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3.3 Application avec un paramètre continu

3.3.1 Définition du modèle d’application

De modo geral, os manuais de gramática normativa, ao discorrerem sobre o emprego do presente do indicativo para se referir a eventos passados, em sua grande maioria, limitam-se a apenas um tipo de ocorrência: aquela em que esse tempo verbal atua no lugar do pretérito perfeito. Os dados aqui analisados, no entanto, demonstraram haver dois tipos de presente histórico: um que se enquadra no grupo do presente perfectivo e outro, no grupo do presente imperfectivo. O primeiro tipo corresponde justamente àquele apresentado pelos referidos manuais, o qual denominamos de presente histórico pontual; o segundo, sobre o qual discorreremos oportunamente, diz respeito ao emprego do presente do indicativo pelo pretérito imperfeito.

Foram poucos os casos de presente histórico pontual encontrados no corpus. Vejamos alguns deles:

(11) Seus pais fazem parte ou foram vítimas da geração que assinou a Constituição de 1988. Ou então fazem parte ou foram vítimas da escola keynesiana de intelectuais, a turma do gastem e endividem-se hoje porque “a longo prazo estaremos todos mortos”. Mui amigos! A bem da verdade, a velha geração do mundo inteiro fez o mesmo, não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. A velha geração americana, por exemplo, deixa dívida de 40 trilhões de dólares para a próxima geração pagar, leiam The

Coming Generation Storm. O resto do mundo deixa um estrago bem maior,

leiam Who Will Pay, publicado pelo FMI. (Revista Veja, edição nº 1914, publicada em 20/7/2005)

(12) Alvo de mais de uma centena de edições no Brasil – desde a pioneira de 1882, prefaciada por Machado de Assis -, o Livro das mil e uma noites – volume I – ramo sírio (Editora Globo, 424 págs., R$ 55) sai pela primeira vez

em tradução direta do árabe, assinada por Mamede Mustafá Jarouche, professor de literatura árabe da USP. (Revista Istoé, edição nº 1856,

publicada em 11/5/2005)

(13) Em tempos remotos, Shahrazad, a culta e inteligente filha de um vizir importante da Pérsia, casa-se com o rei Shahryar, que, após ter sido traído pela sua primeira esposa, passou a desposar uma mulher por dia mandando matá-las após a noite de núpcias. (Revista Istoé, edição nº 1856, publicada

em 11/5/2005)

A primeira observação a ser feita com relação ao presente histórico pontual é que o presente do indicativo, em tal situação, pode perfeitamente ser substituído pelo pretérito perfeito sem que o enunciado veja prejudicado o seu conteúdo referencial. Assim, em (11), poderíamos ter:

(14) A velha geração americana, por exemplo, deixou dívida de 40 trilhões de dólares para a próxima geração pagar, leiam The Coming Generation Storm. O resto do mundo deixou um estrago bem maior, leiam Who Will Pay, publicado pelo FMI.

Embora o conteúdo referencial não tenha sido prejudicado, o mesmo não se pode afirmar sobre o efeito discursivo causado pelo emprego do presente do indicativo no lugar do pretérito perfeito. Ao empregar o presente do indicativo pelo pretérito perfeito em tal situação, o enunciador enfatiza que as conseqüências negativas por ele descritas (“dívida de 40 trilhões de dólares” e “um estrago bem maior”) perduram até o momento da enunciação e terão continuidade depois dele.

Em (12), tem-se um caso em que o emprego do presente do indicativo tem por finalidade indicar o recente lançamento do Livro das mil e uma noites

traduzido diretamente do árabe. A obra em questão muito provavelmente foi lançada na semana em que foi escrita a resenha, possivelmente ainda não sendo conhecida pelo público leitor da revista. Dessa forma, nesse contexto, o presente do indicativo vem conferir ao evento sair um caráter de novidade.

Já em (13), o enunciador nos apresenta uma das mais famosas histórias da Literatura universal, que, em virtude de sua grandiosidade, perdura pelos tempos. Assim, ao empregar o presente do indicativo pelo pretérito perfeito em tal situação, o enunciador busca salientar o caráter de permanência dos eventos narrados.

Interessante observar que houve uma circunstância em que o emprego do presente histórico pontual, a nosso ver, não foi empregado com nenhuma finalidade discursiva. Na realidade, trata-se de uma situação em que o presente histórico pontual foi condicionado pelo emprego do presente momentâneo. Vejamos:

(15) (...) Marquinhos camisa número 16 faz o segundo do time Internacional... na pressão em cima do time da Vila a bola sobra ele na risca da pequena área na entrada da pequena área Marquinhos de perna esquerda manda pro fundo do gol bate de pico não deixou Felipe fazer a defesa (...) (Narração do

jogo entre o Santos e o Internacional, transmitida pela Rádio Eldorado de são

Paulo em 15/11/2009)

Está-se, em (15), diante de um trecho da narração do jogo entre o Santos e o Internacional, transmitida pelo locutor algum tempo depois de realizado o segundo gol do time Internacional. Ou seja: o locutor não está mais narrando a jogada no momento de sua ocorrência; trata-se da narração de um evento já passado. No entanto, sugestionado pelo constante emprego do presente momentâneo, o locutor acaba por fazer uso do presente histórico pontual, que, no final de seqüência, é substituído pelo pretérito perfeito (deixou).

De acordo com Côroa (1985), mesmo em se tratando de um emprego com valor de passado, o presente histórico tem a mesma configuração que a do presente momentâneo: ME, MF, MR. Como já visto anteriormente, a autora justifica seu posicionamento, afirmando que o MR se desloca para o passado, abrangendo-o de tal forma que tanto o MF como o ME acabam se incluindo no MR. Tal postura parece se basear na idéia propagada por alguns manuais de gramática normativa, a nosso ver equivocada, de que, ao empregarmos o presente histórico, deslocamo- nos psicologicamente ao passado, visualizando os fatos que narramos. Ou seja, Côroa (1985) faz uma interpretação formal baseada num suposto efeito discursivo provocado pelo emprego do presente histórico.

Contrariando Côroa (1985), assumimos a posição de que, ao se formalizar o emprego do presente histórico pontual, deve-se levar em consideração não seu efeito discursivo, mas sim seu valor temporal dentro do contexto em que está inserido. Ora, em nenhum dos casos elencados anteriormente há dúvida de que os eventos deixar (11), sair (12) e casar-se (13) ocorrem no passado. Além disso, deve-se frisar que a referência temporal sobre a qual o evento se apóia é anterior ao momento da enunciação, o que pode se verificar nitidamente em (13), em que o adjunto adverbial em tempos remotos situa temporalmente o evento casar-se. Logo, a formalização para o presente histórico pontual só pode ser esta: ME , MR – MF.