Chapitre 8. Factorisation des entiers
1. La méthode des divisions successives
1.3 Deux fois plus vite ?
Nas palavras de Champagne, “a história do jornalismo pode ser em larga parte a história de uma impossível autonomia – ou, para pôr a questão de uma forma menos pessimista, a história interminável de uma autonomia que precisa sempre de ser
reconquistada porque está sempre sob ameaça” (Champagne, citado por Gomes, 2012: 57). Será esta perspetiva, de facto, demasiado pessimista? Ou estaremos perante um cenário em que “as forças da centralização e da autoridade”, também conhecidos como os “suspeitos do costume”, como lhes chama Gillmor (2005: 204), responsáveis por fortes pressões de cariz comercial e de índole política sobre os media? E que impactos terão estas pressões tanto no processo de seleção noticiosa como na autonomia jornalística e na própria liberdade de imprensa?
Na opinião de José Rodrigues dos Santos, os meios de comunicação social são alvo de pressões por parte de ambas as áreas, mas destaca a esfera política como sendo a que o faz de forma mais forte e evidente. No que se refere aos constrangimentos exercidos pelo campo comercial, o jornalista da RTP defende que o operador público de televisão está mais resguardado no que a este assunto diz respeito, na medida em que não tem como única fonte de financiamento as receitas publicitárias, contrariamente ao verificado no caso dos canais privados. A questão das receitas publicitárias é igualmente salientada por Joaquim Vieira e Romana Borja-Santos. Na opinião de ambos os entrevistados, as pressões advindas da esfera comercial são particularmente visíveis na forma como os media procuram produzir conteúdos noticiosos que sejam mais atrativos do ponto de vista dos anunciantes.
Na mesma linha, Cristina Soares e Estrela Serrano realçam as tentativas de influência que são hoje exercidas pela área comercial, sobretudo por via dos gabinetes e agências de comunicação. Na opinião de ambas as entrevistadas, as fontes organizadas têm um enorme poder ao nível da imposição das agendas jornalísticas, o que consideram ser a maior ameaça à liberdade de imprensa nos nossos dias.
Esta ideia vai ao encontro do ponto de vista de Fidalgo (2008), que destaca os impactos destas fontes na mudança do próprio perfil dos jornalistas que entende que passaram a “andar atrás” e não “à frente” dos assuntos e acontecimentos com maior importância na atualidade, “introduzindo evidentes entorses na hierarquização das prioridades que os critérios jornalísticos deveriam fazer depender só do interesse público” (Fidalgo, 2008: 126). Neste quadro, Herman e Chomsky (1988) falam numa conversão do papel dos meios de comunicação social de “watchdogs” para “lapdogs”, ou seja, de cães de guarda a cachorros, devido ao poder que os setores mais influentes da sociedade têm ao nível do estabelecimento das agendas dos media, algo também destacado por Obijiofor e Hanusch (2011).
“(…) a maior ameaça à liberdade de imprensa é, exatamente, a capacidade que hoje em dia as fontes organizadas têm de impor as suas agendas aos jornalistas. (…) Só se fala na política, mas a área económica e financeira e não só exercem constrangimentos muito maiores e muito mais sérios sobre o jornalismo do que propriamente a área política.”
Estrela Serrano, ERC
À semelhança de Cristina Soares e Estrela Serrano, Luís Castro considera que as agências de comunicação têm vindo a assumir um papel determinante na alteração do processo de produção noticiosa, ao enviarem para as redações informação (parcialmente) trabalhada. Como os jornalistas têm constrangimentos em termos de tempo, acabam por aproveitar estes conteúdos, muitas vezes sem investigarem a sua veracidade. Na opinião do então coordenador do Telejornal da RTP, apesar de as esferas política e comercial exercerem pressões no sentido de influenciarem os conteúdos produzidos pelos meios de comunicação, os jornalistas ainda detém a última palavra a este nível, tendo sempre a possibilidade de renunciar a tais tentativas de influência.
Opinião similar é defendida por Joaquim Vieira, Guilherme Costa, Inês Schreck, José Couto Soares, Alcides Vieira, Nuno Pacheco e Romana Borja-Santos, os quais consideram que, mais do que falar nas pressões que são exercidas pelas diferentes áreas da sociedade, importa atentar na forma como os jornalistas reagem e lidam com estes constrangimentos, o que vai ao encontro da perspetiva de Correia, que considera que o jornalista tem de assegurar as suas responsabilidades, garantir a sua autonomia e salvaguardar os princípios basilares da profissão, “independentemente das pressões externas e do clima propício à sua proliferação” (Correia, 2009: 224).
