• Aucun résultat trouvé

Chapter 1. Search

1.2 Finding paths in mazes

Dani é docente no curso de Design em uma Universidade pública, formou-se também em Design e leciona há 12 anos. À época da entrevista estava com 36 anos, solteira, e não tinha filhos, pertencente à classe social B2. Dani foi indicada como colaboradora por sua aluna drag queen, havia lecionado para ela por apenas um semestre, antes que a aluna abandonasse o curso de Design.

Sobre a vivência de ter a aluna drag queen em sala de aula, Dani enfatiza O

corpo-percebido:

Ele é superespalhafatoso, e tal. Conversava com todo mundo. A grande maioria deles [drag queens] são um acontecimento. Os trejeitos são espalhafatosos, e ficam desfilando toda hora, o Muriel ficava cantando, aí foi que eu comecei a perceber, muito antes de conhecê-lo um pouco mais intimamente. Não era tão distante para entender o que ele fazia. O que ele era. Acho que a diferença era essa, trejeitos mesmo, modo de se portar, as coisas que interessavam ele. Na verdade ele só via essas coisas de drag queen em sala de aula, não fazia nada. (...) Agora, enquanto professora dele foi muito sucinto na verdade, o período que eu dei aula para ele, foi muito pouco [sic].

A colaboradora revela a intenção de apreender o corpo enquanto expressão de existência da aluna, buscando o reconhecimento deste sujeito/objeto por meio das conexões da linguagem “trejeitos”, “espalhafatosos”, “a grande maioria deles”, “essas coisas de drag queen” à procura de aproximar este mundo-vida de significações possíveis. O intuito é que os dados sensíveis que indicam estas significações possam transformar o sujeito/objeto em algo imediatamente legível (Merleau-Ponty, 2011).

Ainda sobre o corpo da estudante, a colaboradora reflete:

(...) ele não vinha travestido. Não era uma coisa que fazia parte do diário da vida dele. Eu acho que se fosse seria muitíssimo pior [sic].

Dani avalia que o fato da estudante não ser travesti ou transexual, e assumir a identidade feminina geralmente fora da Universidade evitou o surgimento de situações de conflitos. Segundo Davi (2013), entre os sujeitos LGBTI, as travestis e os/as transexuais são os que mais sofrem com preconceito justamente por sua condição trans, que rompe radicalmente com a visão de mundo “natural”, seja com relação ao sexo biológico, seja com relação à sexualidade. Enquanto as drag queens e transformistas realizam modificações mais superficiais no corpo, para apresentações em shows ou em ambientes específicos, as travestis eos/as transexuais realizam mudanças permanentes para a vida cotidiana.

Dani fala de sua percepção sobre A diversidade sexual e de gênero na

Universidade:

Assim, acho que foi o primeiro aluno (drag queen) na Universidade, que eu saiba, porque ele também não fazia questão de esconder, sempre ficava afirmando isso[sic]. O fato de a aluna ser a primeira drag queen na Universidaderevela, mais uma vez, a exclusão destes sujeitos no campo da educação. A transfobia e a homofobia não são apenas consentidas dentro das escolas, mas também ensinadas (Louro, 2008). A vida escolar, e, posteriormente, a vida universitária e profissional de jovens e adultos LGBTI, é impregnada de abordagens preconceituosas e tratamentos discriminatórias por meio de ofensas, constrangimentos, ameaças e agressões físicas ou verbais. Neste sentido, a heteronormatividade pode ser considerada como uma violação aosdireitos humanos, já que promove a perda dos direitos sexuais e a opressão sexista, homofóbica e transfóbica (Junqueira, 2009).

A docente Dani questiona o modo de se posicionar no mundo da aluna, “não fazia questão de esconder”, por meio da afirmação da identidade drag queen. O corpo, como expressão do ser no mundo, revela muito de seu mundo-vida, porém é preciso conhecer além da aparência para compreender a ordem ambígua do ser percebido. “Um mundo percebido, certamente, não apareceria a um homem se não se dessem condições para isso em seu corpo: mas não são elas que o explicam”(Merleau-Ponty, 2014).

