θ off du convertisseur utilisant les algorithmes PSO et GA
III.4.2 Optimisation par algorithmes génétiques GA
16. Fin Tant que
Um texto (falado ou escrito), de qualquer natureza, envolve, em suas formulações, todo um conjunto de características sociocognitivas do falante e do ouvinte. Para um analista, trata-se, como pondera Marcuschi (2007), de observar a língua em ligação com a atividade humana e sociocultural, pois é da integração entre os aspectos da mente e as fontes provedoras de informação que nasce o conhecimento dos interlocutores. Nessa perspectiva, a construção textual é um processo ativo que se concretiza na interação entre os interlocutores, e assim deve ser vista em suas análises (KOCH, 2008).
É no processo interativo que se concretiza a expressão linguística, e, no que interessa em particular a este estudo, a referenciação textual, mecanismo de coesão no qual a escolha (por parte do enunciador) dos elementos que irão compor a teia referencial está, em geral,
ligada aos propósitos do falante, assim como ao conhecimento de mundo creditado ao interlocutor. Dizem Lakoff e Johnson (2009) que as experiências e as informações trocadas na interação aumentam naturalmente o conhecimento dos indivíduos. Esse conhecimento adquirido no ato comunicacional fica armazenado na memória e é organizado em estruturas cognitivas (por exemplo, formam-se frames), que permitem um processamento rápido e funcional da informação então acondicionada na mente (VAN DIJK, 1999). Nas palavras de Fillmore (1982), essas informações representam um sistema de conceitos que se relacionam, cada um dos quais só será entendido se se entender toda a estrutura na qual ele se encaixa.
Embora neste trabalho não se vá entrar em discussões especificas sobre estruturas cognitivas, vale mostrar – por conta do tipo de córpus escolhido (texto infantil) para esta pesquisa, e, consequentemente, do leitor para o qual esse tipo textual é destinado (a criança) – que, como aponta Abreu (2010), no frame o indivíduo, a partir de uma referência que lhe é dada (por exemplo, um nome, um lugar, um jogo etc.), ativa em sua memória os elementos que complementam essa informação inicial, assim se construindo a cena. Nesse sentido, fica implicada a capacidade cognitiva que o indivíduo tem de categorizar o referente, o que lhe permite formar conceitos e organizá-los em uma grande rede de conhecimentos usados no processo de interação verbal.
Obviamente, como bem pondera Salomão (2009), a interpretação do referente depende do contexto de uso, já que as diferentes interpretações do referente têm relação com as diferentes perspectivas que se criam dentro de cada situação interativa, de acordo com o ponto de vista adotado pelos interlocutores, ou de acordo com aquilo que o falante deseja focalizar.
Nessa atividade interativa, o conhecimento de mundo será mais exigido quando se tem um referente “não homologado na superfície do texto”, cuja construção ou reconstrução ocorre, quase sempre, por meio de mecanismos inferenciais ancorados “no nível das estruturas e do funcionamento cognitivo, mas sempre guiados pelo sinal linguístico” (LIMA; FELTES, 2013, p. 31). O processo de recategorização é um fértil campo para a observação desse fenômeno, no entanto esse tipo de organização (no qual há um grande número de recategorizações) não é normalmente observado em textos destinados a crianças de 7 a 9 anos (faixa etária das crianças para as quais são destinados os textos aqui analisados). Crianças dessa faixa etária, em sua maioria, ainda não têm grande conhecimento de mundo e tampouco acervo linguístico para penetrar em determinadas construções textuais e interpretá-las. Por essa razão, ao escrever para esse público, o enunciador procura adequar a linguagem de forma tal que o receptor possa corresponder às diretrizes propostas no texto, e assim a interação (ainda que indiretamente) possa fluir.
Seguindo essa diretriz, Grolla (2005), em uma pesquisa realizada com crianças de 2 a 4 anos de idade, faz um apontamento que também pode dizer respeito às crianças da faixa etária analisada nesta pesquisa: quando o adulto introduz no texto (falado ou escrito) um referente novo, ou recategoriza um referente que já havia sido categorizado, ele oferece orientações explícitas às crianças para que possam compreender o enunciado. Essa motivação pode ser dada pelo autor/falante, por exemplo, por meio de pistas linguísticas e/ou não linguísticas que permitam ao leitor/ouvinte identificar os diferentes termos que estão sendo usados para um mesmo referente (CLARK, 1995), o que acontece tanto na linguagem oral quanto na linguagem escrita, embora seja mais comum na oralidade.
Na narrativa infantil composta pelo verbal e pelo imagético, as explicações, motivações ou pistas dadas pelo enunciador vêm na forma de diálogos, ou expressas nas ilustrações. No primeiro caso, há uma simulação da linguagem oral para a inserção da explicação, como neste exemplo retirado do texto Besouro e Prata:
Era uma vez um besouro que morava num jardim. Besouro comum, feioso, sem nada de mais. Vivia sossegado, comendo um brotinho aqui, bebendo um melzinho ali, levando pólen de uma flor para outra, ajudando a nascer a fruta (...)
Voou para dentro da luz. Quando entrou na sala, ficou tonto com o clarão e se escondeu num canto.
