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Lembramos que os propositores da educação do campo utilizam o termo educação do campo para designar a educação que tem como protagonistas os trabalhadores do campo, especialmente aqueles ligados aos movimentos sociais. Uma educação que busca o resgate de valores e de elementos culturais da população do campo e que se centra na construção da identidade do sujeito que habita as áreas rurais. Este termo foi adotado para marcar uma oposição ao termo educação rural, que está, para o Movimento por Uma Educação do Campo, relacionado a uma escola abandonada pelo poder público e uma educação instrumentalizadora que não visa a emancipação do trabalhador rural.

Porém, em São José do Rio Pardo, notamos que há o uso do termo “escola rural”, carregado de sentido negativo, e do termo “escola do campo”, com sentido positivo, para designar dois momentos da história da educação da área rural no município: o momento da “escola rural”, gerida pela Rede Estadual e abandonada, isto é, sem recursos, sem material didático, sem organização; e o momento da “escola do campo”, em que houve a municipalização e a implementação do Escola Ativa e, como consequência, uma melhora significativa no que diz respeito a recursos pedagógicos e à organização. Assim, o uso do termo educação/escola do campo era frequentemente utilizado como a maneira “correta” de se referir à escola e à educação realizada ali, pois não eram mais uma escola e uma educação abandonadas. O termo “rural” era evitado por dizer respeito a uma escola “ruim”, que ficou no passado. Deste modo, a “educação do campo” ali não está relacionada com as concepções do Movimento por Uma Educação do Campo, mas significa a vinda do programa Escola Ativa e uma melhora nas escolas rurais. Neste trabalho, adotamos esta terminologia com o sentido que é usada em São José para abordarmos as mudanças que ocorreram gradativamente com a municipalização das escolas rurais, com a nova gestora e com o programa Escola Ativa.

Antes de 2000, quando a gestão das escolas rurais do município era assumida pelo Estado, a situação era de abandono. A escola rural da época foi caracterizada pela professora Pitanga como “depósito de coisas velhas”.

Antigamente, quando essas escolas eram do Estado, elas eram depósito. As professoras ficavam fazendo crochê, as crianças não paravam dentro da escola (...) as avós [dos alunos] até contam. Uma merendeira quando chegou, disse que tinha um saco de rolinho das linhas de crochê que elas iam usando e colocando lá dentro. Isso muito tempo atrás, [no tempo] em que as escolas eram “da roça”. Ah, está lá na roça caindo aos pedaços, prédio destruído. (PITANGA, 2012, p. 11).

As escolas rurais eram caracterizadas pela precariedade, escassez de merenda, de material e isolamento. Estavam isoladas da cidade, da direção e da coordenação pedagógica, isoladas umas das outras e distantes de uma educação de qualidade. De acordo com Açaí, para o Estado, era como se a escola rural fosse “mais um número”.

As escolas existiam porque os fazendeiros exigiam escola ali para que os funcionários permanecessem na fazenda (...) A única visita que recebíamos era de uma supervisora, que quando podia, ela ia. A gente não tinha merenda chegando com fartura, era tudo muito escasso (AÇAÍ, 2012, p. 5).

O termo zona rural era inclusive utilizado de maneira pejorativa para designar as professoras do campo entre seus pares da cidade: “A gente era chamada de „zona‟. Éramos a „turma da zona‟” (IPÊ, 2011, p. 2).

No ano de 2000, as escolas rurais de São José foram municipalizadas e a maior parte das professoras entrevistadas ingressou na Rede Municipal. De acordo com as professoras, não houve mudança substancial na gestão das escolas do campo entre a época do Estado e o início da gestão municipal. É o que nos indica, por exemplo, a fala de Ipê:

Quando eu ingressei nós não tínhamos material. O material que a gente queria, que precisava pra trabalhar tinha que sair do bolso. Então, se a gente quisesse trabalhar bem, tinha que sair do bolso. Comprava, fazia rifa... Puxava de um lado, do outro até conseguir. (...) As escolas não eram bem pintadas (IPÊ, 2011, p. 4).

