Detecting III Condition and Instability
2.3. Floating-Point Programs
Nassif (2003, p. 42) prevê que o jornalismo dos anos 2000 exigiria uma postura mais continuada e profissionalizada de acompanhamento das notícias. O planejamento da cobertura se tornaria essencial para um conteúdo de qualidade. Dessa maneira, o jornalismo teria de ser “mais sofisticado e plural, capaz de julgar situações, não personagens, ser contra ou a favor de atos de governos – não contra ou a favor de governos –, de aceitar e compreender que interesses setoriais podem ser legítimos”.
Contudo não é bem isso que ocorre. Os casos de denuncismo continuam a acontecer, sem que haja uma continuidade dos temas nas páginas dos jornais. Dentre os impressos, as revistas Veja e Isto É, assim como os jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo continuam a replicar a mesma fórmula de jornalismo dos anos 1990. Em entrevista a Abreu, Lattman-Weltman e Rocha (2003), Alberto Dines afirma que o jornalismo atual está raso, sem reflexão nem continuidade dos assuntos. Para ele, a rotina corrida do jornalista de hoje, que tem de fazer diversas matérias em um só dia, contribui para que o conteúdo seja feito com menos qualidade do que no passado.
Outra característica forte do jornalismo moderno é a homogeneidade do noticiário. Essa característica ganhou força ainda na década de 1980, quando a Folha de S. Paulo passou por transformações e os concorrentes, ao perceber a aceitação do público e para não perdê-lo, passou a adotar as mesmas mudanças. O mesmo ocorreu com o sucesso da Revista Veja, muito copiada pela Isto É e Época. Com isso, o enfoque, o noticiário tonou-se muito parecido. “O que acontece é que em situações muito competitivas, as pessoas começam a ter medo de arriscar”, afirma, em entrevista, Otávio Frias Filho (ABREU; LATTMAN-WELTMAN; ROCHA, 2003, p. 373).
Para Abreu (2002), outro elemento que leva à homogeneidade do conteúdo é a maneira de trabalhar dos jornalistas. A autora afirma que uma forma comum de unificação das notícias é o press release – que os jornalistas recebem diariamente em grande quantidade. As instituições públicas e privadas divulgam informações em massa para os veículos de comunicação, que ao replicar, divulga o mesmo conteúdo que o concorrente. Outro aspecto que favorece o noticiário semelhante em toda grande imprensa é que na rotina da jornalística os profissionais cobrem as mesmas pautas, com mesmos personagens, se encontram na sala de imprensa e trocam informações. No dia seguinte, leem o conteúdo do concorrente e se comparam o tempo todo.
Roberto Müller Filho afirma que a homogeneidade dos jornais tem a ver com a necessidade de reduzir custos, produzir depressa e competir. O jornalista destaca que o número de fontes consultadas pelo jornalista é muito pequena, não possibilitando a realização de um conteúdo diferenciado. Com isso, o profissional acaba consultando sempre as mesmas fontes para as matérias (ABREU; LATTMAN-WELTMAN; ROCHA, 2003). Na mesma obra, o jornalista Alberto Dines destaca que com a compra de colunas de opinião e de notícias, por meio de agência de notícias, de maneira generalizada, está se “desregionalizando” a imprensa, uma vez que jornais em todo país passam a ter o noticiário parecido com o do eixo Rio-São Paulo, onde as agências de notícias se centralizam (ABREU; LATTMAN-WELTMAN; ROCHA, 2003).
Barbosa (2007) aponta outros aspectos do jornalismo dos anos 2000. A tensão, o sensacionalismo e, por consequência, o medo parecem dominar as narrativas, em especial no Rio de Janeiro, devido à cobertura da violência urbana, que leva o leitor à constante sensação de insegurança, afirma a autora. Contudo, estimula o consumo, uma vez que as pessoas querem ter informações sobre a situação de segurança de seu bairro, cidade, estado ou país.
Mattos (2005, p. 146), ao abordar a estrutura empresarial da mídia impressa brasileira, afirma que na primeira década do século XXI as empresas de mídia continuariam em “processo de reestruturação interna a fim de se adaptarem a um modelo de negócio conveniente à realidade do mercado globalizado”. Apesar da primeira década já ter sido ultrapassada, esse processo continua a ocorrer.
Ao contrário de diversos jornalistas e autores, o jornalista e escritor Zuenir Ventura, avalia, em entrevista à Sousa (2010), que apesar da precariedade do texto jornalístico, o jornalismo atual representa uma evolução em relação ao que se tinha no passado, nas décadas de 1950-60, em função da complexidade do mundo atual e da necessidade de se produzir informação em tempo real. O autor questiona também a falta de ética existente no passado e contrapõe esse cenário com a preocupação existente atualmente nas redações com a ética jornalística. Quanto à visão romantizada que alguns autores apresentam do passado, Zuenir afirma: “Teve muita coisa boa, mas não era tudo isso não”.
