústria manufatureira vinha se desenvolvendo com êxito. Segundo ele, desde o relatório presidencial de 1882, as fábricas existentes naquela época continuavam em seu fecundo trabalho, confiadas nas próprias forças e sem cogitarem do menor auxílio oficial.
Dos administradores, Antônio Gonçalves Chaves442 foi quem se mostrou mais interessado no progresso desta atividade. Segundo ele, a indústria manufatureira já constituía um dos ramos mais importantes da cultura de muitos municípios, especialmente, do norte. E, em breve, quando as estradas de ferro se aproximassem dos centros algodoeiros, o algodão seria o principal produto da lavoura mineira. E acrescentou que o mineiro era um povo agrícola, mas também seria um povo manufatureiro. Antônio Gonçalves Chaves definiu claramente a sua predileção pela atividade agrícola, mas já colocava a atividade manufatureira como importante para
433 GODOY, Joaquim Floriano de. Op. Cit., 1873. p. 18. 434 CHAVES, Antônio Gonçalves. Op. Cit., 1883. p. 40. 435
CHAVES, Antônio Gonçalves. Fala de 1884. p. 72. 436 CHAVES, Antônio Gonçalves. Op. Cit., 1883. p. 40. 437
CHAVES, Antônio Gonçalves. Op. Cit., 1884. p. 72.
438 PORTELLA, Manoel do Nascimento Machado. Op. Cit., 1886. p. 102-104. Manoel do Nascimento Machado Portella era pernambucano e foi presidente da província de Minas Gerais (posse em 19 de outubro e 1885) e da Bahia (posse em 27 de março de 1888). Fonte: BARÃO DE JAVARI. Op. Cit., 1979. p. 443 e p. 447.
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A fábrica do município de Sete Lagoas foi estabelecida num lugar chamado Cedro, da freguesia do Tabuleiro Grande e funcionava desde 1868, de acordo com Francisco Iglesias, em texto citado acima. A fábrica pertencia aos Irmãos Mascarenhas e, em 1874 contava com 70 operários e produzia diariamente 1.100 metros de pano de algodão, que era exportado para o Rio de Janeiro.
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Os irmãos Mascarenhas, donos da fábrica de tecidos em Sete Lagoas, residiam em Curvelo, e foram considerados, pelo presidente Antônio Gonçalves Chaves, como pioneiros na tecelagem em Minas Gerais. IGLESIAS, Francisco. Op. Cit., 1958. Provavelmente, a fábrica de Curvelo também pertencia a eles. Em 1888, segundo Iglesias, abre em Juiz de Fora a Tecelagem Mascarenhas, que provavelmente também pertenceu à mesma família.
441 MAGALHÃES, Antônio Teixeira de Souza. Op. Cit., p. 26. 442
o desenvolvimento regional. Apesar de considerar que a Zona da Mata com a sua produção cafeeira para a exportação era a região mais importante de Minas, este presidente apontou que o algodão vinha se desenvolvendo em larga escala, principalmente na região Norte e não tardaria a ser importante produto de exportação.443
Uma das explicações deste notável interesse de Antônio Gonçalves Chaves444 em desenvolver a manufatura no norte de Minas seria o seu envolvimento com uma fábrica de tecidos na cidade de Montes Claros, no norte de Minas, cidade onde nasceu. Em 27 de fevereiro de 1883, mesmo ano em que o presidente defendeu, em relatório, a atividade manufatureira em Minas, o jornal Liberal Mineiro - publicado em Ouro Preto - noticiou a posse do administrador e comentou que “graças aos seus esforços”, foi organizada uma sociedade industrial anônima, “da qual ele foi o presidente”, para a instalação de uma importante fábrica de fiação e tecidos que funcionava com grande número de teares.445 Enfim, o tratamento diferenciado dedicado pelo administrador Antônio Gonçalves Chaves em relação à manufatura provavelmente derivou do fato deste administrador ser mineiro e proveniente de uma das cidades onde se encontrava uma fábrica de tecidos. Mesmo assim, Chaves não foi exceção ao destacar a atividade agrícola como a que merecia maior destaque na pauta do desenvolvimento de Minas.
