4.2 Description d’une contrainte contextuelle à comptage
4.2.3 Fonctionnement de la contrainte contextuelle à comptage
O presente modal corresponde a uma categoria cuja propriedade distintiva é a ausência de temporalidade. Tendo em vista que o modo condiz à “expressão do julgamento do locutor sobre o que diz” (TRAVAGLIA, 1991, p. 78), pode-se afirmar, com Lyons (1979, p. 322), que os enunciados, no que respeita a esse aspecto do tempo verbal, são marcados “de acordo com a atitude do falante em relação ao status factual do que está dizendo, isto é, sua certeza e ênfase, sua
incerteza ou dúvida, etc.”. Dentro dessa categoria, há dois tipos de ocorrência: o presente imperativo e o presente jornalístico.
5.4.4.1 Presente imperativo
O imperativo tem lugar quando desejamos impelir nosso interlocutor a uma mudança de conduta, de comportamento. Ainda que exista uma forma verbal específica para expressar nossa vontade, geralmente valemo-nos do presente do indicativo em seu lugar, como sucede no seguinte fragmento, em que o enunciador incita os seus interlocutores a confirmarem suas alegações a partir do fato de que os testes aos quais está se referindo surgiram de necessidades práticas:
(61) (...) então daí... podemos verificar em que medida o indivíduo pode... realizar (determinadas funções... assumir certas funções)... vocês verificam que esses testes... surgi::ram... a partir:: de necessidades... PRÁticas certo? (...) (Inquérito nº 377 – Projeto NURC/SP)
O que se pergunta aqui é: por que motivo fazemos uso do presente do indicativo no lugar de um tempo verbal específico para esse fim?
Primeiramente, deve-se observar que o imperativo compõe basicamente um quadro de interação face a face, caso do exemplo (61), embora, não raro, possa aparecer também em gêneros discursivos escritos.
Em segundo lugar, deve-se lembrar, com Goffman (1967), de que cada indivíduo possui duas faces: uma externa e outra interna. Esta corresponde ao seu espaço íntimo, que espera não ser invadido. Aquela configura o modo como o indivíduo gostaria de ser visto pelos outros; logo diz respeito a algo que gostaria de preservar. Ou seja, numa interação face a face, os indivíduos estão interessados em
proteger a sua face e em não ferir a face do outro. Para isso, eles lançam mão de determinados recursos regidos pelo que o referido autor denomina de princípio da preservação das faces.
Podemos afirmar categoricamente que o emprego do presente do indicativo no lugar do imperativo configura um desses recursos. Ao empregarmos o presente com valor imperativo, estamos deixando de lado a rispidez, a aspereza que comumente se vincula à forma imperativa, para dar lugar à suavidade, à delicadeza que assume o presente do indicativo em tal circunstância.
Sendo empregado com a finalidade de expressar um conselho, uma recomendação, uma sugestão, um pedido, uma ordem, é notório que a concretização do evento ao qual se atrela o presente imperativo encontra-se ligada à vontade do falante, para quem a realização, ou não, do evento está implícita no comando determinado por ele. Desse modo, não há que se relacionar o emprego do presente imperativo aos três momentos propostos por Corôa (1985).
5.4.4.2 Presente jornalístico
Denominamos de presente jornalístico a ocorrência do presente do indicativo nas manchetes de jornais, revistas, etc., como as que seguem:
(62) TV paga reprisa até 29 vezes seus filmes. Pág. E1 (Jornal Folha de São
Paulo, edição nº 29.250, publicado em 3/5/2009)
(63) China censura fala de Obama sobre liberdade de informação. (Jornal O Estado de S. Paulo, edição nº 42.399, publicado em 17/11/2009)
(64) Mercedes compra Brawn. (Jornal Valor Econômico, edição nº 2.386, publicado em 17/11/2009)
De modo geral, as notícias veiculadas pelas manchetes que utilizam o presente do indicativo podem já ter ocorrido, poderão ainda ocorrer ou podem estar ocorrendo. Isso poderia nos compelir a atribuir a cada uma dessas situações um valor específico: presente histórico, presente futuro e presente durativo. Aliás, já vimos anteriormente que Faraco e Moura (1998) e Mesquita (1999) classificam duas ocorrências de presente do indicativo em manchetes como um caso de presente momentâneo, fato por nós já devidamente contestado.
A função das manchetes, que estampam as folhas de rosto dos jornais e as capas das revistas, é chamar a atenção do leitor para as principais notícias contidas na edição a que pertencem. Assim sendo, supomos que se possa compará- las a um índice, cujo papel também é levar ao conhecimento do leitor os itens considerados de maior importância dentro do texto de uma dada publicação. Isso nos parece ainda mais plausível se levarmos em conta que muitas das manchetes vêm efetivamente acompanhadas do número da página na qual se encontram os artigos a que elas fazem referência, como é o caso do exemplo (62), o que é uma característica peculiar aos índices.
Tal reflexão nos leva a postular que o presente jornalístico diz respeito a um tipo de ocorrência em que o presente do indicativo está destituído de significação temporal. O que importa única e exclusivamente é apresentar o evento como um tema a ser abordado, sem, contudo, fazer qualquer alusão à sua localização temporal. Havendo ausência de significação temporal, não há que se falar numa representação formal nos moldes propostos por Corôa (1985).
A despeito disso, não se pode deixar de atribuir ao presente jornalístico um caráter modal, já que o seu emprego sinaliza categoricamente a certeza de
concretização do evento ao qual se reporta. Isso fica evidente quando se observa que, em caso de conjectura, a manchete não emprega mais o presente do indicativo:
(65) IPTU deverá subir até 40% na cidade de São Paulo. (Jornal O Estado de S. Paulo, edição nº 42.399, publicado em 17/11/2009)
Finalizando, deve-se observar que, caso haja necessidade de se fazer uso, na manchete, de um elemento que componha o universo lingüístico temporal, obrigatoriamente deverá se empregar um tempo verbal condizente com o valor desse elemento, como ocorre neste exemplo:
(67) Brasil já criou mais de 1 milhão de empregos formais no ano. (Jornal O
Estado de S. Paulo, edição nº 42.399, publicado em 17/11/2009)
em que o advérbio já, indicativo de anterioridade no caso em questão, exige que o tempo verbal que o acompanhará seja obrigatoriamente um tempo pretérito.