DELORS, Jacques
Em seu livro Educação: um tesouro a descobrir (2012), Delors nos traz uma significativa contribuição, por se tratar de um relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI.
Delors considera que os homens e as mulheres do século XXI terão necessidade de quatro “aprendizagens” essenciais para sua realização pessoal e coletiva durante toda a sua vida. Dessa forma, ao expor sua crença na educação para o desenvolvimento da sociedade, ele assim se expressa, “a educação surge como um trunfo indispensável à humanidade na construção dos ideais de paz, de liberdade e de justiça social”. (DELORS, 2012, p.11)
Num primeiro momento deste capítulo, procuraremos destacar os fundamentos da educação e traçar paralelos com princípios básicos de educação musical. Para isso utilizaremos o capítulo 4 “Os Quatro Pilares da Educação”, que sugere quatro aprendizagens, sobre as quais deve estar apoiada a educação neste século.
Ao lermos a página 73 do relatório de Delors, percebemos que ele sintetiza no terceiro parágrafo sua crença sobre a educação necessária ao século XXI:
Para poder dar resposta ao conjunto de suas missões, a educação deve organizar-se em torno de quatro aprendizagens fundamentais que, ao longo de toda a vida, serão de algum modo para cada indivíduo, os pilares do conhecimento: aprender a conhecer, isto é adquirir os instrumentos da compreensão; aprender a fazer, para poder agir sobre o meio envolvente; aprender a viver juntos, a fim de participar e cooperar com os outros em todas as atividades humanas; finalmente aprender a ser, via essencial que integra as três precedentes. É claro que estas quatro vias do saber constituem apenas uma, dado que existem entre elas múltiplos pontos de contato, de relacionamento e de permuta.
Aprender a conhecer
É adquirir os instrumentos da compreensão. É ter o prazer de compreender, de conhecer e de descobrir. Tem como objetivo o domínio dos próprios instrumentos do conhecimento, podendo estes ser considerados, simultaneamente, como um meio e como uma finalidade da vida humana. Aprender a conhecer supõe, antes de tudo, aprender a aprender, exercitando a atenção, a memória e o
pensamento; pois o processo de aprendizagem do conhecimento nunca está acabado, e pode enriquecer-se com qualquer experiência.
O aumento dos saberes, que permite compreender melhor o ambiente sob os seus diversos aspectos, favorece o despertar da curiosidade intelectual, estimula o sentido crítico e permite compreender o real, mediante a aquisição da autonomia na capacidade de discernir. (DELORS, 2012, p. 74)
Aprender a fazer
Associada ao “aprender a conhecer”, essa aprendizagem está mais ligada ao trabalho, à formação profissional. Então se questiona: “[…] como ensinar o aluno a pôr em prática os seus conhecimentos e, também, como adaptar a educação ao trabalho futuro quando não se pode prever qual será a sua evolução? ”. (DELORS, 2012, p. 76)
A rápida evolução das profissões pede que o indivíduo vá além da sua formação para ingressar no mercado de trabalho. Exige que esteja apto a enfrentar novas situações de emprego e a trabalhar em equipe, desenvolvendo espírito cooperativo e de humildade na reelaboração conceitual e nas trocas, valores necessários ao trabalho coletivo. Exige, ainda, que tenha iniciativa e intuição, um gosto pelo risco, saber comunicar-se, resolver conflitos e ser flexível.
Aprender a conviver
É participar e cooperar com os outros em todas as atividades humanas; o aprender a viver juntos ou aprender a conviver é um dos maiores desafios da educação. A educação tem por missão, por um lado, transmitir conhecimentos sobre a diversidade da espécie humana e, por outro lado, levar as pessoas a tomar consciência das semelhanças e da interdependência entre todos os seres humanos do planeta. Em um mundo globalizado, este é o aprendizado que valoriza quem aprende a viver com os outros, a compreendê-los, a desenvolver a percepção de interdependência, a administrar conflitos, a participar de projetos comuns, a ter prazer no esforço comum. “Quando se trabalha em conjunto sobre projetos motivadores e fora do habitual, as diferenças e até os conflitos interindividuais tendem a reduzir-se, chegando a desaparecer em alguns casos”. (DELORS, 2012, p. 80)
Aprender a ser
É a via essencial que integra as demais aprendizagens. O aprender a ser tem como princípio fundamental que a educação deve contribuir para o desenvolvimento total da pessoa. Portanto, aprender a ser é desenvolver sensibilidade, sentido ético e estético, responsabilidade pessoal, pensamento autônomo e crítico, imaginação, criatividade, iniciativa e crescimento integral da pessoa em relação à inteligência. A aprendizagem precisa ser integral, não negligenciando nenhuma das potencialidades de cada indivíduo. “A educação deve contribuir para o desenvolvimento total da pessoa – espírito e corpo, inteligência, sensibilidade, sentido estético, responsabilidade social, espiritualidade. ”. (DELORS, 2012, p. 81)
“Mais do que nunca a educação parece ter, como papel essencial, conferir a todos os seres humanos a liberdade de pensamento, o discernimento, os sentimentos e a imaginação de que necessitam para desenvolver os seus talentos e permanecerem, tanto quanto possível, donos do seu próprio destino”. (DELORS, 2012, p. 81)
Em nossas pesquisas, na busca de referências que abordassem as perspectivas da educação para o século XXI, encontramos Edgar Morin, em “Os sete saberes necessários à educação do futuro” e Paulo Freire, em “Pedagogia da Autonomia”, que entre divergências e convergências, também se debruçaram sobre o tema, refletindo e produzindo conhecimentos ou saberes necessários à superação dos obstáculos educacionais do presente. Não pretendemos aqui discutir, nem comparar suas concepções e teorias, apenas referendá-las para futuros estudos, a quem interessar possa.
Nesta breve exposição dos pilares da educação, embasada no relatório de Delors (2012), depreendemos que a concepção de conhecimento e as habilidades desejadas para um cidadão do século XXI são bem diferentes daquelas que eram valorizadas no passado. Um dos principais desafios é o de repensar os modelos de educação vigentes, de modo a prepará-los para os desafios e demandas desde novo panorama.