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Does uncertainty contribute to a sluggish recovery?

Dans le document Revue de l’OFCE (Page 48-57)

ECONOMIC OUTLOOK FOR THE EURO AREA

1.3. Does uncertainty contribute to a sluggish recovery?

Na relação com a família, do mesmo jeito que nas amizades, é possível observar as intersecções existentes entre vida acadêmica e vida do estudante fora dela e, especificamente, na sua vida familiar.

Edgar, Jandira e Maria consideraram que estar na universidade não teve nenhuma repercussão em suas famílias, apenas Jandira acrescentou que sentia que seus familiares estavam felizes com o fato de ela estar fazendo um curso universitário, mas que nunca sinalizaram nenhuma mudança nela.

Para outros estudantes, a universidade trouxe consequências relacionadas com o ingresso que acabaram resultando em experiências para eles. É o que Sandra afirmou ao considerar que a distância da família ajudou a promover seu crescimento pessoal. Caso

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tivesse permanecido na sua cidade, morando com a família, teria mudado, mas não tanto quanto considerou que mudou já que continuaria sendo protegida. Seus pais não falavam de mudanças, mas ela sabia que eles perceberam que ela estava diferente, "mais espertinha", especialmente, seu pai que não acreditava muito que ela "ia andar”, já que sempre foi superprotegida. “Ele achava que criou a filha e que vai ficar daquele jeito, mas, não, a gente cresce, né?”, explicou. Maria também contou que a distância da proteção dos seus pais lhe ajudou a amadurecer.

Neila, apesar de seu pai ter falecido pouco depois da sua entrada na universidade, ouvia-o dizer, quando sua irmã mais velha também entrou para o ensino superior, que filho, quando vai para a universidade, acha que ganhou o mundo, que passam a fazer tudo, a ser solidários com tudo, que só quer ensinar pai e mãe e que sua irmã ia se tornar revolucionária. Débora, do mesmo jeito que seus amigos, pensava que sua família passou a vê-la como uma pessoa que acha “tudo normal”.

A família de Cléo percebeu que ela estava mais autônoma. Como ela explicou, sempre foi de focar em seus objetivos, mas também buscava opiniões e sempre as valorizava muito, mas passou a pensar mais por si mesma e a tomar as decisões que julgava melhores. Dessa forma, distanciou-se um pouco da família, pois se sentia muito diferente deles, principalmente, depois que voltou do intercâmbio. Tornou-se difícil sua família acompanhá-la em seus pensamentos e modo de ser e agir. Sentia que seus pais tinham algum medo de que, depois de ter passado pela experiência de viver sozinha em outro país, ela pudesse fazer isso outras vezes, medo que considerava não ser infundado: eles sabiam, tanto quanto ela mesma, que ela não pretendia parar.

Barros (2004) considera que a entrada na universidade provoca uma grande transformação nas trajetórias familiares. No que diz respeito às trajetórias individuais, é a partir desse momento que ocorre um deslocamento para fora do mundo familiar. As experiências fora do mundo doméstico e da vizinhança permitem que os jovens façam uma comparação entre sua vida antes e depois da universidade, redefinindo assim os próprios significados da vida familiar.

No estudo realizado por Kaufman e Feldman (2004), os estudantes também falaram de um distanciamento no modo de pensar quando se compararam com seus pais depois que ingressaram no college. Para os autores, porque cursar um nível superior é investido de tanto significado na sociedade em geral, o fato em si de frequentá-lo já funciona como um marco simbólico, para o estudante e para outros, de que ele tem

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algum nível de competência intelectual e conhecimento. Isso, por si só, já o diferencia dos demais, acrescentam.