Entre os deputados, em 1877, os representantes do norte mineiro advogaram um projeto de garantia de juros para a fundação de uma fábrica de tecidos na cidade de Montes Claros. Em sessão de 5 de setembro de 1877, o deputado José Felizardo Francfort de Abreu Bicalho446 argumentou que, à exceção da indústria agrícola, todas as demais não existiam na província. De acordo com o deputado, o objetivo da
443 Idem. p. 82. 444
27.02.1883 n. 19 O novo presidente de Minas. Editorial p. 1. Liberal Mineiro, Ouro Preto - MG. 445 Segundo o Liberal Mineiro, Antônio Gonçalves Chaves, natural da província de Minas Gerais, cidade de Montes Claros, é bacharel em direito pela faculdade de São Paulo. Eleito duas vezes sucessivas membro da Assembléia provincial de Minas Gerais, tornou-se chefe da maioria liberal, em 1868. Anteriormente serviu como juiz municipal do termo de Montes Claros. Nesta mesma cidade de Montes Claros, organizou uma sociedade industrial anônima, da qual ele foi o presidente, para a instalação de uma fábrica de fiação e tecidos. Chamado ao poder o partido liberal, em 1878, foi nomeado juiz de direito da comarca do Rio Pardo. Mais tarde, foi removido para a comarca de Montes Claros, até ser chamado para presidir a província de Santa Catarina pelo ministério Martinho Campos. Após presidir a província de Santa Catarina, foi nomeado presidente da sua província natal, Minas Gerais, em 1883. (27.02.1883 n. 19 O novo presidente de Minas. Editorial p. 1 Liberal Mineiro Ouro Preto – MG.)
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AALPMG, Sessão de 05 de Setembro de 1877. p. 105. O advogado e também tenente-coronel José Felizardo Francfort de Abreu Bicalho residia em Montes Claros e foi deputado provincial pelo 17º distrito em 1876-1877 e 1878-1879. Residia na cidade de Montes Claros. Fonte: AALPMG, Sessão
fundação da fábrica em Montes Claros era o de preparar e manufaturar o algodão em tecidos grossos, “os mais consumidos pela classe comum do povo”.447
Segundo ele, Montes Claros era um município essencialmente agrícola “onde o algodão ostenta uma vegetação maravilhosa”,448 de modo que o estabelecimento seria fundado no foco da produção de algodão. Para mostrar a vantagem do projeto em Montes Claros, o deputado referiu-se à Fábrica de Tecidos de Beribéri, fundada em Diamantina. Segundo ele, como o município de Diamantina não produzia algodão, a empresa tinha que importar toda a matéria-prima de municípios longínquos como Minas Novas, Araçuaí e até mesmo Montes Claros. E mesmo assim, vinha oferecendo lucro acima de 12%. A fábrica de Montes Claros renderia muito mais, uma vez que seria instalada num município produtor de algodão. Fundada em “condições duplamente vantajosas, há de necessariamente dar resultado superior àquela cifra, não onerando, de modo algum, os cofres públicos.”449
Mas o projeto encontrou oposição até mesmo entre deputados daquela região. Em sessão de 13 de setembro de 1877,450 o deputado Afonso Augusto Moreira Pena - membro do Partido Liberal e representante do 2º distrito - criticou o fato de a Assembléia conceder favores e privilégios para montar uma fábrica de tecidos em um ponto determinado da província, quando era certo que nela já funcionavam muitas fábricas do gênero, que apresentavam “os mais risonhos resultados” sem que tivessem precisado de favores ou privilégios do governo:
“Só no município de Curvelo contam-se não menos de duas dessas fábricas, que estão prosperando muito, que dão excelentes resultados. No município da Diamantina igualmente há fábricas de tecidos nas mesmas circunstâncias. No Pitangui há uma que dá um resultado superior a 30%.”451 Afonso Pena argumentou que esta garantia de juros seria onerosa aos cofres provinciais, porque os capitais empregados seriam improdutivos durante algum tempo, além do inconveniente da concorrência que esta fábrica faria com as outras fábricas já estabelecidas, “que não gozam de favor algum provincial” e não poderiam
447 AALPMG, Sessão de 05 de Setembro de 1877. p. 105. 448
Idem. p. 105. 449 Ibidem. p. 105.