A colaboradora acredita que os cursos ligados às artes são espaços de menos preconceito:

O pessoal que trabalha mais com arte, com design, com essas coisas das artes aplicadas mesmo, acho que tem a cabeça um pouquinho mais aberta. Que eu sei hoje é tão

comum, o pessoal aqui dentro já não tem muito preconceito. É a impressão que eu tenho. E o pessoal que é dessa área... Que é transgênero faz o que quer, o que gosta, talvez eles me pareçam um pouco mais livres para se expressar. (...) Porque quem estuda artes, design, estética tem que dar mais personalidade ali, você tem que desmontar certezas para poder criar. Então se você não desmonta a certeza você não passa do óbvio, do lógico, que é a máxima que todo mundo vive. Então você precisa tirar as coisas do lugar. Eu imagino que a partir que você tira as coisas do lugar você deveria estar mais apta a aceitar todas as peculiaridades e riscos, sejam sexuais, que fogem de gênero [sic].

A colaboradora fala sobre “a cabeça mais aberta” de quem estuda Artes, “tirar as coisas do lugar” e “desmontar certezas” para criar. Para Merleau-Ponty (2011) deve-se distinguir a roupagem contingente dos pensamentos ou linguagens empíricas da palavra viva para encontrar a fala autêntica (Amatuzzi, 2016).

De tal modo, na fala de Dani, existe uma reflexão sobre a percepção de liberdade dos/as sujeitos que vivenciam a diversidade sexual aose expressar. Para Junqueira (2009), ao falarmos sobre a diversidade sexual permitimos experimentações e produções que expressam as descontinuidades, transgressões e subversões que envolvem o trinômio sexo-gênero-sexualidade, situando as questões de gênero e sexualidade no campo da ética democrática e dos direitos humanos e legitimando as múltiplas formas de expressão das subjetividades, dos corpos e das práticas sexuais.

A colaboradora menciona o relato da estudante drag queen sobre estar sendo perseguida por um professor devido a expressão de sua sexualidade:

Eu nem sei quem é [professor] ou o que aconteceu, mas falou que houve, sim, situações de perseguição por professor. Não sei se é má interpretação dele (Muriel), mas ele acredita que passou por isso, sim [sic].

Dani diz não saber qual foi a situação e nem quem foi o professor acusado de perseguição pela aluna. Entretanto, coloca em dúvida a fala da aluna ao sugerir uma possível “má interpretação dele”. A colaboradora não se compromete com a situação de violência descrita pela aluna. Nas palavras de Merleau-Ponty (2011, p.214):“Nossa visão, sobre o homem permanecerá superficial enquanto não retornarmos a essa origem, enquanto não reencontrarmos, sob o ruído das falas, o silêncio primordial, enquanto não descrevermos o gesto que rompe esse silêncio.”

A heteronormatividade presente na sociedade é legitimada e fortalecida por meio de práticas sociais opressoras como a homofobia e a transfobia, e, infelizmente, também estão internalizadas nos/as docentes, que deveriam exercer o importante papel social no processo de combate à qualquer forma de preconceito (Junqueira, 2009).

Neste sentido, a colaboradora reflete sobre como lida com seus alunos/as Nos

horizontes da docência frente à heteronormatividade exposta:

(...) eu acho que eu sou muito tranquila, eu tinha uns amigos que se vestiam de mulher, há muitos anos. Pra mim, eu não tenho dessa. Sou supertranquila, acho o máximo. Eu acho que cada um cuida da sua vida, do jeito que quer, das escolhas que faz, desde que você não seja má pessoa (...) eu não sinto necessidade de me defender [da sexualidade alheia]. A sociedade sim, a sociedade é chata, é moralista, tudo isso, que seja isso, que seja aquilo, que seja o que a maioria é, mas para mim eu não sinto necessidade nenhuma, eu me sinto muito bem [sic].

A docente Dani diznão ter preconceito e ter a experiência de amigos que se travestem. E acredita que cada sujeito é responsável por sua vida. Contudo, reconhece a heteronormatividade e o machismo que regulam a vida em sociedade e ainda utiliza a expressão “defender” quanto à exposição da diversidade sexual em sociedade. Revela- se a ambiguidade da vida: Como cada um/a é responsável por sua própria vida sexual, se existem normas sociais que regulam a vivência da sexualidade? Logo, as nossas escolhas emolduram nossa existência, estamos “no” mundo e somos “do” mundo (Merleau-Ponty, 2011). E é como ser no mundo que Dani desvela sua consciência de ser mundano:

O modo como eu me relaciono com os alunos é o modo que eu sou, o modo como eu transmito as coisas, que fazem parte da minha vida [sic].

