Sobre Cléo
Conheci Cléo por via de um colega que tinha me indicado a ela como possível orientadora para o seu TCC, pois ela, recém-chegada do intercâmbio pelo Ciências sem Fronteiras14, queria fazer um trabalho em forma de artigo onde pudesse relatar a sua experiência no BIS e no Promed, curso que fez nos EUA. Ele comentou que eu estava fazendo um doutorado em formação de universitários.
Apresentadas, marcamos para conversar sobre seu trabalho. Nessa conversa, Cléo, com os olhos brilhando e expressão empolgada, começou a me contar um pouco do que tinha vivido nos EUA. Convidei-lhe para participar da minha pesquisa, convite que foi, prontamente, aceito.
No dia marcado, ao lhe fazer a primeira pergunta, que pede que o estudante avalie o que vivenciou na experiência acadêmica, Cléo 'despejou' a sua experiência de intercâmbio. Assim como na entrevista com Débora, percebi que ela queria compartilhar essa experiência. Seu jeito rápido de falar, quase atropelando as palavras, sua agitação corporal, me revelavam que, às vezes, uma vivência pode ser tão intensa que parece não caber na pessoa. Vai saindo de todos os jeitos, por todos os poros do corpo.
Senti claramente que ela precisava falar, e lhe deixei fazer isso, ouvindo, calma e atentamente, o que ela tinha pra contar quase em uma catarse. No meio de sua fala, preocupada se não estava me cansando ou não respondendo ao que julgava que eu queria ouvir, parou e me disse: “Se não for isso que você quer saber, pode me dizer que eu paro”. Autorizada por mim a falar o que quisesse, Cléo demorou 42 minutos respondendo a primeira pergunta. Só depois que pareceu estar satisfeita, passando-me a impressão de que agora estava esvaziada de algo que precisava compartilhar comigo, prossegui a entrevista com outras perguntas.
14 Programa do governo federal que busca promover a consolidação, expansão e internacionalização da
ciência e tecnologia, da inovação e da competitividade brasileira por meio do intercâmbio e da mobilidade internacional de estudantes de graduação e pós-graduação.
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Sobre Débora
Em uma aula da disciplina de psicologia da educação, eu discutia com a turma sobre universidade e o processo formativo que ela proporciona ao estudante. Acabei dizendo para o grupo que esse tem sido meu tema de pesquisa no doutorado. Mais adiante, Débora pediu a palavra e disse pra mim: “professora, eu quero participar da sua pesquisa porque tenho muita coisa pra falar sobre isso”. Ela tinha participado, fazia pouco tempo, do estágio de vivência no movimento dos sem-terra e estava ainda muito tomada por essa experiência, expressando isso no jeito quase atropelado de falar e na agitação corporal de quem viveu algo que ficou marcado em algum lugar de si e que precisava ser compartilhado com outras pessoas. Começou a contar da sua experiência ainda na aula.
Disse a ela que sim, que se ela quisesse mesmo participar da pesquisa, poderíamos marcar um horário para conversarmos e não foi surpreendente que sua entrevista tivesse durado quase 2 horas. Em clima de quem tem muita coisa pra falar, Débora, ora relatou, ora desabafou, ora confessou, ora cumpliciou sua experiência universitária sempre entre caras, bocas e risos. Divertimos-nos muito durante a entrevista.
Sobre Edgar
Tive acesso a Edgar através do convite que fiz aos estudantes para participarem da minha pesquisa via Coletivo Central dos Estudantes. Ele me contactou por e-mail e marcamos a entrevista. Achei Edgar um tanto tímido, mas disposto a falar da sua formação. Foi uma entrevista rápida, uma vez que ele foi muito conciso ainda que eu tentasse fazê-lo explorar um pouco mais suas respostas às minhas perguntas. Mas não fui exitosa. Tive a impressão que sua entrevista me renderia pouca informação, impressão que não se confirmou. Ao transcrever sua entrevista e reescutá-la, percebi que ele trouxe aspectos até então não colocados por outros estudantes.
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Sobre Jandira
Jandira foi a estudante que, na entrevista, mais claramente fez uso do silêncio, silêncio esse que era sempre acompanhado de um falar baixinho consigo mesma, como quem estava pensando em voz alta, me indicando que estava refletindo, às vezes, me dava impressão de que estava pensando sobre o que eu lhe perguntei pela primeira vez. Ou seria o que diz Barbillon e Le Roy (2012), as minhas perguntas estavam ajudando Jandira a explorar, indo mais longe do que ela poderia ter ido sozinha no que diz respeito à avaliação que faz do seu próprio processo formativo? Diferente de Neila e Débora, que demonstravam ter insights enquanto respondiam às minhas perguntas, Jandira parecia estar refletindo, naquele momento, sobre o que cada pergunta lhe provocava. Algumas vezes, parecia não saber o que responder, como se não estivesse conseguindo elaborar um discurso sobre sua formação. Para mim ou para ela? Acho que pra mim e pra ela, pois antes de me responder, precisava desenvolver seu discurso para si mesma.