450 AALPMG, Sessão de 13 de Setembro de 1877. p.167. 451
concorrer igualmente com uma empresa “rodeada de favores”.452 Além disso, a futura fábrica teria uma zona privilegiada de duzentos e sessenta e cinco quilômetros abrangendo as fábricas de Cedro e de Diamantina, que seriam muito prejudicadas por esta terceira:
“Se tratássemos de uma indústria que ainda precisasse de bracejos oficiais para desenvolver-se, para crescer. Mas neste caso não se dá isso e, pelo contrário, o privilégio pode matar a iniciativa particular.”453
Em sessão de 28 de Agosto de 1882, o deputado Antônio Augusto Veloso,454 representante do 17º distrito, assim descreveu a cidade de Montes Claros, no Norte de Minas:
“... a cidade de Montes Claros é, como todos sabem, uma das mais importantes de toda a zona setentrional desta província, já pela prosperidade da agricultura em seu município, a qual só faltam meios fáceis de transporte para o aproveitamento completo das riquezas e dos produtos, que em grande parte se perdem por esta razão, já pelo seu comércio, que, apesar da falta ou dificuldade de transporte, nem por isso deixa de ser um dos mais ativos do norte de Minas. A indústria (...) acha-se ali ainda muito atrasada. Entretanto, lá acaba de ser estabelecida uma grande fábrica fiatória e de tecidos de algodão, talvez uma das mais consideráveis da província(...).”455
Mesmo encontrando alguma oposição, o projeto de fundação de uma fábrica de tecidos em Montes Claros foi aprovado, transformado em lei e a fábrica foi construída. Em 1884, o deputado Cristiano Ribeiro da Luz,456 residente na região de Três Corações do Rio Verde, sul de Minas, fez algumas insinuações de que o presidente Antônio Gonçalves Chaves teria se utilizado do cargo de administrador de
452 Idem. p. 167. 453
Ibidem. p. 167. 454
Antônio Augusto Veloso foi deputado provincial pelo 17º distrito, nos anos de 1882-1883 e 1886- 1887. Neste último biênio, foi membro da Comissão de Fazenda. Era membro do Partido Conservador e residente em Montes Claros. Fonte: Anais da Assembléia Legislativa Provincial de Minas Gerais.
455 AALPMG, Sessão de 28 de Agosto de 1882. p. 97. 456
Cristiano Ribeiro da Luz foi deputado provincial pelo 11º distrito, no biênio de 1884-1885. Membro do Partido Conservador e representante do Sul mineiro. Fonte: Anais da Assembléia Legislativa Provincial de Minas Gerais. Em 1884, afirmou ser filho do conselheiro Joaquim Delfino Ribeiro da Luz. Este, por sua vez, foi deputado geral (1853-1856), presidente de província (1857), deputado geral (1861-1863, 1864-1866, 1869-1870) e senador do Império de 1870 a 1889. O Senador Ribeiro da Luz atingiu os mais altos cargos da política imperial. Foi também Ministro da Marinha, da Justiça, Ministro de Estado Extraordinário, Conselheiro de Estado e Ministro da Guerra. Fonte: AALPMG,
Sessão de 13 de Outubro de 1884. p. 727; Site do Senado Federal:
http://www.senado.gov.br/sf/senadores/senadores_biografia.asp?codparl=1841&li=14&lcab=1869- 1872&lf=14 [Extraído em 22/11/2008].
