Chapitre I. S YNTHÈSE BIBLIOGRAPHIQUE
I.2. Les stations d'épuration point de convergence des micropolluants
I.2.1. Le fonctionnement d'une station d'épuration 1. Le traitement des eaux usées
É preciso imaginar Sísifo feliz.
Albert Camus Heiner Müller busca nos clássicos da dramaturgia e literatura ocidental sua maior referência. Procura pelo passado da dramaturgia e faz isso para posicionar-se como homem de seu tempo. Partindo de tragédias gregas e até shakespearianas, o escritor resgata mitos e personagens. Recortando-os de suas narrativas originais, como destaca a atriz e diretora de
teatro Irene Brietzske143 (1944-), Müller reescreve as histórias que considera relevantes à contemporaneidade e também ao porvir.
O teatro de Heiner Müller é o do fim do milênio. Apocalíptico, arrasador, aniquilador. Ele toma por empréstimo personagens do passado da cultura ocidental e os expõe à luminosidade crua e cáustica do presente e do futuro. Acredita que nossa sociedade sofre de um defeito de canalização e afirma que uma das funções da arte hoje é a reciclagem dos mortos (BRIETZSKE, 1994, p. 10).
Essa reciclagem dos mortos em Descrição de imagem adquire um sentido mais profundo, pois, além de resgatar obras da cultura ocidental e oriental (os mortos de Müller), cria a figura de uma mulher ressuscitada que retorna para relacionar-se com a vida. A didascália que se encontra ao final do material teatral afirma que
DESCRIÇÃO DE IMAGEM pode ser lida como um retoque em ALCESTE, que cita a peça nô KUMASAKA, o 11. canto da ODISSÉIA, os PÁSSAROS de Hitchcock e A TEMPESTADE de Shakespeare. O texto descreve uma paisagem vista de além-túmulo. A ação é livre, já que as seqüências são passado, explosão de uma lembrança numa estrutura dramática morta (MÜLLER, 1993, p.159).
Aquilo que é metáfora para o conjunto de sua obra – a ressurreição de mortos da literatura universal –, no fragmento Descrição de Imagem, ocorre ipsis litteris. Para Gatti, "Descrição de Imagem retoma tal visão da história como repetição do eterno conflito entre vivos e mortos" (2013, p. 110). Estabelecendo um necessário recorte ao explorar esse texto, escolhemos o canto 11° da Odisseia, uma vez que as referências nele encontradas nos remetem aos afetos que mais nos interessam nesse material. Pensaremos, agora, nessas referências.
A Odisseia, poema épico de Homero (séc. VIII a.c), narra a luta de Ulisses para retornar a Ítaca, sua terra, depois de finda a guerra de Tróia. Inúmeros outros mitos somam- se à trajetória desse herói (HOMERO, 2014). No 11° Canto144, referenciado por Müller, Ulisses desce ao mundo dos mortos e retorna com informações de Tirésias à deusa Circe. Nessa incursão, Ulisses encontra Sísifo, já no mundo dos mortos, em sua labuta de absurda circularidade, o que nos remete à circularidade da trajetória da figura da mulher de
143 Atriz e diretora gaúcha, criadora do grupo Teatro Vivo, com o qual encenou diversos textos de Bertolt Brecht e de autores/as nacionais contemporâneos/as.
144 De acordo com este Canto, Ulisses, depois de longa travessia, chega à ilha de Eeia, onde morava a deusa Circe. A fim de explorar a ilha, companheiros de Ulisses encontram o solar de Circe e por ela são recebidos. A deusa enfeitiça-os, fazendo-os esquecer-se de sua terra e mantendo-os aprisionados. Avisado por Euríloco, o único dos homens a recusar o convite da deusa, Ulisses decide resgatar seus companheiros antes de partir. Hermes orienta-o quanto à empreitada de enfrentar Circe e dá-lhe uma erva que neutraliza sua droga. Após ser recebido, imune ao veneno, Ulisses consegue negociar a vida de seus homens com Circe. Conforme o acordo, eles permaneceriam na ilha por um ano. Após o período, novo trato é firmado: Circe deixá-los-ia partir se Ulisses descesse ao Hades para ouvir os conselhos de Tirésias e, ao retornar, contasse-lhe o que havia escutado. Ulisses retorna do mundo dos mortos e cumpre sua missão.
Descrição de Imagem. Também nos remete a essa figura o fato de Sísifo estar no mundo subterrâneo depois de já ter sido morto e ressuscitado em uma das narrativas possíveis de seu mito. Sísifo e Ulisses serão referências para perseguirmos a composição da figura da mulher em Descrição de Imagem. Ulisses narra:
E, sim, vi Sísifo com seu duro sofrimento, carregando pedra portentosa com as duas mãos. Ele, apoiando-se nas mãos e nos pés, empurrava a pedra morro acima; mas quando ia lançá-la por sobre o cume, Crátaiis a revolvia; então de volta ao solo, rolava a rocha aviltante. Mas ele de novo empurrava, retesando-se, suor escorria dos membros, e poeira lançava-se da cabeça (HOMERO, 2014, p. 345).