Ao lado, numa fresta, estava uma barata. Barata comum, suja, nojenta e transmitindo doença como toda barata. Só que metida a besta. Gostava de dizer que era de família ilustre, parente da tal Dona Baratinha de fita no cabelo e dinheiro na caixinha. Quando viu aquele inseto diferente, foi logo perguntando:
– Quem é você? – Besouro – disse ele.
Ela achou aquele bicho feioso sem nada de dourado. Não entendia como ele tinha ouro no nome. (MACHADO, 1999, p. 2-10)
Nesse caso – iniciando-se o texto exatamente com o “era uma vez” que traz à existência personagens, em contos de fada – o referente (personagem da trama) é introduzido pelo sintagma nominal um besouro (“Era uma vez um besouro que morava num jardim”), sendo esse núcleo nominal logo a seguir repetido, sem que, entretanto, o substantivo represente, propriamente, uma referenciação: conserva-se a informação já oferecida sobre o besouro (morar num jardim), mas ele apenas é destacado, no texto, para receber qualificações: Besouro comum, feioso, sem nada de mais, ou seja, o referente é caracterizado.
Seguindo-se a proposta de Grolla (2005) de que a recategorização só ocorre a partir de pistas fornecidas pelo falante, nota-se que, quando o referente é retomado, como na linha 10 do excerto, por um termo diferente (aquele inseto diferente) do que vinha sendo usado, surge
(como nas linhas 12 e 13) um diálogo que, trazendo explicitações sobre aquele inseto diferente, leva a identificar a quem se refere esse novo termo: Ao lado, numa fresta, estava uma barata (...). Quando viu aquele inseto diferente, foi logo perguntando:
– Quem é você? – Besouro – disse ele.
Esse diálogo possibilita, sem que novas pistas sejam inseridas, uma nova recategorização (linha 11) do termo besouro: “Ela achou aquele bicho feioso sem nada de dourado”. Aqui, embora ele volte a ser caracterizado como feioso, acrescenta-se uma descrição que vem novamente por meio de uma qualificação: sem nada de dourado. Lembre- se que, em textos infantis, obras que, na contemporaneidade, trazem verbal e imagético interligados, há pistas comumente fornecidas por meio das imagens, como neste exemplo do texto A arca de Noé, que, na verdade, traz tanto pistas verbais quanto pistas imagéticas:
Figura 01 – Páginas 13 e 14 do livro A arca de Noé Autora: Ruth Rocha (2004c)
Ilustrações de Cláudio Martins
Na página 13 é introduzido o referente uma chuvarada, que, por meio de pistas verbais, mais particularmente comparações referenciais, é especificado para o leitor: primeiro por uma comparação que o diferencia das chuvas que “caem agora” (“não era uma chuvarada dessas que caem agora”); e, depois, por uma comparação que o iguala não apenas a uma cachoeira (“era igualzinha a uma cachoeira caindo, caindo”), mas também ao Rio Amazonas (“Parecia o Rio Amazonas despencando”). Não se trata simplesmente de uma retomada anafórica, mas há um processo de correferenciação (KOCH; MARCUSCHI, 1998), e nele são introduzidos novos objetos de discurso que permitem ao leitor – que pode não saber o que significa, em todas as suas consequências, uma chuvarada – reconhecer a temática do texto.
Nas páginas 14 e 15 esse referente (uma chuvarada) vem recategorizado pelos termos aquela água e a tempestade, como se pode observar a seguir:
Figura 02 – Páginas 15 e 16 do livro A arca de Noé Autora: Ruth Rocha (2004c)
Ilustrações de Cláudio Martins
Nesse caso (tanto nas das páginas 13 e 14, quanto nas das páginas 15 e 16), as pistas para que se compreendam as recategorizações vêm nas imagens. Nas três primeiras páginas, além das pistas verbais, a disposição das imagens (que ilustram a grande quantidade de água que cai no cenário da trama) contribui para configurar o referente como uma chuva pesada e intensa (chuvarada). E isso leva ao referente aquela água, que retoma a chuva que se configurava na teia referencial. Na página 16, a imagem ilustra um cenário no qual a queda de água, que era em grande quantidade, cessa quase absolutamente, sugerindo a ideia de que, ao fim de uma tempestade (que já se configura como uma pesadíssima queda de água), podem restar apenas gotículas de água. Nesse caso, chuvarada é um objeto de referência, que pode ser correferenciado “segundo estratégias de configuração licenciadas pelo sistema da língua” (NEVES, 2007, p. 94).
Obviamente, as expressões usadas para introduzir e manter os objetos de discurso no enunciado têm relação direta com o contexto de uso e com os outros elementos linguísticos com os quais se interligam, pois, como bem lembra Marcuschi (2007, p. 70), com quem também se iniciou esta seção, “a língua é um sistema de indeterminações sintático-semânticas que se resolvem nas atividades dos interlocutores em situações “sociocomunicativas”. Isso quer dizer que a compreensão do enunciado virá em decorrência da perspectiva pessoal de cada indivíduo dentro do processo de interação verbal. No caso da criança no contato com o
livro infantil, as indeterminações da língua, bem como a compreensão da história, irão resolver-se, provavelmente, por intermédio de um adulto que contará a história, pela leitura e/ou por via do próprio imaginário infantil. Esse tipo de receptor ainda não tem amplo conhecimento de mundo, mas com certeza tem uma imaginação bastante fértil, e o autor dessa modalidade literária sabe disso, e, em geral, pensa nisso ao escrever.