Na ótica de Joaquim Vieira, esta questão coloca-se de forma mais premente quando se tratam de pressões políticas, nomeadamente quando um jornalista faz sistematicamente a cobertura noticiosa de um partido. De acordo com o antigo Provedor do Leitor do Público, esta proximidade face a um determinado partido poderá acarretar um estreitamento dos laços entre o jornalista e as fontes ligadas a esse partido, o que tenderá a refletir-se nos conteúdos informativos produzidos. Este ponto de vista é defendido por Salgado (2008), no âmbito de uma investigação sobre a influência dos media na construção política e mediática dos candidatos presidenciais. De acordo com a autora, neste processo, a televisão e a imprensa escrita ultrapassam o papel de meros intermediários e emergem como elementos ativos na construção de mensagens e de imagens de cariz político, o que acaba por revelar uma menor neutralidade no processo
de elaboração da informação e um envolvimento mais aprofundado dos jornalistas, algo que se torna particularmente notório à medida que a campanha eleitoral vai avançando.
Por este motivo, Joaquim Vieira salienta a imperiosidade da salvaguarda dos princípios de autonomia por parte dos profissionais do campo jornalístico, os quais deverão saber como reagir a possíveis tentativas de influência, opinião partilhada por Guilherme Costa, Inês Schreck, José Couto Soares e Alcides Vieira, bem como por Traquina (2000), que destaca a importância da independência dos jornalistas e do próprio campo dos media, bem como o papel do cumprimento dos princípios éticos e deontológicos no aperfeiçoamento da própria democracia.
“Há pressões comerciais e há pressões políticas. Se nós somos permeáveis, é outra coisa, é outra questão. Eu acho que todos os dias há pressões, umas mais diretas, outras mais indiretas, e o jornalista tem que saber lidar com elas.”
Inês Schreck, JN
Para o diretor de informação da SIC, o facto de as notícias não serem neutras e acarretarem sempre algum tipo de efeito, amplia ainda mais a responsabilidade dos jornalistas e a importância do cumprimento dos valores relacionados com a ética e a deontologia, valores que Fidalgo (2008) considera que têm emergido no debate público como consequência de alguns abusos na cobertura jornalística de alguns acontecimentos de enorme impacto mediático, como a cobertura da guerra no Iraque, a queda da ponte de Entre-os-Rios ou o caso Casa Pia. Estes acontecimentos trouxeram ao debate o questionamento sobre os impactos das “leis do mercado” nos “princípios de independência, autonomia e prossecução do interesse público, em virtude de uma concorrência feroz entre meios e de uma submissão crescente a critérios quase só comerciais” (Fidalgo, 2008: 118).
Porém, Alcides Vieira salienta o facto de não serem apenas as esferas política e comercial a procurarem exercer fortes constrangimentos sobre as redações jornalísticas, considerando primordial que não se descurem as tentativas de influência provenientes tanto dos agentes culturais, como dos grupos de pressão ambientalistas. Independentemente da fonte das pressões, o entrevistado defende que a melhor forma de garantir a independência jornalística passa pela criação de lucro e pela promoção de empresas mediáticas fortes, com profissionais que tenham bem presentes os princípios deontológicos do jornalismo.
“(…) os jornalistas e os meios de comunicação, tendo esse poder de influência da opinião pública, são obviamente pressionáveis (…). Agora, a questão é como se reage à pressão. Isso aí já tem a ver um bocado com a maturidade jornalística, (…) com a independência até económica e financeira dos meios de comunicação social.”
Alcides Vieira, SIC
Para Nuno Pacheco, quando falamos em pressões advindas do poder político, o melhor mecanismo de defesa reside nos próprios jornalistas, os quais deverão ser capazes de distinguir uma boa informação de algo que se configure apenas como propaganda, relegando o papel de peões no jogo político.
Atentando no exemplo do CM, Armando Esteves Pereira destaca a importância que os mecanismos de defesa assumem na luta contra as tentativas de influência. De acordo com o diretor-adjunto do CM, neste jornal existem reuniões diárias nas quais os membros responsáveis pela edição do jornal trocam ideias, lançam sugestões e criticam o trabalho que está a ser desenvolvido, algo que, no entender do entrevistado, se configura como um elemento essencial para contrariar alguma tentativa de constrangimento sobre o produto jornalístico. Na mesma esteira, José Gomes Ferreira defende que estas tentativas existem mas não têm uma influência real nos conteúdos noticiosos da SIC, na medida em que considera que neste canal, à semelhança daquilo que se verifica noutras redações e na sociedade em geral, existe uma cultura democrática que impede que estas atinjam os seus objetivos.
Negando a existência de pressões advindas da esfera comercial, José Leite Pereira, Cristina Soares e Ana Lourenço abordam as tentativas de influência exercidas pelo campo político. Na perspetiva dos entrevistados, estas tentativas são uma realidade e fazem parte do quotidiano das redações, mas tal não significa que tenham um impacto real nos conteúdos produzidos pelos meios de comunicação social. De acordo com Cristina Soares, a permeabilidade dos jornalistas relativamente às pressões advindas do campo político é uma realidade e está amplamente relacionada com a direção editorial de cada órgão de comunicação social. Na opinião de Ana Lourenço, as assessorias de comunicação desempenham um papel crucial neste processo, na medida em que procuram influenciar e pressionar os jornalistas para que estes produzam conteúdos noticiosos que sejam favoráveis às figuras ou aos partidos políticos que assessoram ou pelo menos que abordem os temas noticiados de uma forma que não coloque em causa a sua imagem pública. No entanto, à semelhança de José Leite Pereira, a jornalista da SIC realça que estas tentativas só se concretizam caso os jornalistas o permitam, daí
considerar que não se pode falar em pressões, mas sim em tentativas de condicionamento.
