Chapter 1. Search
1.3 Finding Paths in Graphs
Rene é docente no curso de Artes Visuais em uma Universidade pública, formou-se também em Artes Visuais e leciona há 22 anos. À época da entrevista estava com 54 anos, casada, e com dois filhos adultos, pertence à classe social A. Rene foi indicada como colaboradora por sua aluna transexual Ariel (estudante 1), havia lecionado para ela por vários períodos durante a graduação e participado de sua banca examinadora para o trabalho de conclusão de curso.
Rene nos relata sobre O corpo percebido da estudante transexual:
Eu via que era transexual. Era uma moça diferente. Mas era uma moça. (...) Ela era a Ariel. As pessoas chamavam por esse nome, então ela era a Ariel. Mesmo que o nome na lista estivesse masculino para mim era a Ariel. Mas você me pergunta como foi receber uma aluna transexual, eu não sei se teve alguma coisa de tão especial no recebimento [sic].
A colaboradora Rene relata ter percebido a diferença de Ariel em relação às outras “moças” e o nome masculino na lista de chamada, porém a percepção fisionômica de Ariel era feminina. A percepção fisionômica consiste em um diálogo entre o sujeito com o sujeito/objeto, como se o sentido disseminado pelo sujeito/objeto
fosse retomado pelo sujeito em sua intencionalidade (Merleau-Ponty, 2011).Nas palavras de Merleau-Ponty (2011, p.26): “Construímos a percepção com o percebido”.
Rene diznão haver diferenças quanto ao recebimento da estudante transexual, porém aponta vivências singulares a uma estudante que é transexual:
(...) eu sei que a Ariel sofreu uma retaliação em uma disciplina de estágio, quando os alunos foram para as escolas, eles tinham que colocar o crachá, e uma professora deu aula na licenciatura, e não era uma professora efetiva, contratada, ela chamou a Ariel e queria que ela trocasse o nome dela, pelo nome masculino. Então foi um constrangimento muito grande, eu não presenciei, mas eu sei que foi um constrangimento muito grande, parece que a Ariel chorou e houve um comentário meio geral desses alunos apoiando a Ariel. Ela é muito querida [sic].
A presença da estudante transexual na disciplina de estágio revela como a sexualidade mobiliza questões pessoais, sociais e históricas. Para Seffner (2011), questões de gênero e sexualidade são vistos pelos/as docentes como temas intrusos à programação cotidiana de sala de aula, contribuindo para que o processo de ensino/aprendizagem ocorra em uma “condição de incerteza”, mesmo que se planeje e que se possuam recursos técnicos variados. Quando questões de gênero e sexualidade aproximam-se, inesperadamente, do espaço da educação provocam grande incômodo. O/a docente não sabe como lidar e recorre à reprodução de posturas de contenção e normatização em atitudes de preconceito e discriminação.
Logo, a percepção do sujeito em relação ao sujeito/objeto não fala do sujeito/objeto, mas fala do mundo-vida do sujeito em si mesmo e de seus próprios pensamentos (Merleau-Ponty, 2011).
Refletindo sobre A diversidade sexual e de gênero na Universidade, Rene diz:
(...) eu creio que só tem a Ariel [estudante transexual]
na Universidade. Homossexuais muitos, alunos
homossexuais [sic].
Nesta fala, Rene demonstraa exclusão educacional de estudantes transexuaisna Universidade, o que ocorre como uma extensão da exclusão nos ensinos fundamental e médio, por isso o fato de ter apenas uma aluna transexual (Franco & Ciclini, 2015; Davi & Bruns, 2015). No entanto, a ampla presença de homossexuais no ambiente
universitário aponta para uma crescente aceitação da homossexualidade (Leal & Carvalho, 2012).