Sobre Luiz
Conheci Luiz através da mediação feita por uma estudante de quem sou próxima. Fiz o primeiro contato com ele para convidá-lo pra participar da minha pesquisa por e-mail. Um dia, quando estava no meu gabinete, um rapaz me cumprimentou da porta e me perguntou se eu era a pró Rita. Ele então se identificou como sendo Luiz. Marcamos então nosso encontro para dali a dois dias.
No dia e horário combinados, Luiz chegou com ar de cansaço, já se desculpando pelos poucos minutos de atraso. Contou-me que veio direto do estágio e que estava com sono porque dormiu muito tarde e acordou muito cedo para ir para o campo de estágio. Mas se mostrou muito disposto a falar sobre a sua experiência estudantil, o que foi sendo confirmado ao longo de toda a entrevista. Muito eloquente e parecendo estar à vontade, Luiz foi respondendo às minhas perguntas com muita disposição e desenvoltura, o que também me deixou à vontade para fazê-las ou pedir mais esclarecimentos quando julguei necessário. Durante todo tempo me deu a impressão de que estava muito seguro do que me contava.
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Sobre Maria
Conheci Maria através da mesma estudante que me apresentou a Luiz. Fizemos o contato por e-mail para marcar dia e local da entrevista. No começo dela, como fiz com os outros estudantes, expliquei-lhe o objetivo da pesquisa e, logo em seguida, lhe dei o termo de consentimento para ler e assinar. Ela então, ao ler o termo, perguntou- me quando o trabalho estaria pronto. Disse-lhe que previa terminá-lo no primeiro semestre de 2016 e ela respondeu que seria bom, pois ainda estaria na universidade. Pareceu-me muito interessada na discussão e acrescentou que nunca viu ninguém estudar sobre a vida estudantil. Confirmei que, no Brasil, ainda temos poucos estudos sobre essa questão. Ela respondeu dizendo que achava importante tais estudos principalmente agora com a expansão das universidades para interior do país. Falou ainda que nunca tinha me visto na universidade. Disse-lhe que estou na UFRB desde seu começo e que isso é possível já que tem muita gente no CCS. Ela concordou acrescentando que somos de cursos diferentes e havendo pouco contato entre eles, as pessoas de um curso acabam não conhecendo as de outros. De fato, o contato entre os cursos no Centro é ainda relativamente pouco, ficando todos nós quase restritos ao nosso mundo profissional e disciplinar, o que resulta em um desconhecimento dos outros.
Sobre Neila
Neila foi a primeira estudante que entrevistei e o fiz alguns meses depois do meu retorno para UFRB após minha licença para o doutorado. Ela cursou comigo uma disciplina oferecida durante as férias. Desde então, percebi que atravessava um processo de reflexão sobre sua formação. Imaginei que isso se devia ao fato de ela estar chegando ao fim do curso, momento que provoca muitas preocupações e medo do futuro entre os estudantes. Assim, a convidei para participar da minha pesquisa, o que ela aceitou prontamente. Durante toda a entrevista, entendi que, paralelo à reflexão que fazia sobre a sua formação, Neila manteve um tom e entabulou comigo uma conversação que me deu a impressão de que esse momento estava sendo tomado também para fazer um desabafo, principalmente, em relação ao que lhe causou
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insatisfação durante seu percurso acadêmico. Não se tratava de avaliar os aspectos negativos da sua experiência, mas de, literalmente, desabafar.
Sobre Sandra
Sandra, como Edgar, participou da pesquisa através do convite que fiz via o Coletivo Central dos Estudantes. Ela também me contatou por e-mail e marcamos a entrevista. Foi uma das estudantes que mais me pareceu segura do que falava durante todo o tempo, dando-me a impressão de que já tinha uma leitura bem organizada sobre sua formação universitária e da repercussão dela sobre si mesma. Foi muito direta em suas respostas, que envolviam ora dimensões mais técnico-profisssionais, ora dimensões mais afetivas e pessoais, ora ambas. Parecia estar à vontade em falar de si, o que me deixou também à vontade para fazer perguntas complementares toda vez que senti necessidade de fazê-las. Em um dado momento da entrevista, chegou a se emocionar, embargando a voz e, tentando me explicar o que sentia naquele momento, disse, "é que eu sou muito afetiva".