A colaboradora fala então de “sua” percepção de “seu” corpo a partir de “seu” ponto de vista, na intencionalidade de sua consciência dentro da temporalidade e do espaço de “sua” existência. Neste sentido,Merleau-Ponty (2011, p.94) diz:“(...) o sistema eu-outro-mundo é tomado como objeto da análise e trata-se agora de despertar os pensamentos que são constitutivos do outro, de mim mesmo enquanto sujeito individual e do mundo enquanto polo de minha percepção.”

A respeito do sistema eu-outro-mundo a colaboradora fala dos processos de

Intersubjetividade e consciência:

Eu acho que se eu tiver algum aluno como tive o Muriel, como tiver outros, eu acho que eu seria a primeira a dar uma força, em todos os sentidos. Talvez para alguns conflitos. Agora o que a gente sempre tem para passar, porque eu trabalho na arte de campo, e eu sempre bato nessa tecla não dá para você criar se você não tirar as certezas de lugar, e as certezas não são só de linguagens, todas. Ainda que você não se transforme em todas as coisas que você vê, porque não é isso, você tem o seu caminho, mas tem que estar aberto a uma convivência ao um mundo novo que vai se abrir à na sua frente. Então, eu, como professora, nesse sentido que você está perguntando, eu acho que indiretamente sim, porque a gente precisa estar levantando essa bandeira nesse sentido da pluralidade mesmo, da heterogeneidade das subjetividades[sic].

O relato de Dani, após a vivência intersubjetiva com a aluna drag queen, nos traz a percepção de uma mobilização de afetos, que não havia despertado até a entrevista, para uma intenção significativa para o conhecimento. Na tentativa de apreensão de sua vivência docente passa a retomar sua vivência por meio da repetição de falas secundárias que a colaboradora fala em sala de aula “tirar as certezas de lugar”, “estar aberto ao novo” (Amatuzzi, 2016).

Quando se diz, por exemplo, que o filosofar é o que se busca e não a filosofia, a pesquisa e não o resultado pronto, a descoberta e não a memorização,está se tomando uma posição em relação a isso. O falar secundário terá, certamente, uma função também, mas aquilo a que se visa é o primário, é aquele que permite ao educando assumir-se como pessoa no mundo (Amatuzzi, 2016, p.29).

É claro que não podemos esquecer que o período que lecionou para aluna foi pequeno e que a aluna apresentava muitas faltas, dificultando uma vivência maior que possibilitasse a compreensão dos afetos mobilizados. Para Merleau-Ponty (2011, p.151),“o espaço me pode ser dado em uma intenção de apreensão sem me ser dado em uma intenção de conhecimento.”

A possibilidade de conhecimento é, então, refletida, pela primeira vez, pela colaboradora, no sentido de apoio e de inclusão àdiversidade sexual e de gênero na Universidade:

Agora a totalidade desse tema [diversidade sexual e de gênero na Universidade] para ser discutido, não sei de que forma poderia ser. Não sei [Silêncio]... Eu acho que se tivesse políticas de inclusão, não institucionalizada, talvez, mas mais uma didática entre nós, ajudasse. Pensar, né, como é que eu posso dar uma força nesse sentido [sic].

A colaboradora aponta para a ideia de uma intervenção mais didática no sentido de preparar os docentes para esta situação desconhecida, e para uma abordagem mais intersubjetiva entre docente e estudantes de forma não institucionalizada. Para Santos (2015, p.17),“os desafios, quaisquer que eles sejam, nascem sempre de perplexidades produtivas.”

Neste sentido, Seffner (2017) aponta que enfrentar o desafio de abordar os temas de gênero e sexualidade em sala de aula, é também enfrentar um espaço de tensões e conflitos entre a tradição e a inovação presentes nas três principais instituições responsáveis pela educação de jovens: as famílias, as religiões e a escola pública.