As escolas rurais eram vinculadas a uma escola urbana chamada São Judas Tadeu. Gerânio e Ipê pontuam que as reuniões pedagógicas, chamadas de horas- atividade, eram feitas na escola urbana vinculadora, juntamente com as professoras da cidade. A pauta da reunião e os conteúdos a serem discutidos, segundo as professoras, eram voltados para a escola urbana. Os assuntos não abrangiam em nada a zona rural e

as professoras destas escolas sentiam-se excluídas, pois não participavam da reunião: “Nós só escutávamos” (IPÊ, 2011, p. 4).

De acordo com a gestora, ao ser nomeada para a coordenação pedagógica da zona rural em 2004, ela passava a maior parte do tempo na escola urbana vinculadora e era levada para visitar todas as escolas rurais apenas uma vez por semana. Menciona também um problema muito encontrado em escolas rurais: a questão da escassez de material didático, tanto livros quanto outros tipos de recursos, como TV e o fato de que equipamentos novos permaneciam na escola urbana enquanto os velhos iam para as escolas rurais.

Em 2006, o setor Zona Rural passou a ser setor separado das escolas urbanas e a escola vinculadora passou a ser a EMEB Estação Fazenda Venerando, por ser a escola rural com maior número de alunos e de mais fácil acesso em relação ao perímetro urbano. Durante aquele ano, a gestora ainda permaneceu na coordenação da escola São Judas. Em 2007, assumiu a direção das escolas rurais.

Quando eu assumi a zona rural estava tudo caindo aos pedaços. Não tinha cor... As escolas nunca tinham sido pintadas, não tinha flor, não tinha vida, não tinha nada (...) não tinha nem APM (...) Não tinha livro ponto, não tinha livro de atas. Era depósito de entulho, sabe aquelas coisas que não tem onde colocar? Leva pra zona rural, tal escolinha deve precisar. Coisa sem alça, bacia furada, armário despencando (VERBENA, 2012, p. 3).

A distância habitual da coordenação pedagógica que as escolas rurais experimentaram foi, aos poucos, dando lugar às reuniões semanais de planejamento e às constantes discussões sobre métodos e conteúdos a serem trabalhados. Para conseguir melhorar o aspecto dos prédios, equipar as escolas com material didático e organizar o trabalho, a gestora buscou a ajuda da comunidade.

Foi o que eu comecei a fazer, ganhar a comunidade. Eu ia de sábado, de domingo. Se ficavam doentes, eu ia visitar. E com isso os pais começaram a me ajudar. Era sábado, ia eu e a Catarina [a filha] no carrinho pintar a escola junto com os pais. Para agradá-los, eu comprava pão com mortadela e refrigerante baratinho. Era um jeito de eu agradecer o que eles estavam fazendo. E aí as coisas foram mudando (...) Consegui pintar todas as escolas com os pais. Foi em 2007. E quando eu deixava a escola prontinha, as professoras ficavam felizes, porque estavam num ambiente mais aconchegante (VERBENA, 2012, p. 4).

A gestora menciona que o trabalho para conquistar o apoio das comunidades rurais para melhorar o aspecto físico das escolas é exaustivo:

Fazia um café, uma oficina de sucata. Tudo com muito trabalho (...) Para você ter uma ideia, eu sorteei meus presentes de casamento, fiz bingo, tudo pra levar esses pais pra dentro da escola! Ah, vamos sortear uma prenda! Acabei com meus presentes de casamento! Porque eu acreditava. E eles iam! Vamos fazer café! (VERBENA, 2012, p. 4).

No ano de 2007, o que conseguiu com a ajuda da população do campo foi pintar todas as escolas, organizar os espaços e administrar a situação financeira de modo que os pais não tivessem que comprar material escolar: “Antes de eu assumir a zona rural, os pais tinham que comprar tudo” (VERBENA, 2012, p. 3). Na transição de governo municipal entre 2008 e 2009, a gestora foi afastada da coordenação do setor rural. Pais de alunos de algumas comunidades rurais foram procurar vereadores para pedir a volta dela ao cargo.