Apesar de bastante crítico ao jornalismo atual, Alberto Dines também faz uma ponderação, em entrevista à Abreu, Lattman-weltman e Rocha (2003). O jornalista afirma que atualmente a opinião do dono do jornal conta muito menos nas publicações do que no passado. Segundo Dines, em questões de princípio a opinião do dono sobre o veículo de comunicação ainda é importante, mas atualmente há uma flexibilidade maior, há uma abertura maior dos veículos em relação ao passado.
Em 2010, a Folha de S. Paulo realizou uma grande reforma gráfica, na qual renovou todos os cadernos e suplementos. De acordo Haddad (2010) as mudanças, essas não seriam apenas reformulações estéticas. As mudanças visuais seriam fundamentais para amparar as mudanças editoriais da Folha que se propôs a fazer um jornal mais sintético na forma, porém mais analítico e interpretativo no conteúdo. Como objetivos da reforma, foram destacados: 1) aumentar a legibilidade de textos e de infografias; 2) aperfeiçoar a organização dos elementos que integram uma página, hierarquizando melhor o noticiário; 3) reforçar a unidade entre cadernos e páginas de modo que a identidade do jornal prevaleça.
De acordo Dávila (2010) que aborda as alterações, houve também mudanças editoriais. Com isso o nome das editorias teria sido alterado e o noticiário político passa a fazer parte da editoria Poder, antes Brasil; o caderno de economia, antes Dinheiro, é rebatizado como Mercado; Esporte ganha formato tabloide, menor; o caderno Tec, publicado às quartas-feiras, aborda assuntos sobre as tendências do mundo digital. O jornal inaugurava no período também um novo suplemento, a Ilustríssima, sobre cultura, que seria publicado aos domingos. A notícia afirma, ainda, que as transformações acontecem em um momento em que o Grupo Folha realizava a “fusão orgânica” entre suas equipes de jornalistas do meio on- line e do impresso, e, segundo a notícia, esse seria o primeiro grande jornal brasileiro a realmente fazer isso.
A justificativa apresentada para as mudanças em todas as notícias sobre o assunto e nas campanhas publicitárias foi a “tradicional” inquietude do jornal, acostumado a se reinventar e não se acomodar. O foco das mudanças, porém, foi realmente gráfico. O conteúdo das notícias não se altera em relação às críticas presentes neste capítulo. Essa questão será apresentada e discutida nos próximos capítulos.
O jornalista Augusto Nunes, que já dirigiu o jornal O Estado de S. Paulo, é um dos críticos do jornalismo político atual:
Política pode ser interessante, claro. Reportagens sobre reuniões de comissões da Câmara adormecem qualquer leitor, qualquer espectador. Mas, quando pintam certas CPIs, a TV Senado faz o maior sucesso. Ela mostra o que é o Congresso, o que um parlamentar faz exatamente, os poderes de cada cargo. As comissões, aliás, têm coisas muito atraentes, que os jornalistas não acompanham por preguiça, porque dá trabalho (ABREU; LATTMAN-WELTMAN; ROCHA, 2003, p. 334).
Por sua vez, o jornalista Roberto Müller Filho afirma, na mesma obra, que por ser difícil escrever sobre política, todos escrevem parecido e as colunas acabam abordando mais ou menos a mesma coisa.
Esse foi o enfoque do artigo Rolex de Huck dá lição de jornalismo do colunista Gilberto Dimenstein publicado em sua coluna Pensata, no site Folha On line. Dimenstein escreveu sobre a repercussão que ocorreu na mídia em outubro de 2007 em função de um artigo publicado pelo apresentador do programa de televisão Caldeirão do Huck, da Rede Globo, Luciano Huck, protestando contra o roubo de seu relógio Rolex. Dimenstein aproveita a situação para criticar, em um trecho do texto, o jornalismo atual:
Tirando o fato de Huck ser uma celebridade, há uma tendência, visível em todo o mundo, de maior valorização do local, do cotidiano, do que está mais próximo do consumidor de notícias. Talvez, quem sabe, seja até uma reação à impessoalidade da globalização. No caso do Brasil, ainda temos uma agravante: o noticiário de política está insuportável, limitado, essencialmente, a denúncias de corrupção e articulações sucessórias distantes. É como se fosse uma mesma novela sem fim, na qual já confundimos todos os personagens.