Sobre a presença da estudante transexual na Universidade a colaboradora revela: Quando ela [Ariel] foge, de qualquer maneira, desses padrões estabelecidos. Qualquer que seja ele, acaba que você destoa daquela coisa imposta, daquela coisa homogênea, eu vejo que trabalhar com educação é nesse sentido, porque a educação tanto pode estar a serviço de uma emancipação da pessoa como uma regulação. E o que nós enfrentamos dentro desses espaços, você tem que lidar com um modelo de educação a serviço da regulação, então, nivelar as pessoas culturalmente, de nivelar as pessoas com relação a uma série de comportamentos [sic].
Rene demonstra ter consciência de que, historicamente, o campo da educação se constituiu como um espaço normatizador, e que Ariel, ao resistir às normas e promover uma descontinuidade na sequência sexo/gênero/sexualidade, dentro do espaço da educação, passa a ser considerada como minoria e posta à margem das preocupações de um currículo, ou de uma educação conduzida para a maioria. (Louro, 2008). Paradoxalmente, Guacira Lopes Louro (2008, p. 27) aponta que:“esses sujeitos marginalizados continuam necessários, pois servem para circunscrever os contornos daqueles que são normais e que, de fato, se constituem nos sujeitos que importam.”
A percepção de Rene sobre a normatização do espaço educacional é fundamental no caminho para a desconstrução de lógicas e princípios heteronormativos.A educação tem papel essencial em contraposição à intolerância e proteção aos direitos dos sujeitos que vivenciam a diversidade sexual (Borrillo, 2009).
Ainda sobre a universidade Rene relata:
Eu, na ocasião, não tinha essa preocupação, até porque no curso de Artes Visuais nós temos um banheiro que homens e mulheres usam. Eu não sei, eu tenho a impressão que o problema ali não é tão grande. Agora, com relação ao preparo ou despreparo do curso, eu acho que todos nós não somos preparados. Eu fico pensando, preparados de que forma, como é que a Universidade prepararia não só nesse sentido, mas com relação da gente lidar com as diferenças, não só nesse sentido. Eu acho que não existe uma receita porque essas diferenças também vão se transformando, o que é diferente hoje, daqui a pouco não é mais diferente, mas existem outras diferenças que vão surgindo [sic].
Ao considerar a Universidade e o curso em que leciona, Rene aponta para a percepção de que existe um movimento dos/as profissionais, docentes e do espaço físico para acompanhar as transformações sociais referentes às questões da diversidade sexual. De fato, a Universidade como instituição social de caráter republicano e democrático deve acompanhar as transformações sociais, econômicas e políticas. Para Bernheim e Chauí (2008), por mais que a Universidade seja determinada pela estrutura da sociedade e do Estado não pode ser compreendida como seu reflexo, por ser uma instituição social diferenciada caracterizada por sua autonomia intelectual, promotora de diálogos abertos entre as distintas visões sobre como a sociedade e o Estado conduzem a divisão e a exclusão social.
Neste sentido, para Merleau-Ponty (2011, p.486),“o social já está ali quando o conhecemos e julgamos.”Portanto, é falso tratar o social como um objeto de meu pensamento, o mundo social é um campo permanente. Os fenômenos sociais me ultrapassam enquanto existência, ao mesmo tempo em que só existem na medida em que eu os vivo. O mundo social que vivenciamos está ligado a nós antes de qualquer objetivação, e retornamos a ele pelo fato de existirmos (Merleau-Ponty, 2011).
Nos horizontes da docência, Rene revela:
Bom, eu nem sei como é que eu virei docente, porque eu sempre tive um problema muito grande com a escola. Eu fui uma aluna considerada indisciplinada, eu fui uma aluna que foi convidada a se retirar de uma escola, por exemplo (...). Eu acho que pela minha vivência nas escolas por onde eu passei, eu tenho um olhar atento para aqueles alunos que destoam daquele todo. (...) Porque de uma certa maneira eu gostaria que eu, enquanto criança, adolescente, que de alguma forma alguém tivesse me enxergado como uma pessoa que destoava daquele todo e que, de repente, tinha muita coisa para dizer [sic].