Minas para aprovar aquele projeto e defendeu a revogação daquela lei. Suas afirmações foram combatidas pelo deputado José Antônio da Silveira Drumond, residente na cidade de Itabira, e o deputado Camilo Filinto Prates, morador de Montes Claros. Em sessão de 13 de outubro de 1884, o deputado José Antônio da Silveira Drumond457 criticou o deputado Cristiano Ribeiro da Luz, garantindo que o ex-administrador não tinha outro interesse senão o benefício de uma zona em que nasceu, pois não era associado, não tinha os seus capitais empregados na empresa. Segundo Drumond, a atitude de Cristiano Ribeiro da Luz foi não só um ato de desconfiança ao presidente, como uma ofensa a Chaves, “a quem ela não atinge”.458
Segundo Drumond, a fábrica de tecidos de Montes Claros organizou-se, mas não sem dificuldade. E agora que estava montada, desenvolvendo-se e dando esperanças de produzir, o deputado Cristiano Luz pedia a revogação da lei “que constitui para aquele estabelecimento uma esperança!”459 A discussão entre os deputados José Antônio da Silveira Drumond e Cristiano Ribeiro da Luz refletia as divergências entre os deputados do norte mineiro e os deputados do sul de Minas, ou seja, entre os representantes das regiões mais pobres e uma das mais ricas de Minas:
“S. Exc. é empregado vantajosamente em estradas de ferro; é deputado provincial, é filho de um potentado da terra (...) não sabe quais são as dificuldades com que luta a pobreza para viver.
S. Exc. não sabe que o norte de Minas é pobre, não sabe que o ano passado, quando o digno diretor da Escola de Minas viajou para lá, ao voltar disse a diversas pessoas, que os habitantes do norte de Minas, em sua quase totalidade, estavam chegando a uma pobreza extrema.
O nobre deputado, que tem uma vida cheia de comodidades, que tem todas as condições de conforto que se podem desejar, não devia apresentar um aditivo desta ordem.
O que farei é dizer ao 17º distrito que lá do sul de Minas veio um deputado com o fim único de guerrear o norte.”460
O deputado Cristiano Ribeiro da Luz respondeu que o seu intuito não foi o de mostrar desconfiança da administração atual nem da gestão passada. Mas, sabendo que esta casa negava garantia de juros a fábricas de tecidos e o próprio presidente 457 Idem. p. 726-727. 458 Ibidem. p. 726-727. 459 Ibidem. p. 726-727. 460 Ibidem. p. 727-728.
Antônio Gonçalves Chaves teria declarado em seu relatório, que a Assembléia não podia mais dar garantia de juros, o intuito foi fazer revogar aquela disposição transitória pela qual o administrador poderia contratar dentro do exercício essa fábrica de tecidos, obrigando a Assembléia a depois votar garantia de juros.461 Mais do que isso, o deputado asseverou que:
“Se S. Exc. disse que no norte existe a pobreza e a miséria, como é que havemos de dar garantia de juros para uma fábrica de tecidos em uma zona que não oferece condições de prosperidade?”462
Vários deputados se voltaram contra as afirmações de Cristiano Ribeiro da Luz, em defesa de Antônio Gonçalves Chaves e, especialmente, da fábrica de tecidos de Montes Claros. O deputado Manoel Faustino Corrêa Brandão, representante do 2º distrito, por exemplo, afirmou entender que na província de Minas, havendo lugares onde era possível estabelecer fábricas de tecidos com perspectivas de sucesso, a Assembléia não devia pôr embaraços ao desenvolvimento dessa indústria, principalmente naquelas localidades. Já o deputado Camilo Filinto Prates463 - morador de Montes Claros e representante do 17º distrito - assegurou que esta fábrica precisava ser animada enquanto estava em estado de viabilidade. E questionou o argumento de que o norte de Minas era pobre e, por isso, não merecia os gastos dos cofres públicos:
“Dizer o nobre deputado que o norte de Minas é pobre e não precisa de auxílio (...) é o mesmo que dizer que o enfermo, pelo fato de o ser, não precisa medicar-se, nem alimentar-se para ter força.”464