Oliveira e Portes (2014) - em um estudo de caso em que apresentam a trajetória escolar, profissional e social de um engenheiro elétrico sênior de uma companhia elétrica mineira, oriundo de uma família do setor popular – relatam que o participante da pesquisa fala do distanciamento educacional entre ele e sua família, ao longo da sua formação universitária, e que permaneceu também na vida pós-universidade, finalizando por tornar-se um afastamento social entre eles. Nesse sentido, os autores entendem que ele se afastou dos seus “iguais” e se aproximou dos “diferentes”, em um distanciamento mais simbólico do que material. Os autores ainda acrescentam que tanto os familiares quanto seus conterrâneos passaram a vê-los como “alguém de sucesso”, que “deu certo”, como o “cara”, expressões que demonstram tanto uma admiração deles por ele como também uma marca de “afastamento” desse último em relação àqueles.

Um aspecto interessante para refletirmos sobre esse afastamento que se dá, tanto da família como dos amigos, é trazido por Charlot (2014). Esse autor entende que aprender é também trair porque terminar o ensino básico e ir para a universidade muda a relação com os pares, com os amigos de infância, com a família já que aprender, principalmente, para os jovens de meios populares, é passar para o outro lado da fronteira, para um outro mundo, indo, em alguma medida, contra sua origem. Por isso, acrescenta o autor, esse momento pode ser de orgulho e sofrimento para pais e filhos. Orgulho de haver cumprido uma missão familiar de ter êxito escolar e sofrimento porque, ao terem êxito, esses jovens adentram outro mundo, afastando-se, de alguma maneira, do mundo de onde são oriundos.

Por outro lado, a formação universitária é marcada por um reconhecimento e uma mudança na posição familiar. Para Sandra, aumentaram as expectativas, o incentivo e o orgulho de seus pais e, quando, na universidade, passava por momentos difíceis e voltava estressada para casa, tinha todo apoio deles. Sandra, Débora e Neila passaram a ser mais ouvidas pelos seus familiares. Neila, nas conversas que teve com sua mãe, professora do ensino fundamental, sobre fracasso escolar percebeu que conseguiu mudar sua concepção - de que existem crianças que não aprendem - a partir dos conhecimentos que adquiriu na disciplina de educação especial e no estágio na área de educação.

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Débora também relatou a situação de seu primo que não estava indo bem na escola e que conseguiu fazer com que sua tia, mãe do garoto, prestasse atenção em outros aspectos de seu desenvolvimento que não fossem apenas o resultado pedagógico prescrito. Luiz também passou a ser mais valorizado, as pessoas se aproximavam dele mais no sentido de, “poxa, eu tô me aproximando de Luiz, do Luiz pessoa, mas como profissional de saúde também, eu posso contar com ele”. Mas isso “tem um lado ruim”, acrescentou, pois esse reconhecimento trouxe uma responsabilidade maior, as pessoas lhe faziam perguntas para as quais, às vezes, não tinha resposta, o que o obrigava a procurá-la para responder depois. Para Andrade (2010), em classes populares, o fato de o jovem ter um nível de escolarização mais elevado que seus pais pode legitimar a necessidade de apoio por parte deles e um status que lhes autoriza a tomar decisões sobre questões familiares, serem respeitados, estabelecendo uma relação adulta e de reconhecimento com seus pais.

Débora e Neila, que são estudantes de psicologia, apontaram um aspecto negativo desse reconhecimento relacionado com o imaginário social em relação ao psicólogo. Por vezes, são solicitadas pelos familiares e amigos a opinarem sobre aspectos psicológicos das suas vidas ou são solicitadas a fazer “avaliações” sobre determinadas questões ou integrantes da família, solicitações que são fonte de incômodo para ambas.

Se, por um lado, essas demandas são a confirmação de uma nova posição que o estudante passa a assumir em sua família quando começa um curso superior, que advém do acesso a um determinado saber profissional, por outro, podemos entender que, em algumas famílias, o sucesso acadêmico é um projeto familiar que simboliza uma forma de ascensão social (Cicchelli e Erlich, 2000). Em alguma medida, o diploma obtido, bem como o conhecimento adquirido na universidade podem ser considerados como uma “copropriedade familiar” (Cicchelli e Erlich, 2000). Dessa forma, as demandas da família referentes à formação universitária do estudante podem ser pensadas como uma espécie de retorno do investimento feito por ela. Parece, pois, que, de algum modo e em oposição ao que diz o ditado popular, o santo de casa tem que fazer milagre.