Ulisses observa Sísifo em sua luta de rolar uma grande pedra até o alto de um morro e, chegando lá, vê-la despencar morro abaixo. A tarefa retorna ao início, com Sísifo descendo o monte para novamente empurrá-la e vê-la descer. O que implica essa trajetória de Sísifo? O que significaria viver sob o signo de uma repetição eterna? Para Albert Camus,
trata-se de uma condição absurda. O filósofo esclarece que diferentes visões145 permeiam o
mito de Sísifo como "o trabalhador inútil dos infernos" (1989, p. 141). Ele lembra que, numa das narrativas possíveis para esse mito, Sísifo foi leviano com os deuses, pois
Espalhou os segredos deles. Egina, filha de Asopo, foi raptada por Júpiter. O pai, abalado por esse desaparecimento, se queixou a Sísifo. Este, que tomara conhecimento do rapto, ofereceu a Asopo orientá-lo a respeito, com a condição de que fornecesse água à cidadela de Corinto. Às cóleras celestes ele preferiu a bênção da água. Foi punido por isso nos infernos (CAMUS, 1989, p.141).
A história conta que Sísifo, sabendo do rapto de Egina, delata Júpiter a Asopo, que, sendo o deus dos rios, aceita trocar água por suas informações e orientações. Porém, Júpiter descobre sua barganha e condena-o ao trabalho "inútil e sem esperança", na concepção dos deuses, e, conforme Camus, a "punição mais terrível" (1989, p. 141). Entretanto, "Homero nos conta ainda que Sísifo acorrentara a Morte. Plutão não pôde tolerar o espetáculo de seu império deserto e silencioso. Despachou o deus da guerra, que libertou a Morte das mãos de seu vencedor" (1989, p. 142). O mito ainda ganha a versão de que Sísifo, perto de sua própria morte, teria posto à prova o amor de sua esposa, pedindo-lhe que não o sepultasse, e sim, jogasse seu corpo em praça pública. Ela obedece. Sísifo quis retornar do mundo dos mortos para vingar-se, tendo a permissão de Plutão "para voltar à terra e castigar a mulher. Mas, quando ele de novo pôde rever a face deste mundo, provar a água e o sol, as pedras aquecidas e o mar, não quis mais retornar à escuridão infernal" (1989, p. 142). Avisos dos deuses foram-lhe dados, mas Sísifo não deu atenção ao chamado divino e seguiu no mundo
145 Necessário é dizer que a Ilíada e a Odisseia são poemas épicos escritos por Homero a partir da tradição oral grega. Logo, os mitos que aparecem nessas obras percorrem o imaginário de um povo durante séculos e não se restringem à forma que Homero lhes deu no século VIII a.C.
dos vivos por anos até Mercúrio (Hermes) ser incumbido de resgatá-lo e levá-lo ao inferno para que cumprisse a tarefa decretada.
Pela perspectiva de Camus, Sísifo é o herói da condição absurda e, por isso, um mito pertinente para se pensar a condição humana num contexto em que a vida já é responsabilidade do sujeito e não mais de um destino divino. O ser humano, diante de sua condição, estranha-se e estranha o mundo. Não há saída, a não ser mergulhar e aceitar o absurdo de sua condição, tirando dela alguma potência.
... ele (o absurdo) brota da comparação entre um estado de fato e uma certa realidade, entre uma ação e o mundo que o ultrapassa. O absurdo é essencialmente um divórcio. Não está nem num nem noutro dos elementos comparados: nasce de sua confrontação (CAMUS, 1989, p. 49).
O mundo é um desconforto diante da inumanidade e do automatismo das ações humanas diante da vida. Esse divórcio entre o sujeito e sua vida é o sentimento da absurdidade, para Camus. O sujeito está sozinho, e a ordem do mundo está posta. Ele é um estrangeiro, e seu exílio é desprovido de nostalgia. Ele é Sísifo, e sua tarefa repetida ad infinitum é forma de afirmar-se frente à vida, um aceite e uma resistência. A consciência de sua condição é o que de Sísifo interessa a Camus. No momento em que, depois de rolar a pedra até o cimo, Sísifo a observa descer até o sopé, "ele é superior ao seu destino. É mais forte que seu rochedo", porque é consciente de sua condição.
Se esse mito é trágico, é que seu herói é consciente. Onde estaria, de fato, a sua pena, se a cada passo sustentasse a esperança de ser bem-sucedido? O operário de hoje trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas e esse destino não é menos absurdo. Mas ele só é trágico nos raros momentos em que se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua condição miserável: é nela que ele pensa enquanto desce. A lucidez que devia produzir seu tormento consome, com a mesma força, sua vitória. Não existe destino que não se supere pelo desprezo (CAMUS, 1989, p.143).
Para Camus, a Sísifo seu destino pertence; ao ser humano, uma atitude afirmativa lhe cabe. O destino é responsabilidade do sujeito. A vida é a vida que lhe cabe, e "a própria luta em direção aos cimos é suficiente para preencher um coração humano. É preciso imaginar Sísifo feliz" (1989, p. 145). Sísifo é aquele que, sabendo o porquê de sua punição, se mantém firme. Questionamo-nos se a mulher de Descrição de Imagem não estaria, de modo semelhante, tentando manter-se em pé, caminhando mesmo depois de morta. Não seria uma afirmação da vida que resiste à morte em um contexto pós-apocalíptico? O que fazer, pois, com o que resta depois que os outros se vão? O que farão com aquilo que deixarmos ao mundo?