O relógio de Huck é, neste caso, mais do que um relógio. Traduz a insegurança, o caos urbano, a desigualdade social, o desemprego, a impunidade, a educação, a falta de democracia e a miséria. Os leitores estão sedentos para discutir esses temas, mas menos pelo que vem embolado de Brasília e mais pelo que sai das ruas (DIMENSTEIN, 2007).
Em entrevista à autora deste trabalho, Ricardo Balthazar (informação verbal),32 editor de Política da Folha de S. Paulo, reconhece que o noticiário político há um desinteresse do público em relação à política e que a editoria de Poder é a menos lida, segundo as pesquisas realizadas pelo jornal na atualidade.
As pesquisas, eu não perco nenhuma... as pesquisas dizem que uma das últimas coisas que as pessoas lêem, as pessoas vêem pouco, acham chato noticiário político, não tem nem graça. Quer dizer a gente acaba escrevendo muito para o pessoal do ramo, para os outros jornalistas e para os políticos. Então eles lêem, aí fofocam do rival e tal, os jornalistas (seu colega) vêem se você está mais bem informado, se deu furo se não deu furo e etc. E os editores dos outros jornais, vão te convidar para trabalhar, enfim, todo o leitor é um pouco isso, né? Mas o leitor mesmo, o sujeito que paga pelo jornal e tal, muitas vezes acha tudo isso muito chato, não entende o significa para sua vida e tal. Se comunicar com essas pessoas, explicar para elas porque que aquilo é interessante, importante, é um desafio bem difícil de fazer. Vale para outros, mas como política, as pessoas estão saco cheio de política e descrentes e desinteressadas pela política, é diferente ler. Economia também é uma coisa chata, hermética, difícil para as pessoas, mas todo mundo precisa saber o que fazer com o dinheiro. Então tende a ir para esse noticiário com um olhar mais "não, isso aqui é preciso". Política é diferente, a não ser que o sujeito seja muito interessado na coisa, não vê utilidade para ele, para aquilo.
Para Alberto Dines, uma das razões para o jornalismo raso, sem profundidade, gerando pouco interesse do leitor da atualidade é que a profissão está “burocratizada”. Ele afirma que o jornalista ao chegar na redação recebe uma sobrecarga de trabalho, levando-o a
32 Entrevista concedida à autora em 25 de maio de 2011. Entrevista é utilizada de forma ilustrativa neste
fazer matérias picotadas, sem conexões com o que foi publicado anteriormente sobre o mesmo assunto, sem contexto, como um “catálogo de notícias”. Dines compara o fazer jornalismo da atualidade com a época em que era repórter, na qual tinha tempo de analisar o que já havia sido publicado e o que deveria apurar a mais, e afirma que antes era possível ser mais complexo nas abordagens (ABREU; LATTMAN-WELTMAN; ROCHA, 2003).
Por outro lado, ao considerar a realidade da internet na atualidade, o então editor executivo da Veja, Fábio Altman (2011), afirma que concorda que a qualidade das reportagens caiu bastante na atualidade. Porém, acredita que a quantidade, a variedade e a velocidade de informações que circulam pelos jornais televisão, rádios, internet e redes sociais nos dias atuais é muito maior e mais rico que no passado, o que o leva a ser um pouco mais otimista com o jornalismo atual.
Como apontado por Altman, somadas às diversas mudanças apontadas nesse capítulo, ocorre no jornalismo moderno a implantação da internet a partir da década de 1990 e a adequação dos impressos a essa nova plataforma, muitas vezes encarada como concorrente dentro do próprio veículo. A abordagem dessas questões, devido a sua ampla complexidade, poderia gerar um novo estudo por isso, ainda que sejam importantes, não serão trazidas para este trabalho, mas fica como sugestão para futuras investigações.
Este capítulo abordou o histórico da imprensa brasileira atrelado à história da Folha de
S. Paulo com o propósito de apontar as transformações ocorridas em ambos, especialmente nos séculos XX e XXI. Dessa maneira, buscou-se apresentar a importância das mudanças ocorridas naquele jornal a partir da década de 1980 – por meio do chamado Projeto Folha – para o jornalismo impresso brasileiro. Esses aspectos são relevantes para este trabalho porque possibilitam compreender porque a Folha de S. Paulo assumiu alguns compromissos com seu público naquele momento. Além disso, a partir do histórico apresentado nessa seção e da pesquisa que será apresentada no próximo capítulo deste trabalho será possível avaliar se ainda hoje o jornal cumpre com o que se propôs naquele documento.
No próximo capítulo será apresentada uma investigação desses aspectos. Por meio de uma pesquisa empírica no conteúdo publicado pela Folha de S. Paulo, será apresentado o perfil do jornalismo político oferecido pelo veículo ao leitor.