Já na perspetiva de Simone Duarte, Paulo Santos, Lucinda Canelas, Alexandra André, Bruno Braz e Diana Ramos, não poderemos falar em pressões ou tentativas de constrangimento quando abordamos a relação entre media, política e economia. No entanto, Simone Duarte, à semelhança de João Vaz e José Manuel Paquete de Oliveira, realça o facto de a informação apresentar um grau de subjetividade acentuado, fruto da diversidade de opiniões existentes dentro de uma redação, o que amplia a necessidade de se imprimir um maior rigor na produção noticiosa.
Nos antípodas, José Alberto Carvalho e Nuno Marques consideram que existem constrangimentos evidentes, advindos tanto da esfera comercial como do poder político. Na opinião do então diretor de informação da RTP, os jornalistas são muito condicionados pelas tentativas de influência protagonizadas pelas agências de comunicação, pelos assessores de imprensa e pelas administrações e departamentos de marketing das empresas, mas não vê qualquer problema nesta situação, uma vez que considera que é um cenário transversal aos mais variados países do mundo.
“Somos completamente condicionados por isso. Qual é que é a dúvida? Para que é que existem agências de comunicação, departamentos de marketing das empresas, administrações nas empresas? Porque é que existem assessores de imprensa, spin doctors? Isto existe em todo o mundo.”
José Alberto Carvalho, RTP
Esta questão da profissionalização da comunicação política, também analisada por Blumler e Kavanagh (1999), emerge como um vetor essencial para a compreensão das lógicas de promoção seguidas pelos atores do campo político. Na opinião destes autores, este caminho de profissionalização depende cada vez mais de profissionais especializados que recorrem a um manancial de estratégias que privilegiam a forma, em detrimento do conteúdo, procurando captar a atenção dos dispositivos mediáticos por via de uma aposta em eventos onde se vive um ambiente de permanente campanha. Num panorama que rotula de mediatização da política e de realizações simbióticas entre jornalistas, spin doctors e políticos, Louw (2005) destaca o papel da televisão enquanto meio extremamente poderoso para a implementação e expansão da persuasão política, o que vai de encontro à perspetiva de Cádima (2011), que é perentório em afirmar que, atualmente, a política está de tal forma dependente da televisão que já não existe sem esta, nem sem aquilo que designa como “equipas ultra-profissionalizadas de marketing”,
onde se destacam as assessorias, os gabinetes de relações públicas e os sistemas de lobbying (Cádima, 2011: 179). Neste quadro, Blumler e Gurevitch (1995) destacam o acréscimo do cinismo e a queda da informação política que é dada aos cidadãos.
Estas estratégias de comunicação são também analisadas por Goldenberg (1975), embora numa escala que ultrapassa a esfera da comunicação política e que se aplica à generalidade das fontes oficiais de informação, as quais têm o objetivo último de promover uma “publicidade positiva” face ao sujeito noticiado, quer este seja individual, quer seja coletivo. Neste ponto, a diferenciação feita pelo autor entre grupos de fracos recursos e grupos de recursos mais ricos emerge como uma questão central, na medida em que nos permite perceber que estes últimos tendem a ter um poder acrescido em termos financeiros e organizativos, para além de revelarem um conhecimento mais aprofundado sobre os mecanismos de funcionamento do campo mediático e sobre os valores-notícia privilegiados pelos jornalistas na seleção dos acontecimentos a noticiar, algo que ganha contornos ainda mais vincados no universo dos media atualmente face à transferência de jornalistas para as assessorias de imprensa de uma multiplicidade de organismos, nas mais variadas esferas da sociedade. A este nível, Curran (1996) fala num favorecimento tendencial das forças sociais dominantes por parte dos meios de comunicação social, o que acaba por limitar a capacidade de atuação dos grupos com menores recursos.
Na esteira de José Alberto Carvalho, Miguel Gil, apesar de considerar que faz mais sentido falar em interesses defendidos por áreas tão distintas como a cultura, a política, a economia ou o desporto, do que em pressões, defende que tal não é específico do campo mediático português, mas algo comum a todas as sociedades democráticas. Para Nuno Marques, os jornalistas são muito permeáveis às pressões feitas pelos vários setores da sociedade. Na opinião do editor do JN, tal acontece por dois motivos: pelo facto de, em determinadas situações, os jornalistas não terem noção de que estão a ser alvo de uma tentativa de influência; ou porque têm consciência, mas não conseguem contrariá-las.
Por fim, José Manuel Paquete de Oliveira considera que a existência de tentativas de constrangimento está amplamente relacionada com a especificidade das próprias redações, o que o leva a defender a ideia de que as pressões variam de acordo com os meios de comunicação.