Não sei o que aconteceu politicamente, mas eu saí por quinze dias. E eu tinha deixado as escolas todas prontas, o material do ano seguinte todo organizado e separado (...) Nestes quinze dias (...) uma professora simplesmente abriu as pastas, as folhas sulfites, tudo que estava guardado, certinho e organizado para o ano inteiro e deu a rodo para as crianças levarem embora. Quando os pais e os professores viram aquilo, começaram a me procurar (...) Os próprios pais pediram para eu voltar. Os alunos, ao invés de aparecerem com um caderno em casa, apareceram com três, quatro... (...) Eu já tinha pegado uma sala em uma escola bem pertinho de casa, dava até pra ir a pé (...) mas eu estava sofrendo, porque já tinha criado um vínculo com as comunidades. Então, eu voltei pra coordenação. Quando voltei, tive que começar do zero. Não na questão do vínculo com os pais, mas nas questões financeiras, pois não tínhamos mais material (VERBENA, 2012, p. 8).

A implementação do programa Escola Ativa a partir de 2009 foi facilitada por um vínculo que a gestora criou com as comunidades rurais e também por algumas ações da gestão desta época, que eram parecidas com o que propunha o programa. As reuniões de pais, por exemplo, eram organizadas a partir das necessidades e desejos da comunidade. Palestrantes eram convidados para levar informações para a escola rural sobre assuntos de sua especialidade e para promover o debate.

Eu buscava ajuda sem saber que eu poderia trabalhar em rede com a saúde, com a promoção social... Eu tinha uma amiga psicóloga e pedia pra ela ir de graça lá trabalhar com as mães. Tinha outra amiga que trabalhava com saúde da mulher e pedi pra ela orientar essas mães (VERBENA, 2012, p. 13). O trabalho que a gestora iniciou com as comunidades rurais chamou a atenção dos fazendeiros locais e, inicialmente, provocou situações de atrito. Uma destas situações envolveu a pintura de uma escola em cores diferentes das cores da colônia, o que descontentou a proprietária da terra. Estes atritos foram diminuídos quando os proprietários souberam que a gestora também era esposa de um fazendeiro.

No final de 2008, dois supervisores de ensino da Secretaria Municipal de Educação participaram em São Paulo de um curso oferecido pela REMEC-SP (órgão que representava o MEC no Estado até 2011) sobre o programa Escola Ativa, que estava iniciando sua implantação no Sudeste. Através de um deles, Verbena soube do Escola Ativa e interessou-se pela adesão. Inicialmente, houve resistência por parte da Secretaria, que teria que arcar com as despesas da formação da gestora, como disponibilizar carro e motorista em viagens para São Carlos – SP.

Nota-se que a adesão do município ao programa não parece ter partido de setores da gestão municipal como Prefeitura ou Secretaria de Educação, como ocorreu em alguns municípios, até mesmo, de certa forma, por imposição, como maneira de conseguir recursos. Partiu diretamente da gestora das escolas rurais, assim como o esforço para inserir a comunidade na escola, para organizar os espaços e os materiais parece ter sido empenhado, ao menos no início, principalmente ou até mesmo somente por ela. O trabalho de gestão das escolas do campo continuou bastante centralizado em sua figura, ao mesmo enquanto durou a coleta de dados para esta pesquisa. Não há no município de São José do Rio Pardo uma política municipal de educação para o campo, além do programa Escola Ativa. Parecia ser intenção da atual gestão municipal ter o Plano de Educação do Campo integrado ao Plano de Desenvolvimento Rural, entretanto, isto não ocorreu. Tanto a elaboração do Plano de Educação do Campo quanto todo o trabalho de gestão das escolas do campo está atrelado a apenas uma pessoa, o que sinaliza que se a gestora sair do cargo, a continuidade do trabalho será prejudicada.