“A apreensão de mim por mim é coextensiva à minha vida como possibilidade de princípio, ou, mais exatamente, essa possibilidade sou eu, eu sou essa possibilidade e, por ela, todas as outras”(Merleau-Ponty, 2014 p.63). Logo, Rene apreende sua vida escolar, não de modo a conferir à escola o contorno definitivo quanto à formação da sua identidade social, mas reconhecendo que suas proposições, imposições e proibições fazem sentido com efeitos de verdade, e, assim, constituem parte significativa da sua história de vida pessoal (Louro, 2004, p. 21). A escola se delineia no mundo-vida de todos/as estudantes.
Deste modo, Rene associa sua experiência como estudante e seus reflexos enquanto docente:
Eu tenho a impressão que o grande barato disso tudo, somos nós, como professores, criar espaços e diálogos entre as pessoas. Nós também precisamos dialogar, nós também somos seres humanos, nós não sabemos de tudo, e ninguém sabe de tudo. Nós pouco sabemos de nós. Então eu acho que criar esses ambientes de diálogo é muito importante e eu fico pensando nos critérios que têm para a escolha de professores. Então eu acho que fica concentrado muito numa coisa muito metodista, e se esquece de avaliar que tipo de relação esse professor tem com o mundo. Antes de dominar qualquer tipo de linguagem, o professor tem que ter minimamente uma abertura para dentro da sala de aula, promover espaços de confraternização, mas não nesse sentido como se não existisse conflito, nós sabemos que o mundo é conflitante. Mas nós tentarmos entender e conhecer o outro[sic].
Rene percebe o quanto o/a professor/a é desnecessário para a repetição de aulas prontas em uma postura metodista, principalmente em um momento histórico em que gravações são facilmente disponibilizadas no Youtube e disciplinas lançadas na internet. Trata-se de um falar secundário que em nada contribui para o processo educacional. Assim como tirar pequenas dúvidas referentes à disciplina ministrada não justifica a presença viva de um/a docente (Amatuzzi, 2016).
Essa presença tem todo um outro sentido: é da relação que pode brotar o falar autêntico. A tarefa de um professor vai muito além de simplesmente ser um transmissor de informações. Ele é a sentinela das possibilidades de falas autênticas, que, são, no fundo, as únicas que cumprem o processo educativo (Amatuzzi, 2016, p.29).
E por fim, Rene discorre sobre a Intersubjetividade e consciência tomada a partir da vivência com a estudante transexual:
Hoje, por exemplo, se a Ariel chegasse na sala, a Ariel transformada e eu também, nós com certeza promoveríamos esse debate em sala. Naquela ocasião eu não sei se eu saberia conduzir isso, não sei se ela teria interesse em se colocar ali, ela poderia se sentir constrangida (...) eu acho que ela [Ariel] é uma pessoa importante para mim, eu tenho alguns alunos, eu acho que todo professor tem isso, eu acho que tem vários alunos que deixaram marcas em mim, eu não vou esquecer
deles, são pessoas muito fortes dentro de mim. Que a gente vai se formando junto com eles, na relação com outros. A Ariel é uma pessoa que com certeza faz parte de mim, é uma pessoa importante para mim. (...) Eu acho que se eu passar por uma situação parecida, hoje, estou mais preparada do que antes [sic].
Rene, a partir da experiência junto a Ariel, pode refletir sobre a diversidade sexual na Universidade e seu papel enquanto docente. Para Amatuzzi (2016), a fala original almejada na relação educacional não é determinada por tratar-se de sentimento ou pensamento, mas pelo fato de a fala cumprir o sentimento ou o pensamento no sentido de abrir os sujeitos para novas possibilidades de existência, ou seja, docentes e estudantes se engajarem em um ouvir, responder e/ou agir novos.
Para Merleau-Ponty (2011), os sujeitos transcendem rumo a um novo comportamento ou ao “outro”, ou ainda, rumo ao pensamento próprio por meio do seu corpo e da sua fala, isto é, somos uma potência aberta e indefinida de significar ao mesmo tempo,uma potência aberta que apreendee comunica um sentido. O vivido nunca é completamente compreensível e a nossa sina enquanto ser no mundo é ser dado a si mesmo como algo a compreender.