Sandra passou a ter o direito de ir e vir sem precisar pedir o assentimento de seus pais, como fazia antes de entrar na universidade, e a servir de exemplo para sua irmã mais nova, sendo, inclusive, autorizada pelos seus pais a interferir na sua educação:

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... Eu tenho um irmão pequenininho, eu sei que eles [meus pais] me têm como exemplo. Eu chamo a atenção de Paula [irmã], ela tem que me ouvir porque “Sandra está na universidade e você ainda está no caminho”, ela tem 12 anos, “e você ainda tá no caminho, então ouça a sua irmã”.

Cléo também considerou que se tornou um exemplo para os mais novos da sua família. Isso porque foi uma das primeiras, entre seus parentes, a ingressar em uma universidade federal, em um campus próximo do seu município de origem, não tendo interrompido os estudos no ensino médio como fizeram outros membros da família. Tanto Sandra quanto Cléo expressaram certo orgulho de si mesmas quando falaram das suas mudanças de posição na família.

Débora, que foi incentivada pelo seu tio para ingressar na universidade, procurava fazer o mesmo com os mais novos da sua família, mostrando para eles esse caminho como uma possibilidade.

Um aspecto interessante apontado tanto por Débora quanto por Neila diz respeito à influência que tiveram amigos e familiares para que elas participassem e aproveitassem todas as oportunidades oferecidas pela universidade e que fossem potencialmente espaços para experiências significativas e crescimento pessoal. Neila decidiu fazer estágio na área de educação e a disciplina de educação especial - áreas que não lhe interessavam - e, ainda, participar do projeto de extensão em um asilo de idosos, incentivada por uma amiga e colega. Débora, que tinha amigos que já frequentavam o ensino superior antes dela entrar na UFRB, disse que foi, todo tempo, incentivada por eles a vivenciar tudo que a universidade oferecesse. Diziam pra ela: “se jogue, você vai ter crescimento pessoal, vai saber lidar com os outros.” Seu tio, que era estudante da UFRB, no campus de Cruz das Almas, na época em que ela iniciou sua formação, também a incentivou a participar de todas as atividades oportunizadas e ainda apontava a experiência de morar na residência universitária como um diferencial na sua formação. O estágio realizado por ela em um asilo de idosos se concretizou a partir da interferência de seu pai, experiência que ela destacou como uma das mais significativas na sua formação:

... Eu me lembro da primeira visita [ao asilo de idosos]. A gente foi pra conhecer, meter a cara no projeto e tal. A gente teve uma

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impressão muito ruim do ambiente, mal cuidado, as pessoas mal cuidadas, os profissionais não tinham uma postura assim acolhedora, de cuidado e o lugar cheirava muito ruim. As pessoas não tavam higienizadas de um modo adequado... Aí eu lembro de uma coisa, eu e dois colegas disse, não, não vou ficar, não dá pra mim. Eu fiquei com ânsia de vômito. Aí à noite, como de costume, meu pai sempre ligava. Aí eu contei pra ele e tal ..., ah, meu pai, o lugar, as pessoas fedem... Meu pai falou, qual é o problema? Eu não criei você pra isso, se as pessoas não tão higienizadas não é culpa delas. E se você tiver algum problema com isso, quando você chegar em casa, você vai e toma banho. Aí me deu aquele, ‘se situa, garota’ [risos].

Um dos irmãos de Luiz, depois que ele começou a estudar na UFRB, atendendo o seu pedido, pediu transferência do trabalho para Santo Antonio de Jesus. Ter alguém da família próximo contribuiu para superar o processo de adaptação à cidade e à universidade. Apesar de não querer morar com ele, preferindo morar na residência, “até porque a gente quer uma certa liberdade”, a casa do irmão se tornou um lugar de apoio para estudar, para lavar suas roupas, para ir almoçar quando não queria cozinhar, para ir quando o colega de residência ou ele mesmo precisavam de privacidade.

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